"REINO MARAVILHOSO"
11.10.07
Eurídice Monteiro

Na onda das comemorações do centenário do nascimento de Miguel Torga, O Teatrão tem em cena o espectáculo “TerraTorga”, até 17 de Novembro, no Museu dos Transportes (em Coimbra). Baseando na escrita de Miguel Torga, a encenação sensorial apela à descoberta de um “reino maravilhoso”, que o escritor identifica com Trás-os-Montes (a sua terra natal)...
SEXO SEGURO
8.10.07
Eurídice Monteiro
O HIV/SIDA tem atingido brutalmente o continente africano. No contexto cabo-verdiano, os dados disponíveis mostram que a taxa de prevalência deste flagelo tem vindo a crescer significativamente. A principal via de transmissão tem sido a sexual, sendo imprescindível a sua prevenção (nomeadamente através do uso de preservativos).…E AS MULHERES
3.10.07
Eurídice Monteiro
Estava a pensar no amor, nessa palavra mágica que transforma tudo o que em nós habita... Dessa vez, peguei no poema Entre os Lagos da angolana Ana Paula Tavares. Realmente, essa poetisa fala de “coisas amargas como os frutos”.
Entre os Lagos
Esperei-te do nascer ao pôr do sol
e não vinhas, amado.
Mudaram de cor as tranças do meu cabelo
e não vinhas, amado.

Limpei a casa, o cercado
fui enchendo de milho o silo maior do terreiro
balancei ao vento a cabaça da manteiga
e não vinhas, amado.
Chamei os bois pelo nome
todos me responderam, amado.
Só tua voz se perdeu, amado,
para lá da curva do rio
depois da montanha sagrada
entre os lagos.
Ana Paula Tavares
(in Dizes-me Coisas
Amargas como os Frutos)
Revendo o Namoro de Viriato da Cruz, vejo Entre os Lagos da Ana Paula Tavares como uma das possíveis “respostas” ao poeta angolano da geração anterior. Com elegância e sensualidade, essa poetisa traz a voz de uma mulher que, ansiosamente, sofre à espera do seu amado. A poesia da Ana Paula Tavares surge num contexto em que, até há pouco tempo, a voz feminina não era escutada, quer porque não possuía condições-de-pronunciação, quer porque era silenciada.
AMOR, PAIXÃO...
2.10.07
Eurídice Monteiro
Normalmente, costumo ler um poema antes de dormir. Ontem, depois da minha navegação nocturna na blogesfera, senti uma tremenda vontade de reler o Namoro de Viriato da Cruz. Que poema lindo de morrer! Acredito que já não se fazem homens como antigamente.
Namoro
Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com a letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando de artista
-------------------------[nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas.
Sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seu seios, laranjas - laranjas do Loge
seus dentes... - marfim...
--------------Mandei-lhe essa carta
--------------e ela disse que não.
Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
--------------E ela o canto do NÃO dobrou
Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
--------------E ela disse que não.
Levei à avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
--------------E o feitiço falhou.
Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficámos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.
Andei barbado, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
" - Não viu... (ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.
Para me distrair
levaram-me ao baile do sô Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso às moças mais lindas do Bairro Operário.
Tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí, Benjamim!"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.
e com a letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando de artista
-------------------------[nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas.
Sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seu seios, laranjas - laranjas do Loge
seus dentes... - marfim...
--------------Mandei-lhe essa carta
--------------e ela disse que não.
Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
--------------E ela o canto do NÃO dobrou
Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
--------------E ela disse que não.
Levei à avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
--------------E o feitiço falhou.
Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficámos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.
Andei barbado, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
" - Não viu... (ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.
Para me distrair
levaram-me ao baile do sô Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso às moças mais lindas do Bairro Operário.
Tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí, Benjamim!"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.
Viriato da Cruz
(in Antologia Temática de
Poesia Africana I)
Não é lindo a imaginação poética de Viriato da Cruz?... Viriato, onde estás tu? Reencarna numa estrela e ilumina as noites poéticas cá na terra!
