BUGANVÍLIAS

Acordei a pensar nas Buganvílias, num jardim invadido pelas buganvílias. Abracei o poema da Vera Duarte sobre as “Buganvílias Lilazes”. Procurei O Sangue da Buganvília da Ana Paula Tavares, mas não encontrei. Pesquisei imagens no gogle e roubei uma para brindar os/as visitantes deste “blogville”.



Faz hoje dois meses de dissecações, de partilhas e de emoções neste esconderijo poético para uns e académico para outros... Pelos emails que tenho vindo a receber, o post sobre “Boka-Portu” e o pequeno poema “A Dor das Raízes” foram os que mais agradaram os/as cibermergulhadores/as. Agradeço a tod@s, por esses dois meses de imaginação poética, sociológica e filosófica...

SIRA BA

Na Casa Municipal da Cultura, aqui em Coimbra, ainda está a decorrer uma exposição de fotografias sobre Timor Leste, intitulada “Sira Ba” (por eles/elas ou eles/elas por). As fotografias parecem representar a ansiosa esperança do povo timorense. Foi essa a sensação com que fiquei depois de ter visto: a linda fotografia do pôr-do-sol, guarnecendo o deslizar das ondas na face da areia negra aureolada; a praia do Cristo Rei; a multidão de bandeira içada; a serenidade da vendedeira de banana, manga e outros frutos que mal conheço; a palidez dos militares australianos, (teimosamente) perpetuando num território que almeja a liberdade; o sorriso das crianças inocentes, esperando o futuro que tarda a chegar... E o que parece ser um simples acto de votar ilustra o desejo sublime da implantação de um sistema soberano sustentado pela vontade do povo...

MODELOS POR UM DIA...

Na sexta-feira, estive a vasculhar o meu ficheiro de fotografias e lembrei-me da campanha pela despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez, em Portugal. Por várias razões, eu só podia abraçar o movimento “Cidadania-Responsabilidade”. Portanto, estive do lado do SIM.



A “não te prives”, uma associação coimbrã, convidou um grupo de jovens investigadoras/estudantes activistas pelos direitos das mulheres para participarem no cartaz de campanha, em Coimbra. Ponderando um pouco, acabei por aceitar. O mais engraçado (embora muito difícil!) foi posar para o fotógrafo. Ele só queria um retrato meu. Até que fiz boa figura. Mas os meus olhos tristes? O poeta disse que são olhos sonolentos. Na falta de alternativas animadoras, preferi acreditar na teoria do poeta.

FEMICÍDIO

Nesta terça-feira (18/09/2007), na Quinta da Portela, um jovem de 23 anos assassinou brutalmente aquela que era a sua namorada. A jovem degolada tinha apenas 20 anos de idade. Ambos frequentavam o curso de Engenharia Civil, na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC). Como seria de esperar, a juíza do Tribunal de Instrução Criminal de Coimbra aplicou a medida de coacção mais pesada ao jovem homicida: prisão preventiva.

Este acontecimento trágico, que tanto envergonha a comunidade universitária coimbrã, foi abordado com consternação na cerimónia de abertura oficial do novo ano lectivo, tanto pelo Reitor da Universidade de Coimbra (Doutor Seabra Santos), como pelo Presidente da Associação Académica de Coimbra (Paulo Fernandes). Em vez de remeter para o silêncio, este episódio tresloucado chama a atenção para a necessidade de questionar a “violência” aqui nesta universidade secular e cosmopolita (certos gestos ligados à praxe académica, a agressão frequente entre casais de namorados, etc.).

HIGIENE MENTAL

Estou muito ansiosa! Tem sido complicado aguentar os dias nesta cidade distante (distante da minha terra, distante da minha gente e distante de mim própria).

Ainda não fui de férias... Entretanto, tenho ainda que despachar mais algumas coisitas antes de usufruir de uns diazitos de férias. Não terei muito tempo!

Preciso descobrir um esconderijo e passar um fim-de-semana com o silêncio (sem livros, sem computador, sem telemóvel). Apenas preciso de breves momentos de contemplação, descanso total, desfrute das maravilhas que a natureza oferece sem malícia. Tendo em atenção a minha disponibilidade momentânea, pensei em três alternativas:

- (praia de Mira) deliciar-me-ia a mergulhar no fundo de uma piscina verdazul, intervalando com mergulhos em água salgada.

