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Sintra para Sonhar

Não encontro palavras em justas porções para descrever aquela quinta‑feira em Sintra. Os detalhes todos foram imaginados previamente. Desde a viagem de Comboio, na companhia da poesia em pessoa, até os temas de conversa na quinta. Tinha previsto passar dois dias em Sintra, mas sussurraram‑me ao ouvido que, durante o Outono, os dias e as noites são mais nostálgicos nessa vila historicamente conhecida pelo seu ambiente sublime. Por esse motivo, o regresso foi logo anunciado...

Chegámos à Sintra pela manhã, daquele dia encantado. O anfitrião esperava-nos amavelmente na estação. Para não quebrar a melodia da vila, tomámos um café ali perto, antes de seguirmos para a Fundação Eugénio Tavares, sediada na Quinta Verde Sintra, um cantinho singelo de promoção do turismo rural, com um clima favorável à entoação das mornas das ilhas.

O dia estava com vontade de chorar, mas tinha receio de desmontar o nosso passeio pelo jardim. Fizemos uma visita geral à quinta, aproveitando para registar cada espécie vegetal de Nova Sintra transplantada agora em Sintra. Não foram só as coloridas flores e as plantas, mas também os móveis, os azulejos e a harmonia, que cativaram a minha atenção. Gostei de cada pormenor, que realça a sensibilidade de um ilhéu em terras estrangeiras, trazendo a casa às costas como um caracol. Percorremos passo a passo, desde a recepção até os recantos mais escondidos da quinta. Os quartos, os apartamentos e os espaços comuns são agradáveis para quem pretende usufruir de dias sossegados longe das grandes cidades. Da quinta, contemplámos a magnífica vista da Serra de Sintra e agendamos uma visita ao centro histórico desta vila, considerado património mundial.

Vila Nova de Gaia

Desfilámos por vilas piscatórias do Grande Porto, observando a mansidão do mar. Depois seguimos para Vila Nova de Gaia. Numa dessas voltas, cruzámos com a Loja do Pescador (que me fez recordar de o Monumento do Pescador, algures em Caminha). Percorrendo a borda de Gaia, cheirámos o famoso vinho do Porto. Passámos pelo Cais de Gaia, área turística de belíssimas esplanadas, agradáveis restaurantes e simpáticos bares, na margem esquerda do rio Douro. Com as pernas fraquejadas, sentamos numa tasca típica da região para um almocito, tendo à frente a zona histórica do Porto, eleita património mundial.

Poucos segundos depois, apareceu na nossa mesa uma senhora poliglota. Respondia ao empregado transmontano, falava com o turista italiano da mesa oito, acudia a uma espanholita que queria saber onde fica não sei o quê, despedia do casal francófono, mandava sentar o britânico escaldado... Quando chegou na nossa mesa, entoei as minhas saudações na língua cabo-verdiana, variante de Santiago, pensando que ela ia desmanchar-se em incompreendismos. Muito pelo contrário! A dona de cara linda virou para mim e disse num sorrisso gargalhado: “a menina é cabo-verdiana! Olha que tive uma colega da Praia. Deve conhece-la! O nome dela é Fátima... Mas já só me lembro da palavra kretxeu e também da Cesária Évora.” Fartei‑me de rir com a animação da senhora tão expert no seu ofício como as rabidantes lá da minha terra...

No cambar da tarde, regressámos para Coimbra. Aproveitei para revestir a minha sacola extra e trocar acessórios na minha mochila. Depois segui sozinha para a segunda parte das minhas férias. Desta vez, para além de uma estadia prevista em Lisboa, tinha planos para uma escapadela até Sintra.

Caminha

Estando em Viana do Castelo, optamos por dar um saltinho até à vila da Caminha. Visitámos o Chafariz do Terreiro, a Torre do Relógio, a Igreja da Misericórdia, o Castelo de Caminha, a Igreja Matriz de Caminha e as Muralhas. Foi uma linda manhã, numa vila admirável! Do outro lado do atlântico, a bela Espanha apontava sinais da sua proximidade. Pena foi não termos ido à Vila Nova de Cerveira, ali ao lado!...

