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AZÁGUA


A sementeira era uma actividade presente na vida da população boka-portuense. Os mais-velhos e as mais-velhas acreditavam que havia de chover, dando milho em abundância para que o país não voltasse a padecer de fome. Sabiam como o país dependia do milho semeado. Por isso, aguardavam com ansiedade a vinda da chuva e alegravam-se quando ouviam notícias de terra molhada nos arredores da Serra de Malagueta.

Os mais-jovens e as mais-jovens (menos crentes!) não depositavam esperança na chuva, nem tinham memória dos tempos famintos vividos nas nossas ilhas. Pronto, havia o Dota com as suas estórias sobre a fome de ´47. O Dota contava que ele resistiu à fome por causa de três grãos de milho cozidos em cinza quente. As suas mãos até tremiam, quando ele relatava as suas memórias de (sobre)vivência.

BOKA-PORTU (registos quase-esquecidos)

(Coimbra, 7 de Novembro de 2007)

Hoje, acordei com uma sensação esquisita. Não sabia se eram os excessos de saudades, ou se eram apenas os efeitos das noites mal dormidas. Quando me levantei da caminha, sintonizei a RDP-África. O meu diário cor-de-rosa continuava aberto, na mesma página que deixei antes de adormecer. Estiquei o meu braço esquerdo e apanhei-o para (re)ler os registos sobre a minha infância-juventude na pequena aldeia onde nasci.

Apetecia-me reescrever algumas linhas sobre a Calheta da minha infância. Como devia recomeçar? Era uma vez... Assim, não me agradava! Pensando um pouco na forma como devia reescrever os registos do meu diário, acabei por decidir que o processo de reescrita seria mais elaborado se eu estivesse sentada na praça do Porto, com a cara virada para o mar. Comecei a rever as gentes, a sentir a brisa do mar, a dançar na areia... Lembrei-me de que...

Calheta ficou conhecida pelo seu Porto, registando as estórias dos barcos que passavam no alto mar e de alguns que se encalhavam na baía rasa. O mar fazia parte da vida das pessoas deste pequeno povoado. Até houve canções de homens aclamando para que a água do mar se transformasse em singuelu (desculpem o anacronismo!), com a intenção de se transformarem em peixes. Em vez de um copinho aqui e um copinho ali, os homens preferiam mergulhar no fundo do mar para verem sereias.

Ao registar estas linhas, lembrei-me da canção do Gil d’Jóia: “si agu-mar bira grogu, ma Gil d’Jóia ta bira pexi”. O nho Donda preferia as anedotas, os provérbios e os pensamentos marotos: “raxa, cosi; duspi, deta (!)”. Já o Biaricá não era para brincadeiras, atirava palavrões sempre que se atropelava na sua muleta. Ninguém esquece esse coxo que se conseguiu aguentar firme até aos 110 anos. Deve ter comido muita katchupa. Acho que sim!...

Na sua lancha e a remar, os pescadores iam ao mar. Sozinhos ou acompanhados, iam buscar peixes para o sustento da sua família. Muitas vezes, voltavam com a lancha vazia, mas não desistiam de ser pescadores. Consolavam as suas tristezas com um groguinho e partilhavam as suas angústias com os homens que desciam à boka-portu. Também não havia muitas alternativas. As alternativas mais palpáveis eram a agricultura e a pastorícia. Como chovia pouco, mesmo essas alternativas não eram bem vistas pelos pescadores. Un linguadu o un bidion animava qualquer pescador. Dava para fazer un caldu-pexi o da gostu na katchupa e a família confortava-se com o pouco que havia. Ás vezes, o facto de encontrar a isca para a próxima pesca era motivo para animar os pescadores. O Cabiote conhecia a vida-no-mar melhor do que ninguém. Ele sabia como era difícil voltar de mãos vazias, vendo a Nhambina a soprar o lume e não sabendo o que dizer para plantar um sorriso na cara da esposa...

Os pescadores conseguiam perceber o estado do tempo através do som das ondas. Então, quando pensavam que o tempo não ia ser bom, preferiam ficar em casa. Alguns iam ajudar a esposa na sementeira ou a resolver alguns problemas domésticos. Outros preferiam ir ao Porto para jogar conversa-fora.