- (Oliveira do Hospital) aventurar-me-ia a subir a Serra da Estrela ao sabor do vento. E, lá no cimo da montanha, gritar “Obikueluuuuuuuuuu” (só para escutar a voz que vem de dentro).

- (Alentejo) observar o azul do céu estampado, sentir o calor do sol, contar estórias para as estrelas... Satisfazer-me-ia uma casinha abandonada na redondeza alentejana. Uma porta para entrar e outra para sair. Pois, “janelas para quê?”...

Em todas essas possibilidades reais, o que me acalma mesmo é a doçura do pôr-do-sol.

UMA SINGELA ENCOMENDA

(sexta-feira, dia 14 de Set, 19h42...)

Tive uma semana muito difícil... Entretanto, acabei de chegar ao meu esconderijo mágico e encontrei uma encomenda da Nancy T: Navega de Mayra Andrade, com um especial autógrafo. Gostei dos sonhos, do carinho e da mulher! Gostei demais...

Ouvi cada tema do álbum com ternura. No seu todo, o álbum revela a delicadeza, voluptuosidade, exuberância e serenidade da doce jovem cabo-verdiana. Dos temas (en)cantados, “lua” e “navega” prendem a minha concentração. Há algum tempo que ando de mãos dadas com o tema “lua”, especialmente nas noites em que transformo-me na Lua e vagueio no silêncio da madrugada. Por sua vez, o tema “navega” leva-me a (re)imaginar o meu porto, versejando a mulher-de-pescador à espera do barquinho...

...Promessa feita: quando a Lua apresentar ao seu cutelo, haverá “lua”...

RAGAZZA CON OMBRELLO


Gostei do postal, motivo que me levou a visitar o esconderijo ciber da Barbara Berardicurti... Mais um postal, desta vez de uma italiana, anima o meu espaço de ReivindicAção.

O MITO BERDIANO

Acordei com os dedos tremendo, com uma enorme vontade de registar alguma nota sobre esse dia, que reaviva o mito do povo berdiano. Desde pequena, eu ouvia dizer que esse povo resultou do caldeamento de raças e culturas. Como o mundo cabia nas minhas mãos, eu pensava que, a panela tripé da mamãi Dinora (cheia de tisna), tinha ajudado a misturar os europeus e as africanas...

Sempre encontrei justificação para as minhas idiotices de infância. Em relação ao surgimento do povo berdiano, concentrei a minha atenção na panela tripé entisnada. Eis que me ocorreu a ideia de que essa panela tripé entisnada podia simbolizar a mãe negra na rota da escravatura (América, Europa e África). Foi uma explicação que encontrei!...

No dia 12 de Setembro de 1924, nasceu aquele que viria a lutar para que a mãe negra tivesse voz, despertando do sono profundo causado pela opressão colonial. Amílcar Cabral!!! O herói do sonho berdiano. Cabral nasceu no solo guineense, sendo filho de pais cabo-verdianos. Essa ligação umbilical pode ser avançada como um dos argumentos justificativos da sua vontade de levar avante uma luta de libertação bi-nacional (Guiné e Cabo Verde).

Como reza a mitologia berdiana, Cabral fez os seus estudos primários e secundários em Cabo Verde. Em 1945, recebeu uma bolsa para frequentar os estabelecimentos de ensino superior em Portugal e matriculou-se no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa...

Em 1956, juntamente com outros colegas, Cabral fundou o Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC). De 1956 a 1973, altura em que foi assassinado, Amílcar Cabral (pseudónimo de guerrilheiro: Abel Djassi) lutou pela libertação da Guiné e Cabo Verde...

O povo berdiano ainda canta: “Kabral ka morrê”. E espera o eterno amanhecer...

CARTAS DE CHAMADA

Neste domingo, pouco depois das 13h, na RDP-África, a investigadora Margarida Calafate Ribeiro começou a falar sobre a África no Feminino. Neste livro, a autora realça o papel das portugas na guerra colonial, numa tentativa de reanimar a memória cultural colectiva lusa a partir da perspectiva das mulheres que acompanharam os seus maridos nas três frentes de guerra (Angola, Moçambique e Guiné-Bissau).