Viana do Castelo

Do longe, vimos o Templo de Santa Luzia, o nosso primeiro olhar do lugar. De olhos fechados fechadinhos, subimos até ao monte da santa. Ao colo da santuska, vislumbrei a magnífica paisagem que tinha aos meus pés: atrás de mim, a serra toda ela verdíssima; numa das laterais, o mar, embora não era parecido com o das minhas saudades; à minha frente, o rio Lima. Ao olhar a magnífica paisagem desse lugar, pensei num suspiro só: meu deus, como é possível uma cidade escondidinha contemplar os mistérios do mar, da serra e as águas do rio! Porque é que só agora descobri Viana do Castelo? Certeza apenas a de que desejo voltar...

Depois da visita à cidade, guardei três imagens na minha mochila: o Templo de Santa Luzia, pois não consegui afugentar os fragmentos de memória daquela ilha solitária lá no meu arquipélago, aquela entre as três que ainda não conheci; o Gil Eanes (misterioso barco que apareceu à minha frente depois de uma longa caminhada, respirando o cheiro fresco do mar e o odor das algas) com as lembranças daquele liceu mindelense nos anos idos do século XX cabo-verdiano; o Castelo de Santiago da Barra, plantado na margem do rio Lima, outrora com a função de defender a povoação.

Início da viagem... foi uma maravilha!

Este ano, com a chegada do «verão quente», aceitei o desafio de redescobrir bocados da terra lusa. Como adoro cidades históricas, sobretudo aquelas pacatas que quase ninguém dá por elas, foi com muita emoção que peguei na minha velha mochila de couro, metendo lá dentro um diário cor‑de‑rosa, um lápis afiado, uma máquina fotográfica digital, um livro de poesia com folhas soltas e uma caixinha de maquilhagem com um bâton de cor nenhuma e um pequeno espelho. Numa sacola extra, levei um protector solar, uma garrafa de água, uma escova azul para os dentes e uma outra para os cabelos, entre outras tralhas de mulheres... Saí de casa preparada para o grande sol que se previa: uma boina, uns óculos bué da giros, pernocas ao léu e uma blusa verdazul. Entrei na viagem.

A passagem mágica pela Ponte da Arrábida, que liga Porto e Vila Nova de Gaia, foi a primeira grande maravilha da viagem. O silêncio do rio Douro convidávamos para uma outra viagem, mas não caímos na tentação e seguimos o nosso percurso previamente delineado. Continuamos a flutuar pela auto-estrada com muita música, prosa e suspiros...

Vou de férias!!!

portugando de alto à baixo em oito dias:
Caminha. Viana do Castelo. Vila Nova de Gaia. Coimbra. Lisboa. Sintra.

Parabéns, Mandela!

É sempre emocionante ver as imagens e ouvir as palavras acerca de uma luta que ainda é necessária. No espectáculo multicultural de celebração dos seus noventa anitos, o ex-prisioneiro 46664 falou da liberdade e da paz, relembrando que está nas nossas mãos a possibilidade de um mundo melhor. É no dia 18 de Julho os anos do menino Nelson Mandela, mas a festa já começou: Fundação Nelson Mandela.

33º Aniversário da Independência de Cabo Verde


No país e na diáspora, várias actividades marcam este grande dia na vida do povo cabo-verdiano. Este ano, mais uma vez, a cidade de Coimbra não deixa esta data passar em branco. Desde o dia 21 de Junho, um conjunto de actividades culturais e debates têm sido levados a cabo pela Associação de Estudantes Cabo-verdian@s em Coimbra e pela Saúde em Português. Procurando chamar à atenção para a situação das mulheres nas ilhas, no dia 30 de Junho, foi realizado uma mesa redonda sobre o significado da independência para as mulheres cabo‑verdianas, destacando a discriminação feminina em diferentes áreas (enfatizando a medida de suspensão temporária das alunas grávidas nos estabelecimentos de ensino secundário).


Mesa Redonda: Mulher Cabo-verdiana Contemporânea

Roselma Évora
Raúl Fernandes
Clara Spencer
Odair Varela
Katia Cardoso
Carlos Elias Barbosa
Eurídice Monteiro



Ainda no âmbito da comemoração da independência nacional, no dia 7 de Julho, está previsto a participação do Primeiro Ministro José Maria Neves nas festividades nesta cidade universitária.

a caminho de Lisboa…

Congresso de Sociologia,
na Universidade Nova de Lisboa.

Congresso Feminista 2008,
na Fundação Calouste Gulbenkian e na Faculdade de Belas-Artes.
Organizado pela UMAR,
alargada a uma vasta Comissão Promotora.
Uma iniciativa de âmbito internacional.