UM MERECIDO DESCANSO
1.10.07
Eurídice Monteiro
(sábado e domingo, 29-30 de Setembro)
O dia acordou com vontade de chorar. As previsões indicavam sinais de chuva no interior de Portugal. Mesmo assim, depois de uma manhã de exercício auto-biográfico num seminário de Estudos Feministas, segui para Oliveira do Hospital com a Ana Paula, que me instigou a não registar no meu diário as suas qualidades ao volante. Por volta das 14h, estacionamos em Santa Ovaia, uma pequena aldeia portuguesa.
Quando cheguei, fui recebida com o afago de sempre. Entretanto, importa realçar que cheguei num momento sensível para a minha família oliveirinha: a avó queixava-se de uma das pernas; a filha preparava-se para o início da sua aventura universitária (tal como o irmão, ela sempre ambicionou estudar em Coimbra); o filho recém-licenciado parecia animado com o Peugeot 308, acabadinho de ser apresentado pelo concessionário Automóveis do Mondego; o pai aguardava o Benfica-Sporting, mas orientava as nossas conversas sobre o sistema judicial português; a mãe de lindas madeixas estava preocupada com as mudanças por que passava a família, mas aproveitava sempre para atestar o meu paladar. O jime, um novo membro da família, não me conhecia, mas tão cedo parou de latir.
Depois do almoço, da habitual ida ao café e de uma volta em Oliveira do Hospital, apanhamos a auto-estrada para Figueira da Foz. Portanto, fizemos marcha-atrás no percurso que eu tinha acabado de trilhar. Observamos o desfile dos gigantes eucaliptos, animados pelas entoações de Rui Veloso. Na praia de Buarcos, vimos o cair da chuva no mar, a fúria das ondas, os sinais de relâmpagos, as gaivotas na areia... Com insistência, alguém repetia um conhecido provérbio: “gaivotas em terra, tempestade no mar”. O cemitério frente ao mar foi o que mais me surpreendeu. Fui informada que a vila guarda a memória de trágicos naufrágios. Depois rodeamos para Figueira da Foz, onde não recusamos um delicioso gelado. Com o cair da noite, deslizamos para a Santa Ovaia.
Queria galgar a Serra da Estrela, mas o mau tempo que se fazia sentir atrapalhou os meus planos. Acabei por ficar pelos arredores da Santa Ovaia. Tive a oportunidade de avistar: a Vila de Avô; a Aldeia das Dez; a Vila Pouca da Beira. Fiquei muito emocionada com a Vila de Avô, banhada pelo rio Alva e depositária de um castelo medieval. Esta vila tem sido apresentada como a terra do poeta-guerreiro Brás Garcia Mascarenhas e onde viveu o médico-poeta Vasco de Campos... No domingo, voltei para Coimbra com a vontade de regressar à Varanda de Avô.
MONDEGO
1.10.07
Eurídice Monteiro

(sexta-feira, 28 de Setembro...)
Fui ao Mondego, na companhia de um amigo francês. A noite estava perfeita, vislumbrando um céu limpo, no qual a lua solitária vagueava. O ar puro engendrado pelo Parque Verde do Mondego refrescava a minha imaginação, trazendo mantenhas das brisas húmidas nas noites de boka-portu. Confesso que as águas do rio abrandaram as minhas saudades do mar, mexendo nas lembranças engraçadas da minha infância, não muito distante…
BUGANVÍLIAS
26.9.07
Eurídice Monteiro
Acordei a pensar nas Buganvílias, num jardim invadido pelas buganvílias. Abracei o poema da Vera Duarte sobre as “Buganvílias Lilazes”. Procurei O Sangue da Buganvília da Ana Paula Tavares, mas não encontrei. Pesquisei imagens no gogle e roubei uma para brindar os/as visitantes deste “blogville”.

Faz hoje dois meses de dissecações, de partilhas e de emoções neste esconderijo poético para uns e académico para outros... Pelos emails que tenho vindo a receber, o post sobre “Boka-Portu” e o pequeno poema “A Dor das Raízes” foram os que mais agradaram os/as cibermergulhadores/as. Agradeço a tod@s, por esses dois meses de imaginação poética, sociológica e filosófica...