No Porto morava a elite da época, voltada para o comércio. Então, os pescadores sentavam na praça à sombra das tamareiras, depois de beberem na loja do Sr. Olímpio ou do Sr. Vicente Luciano. No pelourinho, encontravam sempre algum bafiu. Falando no Porto, não podia deixar de referir ao sobrado do Sr. Velhinho. Este sobrado guardava muitos mistérios do Porto. Hoje, ninguém comenta, mas suponho que está assombrado! Nas minhas brincadeiras de infância, nunca tive a coragem de me esconder nos quartos escuros deste sobrado quase abandonado...

Quando havia temporal, seguido de chuva, se houvesse pescadores no alto mar, a população ficava preocupada. Não sei se sabem, mas na Calheta chuva era mesmo só no mar. Lembro-me do Cabiote a regressar do mar com a cara preocupada, anunciando que chovia no mar... Todos os anos, a população boka-portuense lamentava a falta de chuva: “boka-portu ka ta txobi”. Só de quando em vez, chovia para o desespero dos pescadores, que tinham de adiar a ida ao mar; também para a despesa das peixeiras, pois tinham que ir ao Tarafal ou à Santa Cruz comprar peixes para venderem. Os agricultores enchiam-se de esperança, embora se desiludissem com o tardar do regresso da chuva. Para as criancinhas, a vinda da chuva era uma maravilha: tomavam banho-de-chuva, aproveitando para jogar à apanhada e outros jogos. Quando o campo se cobria de verde, os miúdos/jovens pastores começavam a desfilar com o seu rebanho...

CLARA SPENCER


Clara Spencer acabou de regressar de Cabo Verde, após cinco meses de pesquisa empírica sobre o programa de luta contra a pobreza a nível comunitário (na ilha de São Nicolau). Esta temática tem ocupado o centro da atenção desta jovem investigadora cabo-verdiana, que se encontra a preparar a sua Dissertação de Mestrado em Sociologia, aqui na Universidade de Coimbra.

Hoje, fui lanchar na casa da Clarinha, que trouxe coisas da terra para adocicar a minha imaginação. Eu, a Clarinha, a Eloisa (de São Nicolau) e a Joana (de Santo Antão) passamos o final da tarde a jogar conversa fora sobre o nosso país. Com o cair da noite, fomos espreitar as fotografias que a Clarinha conseguiu sacar durante o seu trabalho etnográfico. Os gestos, o sorriso e a musicalidade, perceptível em cada fotografia, (re)desenhavam na minha face a terrível saudade e uma vontade enorme de regressar à casa.

Parece que os dias não passam. Tudo na minha frente mais não é do que uma neblina ardilosa. Esta cidade não é minha. Este lugar não me pertence. Conto os dias que me faltam para dormir na minha cama, mergulhar os meus pés na areia da minha ilha imaginada, ver o Porto da minha varanda, abraçar as minhas gentes, etc. São apenas as saudades, a eterna dor do povo das ilhas...

BOKA-PORTU


Aprendi a nadar na baia do Porto. Quando era pequena, fingia que era sereia. Gostava de subir à pedra-preta, mostrando apenas a minha metade humana. Desejava ter cauda para mergulhar no fundo do mar. O mar fazia parte das minhas fantasias!

Enquanto brincava de sereia, o meu mano Lindo (Monga para os amigos da bola) tentava aprender a pescar. Em Bosta Minhoto, ele quase descobriu o segredo dos pescadores: uma vez, capturou um “manelon”; outra vez, conseguiu enforcar um polvo.

O ponto auge da sua distinta carreira de menino-pescador, foi no dia em que esmagou uma moreia. Os anos passaram e a baia do Porto foi se tornando pequena demais para tantos sonhos. Fugi para terras distantes, procurando uma universidade de que costumava ouvir nas conversas do meu avô. E o meu mano desistiu da arte de pescar, procurando o futuro entre a Sociologia e o Direito.
...............
(Todas essas lembranças vieram-me à mente depois de esbarrar no Hi5 do meu mano, que me brindou com uma linda fotografia da baia do Porto. Mau fotógrafo! Se esse fotógrafo tivesse virado pelo menos 2cm à direita, eu contemplaria a casa caiada de branco, onde cresci.)