Muitas dessas mulheres foram arrastadas pelas “Cartas de Chamada”, acabando por juntar aos seus maridos numa missão imperial frustrada e frustrante (com sinais visíveis no pós-guerra, sendo de realçar as marcas sombrias que acompanham várias famílias portugas). Tem sido realçado alguns dados financeiros do desmoronamento trágico do sistema colonial e da lastimável ditadura salazarista, mas ainda não foram sistematizados os traumas do pós-guerra.

A África no Feminino aparenta-me como uma tentativa no sentido de ressaltar a participação das portugas em diferentes frentes, dimensões e modalidades. Portanto, as mulheres aparecem como sujeitos históricos da Guerra Colonial (1961-1974), quebrando assim o silêncio da maldita guerra silenciada (desculpem a redundância!). Por conseguinte, o livro abre as possibilidades realísticas para uma análise psico-sociológica dos confortos e desconfortos coloniais...

CONFISSÕES MUANGOLEADAS


(quarta-feira, 22 de Agosto, 11h10...)

No Jardim Zoológico, apanhei o metro para Marquês de Pombal. Como nunca tive tempo para descodificar o enigma rodoviário lisboeta, perguntei a um jovem como devia fazer para chegar ao Restelo. A mobilidade urbana nesta área metropolitana me parece ser um bicho-de-sete-cabeças, a tal ponto que o jovem (ainda desconhecido) aprontou-se a me acompanhar até a paragem do autocarro 727, acabando por embarcar comigo até Belém.

Foi preciso menos de meio minuto para criar um clima de amiguismo, visíveis nos nossos risos e gargalhadas descomplexados perante a luminosidade solar. Pouco depois, o jovem rapaz começou com as proverbiações rimáticas a volta dos nomes Cícero e Eurídice. Foi um desfilar de patetices greco-romanas. De qualquer maneira, a risada foi boa!

O sotaque do jovem rapaz (de nome Cícero) não me era estranho e punha a nu as suas origens. Eis que me atrevi a dizer:
- Tenho um grande amigo muangolé!
- Sou muangolé, mas sem os defeitos.
- Sem os defeitos?
- Sim. O bicho angolano pensa que é o dono do mundo. Em Angola, nós não temos essa coisa vossa (!): a cordialidade...

Fiquei a pensar no meu amigo Tavira, nas nossas conversas sobre o povo angolano e, em especial, sobre as mulheres angolanas. A diferença é que o Tavira enche a boca e afirma:
- Eu sou um angolano! “Raça negra”, como vem explícito no meu BI.

Depois de postar esta nota, um amigo meu me confirmou que ele e o irmão (filhos dos mesmos pais) foram considerados pelos responsáveis do registo notariado lá em Cabinda como pertencendo a duas raças diferentes (ele da “raça negra” e o irmão da “raça mista”). Sinceramente, não percebi qual o critério para a classificação dos/as angolanos/as segundo a raça!...

E NOS ESTUDOS...

Bolsas de Mérito 2007:
1) Bárbara Spencer (Ribeira Grande [19,42 valores]);
2) Kathia Garcia (Tarrafal [19,29 valores]);
3) Glenda Garcia (São Filipe [19,29 valores]);
4) Cintia Ramos (Praia [19,22 valores]);
5) Jaquelino Barbosa (São Miguel [19,00 valores]).

Observei com atenção o mapa com o resultado do concurso de Bolsa de Mérito para formação superior em Portugal, que ilustra as melhores classificações a nível nacional. Comecei por analisar a proporção de elementos do sexo feminino nesse mapa de classificação. Entre os cinco elementos contemplados, quatro são do sexo feminimo, conquistando 80% das bolsas concedidas. Para além dessa análise em função do sexo, percebi também que havia um elemento do concelho de São Miguel...

Aproveito para parabenizar @s contemplad@s e desejar-lhes bons resultados e momentos marcantes na nova fase que lhes espera.