SIRA BA
25.9.07
Eurídice Monteiro
Na Casa Municipal da Cultura, aqui em Coimbra, ainda está a decorrer uma exposição de fotografias sobre Timor Leste, intitulada “Sira Ba” (por eles/elas ou eles/elas por). As fotografias parecem representar a ansiosa esperança do povo timorense. Foi essa a sensação com que fiquei depois de ter visto: a linda fotografia do pôr-do-sol, guarnecendo o deslizar das ondas na face da areia negra aureolada; a praia do Cristo Rei; a multidão de bandeira içada; a serenidade da vendedeira de banana, manga e outros frutos que mal conheço; a palidez dos militares australianos, (teimosamente) perpetuando num território que almeja a liberdade; o sorriso das crianças inocentes, esperando o futuro que tarda a chegar... E o que parece ser um simples acto de votar ilustra o desejo sublime da implantação de um sistema soberano sustentado pela vontade do povo...MODELOS POR UM DIA...
23.9.07
Eurídice Monteiro
Na sexta-feira, estive a vasculhar o meu ficheiro de fotografias e lembrei-me da campanha pela despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez, em Portugal. Por várias razões, eu só podia abraçar o movimento “Cidadania-Responsabilidade”. Portanto, estive do lado do SIM.

A “não te prives”, uma associação coimbrã, convidou um grupo de jovens investigadoras/estudantes activistas pelos direitos das mulheres para participarem no cartaz de campanha, em Coimbra. Ponderando um pouco, acabei por aceitar. O mais engraçado (embora muito difícil!) foi posar para o fotógrafo. Ele só queria um retrato meu. Até que fiz boa figura. Mas os meus olhos tristes? O poeta disse que são olhos sonolentos. Na falta de alternativas animadoras, preferi acreditar na teoria do poeta.
FEMICÍDIO
21.9.07
Eurídice Monteiro
Nesta terça-feira (18/09/2007), na Quinta da Portela, um jovem de 23 anos assassinou brutalmente aquela que era a sua namorada. A jovem degolada tinha apenas 20 anos de idade. Ambos frequentavam o curso de Engenharia Civil, na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC). Como seria de esperar, a juíza do Tribunal de Instrução Criminal de Coimbra aplicou a medida de coacção mais pesada ao jovem homicida: prisão preventiva.
Este acontecimento trágico, que tanto envergonha a comunidade universitária coimbrã, foi abordado com consternação na cerimónia de abertura oficial do novo ano lectivo, tanto pelo Reitor da Universidade de Coimbra (Doutor Seabra Santos), como pelo Presidente da Associação Académica de Coimbra (Paulo Fernandes). Em vez de remeter para o silêncio, este episódio tresloucado chama a atenção para a necessidade de questionar a “violência” aqui nesta universidade secular e cosmopolita (certos gestos ligados à praxe académica, a agressão frequente entre casais de namorados, etc.).
HIGIENE MENTAL
20.9.07
Eurídice Monteiro
Estou muito ansiosa! Tem sido complicado aguentar os dias nesta cidade distante (distante da minha terra, distante da minha gente e distante de mim própria).Ainda não fui de férias... Entretanto, tenho ainda que despachar mais algumas coisitas antes de usufruir de uns diazitos de férias. Não terei muito tempo!
Preciso descobrir um esconderijo e passar um fim-de-semana com o silêncio (sem livros, sem computador, sem telemóvel). Apenas preciso de breves momentos de contemplação, descanso total, desfrute das maravilhas que a natureza oferece sem malícia. Tendo em atenção a minha disponibilidade momentânea, pensei em três alternativas:
- (praia de Mira) deliciar-me-ia a mergulhar no fundo de uma piscina verdazul, intervalando com mergulhos em água salgada.
- (Oliveira do Hospital) aventurar-me-ia a subir a Serra da Estrela ao sabor do vento. E, lá no cimo da montanha, gritar “Obikueluuuuuuuuuu” (só para escutar a voz que vem de dentro).
