MADRUGADA ADORMECIDA

Noite escura
Ondas mansas cantando
Respirando brisa de secura
E a terra escutando

O silêncio da noite silenciosa
De magia amarga
Na varanda ansiosa
Com melodia naufraga

Depois o galo cantou
Anunciando a madrugada
No quintal da vizinha um fumo soltou
E a outra foi à lenha agasalhada

Na madrugada ainda adormecida
O pescador foi ao mar
Com a lua escondida
Atrás da montanha, sem pomar

Eurídice

ÁGUA COM SABOR DE TERRA

(segunda-feira, dia 9 de Julho, 19h...)


Cheguei há pouco tempo ao meu esconderijo de sempre. Coloquei a minha mochila num cantinho e fui à cozinha. Abri a torneira, durante breves segundos, caíram pequenas gotas de água estremecidas. Não me surpreendiam! Supunha do que se tratava. Fui ao contador d’água, onde encontrei, numa folha com o logótipo de Águas de Coimbra, a seguinte nota (intitulada Informação de Corte): “Informamos que nesta data procedemos ao corte de fornecimento de água às suas instalações por não ter sido efectuado, nos prazos estabelecidos, o pagamento da(s) factura(s) de água.” Poxa! Foi essa a minha reacção.

Lembrei-me de que, na cidade da Praia, muitas famílias acumulam facturas de água durante alguns meses, fintando a Electra, S.A.R.L., Empresa de Electricidade e Água. Outros até arranjam estratégias para consumirem água e/ou energia eléctrica de borla (!). Qualquer família cabo-verdiana pode usufruir na sua residência (melhor no seu pardieiro) dos serviços de fornecimento de água e de energia eléctrica. Mas tão poucas podem pagar mensalmente as despesas de consumo desses serviços, sobretudo nos bairros periféricos...

Pensando no meu drama, aqui nesta cidade distante, cheguei à terrível conclusão de que, se não pagar os míseros (?) euros de consumo e a tarifa de interrupção/restabelecimento, o fornecimento não será restabelecido... Chega de lamentações! Sei que não adianta. Amanhã tenho de pegar na minha caderneta verde e dar-um-giro até à Loja do Cidadão. Ainda tenho uns trocos na Caixa Geral de Depósitos. Estavam destinados para cobrir as despesas da encadernação de um trabalho académico que estou a realizar... Mas pronto!

Liguei a RDP-África. Música cabo-verdiana no ar! No programa “Língua de Todos” (um programa sobre português em África), o Arménio Vieira estava a falar sobre a convivência entre o português e o crioulo, em Cabo Verde. Este poeta cabo-verdiano, nasceu na cidade da Praia, em ’41. Foi elemento activo da geração de sessenta, um dos fundadores da Sèló: Folha dos Novíssimos. Tem colaboração dispersa em várias publicações, estando incluído em diversas colectâneas... O poema Toti Cadabra devolveu o meu sorriso alegre! Pouco depois, ouvi o Tito Paris cantar Dança ma mi kriola. O título desta música em francês também soa bem: Danse avec moi petite créole... Realmente o meu país não me oferece flores (mais uma vez, o problema da água serpenteia a minha memória), mas brotou a poesia e a música para acalmarem a minha angústia.

Confesso que li poucos poemas do Arménio Vieira. Conheço melhor os claridosos e a geração da independência, mas também gosto dos escritores contemporâneos (Germano Almeida, Vera Duarte, José Luís Hopffer Almada, José Luís Tavares, Dina Salústio, etc.). Como fiquei encantada com o Arménio (pelo menos, com a voz que ouvi através da RDP-África), vou comprar No Inferno, romance do autor publicado pela Editorial Caminho. No dia 26 de Junho, ele esteve na Casa Fernando Pessoa para o lançamento do seu livro Mitografias, que ainda se encontra preso na alfândega de Lisboa, por não possuir um código de barra.

