PARABÉNS AO MESTRE

Nasceu no dia quinze de Novembro, do ano de mil novecentos e quarenta, em Coimbra. Hoje, é conhecido como sociólogo, professor universitário (professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e professor convidado na Universidade de Wisconsin-Madison), poeta e activista. Através do Centro de Estudos Sociais por ele dirigido, tem vindo a se afirmar como um dos principais intelectuais da área de Ciências Sociais, com mérito internacionalmente reconhecido.

Deixo aqui neste esconderijo, um especial abraço ao meu amável professor e orientador BSS (Boaventura de Sousa Santos), cujo trabalho representa uma forte influência na minha vida académica e pessoal. Mais uma vez, aquele agradecimento por tudo o que com ele tenho vindo a aprender e a (re)descobrir.

SUJEITOS ACTIVOS


No dia 16 de Novembro, pelas 18:30 mn, no Hotel Trópico (Praia, Cabo Verde), será apresentado o livro Género e Migrações Cabo-verdianas, organizado pelas investigadoras: Marzia Grassi (Economista do Desenvolvimento, Investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e autora de Rabidantes: Comércio Espontâneo Transnacional em Cabo Verde) e Iolanda Évora (Psicóloga Social e Investigadora do Centro de Estudos sobre África e do Desenvolvimento do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa).

Nesta colectânea, composta por textos de um conjunto de especialistas internacionais sobre as migrações contemporâneas, a diáspora cabo-verdiana é analisada numa “perspectiva de género”, frisando a trajectória migratória do povo das ilhas. Como realçam as organizadoras desta coletânea, a pertinência do “género” na compreensão da cultura cabo-verdiana prende-se grandemente com a posição que as mulheres assumem na estrutura familiar da nossa sociedade, que lhes atribuem a responsabilidade para o sustento e a reprodução do agregado, sendo que as mulheres migrantes levam consigo esta responsabilidade para as sociedades de acolhimento. Nos diversos estudos de caso incluidos nesta coletânea, as mulheres são vistas como sujeitos activos, que adoptam diferentes estratégias de integração na diáspora cabo-verdiana.

A apresentação estará a cargo do Doutor Gabriel Fernandes (especialista em Sociologia Política e autor de A diluição da África: Uma Interpretação da Saga Identitária Cabo-verdiana no Panorama Político (Pós)colonial e de Em Busca da Nação: Notas para uma Reinterpretação do Cabo Verde Crioulo).


Organização da Colectânea

Introdução
Marzia Grassi e Iolanda Évora

Capítulo 1
Cabo Verde pelo Mundo:
o género na diáspora cabo-verdiana
Marzia Grassi

Capítulo 2
«Minha gente, minha terra»:
as atribuições sociais do papel de emigrante
Iolanda Évora

Capítulo 3
Badiu na Galiza:
mar di homi, tera di mudjeres
Luzia Oca Gonzaléz

Capítulo 4
As mães e os seus filhos dentro da plasticidade parental:
reconsiderando o patriarcado na teoria e na práica
Isabel Fêo Rodrigues

Capítulo 5
Nem homens, nem mulheres, só contratados.
Apontamentos sobre relações de género entre cabo-verdianos
nas roças de São Tomé e Príncipe
Augusto Nascimento

Capítulo 6
Tão longe e tão perto.
Emigração feminina e organização familiar:
Boa Vista (Cabo Verde)
Andréia de Souza Lobo

Capítulo 7
Mulheres que ficam e mulheres que migram:
dinâmicas duma relação complexa na ilha
de Santo Antão (Cabo Verde)
Martina Giuffrè

Capítulo 8
O papel da independência, da emigração e da World Music
na ascenção ao estrelato das mulheres de Cabo Verde
JoAnne Hoffman

AZÁGUA


A sementeira era uma actividade presente na vida da população boka-portuense. Os mais-velhos e as mais-velhas acreditavam que havia de chover, dando milho em abundância para que o país não voltasse a padecer de fome. Sabiam como o país dependia do milho semeado. Por isso, aguardavam com ansiedade a vinda da chuva e alegravam-se quando ouviam notícias de terra molhada nos arredores da Serra de Malagueta.