Feira do Livro de Lisboa: Cabo Verde País Convidado

A 78ª Feira do Livro de Lisboa, no Parque Eduardo VII, começou no dia 24 de Maio e vai até o dia 15 de Junho, tendo Cabo Verde como país convidado. Para representar o país, com o apoio da nossa embaixada, tem sido desenvolvido um conjunto de actividades, englobando diversas áreas (ciência, música, literatura e gastronomia) e contando com a presença de convidad@s especiais vind@s do país e residentes aqui em Portugal. Quanto à literatura cabo-verdiana, com séculos de existência, sinto um nó na barriga quando penso na sua fraca divulgação além fronteira. Tenho uma enorme inveja da literatura angolana e da literatura moçambicana, que, cada vez mais, têm sido divulgadas pelo mundo. Porque é que tão pouc@s escritor@s cabo-verdian@s conseguem publicar fora do espaço nacional? Acho que chegamos a uma fase em que, deixando de lado os nossos bairrismos e coscuvilhices internas, devemos lutar para projectar a nossa literatura como ela realmente merece.

Na minha primeira visita à Feira do Livro, fiquei boca aberta com tamanha assistência, acima de tudo com a capacidade de resistência das pessoas que compareceram para ouvir os quatro oradores a dissecarem sobre a música cabo-verdiana. A conferência estava marcada para 6:30mn, tendo começado com um ligeiro atraso, à cabo-verdiana. Ainda perto das 22:30mn, a assistência mantinha composta no auditório principal. Desconfio que o que prendia as pessoas naquele auditório era o cheirinho da katxupa, que estava pronta para ser servida. Terminada a sessão, serviram a tão esperada katxupa feita com produtos da terra. Depois chegou a hora para um pé de dança, uma coladeira improvisada. Um jovem mexicano perguntou-me como é que ele devia mexer os seus pezinhos. Fiz de conta que sou uma expert no assunto e lá fui eu ajudar o mexicano que já tinha comido a katxupa, bebido o grogue, comprado um livro e apenas esperava para dançar uma coladeira. Bom, suponho que fiquei bem na fita, até houve palminhas...


Revista Direito e Cidadania

O meu regresso à Feira do Livro foi para a apresentação da Edição Especial da Revista Direito e Cidadania. Num auditório bem composto, o jurista Jorge Carlos Fonseca (Director da Revista e Presidente do Instituto Superior de Ciências Jurídicas e Sociais [ISCJS, Cabo Verde]) deu o pontapé de saída, fazendo uma breve apresentação da conhecida revista e agradecendo pela maravilhosa e notável assistência. Passou a bola para mim, que, entusiasmada perante a assistência, tentei dar a minha contribuição a partir do campo político, avançando para o meio campo feminino. A seguir foi a vez do economista João Estêvão, que fez uma passagem rápida pela economia cabo-verdiana, no pós-independência. E, seguidamente, a psicóloga Iolanda Évora rematou para a baliza da diáspora. No final da apresentação, a assistência mostrou-se satisfeita com a possibilidade de ter pelas mãos 19 estudos/depoimentos sobre o pós-independência cabo-verdiano, abarcando o Estado de direito e a democracia, a economia, a cultura, a educação, a saúde, a justiça e a diáspora.

Barack Obama

Barack Obama acabou de conquistar a sua nomeação como candidato democrata para as próximas eleições presidências norte-americanas. Como escrevi no passado dia 5 de Fevereiro, “enquanto uma mulher negra, com um interesse especial pelas questões políticas e, em particular, pela participação política feminina (…), se tivesse o direito de voto nas primárias democratas, o meu voto seria nulo, porque não seria capaz de votar contra a Hillary e nem seria capaz de votar contar o emocionante apelo de Barack Obama”.

Por um lado, foi com uma enorme tristeza que acompanhei minuto a minuto a fragilização da possibilidade da Hillary vencer essas primárias. A derrota da Hillary merece uma análise que extravasa o estrito campo de poder político e o contexto norte-americano. Trata-se de uma questão que merece uma análise a nível global e em diferentes sectores. A actuação da Hillary e do movimento das mulheres também merecem ser analisadas. Talvez no Women's World 2008!