GESTORAS DO LAR


No domingo, passei o dia todo na lida doméstica. Com o apartamento acabadinho de ser pintado de branco (da cor das nuvens), tive que ajoelhar-me para catar as pequenas gotas de tinta, que tinham percorrido além da fita adesiva. Depois disso, peguei na esfregona, fui deslizando pela sala, quartos e outros recantos.

Num momento de pura contemplação, fui escolhendo alguns livros para a minha mesa de cabaceira. Enquanto arrumava o meu espaço de imaginação poética e esperava pela magia da noite silenciosa, fui pensando na vida de incontáveis mulheres chamadas Donas de Casa.

Depois de passar o dia todo a virar de um lado para outro, a arrumar isso e aquilo, a pensar em tomates e batatas, cheguei à conclusão que é preciso fazer justiça ao trabalho realizado pelas Donas de Casa, a começar pela terminologia. Essas senhoras são as verdadeiras Gestoras do Lar!

Escusado seria dizer que as Gestoras do Lar têm como função a manutenção da ordem doméstica. Até podia deixar de suscitar polémicas se fosse reconhecido o valor económico do trabalho destas gestoras silenciadas e se estas deixassem de ser consideradas como inactivas. Por conseguinte, esse reconhecimento implicaria uma remuneração pelos serviços prestados ao agregado familiar, bem como a garantia de uma pensão quando a idade transmitisse sinais de pele cansada de tanto labutar. Já que estou neste misto de utopias, posso também acrescentar que deveria ser criando um sistema de protecção e segurança social para essas mulheres, que lhes permitisse um tratamento especial em casos de acidentes de trabalho (como as queimaduras na cozinha, as escorregadelas no chão acabado de limpar, etc.). Por enquanto, vou ignorar o caso da violência doméstica contra essas mulheres, ou seja, violência em local de trabalho (!). Vou deixar de lado também o caso das chefes de família, bem como o papel crucial das mães...

Fico por aqui! Não quero divagar agora sobre as demais problemáticas que atingem especificamente a família cabo-verdiana.

Imagem: Nela Barbosa

A DOR DAS RAÍZES


Sem querer
Cantas as tuas raízes
Escondidas entre as rochas

Maltratado pela angústia
Soluças o teu desconforto
Seco de tanto esperar

Protegido pelo muro da academia
Rodopias entre as luzes
Embutidas sobre prismas de escuridão

Mesmo xingando, gritando e fugindo
Para o teu próprio desespero
Palpitas esperança nas montanhas e nos vales

Eurídice

AFROBASKET

“Bravos crioulos”, “novos heróis”, “grandes guerreiros”... Várias expressões têm sido (re)inventadas para classificar a atitude dos jovens cabo-verdianos no Campeonato Africano de Basquetebol, que decorreu em Angola (entre 15 e 25 de Agosto).

Os nossos basquetebolistas deram um “show de bola” nesse campeonato, tendo conquistados o terceiro lugar. A aventura d’bronze tem sido aclamada no território nacional e na diáspora cabo-verdiana, sendo esta “o Pico de Antónia” na vida da selecção nacional no âmbito do Afrobasket.

Para além dessa honrosa classificação, dois atletas cabo-verdianos (Houtman e Rodrigo) foram incluídos na lista dos cinco melhores basquetebolistas africanos. Houtman foi ainda eleito o melhor lançador do Afrobasket2007. Para juntar ao Rodrigo, mais dois atletas cabo-verdianos (Houtman e Marito) foram escolhidos para trabalharem ao serviço de equipas angolanas.

Não podia ignorar a exibição da selecção angolana, que conquistou o nono título continental. Mas os meus olhares estão direccionados para o basquetebol cabo-verdiano, que avança a passos largos. Hoje, com a chegada da selecção ao país, haverá uma festança daquelas nunca dantes imaginadas.

Mesmo não tendo tido a disponibilidade para acompanhar os jogos, fui recebendo informações através de amigos/as e seguindo através de blogues e jornais online.

Aproveito também para deixar aqui os meus miminhos, abraços e beijinhos aos basquetebolistas cabo-verdianos, que deram o máximo para brotar mais um sorriso colectivo com assinatura da cordialidade cabo-verdiana.