Quem esteve no mês de Junho também na Casa Fernando Pessoa foi o José Eduardo Agualusa para o lançamento de As Mulheres do Meu Pai, terminando numa festa grande. Bem sei! Vi as fotos na Internet. Desde 2005, eu e um amigo meu moçambicano temos combinado uma viagem de Moçambique à Angola. Ao ler o livro do Agualusa, fui penetrando nas entrelinhas e deliciando a tesão sobre as rodas de um jipe (em vez de uma Malembelembe). André, o nosso combinado mantém-se mais firme do que nunca!

Pensando na literatura e em angolanos, lembrei-me de O Livro dos Rios, de Luandino Vieira. Como podia esquecer, se o livro está com a cara virada para mim... Gosto de literatura africana! Neste momento, estou a ler Campo de Trânsito, do moçambicano João Paulo Borges Coelho, que comprei com 10% de descontos na Coimbra Editora. Tinha 5€ e cerca de 8€ no meu cartão-multibanco. Encarei a jovem no balcão e perguntei:
- Posso pagar 5€ em dinheiro e o resto com o cartão? (Eu sabia que era possível usar esse estratagema. Pois já o tinha usado noutras situações).
- Não! Não é possível.
- Acho que é...

A jovem perguntou à sua colega, que se apressou para me socorrer, depois de ter passado uns bons 15mn à procura do livro acabadinho de chegar da Editorial Caminho. Foi o livro que escolhi como a minha prenda de 5 de Julho. Coloquei na minha cabeça que, pelo menos enquanto for estudante, não passarei o aniversário da independência de Cabo Verde sem um livro novo. Este ano optei pela literatura moçambicana. Escolhi uma obra do João Paulo (nome da minha primeira paixão frustrada, em Coimbra), porque ele tinha uma conferência marcada no Centro de Estudos Sociais. Gostei da conferência! Aproveitei para autografar a obra: “...com a estima do João Paulo. Coimbra 5 de Julho.”

Comecei a ler o livro ontem a noite. Estou na página 25. Pensei no Mungau e senti uma sede fina das águas cristalinas das antigas ribeiras, que corriam em Cabo Verde... Ainda bem que, antes de começar a escrever esse pequeno registo diário, fui, ao Pingo Doce, comprar um garrafão de água!... A água para o povo cabo-verdiano não é apenas água. É água (!), com o sabor de terra.

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Reflexão
Enquanto o acesso à água não for considerada um dos direitos humanos, essencial para a sobrevivência humana, episódios como o que acabei de relatar (onde nem tudo é ficção) levam-me a reflectir sobre as desigualdades cada vez mais gritantes neste mundo em que vivemos. Levam-me a pensar nas tantas crianças e mulheres africanas que saem bem cedo, percorrendo km’s, à busca d’água; penso também no custo elevado para o seu acesso, sobretudo nos bairros mais degradados e ainda na qualidade de vida de muitas famílias que utilizam d’água sem o mínimo tratamento, o que contribui para o aumento das doenças consideradas típicas dos países descartáveis (como parecem ser considerados).

SONHEI COM FLAMENGOS

Flamengos, Flamengos!... O dia estava radiante. Passei o dia todo em Flamengos. Vi o milheiral mexendo ao som do vento. Vento fresco que controlava os meus passos pela encosta. Eu e o Francisco Lopes, fomos até à Casa Grande “Centro de Trapiches e Alambiques”. Ao contrário do que o nome indica, é um recinto pequeno, que guarda as marcas/manchas de um passado ainda recente e sempre presente no imaginário das pessoas desta pequena localidade à beirar-da-estrada.

Depois desci pela encosta cantarolando. Percebi algo de estranho! Quase senti um calafrio. Cheguei à ribeira com o cordel da minha sandália desapertada. Parecia que estava a caminhar em direcção a um espaço mítico. O sol já se tinha acalmado. Era perto das 16h... Sentei-me num penedo e o Francisco noutro. O Francisco observava com atenção a muralha de areia que estava à nossa frente. Ele apontou-me o dedo para um buraco. Levantamos e, para nosso espanto (!), vimos correr uma fila de água fina... Era sangue. Só percebi isso quando olhei para a cara entristecida do Francisco. O sangue que escorria ainda estava fresco e com o cheiro de suor.