Por outro lado, sinto uma profunda emoção com a revitalização de uma luta histórica. Não posso deixar de felicitar o Obama, por acreditar num sonho. Sim, hoje, também o sonho de que um outro mundo é possível parece mais palpável com esta nomeação do Obama. Trata-se de uma vitória mais do que merecida, uma vitória necessária. Vale a pena acreditar! E agora é a hora de iniciarmos uma correnteza firme a favor da eleição do Obama e contra o racismo ainda presente nas nossas sociedades (vejam a análise do Noam Chomsky).

I have a dream”!...

São Vicente

A ilha estava muito movimentada, com a máquina da campanha a fazer sentir nas ruas da cidade. Nos primeiros dias da minha estadia, havia um sol sedutor dos mergulhos. Já na recta final, a ventania quebrava o sossego da praça.

Apesar da ventania dos últimos dias, trouxe boas recordações da ilha. Para começar, passei o primeiro de Maio com a Eileen, uma boa prosadora. Foi um dia para mais tarde recordar. Gostei de descobrir que a Eileen preocupa com o ambiente, tendo uma postura ecológica. Entre tantos outros gestos a favor do nosso planeta, a Eileen reutiliza a água e usa energia eléctrica de forma racional. Também gostei dos passeios pela cidade, a sensação de sentir a pulsação da cidade... No final do dia, um “café margoso” com o João Branco, acompanhando as risadas e os delírios no cambar da noite.

No Café Mindelo, a Roselma apresentou-me o Olavo, que me levou ao antigo Liceu Gil Eanes para dialogar com a malta dos anos trinta. Depois da pesquisa diária, reencontrar com o Olavo e com a poesia tornou-se num hábito delicioso. Também adorei os passeios pela cidade na companhia da Irina Camões e do Artur Jorge... Assim, fiquei a conhecer um pouco melhor a encantadora cidade do Mindelo.

Santo Antão

Com a minha mochila às costas, apanhei um barco para a ilha das montanhas. Nessa viagem, que demorou quase nada, coloquei-me na pele das “Lobas do Mar”. Sentia os meus pés a caminharem em cima das águas salgadas, em perfeita sintonia com os seres do mar. Quando cheguei à cidade do Porto Novo, o sol do meio‑dia ainda não se fazia sentir.

Segui viagem para a vila da Ribeira Grande. Aproveitei para conhecer a Ribeira da Torre, vale da minha colega Elia Monteiro. Fui visitar o cutelo do Paulino Dias, caminhando assim pelo vale e pelas encostas até Fajã Domingas Bentas. A teimosia me levou a calcorrear pela montanha, passando pelo Marrador em direcção ao quase topo da montanha. Bom, no fim da viagem, o mano do Paulino Dias disse‑me: “mais duas vezes, habilitas a ganhar qualquer maratona lá na Praia”.

Na manhã seguinte, segui para o vale do Paul. Nho João de Mari’Guida mostrou-me a fornadja, onde a cana‑de‑açúcar é transformada no conhecido Grogue de Santo Antão. Avistei Pedra das Moças, mas já não tinha pernas para desafiar o declive.

Dias depois, regressei para o Porto Novo. Mesmo com um sol de rachar pedras, não resisti a percorrer pelo centro da cidade. Depois de ter completado o meu plano de trabalho e de ter saciado as minhas curiosidades turísticas, seguir para a ilha do Porto Grande. Dessa vez, o mar portou-se mal, muito mal. A ventania e os valentes solavancos estiveram presentes durante toda a viagem.

Campanhas Eleitorais

Em Cabo Verde, os períodos eleitorais são marcados por muita festa, envolvendo a tensão que acompanha os actos eleitorais. Apesar de alguns indicadores que pouco dignificam a qualidade da democracia nas ilhas e de alguns incidentes aqui e acolá, não é nunca demais realçar o “bom comportamento” dos sujeitos políticos e do povo, nomeadamente durante os dias quentes das campanhas eleitorais. Quem está fora do jogo político, vive os períodos eleitorais com maior descontracção e aproveita para melhorar o seu stock de risadas. No meu caso, para além da recolha empírica, aproveito os períodos eleitorais para visitar as ilhas e conhecer outras gentes. Nestas eleições autárquicas, embora por pouco tempo, tive a oportunidade de visitar as ilhas de Santo Antão, São Vicente e Santiago. Aproveitei para saudar @s velh@s amig@s e fazer nov@s amig@s.