Os mais-jovens e as mais-jovens (menos crentes!) não depositavam esperança na chuva, nem tinham memória dos tempos famintos vividos nas nossas ilhas. Pronto, havia o Dota com as suas estórias sobre a fome de ´47. O Dota contava que ele resistiu à fome por causa de três grãos de milho cozidos em cinza quente. As suas mãos até tremiam, quando ele relatava as suas memórias de (sobre)vivência.

BOKA-PORTU (registos quase-esquecidos)

(Coimbra, 7 de Novembro de 2007)

Hoje, acordei com uma sensação esquisita. Não sabia se eram os excessos de saudades, ou se eram apenas os efeitos das noites mal dormidas. Quando me levantei da caminha, sintonizei a RDP-África. O meu diário cor-de-rosa continuava aberto, na mesma página que deixei antes de adormecer. Estiquei o meu braço esquerdo e apanhei-o para (re)ler os registos sobre a minha infância-juventude na pequena aldeia onde nasci.

Apetecia-me reescrever algumas linhas sobre a Calheta da minha infância. Como devia recomeçar? Era uma vez... Assim, não me agradava! Pensando um pouco na forma como devia reescrever os registos do meu diário, acabei por decidir que o processo de reescrita seria mais elaborado se eu estivesse sentada na praça do Porto, com a cara virada para o mar. Comecei a rever as gentes, a sentir a brisa do mar, a dançar na areia... Lembrei-me de que...

Calheta ficou conhecida pelo seu Porto, registando as estórias dos barcos que passavam no alto mar e de alguns que se encalhavam na baía rasa. O mar fazia parte da vida das pessoas deste pequeno povoado. Até houve canções de homens aclamando para que a água do mar se transformasse em singuelu (desculpem o anacronismo!), com a intenção de se transformarem em peixes. Em vez de um copinho aqui e um copinho ali, os homens preferiam mergulhar no fundo do mar para verem sereias.

Ao registar estas linhas, lembrei-me da canção do Gil d’Jóia: “si agu-mar bira grogu, ma Gil d’Jóia ta bira pexi”. O nho Donda preferia as anedotas, os provérbios e os pensamentos marotos: “raxa, cosi; duspi, deta (!)”. Já o Biaricá não era para brincadeiras, atirava palavrões sempre que se atropelava na sua muleta. Ninguém esquece esse coxo que se conseguiu aguentar firme até aos 110 anos. Deve ter comido muita katchupa. Acho que sim!...

Na sua lancha e a remar, os pescadores iam ao mar. Sozinhos ou acompanhados, iam buscar peixes para o sustento da sua família. Muitas vezes, voltavam com a lancha vazia, mas não desistiam de ser pescadores. Consolavam as suas tristezas com um groguinho e partilhavam as suas angústias com os homens que desciam à boka-portu. Também não havia muitas alternativas. As alternativas mais palpáveis eram a agricultura e a pastorícia. Como chovia pouco, mesmo essas alternativas não eram bem vistas pelos pescadores. Un linguadu o un bidion animava qualquer pescador. Dava para fazer un caldu-pexi o da gostu na katchupa e a família confortava-se com o pouco que havia. Ás vezes, o facto de encontrar a isca para a próxima pesca era motivo para animar os pescadores. O Cabiote conhecia a vida-no-mar melhor do que ninguém. Ele sabia como era difícil voltar de mãos vazias, vendo a Nhambina a soprar o lume e não sabendo o que dizer para plantar um sorriso na cara da esposa...

Os pescadores conseguiam perceber o estado do tempo através do som das ondas. Então, quando pensavam que o tempo não ia ser bom, preferiam ficar em casa. Alguns iam ajudar a esposa na sementeira ou a resolver alguns problemas domésticos. Outros preferiam ir ao Porto para jogar conversa-fora.