A ribeira verdejante de outrora estava feita em grandes buracos, entrelaçados com as muralhas de areia. Estas escondiam a cara de mulheres e crianças, que as tinham erguidas. Reparei que as areias não tinham brilho nenhum e que a ribeira parecia coberta por uma manta de sangue escurecido. Lembrei-me do poema da Ana Paula Tavares, O Lago da Lua. Então, pensei que aquela manta de sangue podia ser o primeiro sangue das rapariguinhas lavadas na ribeira, quando havia sinal de águas cristalinas. Foi uma explicação que encontrei!...

ILHAS COM MULHERES

Dez grãozinhos de areia dispersos no mar
Unidos pela mesma raiz
Firme da terra ao mar
Regada com o suor e o sangue da antiga cicatriz

O milho semeado brotou esperança
Ergueu-se a flor da nação
Caminhando com perseverança
E traçando rumos além da imaginação

As montanhas ecoam:
--------As minhas ilhas têm mulheres!
Os pardais assobiam:
--------As minhas ilhas têm mulheres!

Escutando o galo cantar
A madrugada anuncia o acordar das mulheres
Percorrendo vales e a lenha catar
Descendo às ribeiras para buscar água, sem dissabores

Embalando no cântico da Cesária
As ondas acompanham o hino das mulheres
Tecendo na trapacearia
O cais sem desembargadores

Recordando Chiquinho
O mar anima as mulheres
Tirando o atum do barquinho
E despachando para outros labores

Vivendo num profundo silêncio
A paisagem natural convida as mulheres
Idealizando um espaço de ócio
E temendo a chegada de eventuais povoadores

Vendo a neve e as montanhas salgadas
O sol enche de doçura as mulheres
Labutando cansadas
Mas espalhando morabeza nas ilhas e arredores

Acalentando com as cordas do violino
O cheirinho da terra acomoda as mulheres
Amassando o barro
E preparando licores

Animando com o nascer do sol
As brisas do mar envolvem as mulheres
Tratando do amarelo do girassol
E cortando peixes para aproveitar as ondas solares

Sacudindo com a força do batuque
As rochas encorajam as mulheres
Caminhando de enxada ao ombro pelo alambique
E voltando para vender peixes trazidos pelos pescadores

Temperando com o calor do vulkon
As lavas aquecem as mulheres
Enchendo o cesto de uva para a produção do Manekon
E do café inventando novos sabores

Contentando com o orvalho da manha
As flores alegram a vida das mulheres
Enchendo toalhas de arco-íris de linha
E recitando as mornas de Eugénio Tavares

De Santo Antão à Brava:
As minhas ilhas têm mulheres!

Eurídice

NÃO CHORA MAMÃI

Com um raio de sol na minha cara
Acordo sem o cheiro do teu café torrado
--------E kuskus di midju-tera
Contento-me com um pão tostado

Ando pelas ruas sem pedregais
Deparo com árvores que não são acácias
Escuto pássaros que não são pardais
Falo com gentes sem carícias

Nesta cidade distante
Não há vendedeiras ambulantes
Tudo é diferente
E abundam os espaços verdejantes

Percorro um jardim com água correndo e saltando
--------Sem encantadas cantadeiras
Com uma nascente brotando
--------Como nas nossas antigas ribeiras

Caminho pela calçada
Passo numa praça
Cansada
Colho flores de esperança

Descendo sossegada
Com a minha sandália de cabedal
Passo por um mercado onde as peixeiras vendem dobrada
Sem avental

As minhas pernas transpiram
A minha boca sente sede
O meu corpo todo e a minha alma suspiram
Mas a água sem o sabor de terra não sacia a minha sede

O sol deste Domingo está tão seco como o nosso
Quente e enfadonho
Para me refrescar lambo um glace delicioso
E sossegada vejo o Mondego como a baia do Porto

Eurídice

 
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