BOKA-PORTU


Aprendi a nadar na baia do Porto. Quando era pequena, fingia que era sereia. Gostava de subir à pedra-preta, mostrando apenas a minha metade humana. Desejava ter cauda para mergulhar no fundo do mar. O mar fazia parte das minhas fantasias!

Enquanto brincava de sereia, o meu mano Lindo (Monga para os amigos da bola) tentava aprender a pescar. Em Bosta Minhoto, ele quase descobriu o segredo dos pescadores: uma vez, capturou um “manelon”; outra vez, conseguiu enforcar um polvo.

O ponto auge da sua distinta carreira de menino-pescador, foi no dia em que esmagou uma moreia. Os anos passaram e a baia do Porto foi se tornando pequena demais para tantos sonhos. Fugi para terras distantes, procurando uma universidade de que costumava ouvir nas conversas do meu avô. E o meu mano desistiu da arte de pescar, procurando o futuro entre a Sociologia e o Direito.
...............
(Todas essas lembranças vieram-me à mente depois de esbarrar no Hi5 do meu mano, que me brindou com uma linda fotografia da baia do Porto. Mau fotógrafo! Se esse fotógrafo tivesse virado pelo menos 2cm à direita, eu contemplaria a casa caiada de branco, onde cresci.)

“AS NOVAS CRUZADAS”

Ontem, a Néle Azevedo regressou da XIV Bienal Internacional de Arte de Vila Nova de Cerveira, tendo como tema “As novas cruzadas”, pensado no sentido de desafiar os artistas a fazerem uma analogia entre as antigas cruzadas e as novíssimas guerras. Este bienal começou no dia 18 de Agosto, sendo previsto decorrer até o dia 29 de Setembro do corrente ano.

Impressionante, quase tudo me leva à São Miguel! Como sabem, 29 de Setembro é o dia de São Miguel Arcanjo, o padroeiro do meu concelho. Uma vez que São Miguel tem sido apresentado como o príncipe das milícias celeste, a data para o terminus da bienal parece que foi mesmo bem planeada.

A brasileira Néle Azevedo ficou conhecida pelo seu Projecto Monumento Mínimo, que já percorreu várias cidades e países. Esta artista adopta cada cidade como um cenário para a sua arrojada exposição, mostrando ao público diversificado as suas estatuetas de gelo. São figuras anónimas que se diluem na multidão em trânsito.

A(S) LÍNGUA(S)

Depois do jantar, o Julião começou com a treta sobre a língua portuguesa. O sotaque da Andreia e da Néle não disfarçavam a diferença “portuguística” no espaço da CPLP. O João conteve-se e não entrou na discussão, mas tinha o Julião como o seu legítimo representante da Guiné-Bissau. Mas eu não podia ficar calada!...

Lembrei-me logo do post no albatrozberdiano sobre a problemática da língua cabo-verdiana, melhor sobre o bilinguismo no meu país. Realmente, o debate sobre a(s) língua(s) merece ser aflorado e levado a sério pelos responsáveis directos no processo de afirmação da língua cabo-verdiana.

Nesta minha nota curta, quero realçar apenas duas questões que tentei introduzir na discussão com os/as meus/minhas amigos/as do Brasil e da Guiné-Bissau. Em primeiro lugar, a questão da geopolítica da língua. Pensando no quadro da “dita” CPLP, a questão do alfabeto unificado deixa-me com uma “pulga” atrás da orelha. Parece-me que torna-se necessário ter em atenção os jogos de poder(es) nesse espaço em que o português nos (des)une.

Em segundo lugar, o fenómeno da globalização. Comungo da ideia do Boaventura de Sousa Santos de que vivemos num mundo de globalização, como num mundo de localização. Por conseguinte, subscrevo integralmente a ideia do mesmo autor de que o global e o local são socialmente produzidos no interior dos processos de globalização e aquilo a que chamamos globalização é sempre a globalização bem sucedida de um determinado localismo. Portanto, se a globalização pressupõe a localização, então ao mesmo tempo que o uso do inglês se intensifica à escala global, faz todo sentido a afirmação da língua cabo-verdiana. Aceitar que é inútil o investimento na língua cabo-verdiana significa “sacrificar a diferença em nome de um princípio de assimilação”.