NEM AS LÁGRIMAS RESISTEM

Quando acordei, o sol do meio-dia já se fazia sentir. Sem sair do meu quarto, sintonizei a RDP-África e abri o meu computer. Para a minha alegria ou tristeza, um email de Rui Machado tinha invadido o meu esconderijo-ciber, trazendo uma encomenda enfeitiçada. Deliciei-me até a última gota da melodia. Não podia resistir às mornas, algo que nem as lágrimas resistem!

Pensando na diáspora da música cabo-verdiana, o projecto “Lisboa nos Cantares Cabo-verdianos”, coordenado por Rui Machado, aclama Lisboa como a capital da saudade, ou a capital da (décima) primeira ilha de Cabo Verde. Numa pesquisa instantânea sobre esse projecto, tropecei-me no mar...

De tantas saudades da baia de Achada Portinho, da praia da Batalha, de Bosta Minhoto e de Baxu-Ponta, não resiste-me a mergulhar com o B.Leza num Bejo de Sodade (“Onda sagrada di Tejo / Dixa’m bêjabo bô aga / Dixa’m dabu um bêjo / Um bêjo di mágua / Um bêjo di sodade / Pá bô lêvá mar / Pá mar lêvá nha terra” [...]).

“PASÁRGADA”

(quarta-feira, 15 de Agosto, 13h...)

A Andreia chegou ontem, lacrimejando as saudades de “A Terra de Vera Cruz” e partilhando a sua ainda curta vivência em Coimbra.

Passamos a noite toda a jogar conversa fora no msn com a Ana e o José, paulistas convictos. Quase nos apetecia aceitar o convite de Manuel Bandeira (Vou me embora pra Pasárgada) ou lamentar as saudades como o Osvaldo Alcântara (Itenerário de Pasárgada)... Com toda a minha rebeldia, preferi abraçar o Ovídio Martins (Antievasão) e afirmar categoricamente “não vou para Pasárgada [!]”.

15 DE AGOSTO

Acho que o título diz tudo... Não vale a pena dizer mais nada! Vou dormir. Já são 2:40mn. Estou com sono! Mas não estaria com tanto sonho, se estivesse lá... Lá na minha vila. Calheta, Calheta!

Desde o dia 8 de Agosto, que estou na contagem decrescente, imaginando a festa de Nossa Senhora do Socorro.

Neste momento, estaria no grande baile. Amanhã acordaria tarde, sem vontade de lambuzar na doçaria, arrependendo no dia seguinte. Vou dormir mesmo! Chega de imaginações férteis...

AGOSTO EM COIMBRA

No meu percurso diário, descendo e subindo pela calçada, mal escuto o vento assobiar.

Durante o dia, a cidade de Coimbra parece mergulhada numa eterna tranquilidade. Os sinais de trânsito deixaram de ter tanta utilidade.

Com o cair da noite, esta cidade adormece num silêncio sem fim, denunciando sobretudo a solidão dos bares e dos cafés. Não sei se há fado no Diligência, nem se há jantar no Casarão!...

Soube que, desde 1 d’Agosto, na minha vila piscatória, tem havido música boa na praça do Porto (rádio praça). Que saudade! A rouquidão da minha voz denunciava sempre uma noite ao relento, bebendo incansavelmente da brisa do mar... “Ah! Kaoberdi! Largau dja so si... ...” (usando a força poética de Káká Barboza).

8 DE AGOSTO EM PILÃO CÃO

8 de Agosto! Acabei de receber uma mensagem do meu amigo Arlindo sobre a festa em Pilão Cão.

Quase no mesmo instante, o caloirinho Tino disse-me que está muito atrasado para a referida festa, mas marcará a sua presença este ano no seu querido planalto.

Em Ponta Tadju, imagino o Anastácio com a cara esticada em direcção ao Pico de Antónia ou de queixo caído vislumbrando a ribeira de São Miguel... Suponho que o campo já se cobriu de verde.

INTERIOR DE SÃO MIGUEL

No ano passado em pleno mês de Julho, tirei dois lindos dias para revisitar o interior do meu concelho. Fui de bicicleta até à Ribeireta. Passei o dia todo nessa pequena ribeira. Almocei com a nha Nanda. Depois fiquei durante várias horas a conversar com o meu amigo Mike, perto das ruínas da capela de Santo António. Encostada numa mangueira (só de pensar nas mangas da Ribeireta, verdes ou maduras, fico com água na boca!), jogávamos conversa fora. As ruínas chamavam a minha atenção. Ruínas misteriosas!