Frase do dia... da semana ... do ano... do século...

«Os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente e pela mesma razão.» - Eça de Queiroz.

Aimé Cesaire

Ainda ontem, eu e o Fabrice, falávamos sobre Aimé Cesaire. Este poeta e político da Martinica foi um dos fundadores do movimento da negritude, surgido, na década de trinta, entre os estudantes negros que se encontravam a frequentar o ensino superior em Paris.

É de realçar que, antes, mais precisamente no ano de 1932, tinha sido apresentada, por um grupo de estudantes da Martinica em Paris, o manifesto Légitime Défense, que propunha uma ideologia de revolta e formulava uma orientação precisa para os escritores negros de “expressão francesa”. O movimento da negritude – impulsionado sobretudo por Aimé Césaire e pelos senegalenses Léopold Sédar Senghor e Alioune Diop – reclamava a necessidade e o dever de @s intelectuais african@s afirmarem e defenderem a sua cultura. Nessa altura, diversas manifestações já tinham ocorrido no sentido da afirmação da cultura negra, com o objectivo de a libertar da categoria de subproduto a que a cultura ocidental a havia relegado. Por essa altura, também tinha surgido um verdadeiro movimento para a revelação dos valores humanos, sociais, literários e artísticos d@s negr@s.

Aimé Cesaire nasceu a 26 de Junho de 1913. Aos 18 anos, deslocou para Paris, com a finalidade de prosseguir os seus estudos. Aos 26 anos de idade, regressou ao seu país natal para dar aulas. Aimé Cesaire, que já estava em cima dos seus 94 anos de idade, encontrava-se hospitalizado devido a problemas cardíacos. Nesta quinta-feira, 17 de Abril, infelizmente, não resistiu a mais um solavanco da vida... Na sua obra, não posso deixar de destacar Cahier d'un Retour au Pays Natal (Poesia, publicada 1939) e Discours sur le Colonialisme (Ensaio, publicado em 1955).

Vadinho, o poeta de boka-portu

Cresci na baía do porto a ouvir rumores sobre um poeta nascido no sobrado rodriguenho. Entre as minhas fantasias infanto-juvenis e as minhas viagens pelo silêncio da noite, extasiava-me o facto de ter um poeta na minha pacata aldeia à beira-mar.

Por isso, foi com tamanha emoção que tomei conhecimento do lançamento, nesta quinta-feira, 17 de Abril, pelas 18:15mn, no restaurante-bar O Poeta, do quinto livro de Vadinho Velhinho, intitulado Tenho o Infinito Trancado em Casa. A apresentação estará a cargo de José Maria Neves e de Jorge Carlos Fonseca. Este poeta que partilha com o grande público o infinito, também é autor de O Túmulo da Fénix (2003), No Ponto de Rebuçados (2001), Adeus Loucura, Adeus (1997) e Relâmpagos em Terra (1995).

Pensando na recuperação do poeta de uma maldita febre que o abalou nos últimos dias e desejando para que logo mais se reencontre com o seu humor afinado, deixo aqui o rascunho de um poema que rabisquei, depois de ter lido Relâmpagos em Terra, especialmente para este meu poeta de boka-portu. Juntamente com os versos, reencaminho um forte abraço da família boka-portuense para o menino Vadinho e para a sua família na cidade grande.


desejo uma noite insone


rodeada pela baia nua,
espreitada pelas estrelas,
acariciada pela lua...

uma noite de insónia
é o meu desejo:
............para acomodar as ondas da baia
............e escutar o silêncio em cortejo.

a areia negra da baia
projecta o menino no sobrado rodriguenho,
poetizando a imensidão do mar, com euforia.

da varanda
receio ausentar,
pois a mamai velha, mesmo dormida,
exalta a ressonar.

Eurídice

Odai Grandi


Parabéns, nha manu di Coimbra!

Odair, queria estar por perto para te parabenizar pelos teus anos. Como o mar nos separa, daqui desta cidade adormecida, mando-te um grande abraço e desejo-te um pacote de coisas boas: saúde, sossego, cordialidade, sorrisos, fantasias, música, poesia e amor. E ainda a continuação de uma boa pesquisa empírica (!)...