- (Alentejo) observar o azul do céu estampado, sentir o calor do sol, contar estórias para as estrelas... Satisfazer-me-ia uma casinha abandonada na redondeza alentejana. Uma porta para entrar e outra para sair. Pois, “janelas para quê?”...
Em todas essas possibilidades reais, o que me acalma mesmo é a doçura do pôr-do-sol.
UMA SINGELA ENCOMENDA
15.9.07
Eurídice Monteiro
Tive uma semana muito difícil... Entretanto, acabei de chegar ao meu esconderijo mágico e encontrei uma encomenda da Nancy T: Navega de Mayra Andrade, com um especial autógrafo. Gostei dos sonhos, do carinho e da mulher! Gostei demais...
Ouvi cada tema do álbum com ternura. No seu todo, o álbum revela a delicadeza, voluptuosidade, exuberância e serenidade da doce jovem cabo-verdiana. Dos temas (en)cantados, “lua” e “navega” prendem a minha concentração. Há algum tempo que ando de mãos dadas com o tema “lua”, especialmente nas noites em que transformo-me na Lua e vagueio no silêncio da madrugada. Por sua vez, o tema “navega” leva-me a (re)imaginar o meu porto, versejando a mulher-de-pescador à espera do barquinho...
...Promessa feita: quando a Lua apresentar ao seu cutelo, haverá “lua”...
RAGAZZA CON OMBRELLO
15.9.07
Eurídice Monteiro
O MITO BERDIANO
12.9.07
Eurídice Monteiro
Acordei com os dedos tremendo, com uma enorme vontade de registar alguma nota sobre esse dia, que reaviva o mito do povo berdiano. Desde pequena, eu ouvia dizer que esse povo resultou do caldeamento de raças e culturas. Como o mundo cabia nas minhas mãos, eu pensava que, a panela tripé da mamãi Dinora (cheia de tisna), tinha ajudado a misturar os europeus e as africanas...
Sempre encontrei justificação para as minhas idiotices de infância. Em relação ao surgimento do povo berdiano, concentrei a minha atenção na panela tripé entisnada. Eis que me ocorreu a ideia de que essa panela tripé entisnada podia simbolizar a mãe negra na rota da escravatura (América, Europa e África). Foi uma explicação que encontrei!...
No dia 12 de Setembro de 1924, nasceu aquele que viria a lutar para que a mãe negra tivesse voz, despertando do sono profundo causado pela opressão colonial. Amílcar Cabral!!! O herói do sonho berdiano. Cabral nasceu no solo guineense, sendo filho de pais cabo-verdianos. Essa ligação umbilical pode ser avançada como um dos argumentos justificativos da sua vontade de levar avante uma luta de libertação bi-nacional (Guiné e Cabo Verde).
Como reza a mitologia berdiana, Cabral fez os seus estudos primários e secundários em Cabo Verde. Em 1945, recebeu uma bolsa para frequentar os estabelecimentos de ensino superior em Portugal e matriculou-se no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa...
Em 1956, juntamente com outros colegas, Cabral fundou o Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC). De 1956 a 1973, altura em que foi assassinado, Amílcar Cabral (pseudónimo de guerrilheiro: Abel Djassi) lutou pela libertação da Guiné e Cabo Verde...
O povo berdiano ainda canta: “Kabral ka morrê”. E espera o eterno amanhecer...
CARTAS DE CHAMADA
9.9.07
Eurídice Monteiro
Neste domingo, pouco depois das 13h, na RDP-África, a investigadora Margarida Calafate Ribeiro começou a falar sobre a África no Feminino. Neste livro, a autora realça o papel das portugas na guerra colonial, numa tentativa de reanimar a memória cultural colectiva lusa a partir da perspectiva das mulheres que acompanharam os seus maridos nas três frentes de guerra (Angola, Moçambique e Guiné-Bissau).Muitas dessas mulheres foram arrastadas pelas “Cartas de Chamada”, acabando por juntar aos seus maridos numa missão imperial frustrada e frustrante (com sinais visíveis no pós-guerra, sendo de realçar as marcas sombrias que acompanham várias famílias portugas). Tem sido realçado alguns dados financeiros do desmoronamento trágico do sistema colonial e da lastimável ditadura salazarista, mas ainda não foram sistematizados os traumas do pós-guerra.