O teórico literário Walter Mignolo realça que, uma vez que as línguas não são algo que os seres humanos têm, mas algo que os seres humanos são, a colonialidade do poder e do saber veio gerar a colonialidade do ser. Com essa referência, quero frisar o direito e o dever que temos (refiro-me aos/às cabo-verdianos/as) de valorizar a língua cabo-verdiana, não só enquanto elemento cultural, mas também como veículo de produção de conhecimentos/saberes, mesmo que sejam (ou sobretudo porque são) os conhecimentos/saberes “catalogados” como tradicionais...

NEM AS LÁGRIMAS RESISTEM

Quando acordei, o sol do meio-dia já se fazia sentir. Sem sair do meu quarto, sintonizei a RDP-África e abri o meu computer. Para a minha alegria ou tristeza, um email de Rui Machado tinha invadido o meu esconderijo-ciber, trazendo uma encomenda enfeitiçada. Deliciei-me até a última gota da melodia. Não podia resistir às mornas, algo que nem as lágrimas resistem!

Pensando na diáspora da música cabo-verdiana, o projecto “Lisboa nos Cantares Cabo-verdianos”, coordenado por Rui Machado, aclama Lisboa como a capital da saudade, ou a capital da (décima) primeira ilha de Cabo Verde. Numa pesquisa instantânea sobre esse projecto, tropecei-me no mar...

De tantas saudades da baia de Achada Portinho, da praia da Batalha, de Bosta Minhoto e de Baxu-Ponta, não resiste-me a mergulhar com o B.Leza num Bejo de Sodade (“Onda sagrada di Tejo / Dixa’m bêjabo bô aga / Dixa’m dabu um bêjo / Um bêjo di mágua / Um bêjo di sodade / Pá bô lêvá mar / Pá mar lêvá nha terra” [...]).

AS DUAS CAMAS

Eram quase 17:30mn, fui andando pela calçada até a Avenida Dias da Silva. Virando à esquerda, encostadinha na minha segunda casa (a minha faculdade de sempre), fui caminhado no silêncio da cidade. Em vez de seguir para a rua Luís de Camões, esquivei pela esquerda e, ainda sempre à esquerda, avistei a Casa-Museu Miguel Torga, que estava escondido no fundo da Praceta Fernando Pessoa (nº 3).

Entrei pela meia-porta e segui em frente até ao jardim. Fiz uma volta 180º e, pela porta lateral, vi uma distinta senhora de cabelos cor d’oiro. Entrei com a minha atenção redobrada e, desde o hall de entrada, fui sendo confrontada com objectos pessoais de Miguel Torga. Esta casa onde vivia o escritor, recheada com objectos rústicos (artisticamente lapidados) como se fossem feitos de pau-brasil, guarda o espírito da escrita. Até parece que fertilizou a minha imaginação!

Foram instantes de muita admiração pelos objectos pessoais e pelo acervo documental do escritor (bibliografia activa, bibliografia passiva, artigos de imprensa, poemas manuscritos e dactiloescritos).A surpresa maior (estranha mesmo!) foi quando entrei no quarto de casal, quer dizer no quarto onde o escritor dormia com a sua esposa. Para meu espanto haviam duas camas individuais, separadas por uma mesa-de-cabeceira. A distinta senhora de cabelos cor d’oiro disse-me sorrindo que ter duas camas individuas em quartos de casais podia ser normal na “época”... Fiquei a pensar, com tamanha estranheza: 1) Mas em pleno século XX num Portugal contemporâneo? 2) E o terrível frio de Coimbra quando se inverna? 2) Talvez, o escritor não gostava de cotoveladas!...

“PASÁRGADA”

(quarta-feira, 15 de Agosto, 13h...)

A Andreia chegou ontem, lacrimejando as saudades de “A Terra de Vera Cruz” e partilhando a sua ainda curta vivência em Coimbra.

Passamos a noite toda a jogar conversa fora no msn com a Ana e o José, paulistas convictos. Quase nos apetecia aceitar o convite de Manuel Bandeira (Vou me embora pra Pasárgada) ou lamentar as saudades como o Osvaldo Alcântara (Itenerário de Pasárgada)... Com toda a minha rebeldia, preferi abraçar o Ovídio Martins (Antievasão) e afirmar categoricamente “não vou para Pasárgada [!]”.