...a problemática do acesso à água potável

Afroinsularidade


Deixaram nas ilhas um legado
de híbridas palavras e tétricas plantações

engenhos enferrujados proas sem alento
nomes sonoros aristocráticos
e a lenda de um naufrágio nas Sete Pedras

Aqui aportaram vindos do Norte
por mandato ou acaso ao serviço do seu rei:
navegadores e piratas
negreiros ladrões contrabandistas
simples homens
rebeldes proscritos também
e infantes judeus
tão tenros que feneceram
como espigas queimadas

Nas naus trouxeram
bússolas quinquilharias sementes
plantas experimentais amarguras atrozes
um padrão de pedra pálido como o trigo
e outras cargas sem sonhos nem raízes
porque toda a ilha era um porto e uma estrada
sem regresso
todas as mãos eram negras forquilhas e enxadas

E nas roças ficaram pegadas vivas
como cicatrizes, cada cafeeiro respira agora um
escravo morto.

E nas ilhas ficaram
incisivas arrogantes estátuas nas esquinas
cento e tal igrejas e capelas
para mil quilómetros quadrados
e o insurrecto sincretismo dos paços natalícios.
E ficou a cadência palaciana da ússua
o aroma do alho e do zêtê d'óchi
no tempi e na ubaga téla
e no calulu o louro misturado ao óleo de palma
e o perfume do alecrim
e do mlajincon nos quintais dos luchans

E aos relógios insulares se fundiram
os espectros, ferramentas do império
numa estrutura de ambíguas claridades
e seculares condimentos
santos padroeiros e fortalezas derrubadas
vinhos baratos e auroras partilhadas

Às vezes penso em suas lívidas ossadas
Seus cabelos podres na orla do mar
aqui, neste fragmento de África
onde, virado para Sul,
um verbo amanhece alto
como uma dolorosa bandeira.

Conceição Lima (São Tomé e Príncipe)

treze contos em duas noites

Waldir Araújo, quando te conheci, aqui neste espaço que denominaste por “mar de desabafos”, percebi pelas tuas primeiras palavras a poesia que existe na tua alma. Ao procurar saber mais sobre ti, através do Rio Geba, descobri a tua música poética, embrulhada em estórias da tua Guiné-Bissau. Desde o primeiro momento, fiquei fascinada pela simplicidade dos teus gestos e das tuas palavras.

Ao marinar no teu livro, Admirável, sucumbi e fui devorada pelos treze contos em duas noites. Apetecia-me dizer sim que os teus contos são “esteiras suaves e boas de adormecer, onde a verdade das coisas nos atrai por não ser tão real quanto a verdade do que foi escrito porque foi sonhado” (usando as palavras ditas pelo Ondjaki no prefácio).

Esta semana, andei atarantada atrás do carteiro, que tardou a chegar. Pensei no Mimito Adão, “o escritor ambulante”. Talvez fosse a pessoa mais indicada para me ajudar a escrever meia dúzia de linhas sobre os teus contos, mas suponho que Mimito Adão anda mais é fascinado com os beijos na boca da Mina Sandi. Enquanto esperava sofregamente pela chegada de uma mensagem das Tágides, imaginava as andanças do Admirável Diamante Bruto, as discussões das mulheres da ilha de Etionkó, a nova vida do Carlos Nhambréne, o sorriso do pobre pai natal, as mortíferas flores do Rachid Ismael, o desgosto da Sara... Porém, faltam-me ainda palavras para te transmitir o meu tamanho deleite ao beber desta tua primeira poção mágica. Antes de terminar esta minha pequena nota, deixo cair uma migalhinha do conto que mais gostei:


O dia do amor-próprio

“(...) Naquela reunião de mulheres, as verdadeiras chefes desta ilha de Etionkó, no arquipélago dos Bijagós, discutia-se a atitude de Ernesto Nanqui, que foi encontrado, alcoolizado, a tentar mutilar o seu pénis como protesto pelo desprezo a que a sua mulher o tinha votado nos últimos tempos (...).”

...…………………………

Apresentação em Lisboa

Nesta sexta-feira, 14 de Março, pelas 18:30mn, na Casa Fernando Pessoa, será apresentado em Lisboa o primeiro livro do jornalista e escritor Waldir Araújo, intitulado Admirável Diamante Bruto e Outros Contos, sendo que a apresentação estará a cargo do jornalista e poeta Toni Tcheka. A primeira apresentação pública deste livro decorreu no dia 12 de Fevereiro, na Póvoa do Varzim, no âmbito das Correntes d’Escrita.

 
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