No Porto morava a elite da época, voltada para o comércio. Então, os pescadores sentavam na praça à sombra das tamareiras, depois de beberem na loja do Sr. Olímpio ou do Sr. Vicente Luciano. No pelourinho, encontravam sempre algum bafiu. Falando no Porto, não podia deixar de referir ao sobrado do Sr. Velhinho. Este sobrado guardava muitos mistérios do Porto. Hoje, ninguém comenta, mas suponho que está assombrado! Nas minhas brincadeiras de infância, nunca tive a coragem de me esconder nos quartos escuros deste sobrado quase abandonado...

Quando havia temporal, seguido de chuva, se houvesse pescadores no alto mar, a população ficava preocupada. Não sei se sabem, mas na Calheta chuva era mesmo só no mar. Lembro-me do Cabiote a regressar do mar com a cara preocupada, anunciando que chovia no mar... Todos os anos, a população boka-portuense lamentava a falta de chuva: “boka-portu ka ta txobi”. Só de quando em vez, chovia para o desespero dos pescadores, que tinham de adiar a ida ao mar; também para a despesa das peixeiras, pois tinham que ir ao Tarafal ou à Santa Cruz comprar peixes para venderem. Os agricultores enchiam-se de esperança, embora se desiludissem com o tardar do regresso da chuva. Para as criancinhas, a vinda da chuva era uma maravilha: tomavam banho-de-chuva, aproveitando para jogar à apanhada e outros jogos. Quando o campo se cobria de verde, os miúdos/jovens pastores começavam a desfilar com o seu rebanho...

CLARA SPENCER


Clara Spencer acabou de regressar de Cabo Verde, após cinco meses de pesquisa empírica sobre o programa de luta contra a pobreza a nível comunitário (na ilha de São Nicolau). Esta temática tem ocupado o centro da atenção desta jovem investigadora cabo-verdiana, que se encontra a preparar a sua Dissertação de Mestrado em Sociologia, aqui na Universidade de Coimbra.

Hoje, fui lanchar na casa da Clarinha, que trouxe coisas da terra para adocicar a minha imaginação. Eu, a Clarinha, a Eloisa (de São Nicolau) e a Joana (de Santo Antão) passamos o final da tarde a jogar conversa fora sobre o nosso país. Com o cair da noite, fomos espreitar as fotografias que a Clarinha conseguiu sacar durante o seu trabalho etnográfico. Os gestos, o sorriso e a musicalidade, perceptível em cada fotografia, (re)desenhavam na minha face a terrível saudade e uma vontade enorme de regressar à casa.

Parece que os dias não passam. Tudo na minha frente mais não é do que uma neblina ardilosa. Esta cidade não é minha. Este lugar não me pertence. Conto os dias que me faltam para dormir na minha cama, mergulhar os meus pés na areia da minha ilha imaginada, ver o Porto da minha varanda, abraçar as minhas gentes, etc. São apenas as saudades, a eterna dor do povo das ilhas...

ESPUMA DOCE E SUCULENTA

O que dizer? Contra a poesia não há argumentos! Vou imprimir num papel perfumado para recordar o nosso primeiro olá, naquele final de tarde, numa estação quase perdida... No cambar da noite, os meus olhos (com sabor a melancolia) diziam coisas que só o poeta entendia.

Que mulher não gostaria de ser a ninfa da inspiração do poeta?... Noutros tempos, eu pedia às ondas do mar que trouxessem o poeta para o meu regaço e que este malandro/mentiroso/misterioso com tanta mestria-poesia me roubasse um beijo. O poeta mente. Eu sei! Porém, a mentira do poeta é espuma doce e suculenta!

...O nosso jantar ficou registado para mais tarde recordarmos. No livro de poemas (frutas), guardo carinhosamente as flores do artista, outro ser manhoso que teima em deslizar as suas mãos pela imaginação transportada numa tela. O sorriso da tia e a meiguice dos meninos continuam escondidos no meu peito...