A África no Feminino aparenta-me como uma tentativa no sentido de ressaltar a participação das portugas em diferentes frentes, dimensões e modalidades. Portanto, as mulheres aparecem como sujeitos históricos da Guerra Colonial (1961-1974), quebrando assim o silêncio da maldita guerra silenciada (desculpem a redundância!). Por conseguinte, o livro abre as possibilidades realísticas para uma análise psico-sociológica dos confortos e desconfortos coloniais...
CONFISSÕES MUANGOLEADAS
5.9.07
Eurídice Monteiro

(quarta-feira, 22 de Agosto, 11h10...)
No Jardim Zoológico, apanhei o metro para Marquês de Pombal. Como nunca tive tempo para descodificar o enigma rodoviário lisboeta, perguntei a um jovem como devia fazer para chegar ao Restelo. A mobilidade urbana nesta área metropolitana me parece ser um bicho-de-sete-cabeças, a tal ponto que o jovem (ainda desconhecido) aprontou-se a me acompanhar até a paragem do autocarro 727, acabando por embarcar comigo até Belém.
Foi preciso menos de meio minuto para criar um clima de amiguismo, visíveis nos nossos risos e gargalhadas descomplexados perante a luminosidade solar. Pouco depois, o jovem rapaz começou com as proverbiações rimáticas a volta dos nomes Cícero e Eurídice. Foi um desfilar de patetices greco-romanas. De qualquer maneira, a risada foi boa!
O sotaque do jovem rapaz (de nome Cícero) não me era estranho e punha a nu as suas origens. Eis que me atrevi a dizer:
- Tenho um grande amigo muangolé!
- Sou muangolé, mas sem os defeitos.
- Sem os defeitos?
- Sim. O bicho angolano pensa que é o dono do mundo. Em Angola, nós não temos essa coisa vossa (!): a cordialidade...
Fiquei a pensar no meu amigo Tavira, nas nossas conversas sobre o povo angolano e, em especial, sobre as mulheres angolanas. A diferença é que o Tavira enche a boca e afirma:
- Eu sou um angolano! “Raça negra”, como vem explícito no meu BI.
Depois de postar esta nota, um amigo meu me confirmou que ele e o irmão (filhos dos mesmos pais) foram considerados pelos responsáveis do registo notariado lá em Cabinda como pertencendo a duas raças diferentes (ele da “raça negra” e o irmão da “raça mista”). Sinceramente, não percebi qual o critério para a classificação dos/as angolanos/as segundo a raça!...
E NOS ESTUDOS...
4.9.07
Eurídice Monteiro
Bolsas de Mérito 2007:1) Bárbara Spencer (Ribeira Grande [19,42 valores]);
2) Kathia Garcia (Tarrafal [19,29 valores]);
3) Glenda Garcia (São Filipe [19,29 valores]);
4) Cintia Ramos (Praia [19,22 valores]);
5) Jaquelino Barbosa (São Miguel [19,00 valores]).
Observei com atenção o mapa com o resultado do concurso de Bolsa de Mérito para formação superior em Portugal, que ilustra as melhores classificações a nível nacional. Comecei por analisar a proporção de elementos do sexo feminino nesse mapa de classificação. Entre os cinco elementos contemplados, quatro são do sexo feminimo, conquistando 80% das bolsas concedidas. Para além dessa análise em função do sexo, percebi também que havia um elemento do concelho de São Miguel...
Aproveito para parabenizar @s contemplad@s e desejar-lhes bons resultados e momentos marcantes na nova fase que lhes espera.
GESTORAS DO LAR
4.9.07
Eurídice Monteiro
No domingo, passei o dia todo na lida doméstica. Com o apartamento acabadinho de ser pintado de branco (da cor das nuvens), tive que ajoelhar-me para catar as pequenas gotas de tinta, que tinham percorrido além da fita adesiva. Depois disso, peguei na esfregona, fui deslizando pela sala, quartos e outros recantos.