Segui viagem, até chegar à Principal, ribeira dos meus sonhos!... Fiquei impressionada com a sua linda paisagem verdejante, protegida por rochas gigantescas, nunca dantes vistas pelos meus dois olhos. A Nasia Gomi nasceu nessa ribeira. Daí a força do seu batuque, capaz de sacudir as próprias rochas... Lembrei-me ainda da primeira missa. Sim, a primeira missa do padre Teodoro. Contam que a sua primeira missa foi na sua própria ribeira. Só me veio à mente a imagem do padre Teodoro, porque não percebo como jovens lindos de morrer decidem seguir Jesus. É pena, quase um desperdício!... No liceu, tive um professor lindíssimo e, há pouco tempo, soube que ele tinha entrado no rebanho de Jesus. Fiquei triste. Que remédio! Como sabemos, Jesus é um grande sedutor. Quem tem fé vai à Roma (!), segue-lhe com fidelidade. O padre Amaro é que se distraiu!...

Ontem ao escrever esse registo, pensando tanto em padres, acabei por sonhar com um cemitério. Essa palavra não devia existir em nenhum dicionário!... Sonhei com o cemitério da Casa Branca, cemitério antigo. Desci à ribeira, vi a antiga escola primária, onde a minha mãe dava aulas. Acho que não foi um sonho! Deve ter sido um reflexo do meu inconsciente. Quando era criança, com 3-5 anos, acompanhava a minha mãe nas suas andanças pelo interior da ilha, nas localidades onde ela trabalhava: São Miguel, Cutelo Gomes, Espinho Branco e Ribeira da Prata.

No regresso de Principal, passei por Manguinho de Seti Rubera. Sempre que penso em rios, lembro-me dessa baía. Um verdadeiro rio de água salgada, com sete entradas. Quem passa por Manguinho, nunca esquece a sua magia. Os mistérios dessa baía, nunca foram revelados na íntegra. Nem podiam ser revelados! Cada visitante conta a sua versão dos factos.

Em dois dias, percorri montes e vales à procura de sossego após dias de correria na cidade grande. Tudo o que eu mais precisava neste exacto momento!...

SONHEI COM FLAMENGOS

Flamengos, Flamengos!... O dia estava radiante. Passei o dia todo em Flamengos. Vi o milheiral mexendo ao som do vento. Vento fresco que controlava os meus passos pela encosta. Eu e o Francisco Lopes, fomos até à Casa Grande “Centro de Trapiches e Alambiques”. Ao contrário do que o nome indica, é um recinto pequeno, que guarda as marcas/manchas de um passado ainda recente e sempre presente no imaginário das pessoas desta pequena localidade à beirar-da-estrada.

Depois desci pela encosta cantarolando. Percebi algo de estranho! Quase senti um calafrio. Cheguei à ribeira com o cordel da minha sandália desapertada. Parecia que estava a caminhar em direcção a um espaço mítico. O sol já se tinha acalmado. Era perto das 16h... Sentei-me num penedo e o Francisco noutro. O Francisco observava com atenção a muralha de areia que estava à nossa frente. Ele apontou-me o dedo para um buraco. Levantamos e, para nosso espanto (!), vimos correr uma fila de água fina... Era sangue. Só percebi isso quando olhei para a cara entristecida do Francisco. O sangue que escorria ainda estava fresco e com o cheiro de suor.

A ribeira verdejante de outrora estava feita em grandes buracos, entrelaçados com as muralhas de areia. Estas escondiam a cara de mulheres e crianças, que as tinham erguidas. Reparei que as areias não tinham brilho nenhum e que a ribeira parecia coberta por uma manta de sangue escurecido. Lembrei-me do poema da Ana Paula Tavares, O Lago da Lua. Então, pensei que aquela manta de sangue podia ser o primeiro sangue das rapariguinhas lavadas na ribeira, quando havia sinal de águas cristalinas. Foi uma explicação que encontrei!...

 
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