AFINAL, QUEM ERA BADIA? (II)


...era aquela que nos seus olhos, espelhos,
me dizia coisas tatuadas no seu corpo,
moldado pelo tempo

nas suas tranças emaranhadas,
quão enredo viçoso,
tecia o dia e a noite

os seus pés desfolhavam,
sangrando para fertilizar a terra,
e no lodo redesenhavam novos caminhos

o batuque era a voz do seu silêncio,
entoado com o cair da chuva,
que iluminava a sua doce negrura
-----------[entre um passado longo e um presente tardio...

Eurídice

Imagem: Tony Barbosa

NÃO ERA BADIA (I)

Não tinha olhos arredondados
Nem cabelos crespos feito tranças
Nem tinha pés encrostados

A sua koxa não conhecia a sulada
Não sentia o som do batuque
E nem se enchia de alegria por ver a chuvada

Eurídice

A ILHA DA BATALHA


num cutelo raso
cercado pelo mar
provei o luar

cresci na Ilha da Batalha
batalhando ao sabor da maré
tão ingrata quanto a chuva

para trilhar caminhos incertos
apoderei-me da espada de Miguel
espetando firme na terra salgada

percorri mundos distantes
conheci gentes estranhas
escrevi poemas de saudades

Eurídice

SUJEITOS HISTÓRICOS


Tenho entre as minhas mãos um livro da historiadora portuguesa Maria Alice Samara (Operárias e burguesas: As Mulheres no Tempo da República), que evoca as mulheres enquanto sujeitos históricos. Neste livro, a autora apresenta a biografia de algumas mulheres que, no final do século XIX e princípios do século XX, iniciaram uma dura e longa batalha pela sua emancipação e igualdade a nível social, político e cultural no contexto português.

Entre as mulheres biografadas, importa realçar três delas: Domitila de Carvalho, a primeira mulher a entrar na porta férrea da Universidade de Coimbra; Maria-Rapaz, a mulher que se fez passar por homem para conseguir melhores condições de vida; Carolina Beatriz Ângelo, a primeira mulher a votar em Portugal.


Exemplo

“Carolina Beatriz Ângelo (médica, lutadora sufragista e fundadora da Associação de Propaganda Feminista) foi a primeira mulher a votar em Portugal, embora vivesse num país em que o sufrágio universal só seria instituído passados mais de sessenta anos, ou seja, depois do 25 de Abril de 1974.

O voto depositado nas urnas para as eleições da Assembleia Constituinte, em 1911, pela médica Carolina Beatriz Ângelo, constitui um episódio deveras exemplar de luta pela cidadania e pela emancipação da situação das mulheres em Portugal, numa altura em que o direito de voto era reconhecido apenas a ‘cidadãos portugueses com mais de 21 anos, que soubessem ler e escrever e fossem chefes de família’.

Invocando a sua qualidade de chefe de família, uma vez que era viúva e mãe, Carolina Beatriz Ângelo conseguiu que um tribunal lhe reconhecesse o direito a votar (à revelia) com base no sentido do plural da expressão ‘cidadãos portugueses’ cujo masculino se refere, ao mesmo tempo, a homens e a mulheres.

Como consequência do seu acto, e para evitar que tal exemplo pudesse ser repetido, a lei foi alterada no ano seguinte, com a especificação de que apenas os chefes de família do sexo masculino poderiam votar.

Carolina Beatriz Ângelo foi assim, também, a primeira mulher a votar no quadro dos doze países europeus que vieram a constituir a União Europeia (até ao alargamento, em 1996).” [http://www.mulheres-ps20.ipp.pt]

DORIS LESSING - NOBEL DA LITERATURA


A escritora Doris Lessing foi galardoada com o Nobel da Literatura, após um percurso que registou o seu nome na escrita do século XX. Aos 87 anos de idade, esta escritora (marcadamente feminista, embora não se reconheça como tal) é a décima primeira mulher a receber o Nobel da Literatura.