Num momento de pura contemplação, fui escolhendo alguns livros para a minha mesa de cabaceira. Enquanto arrumava o meu espaço de imaginação poética e esperava pela magia da noite silenciosa, fui pensando na vida de incontáveis mulheres chamadas Donas de Casa.
Depois de passar o dia todo a virar de um lado para outro, a arrumar isso e aquilo, a pensar em tomates e batatas, cheguei à conclusão que é preciso fazer justiça ao trabalho realizado pelas Donas de Casa, a começar pela terminologia. Essas senhoras são as verdadeiras Gestoras do Lar!
Escusado seria dizer que as Gestoras do Lar têm como função a manutenção da ordem doméstica. Até podia deixar de suscitar polémicas se fosse reconhecido o valor económico do trabalho destas gestoras silenciadas e se estas deixassem de ser consideradas como inactivas. Por conseguinte, esse reconhecimento implicaria uma remuneração pelos serviços prestados ao agregado familiar, bem como a garantia de uma pensão quando a idade transmitisse sinais de pele cansada de tanto labutar. Já que estou neste misto de utopias, posso também acrescentar que deveria ser criando um sistema de protecção e segurança social para essas mulheres, que lhes permitisse um tratamento especial em casos de acidentes de trabalho (como as queimaduras na cozinha, as escorregadelas no chão acabado de limpar, etc.). Por enquanto, vou ignorar o caso da violência doméstica contra essas mulheres, ou seja, violência em local de trabalho (!). Vou deixar de lado também o caso das chefes de família, bem como o papel crucial das mães...
Fico por aqui! Não quero divagar agora sobre as demais problemáticas que atingem especificamente a família cabo-verdiana.
Imagem: Nela Barbosa
A DOR DAS RAÍZES
30.8.07
Eurídice Monteiro

Sem querer
Cantas as tuas raízes
Escondidas entre as rochas
Maltratado pela angústia
Soluças o teu desconforto
Seco de tanto esperar
Protegido pelo muro da academia
Rodopias entre as luzes
Embutidas sobre prismas de escuridão
Mesmo xingando, gritando e fugindo
Para o teu próprio desespero
Palpitas esperança nas montanhas e nos vales
Eurídice
AFROBASKET
28.8.07
Eurídice Monteiro
“Bravos crioulos”, “novos heróis”, “grandes guerreiros”... Várias expressões têm sido (re)inventadas para classificar a atitude dos jovens cabo-verdianos no Campeonato Africano de Basquetebol, que decorreu em Angola (entre 15 e 25 de Agosto).Os nossos basquetebolistas deram um “show de bola” nesse campeonato, tendo conquistados o terceiro lugar. A aventura d’bronze tem sido aclamada no território nacional e na diáspora cabo-verdiana, sendo esta “o Pico de Antónia” na vida da selecção nacional no âmbito do Afrobasket.
Para além dessa honrosa classificação, dois atletas cabo-verdianos (Houtman e Rodrigo) foram incluídos na lista dos cinco melhores basquetebolistas africanos. Houtman foi ainda eleito o melhor lançador do Afrobasket2007. Para juntar ao Rodrigo, mais dois atletas cabo-verdianos (Houtman e Marito) foram escolhidos para trabalharem ao serviço de equipas angolanas.
Não podia ignorar a exibição da selecção angolana, que conquistou o nono título continental. Mas os meus olhares estão direccionados para o basquetebol cabo-verdiano, que avança a passos largos. Hoje, com a chegada da selecção ao país, haverá uma festança daquelas nunca dantes imaginadas.
Mesmo não tendo tido a disponibilidade para acompanhar os jogos, fui recebendo informações através de amigos/as e seguindo através de blogues e jornais online.
Aproveito também para deixar aqui os meus miminhos, abraços e beijinhos aos basquetebolistas cabo-verdianos, que deram o máximo para brotar mais um sorriso colectivo com assinatura da cordialidade cabo-verdiana.
BOKA-PORTU
26.8.07
Eurídice Monteiro

Aprendi a nadar na baia do Porto. Quando era pequena, fingia que era sereia. Gostava de subir à pedra-preta, mostrando apenas a minha metade humana. Desejava ter cauda para mergulhar no fundo do mar. O mar fazia parte das minhas fantasias!