“FEITIÇO”

...Chuva em Agosto. Acordei por volta das 10:30mn, a Andreia ainda está dormida e a chuva continua a cair para ninar a cidade que corteja mais um feriado religioso.

Neste momento, estou a ouvir o André Sardet cantar Feitiço, desejando também “não ter asas e poder voar / ter o céu como fundo / ir ao fim do mundo e voltar”. Mas no fundo, ”eu gostava que olhasses para mim / e sentisses que sou o teu mar / mergulhasses sem medo / um olhar, um segredo / só para eu te abraçar”...

15 DE AGOSTO

Acho que o título diz tudo... Não vale a pena dizer mais nada! Vou dormir. Já são 2:40mn. Estou com sono! Mas não estaria com tanto sonho, se estivesse lá... Lá na minha vila. Calheta, Calheta!

Desde o dia 8 de Agosto, que estou na contagem decrescente, imaginando a festa de Nossa Senhora do Socorro.

Neste momento, estaria no grande baile. Amanhã acordaria tarde, sem vontade de lambuzar na doçaria, arrependendo no dia seguinte. Vou dormir mesmo! Chega de imaginações férteis...

EILEEN NO PANORAMA BAR

Stop!!!... Notícia de última hora: o lançamento de Eileenístico: Contos e Crónicas passa a ser no Panorama Bar, em pleno Hotel Praia Mar. Já estou mesmo a ver! Hummm…

Para além da música, haverá poesia e beleza, características da morabeza cabo-verdiana.

“EILEENÍSTICO”

No dia 2 d’Agosto, o Centro Cultural do Mindelo recebeu a jovem cabo-verdiana Eileen Almeida Barbosa para a apresentação do seu livro Eileenístico: Contos e Crónicas.

Por sua vez, hoje o Tabanka Mar enche-se de música para acolher o lançamento desse livro na cidade da Praia.

Ainda não vi o livro, mas suponho que o sorriso alegre da Eileen tenha invadido a sua própria escrita, flutuando ao som das ondas acalentadas…

MIGUEL TORGA

Amanhã, o Município de Coimbra celebra o Centenário do Nascimento de Miguel Torga. Este escritor nasceu a 12/08/1907, em Vila Real; viveu em Coimbra e aqui morreu a 17/01/1995.

Miguel Torga foi considerado uma das mais marcantes figuras da literatura portuguesa do século XX. A sua produção literária abarca géneros como a poesia, o romance, o conto, o ensaio, as conferências, o memorialismo e a diarística.

O escritor esteve ligado à Revista Presença, tendo fundado a Revista Sinal e a Revista Manifesto. Foi proposto, por três vezes (1960, 1978 e 1994) para a atribuição do Nobel da Literatura. Entre vários prémios atribuídos ao escritor, destaca-se o Prémio Camões (1990).

Quanto às actividades programadas para a comemoração do centenário de Miguel Torga, importa realçar principalmente a Inauguração do Monumento a Miguel Torga (Largo da Portagem) e a Inauguração da Casa-Museu Miguel Torga...

MADDIE

(sábado, 11 de Agosto, 20h10...)

100 dias depois do desaparecimento da menina inglesa!... Depois desses dias de esperança, a Polícia Judiciária admitiu publicamente, numa entrevista à BBC, que a pequena princesa Madeleine McCann pode estar morta. Essa constatação, com base em pistas que foram recentemente encontradas no decorrer das investigações, não descarta as outras pistas de investigação.

Um pouco por todo o mundo, tem vindo a ser lembrando tantas outras crianças desaparecidas. A mediatização do caso Maddie tem contribuído bastante para quebrar o silêncio... Ninguém devia consentir com tamanha crueldade (!), que tem vindo a ser um drama frequente nos últimos anos.

Com o apoio dos pais da Maddie (Gerry e Kate), o YouTube vai disponibilizar um canal sobre crianças desaparecidas, tendo como nome “Don’t You Forget About Me” (Não te Esqueças de Mim). Neste novo canal do YouTube, serão colocados fotografias e vídeos de crianças desaparecidas. Também as pessoas serão encorajadas a darem informações às autoridades...

 
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