Enquanto brincava de sereia, o meu mano Lindo (Monga para os amigos da bola) tentava aprender a pescar. Em Bosta Minhoto, ele quase descobriu o segredo dos pescadores: uma vez, capturou um “manelon”; outra vez, conseguiu enforcar um polvo.
O ponto auge da sua distinta carreira de menino-pescador, foi no dia em que esmagou uma moreia. Os anos passaram e a baia do Porto foi se tornando pequena demais para tantos sonhos. Fugi para terras distantes, procurando uma universidade de que costumava ouvir nas conversas do meu avô. E o meu mano desistiu da arte de pescar, procurando o futuro entre a Sociologia e o Direito.
...............
(Todas essas lembranças vieram-me à mente depois de esbarrar no Hi5 do meu mano, que me brindou com uma linda fotografia da baia do Porto. Mau fotógrafo! Se esse fotógrafo tivesse virado pelo menos 2cm à direita, eu contemplaria a casa caiada de branco, onde cresci.)
(Todas essas lembranças vieram-me à mente depois de esbarrar no Hi5 do meu mano, que me brindou com uma linda fotografia da baia do Porto. Mau fotógrafo! Se esse fotógrafo tivesse virado pelo menos 2cm à direita, eu contemplaria a casa caiada de branco, onde cresci.)
“AS NOVAS CRUZADAS”
19.8.07
Eurídice Monteiro
Ontem, a Néle Azevedo regressou da XIV Bienal Internacional de Arte de Vila Nova de Cerveira, tendo como tema “As novas cruzadas”, pensado no sentido de desafiar os artistas a fazerem uma analogia entre as antigas cruzadas e as novíssimas guerras. Este bienal começou no dia 18 de Agosto, sendo previsto decorrer até o dia 29 de Setembro do corrente ano.Impressionante, quase tudo me leva à São Miguel! Como sabem, 29 de Setembro é o dia de São Miguel Arcanjo, o padroeiro do meu concelho. Uma vez que São Miguel tem sido apresentado como o príncipe das milícias celeste, a data para o terminus da bienal parece que foi mesmo bem planeada.
A brasileira Néle Azevedo ficou conhecida pelo seu Projecto Monumento Mínimo, que já percorreu várias cidades e países. Esta artista adopta cada cidade como um cenário para a sua arrojada exposição, mostrando ao público diversificado as suas estatuetas de gelo. São figuras anónimas que se diluem na multidão em trânsito.
A(S) LÍNGUA(S)
19.8.07
Eurídice Monteiro
Depois do jantar, o Julião começou com a treta sobre a língua portuguesa. O sotaque da Andreia e da Néle não disfarçavam a diferença “portuguística” no espaço da CPLP. O João conteve-se e não entrou na discussão, mas tinha o Julião como o seu legítimo representante da Guiné-Bissau. Mas eu não podia ficar calada!...Lembrei-me logo do post no albatrozberdiano sobre a problemática da língua cabo-verdiana, melhor sobre o bilinguismo no meu país. Realmente, o debate sobre a(s) língua(s) merece ser aflorado e levado a sério pelos responsáveis directos no processo de afirmação da língua cabo-verdiana.
Nesta minha nota curta, quero realçar apenas duas questões que tentei introduzir na discussão com os/as meus/minhas amigos/as do Brasil e da Guiné-Bissau. Em primeiro lugar, a questão da geopolítica da língua. Pensando no quadro da “dita” CPLP, a questão do alfabeto unificado deixa-me com uma “pulga” atrás da orelha. Parece-me que torna-se necessário ter em atenção os jogos de poder(es) nesse espaço em que o português nos (des)une.
Em segundo lugar, o fenómeno da globalização. Comungo da ideia do Boaventura de Sousa Santos de que vivemos num mundo de globalização, como num mundo de localização. Por conseguinte, subscrevo integralmente a ideia do mesmo autor de que o global e o local são socialmente produzidos no interior dos processos de globalização e aquilo a que chamamos globalização é sempre a globalização bem sucedida de um determinado localismo. Portanto, se a globalização pressupõe a localização, então ao mesmo tempo que o uso do inglês se intensifica à escala global, faz todo sentido a afirmação da língua cabo-verdiana. Aceitar que é inútil o investimento na língua cabo-verdiana significa “sacrificar a diferença em nome de um princípio de assimilação”.
O teórico literário Walter Mignolo realça que, uma vez que as línguas não são algo que os seres humanos têm, mas algo que os seres humanos são, a colonialidade do poder e do saber veio gerar a colonialidade do ser. Com essa referência, quero frisar o direito e o dever que temos (refiro-me aos/às cabo-verdianos/as) de valorizar a língua cabo-verdiana, não só enquanto elemento cultural, mas também como veículo de produção de conhecimentos/saberes, mesmo que sejam (ou sobretudo porque são) os conhecimentos/saberes “catalogados” como tradicionais...
NEM AS LÁGRIMAS RESISTEM
19.8.07
Eurídice Monteiro
Quando acordei, o sol do meio-dia já se fazia sentir. Sem sair do meu quarto, sintonizei a RDP-África e abri o meu computer. Para a minha alegria ou tristeza, um email de Rui Machado tinha invadido o meu esconderijo-ciber, trazendo uma encomenda enfeitiçada. Deliciei-me até a última gota da melodia. Não podia resistir às mornas, algo que nem as lágrimas resistem!Pensando na diáspora da música cabo-verdiana, o projecto “Lisboa nos Cantares Cabo-verdianos”, coordenado por Rui Machado, aclama Lisboa como a capital da saudade, ou a capital da (décima) primeira ilha de Cabo Verde. Numa pesquisa instantânea sobre esse projecto, tropecei-me no mar...
De tantas saudades da baia de Achada Portinho, da praia da Batalha, de Bosta Minhoto e de Baxu-Ponta, não resiste-me a mergulhar com o B.Leza num Bejo de Sodade (“Onda sagrada di Tejo / Dixa’m bêjabo bô aga / Dixa’m dabu um bêjo / Um bêjo di mágua / Um bêjo di sodade / Pá bô lêvá mar / Pá mar lêvá nha terra” [...]).
AS DUAS CAMAS
17.8.07
Eurídice Monteiro
Eram quase 17:30mn, fui andando pela calçada até a Avenida Dias da Silva. Virando à esquerda, encostadinha na minha segunda casa (a minha faculdade de sempre), fui caminhado no silêncio da cidade. Em vez de seguir para a rua Luís de Camões, esquivei pela esquerda e, ainda sempre à esquerda, avistei a Casa-Museu Miguel Torga, que estava escondido no fundo da Praceta Fernando Pessoa (nº 3).Entrei pela meia-porta e segui em frente até ao jardim. Fiz uma volta 180º e, pela porta lateral, vi uma distinta senhora de cabelos cor d’oiro. Entrei com a minha atenção redobrada e, desde o hall de entrada, fui sendo confrontada com objectos pessoais de Miguel Torga. Esta casa onde vivia o escritor, recheada com objectos rústicos (artisticamente lapidados) como se fossem feitos de pau-brasil, guarda o espírito da escrita. Até parece que fertilizou a minha imaginação!
Foram instantes de muita admiração pelos objectos pessoais e pelo acervo documental do escritor (bibliografia activa, bibliografia passiva, artigos de imprensa, poemas manuscritos e dactiloescritos).A surpresa maior (estranha mesmo!) foi quando entrei no quarto de casal, quer dizer no quarto onde o escritor dormia com a sua esposa. Para meu espanto haviam duas camas individuais, separadas por uma mesa-de-cabeceira. A distinta senhora de cabelos cor d’oiro disse-me sorrindo que ter duas camas individuas em quartos de casais podia ser normal na “época”... Fiquei a pensar, com tamanha estranheza: 1) Mas em pleno século XX num Portugal contemporâneo? 2) E o terrível frio de Coimbra quando se inverna? 2) Talvez, o escritor não gostava de cotoveladas!...