Mulheres Premiadas com o Nobel da Literatura
1909: Selma Lagerlöf, Suécia;
1926: Grazia Deledda, Itália;
1928: Sigrid Undset, Noruega;
1938: Pearl Buck, Estados Unidos da América;
1945: Gabriela Mistral, Chile;
1966: Nelly Sachs, nascida na Alemanha e radicada na Suécia;
1991: Nadime Gordimer, África do Sul;
1993: Toni Morrison, Estados Unidos da América;
1996: Wislawa Symborska, Polónia;
2004: Elfriede Jelinek, Áustria;
2007: Doris Lessing, Pérsia/Irão.

CHE GUEVARA

(14 de Junho de 1928 – 9 de Outubro de 1967)

"REINO MARAVILHOSO"


Na onda das comemorações do centenário do nascimento de Miguel Torga, O Teatrão tem em cena o espectáculo “TerraTorga”, até 17 de Novembro, no Museu dos Transportes (em Coimbra). Baseando na escrita de Miguel Torga, a encenação sensorial apela à descoberta de um “reino maravilhoso”, que o escritor identifica com Trás-os-Montes (a sua terra natal)...

SEXO SEGURO

O HIV/SIDA tem atingido brutalmente o continente africano. No contexto cabo-verdiano, os dados disponíveis mostram que a taxa de prevalência deste flagelo tem vindo a crescer significativamente. A principal via de transmissão tem sido a sexual, sendo imprescindível a sua prevenção (nomeadamente através do uso de preservativos).

Tod@s por uma saúde sexual responsável!...

…E AS MULHERES

Estava a pensar no amor, nessa palavra mágica que transforma tudo o que em nós habita... Dessa vez, peguei no poema Entre os Lagos da angolana Ana Paula Tavares. Realmente, essa poetisa fala de “coisas amargas como os frutos”.


Entre os Lagos

Esperei-te do nascer ao pôr do sol
e não vinhas, amado.
Mudaram de cor as tranças do meu cabelo
e não vinhas, amado.
Limpei a casa, o cercado
fui enchendo de milho o silo maior do terreiro
balancei ao vento a cabaça da manteiga
e não vinhas, amado.
Chamei os bois pelo nome
todos me responderam, amado.
Só tua voz se perdeu, amado,
para lá da curva do rio
depois da montanha sagrada
entre os lagos.

Ana Paula Tavares
(in Dizes-me Coisas
Amargas como os Frutos
)


Revendo o Namoro de Viriato da Cruz, vejo Entre os Lagos da Ana Paula Tavares como uma das possíveis “respostas” ao poeta angolano da geração anterior. Com elegância e sensualidade, essa poetisa traz a voz de uma mulher que, ansiosamente, sofre à espera do seu amado. A poesia da Ana Paula Tavares surge num contexto em que, até há pouco tempo, a voz feminina não era escutada, quer porque não possuía condições-de-pronunciação, quer porque era silenciada.

AMOR, PAIXÃO...

Normalmente, costumo ler um poema antes de dormir. Ontem, depois da minha navegação nocturna na blogesfera, senti uma tremenda vontade de reler o Namoro de Viriato da Cruz. Que poema lindo de morrer! Acredito que já não se fazem homens como antigamente.


Namoro

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com a letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando de artista
-------------------------[nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas.
Sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seu seios, laranjas - laranjas do Loge
seus dentes... - marfim...
--------------Mandei-lhe essa carta
--------------e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
--------------E ela o canto do NÃO dobrou

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
--------------E ela disse que não.

Levei à avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
--------------E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficámos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbado, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
" - Não viu... (ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.

Para me distrair
levaram-me ao baile do sô Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso às moças mais lindas do Bairro Operário.

Tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí, Benjamim!"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.

Viriato da Cruz
(
in Antologia Temática de
Poesia Africana I
)


Não é lindo a imaginação poética de Viriato da Cruz?... Viriato, onde estás tu? Reencarna numa estrela e ilumina as noites poéticas cá na terra!

UM MERECIDO DESCANSO

(sábado e domingo, 29-30 de Setembro)

O dia acordou com vontade de chorar. As previsões indicavam sinais de chuva no interior de Portugal. Mesmo assim, depois de uma manhã de exercício auto-biográfico num seminário de Estudos Feministas, segui para Oliveira do Hospital com a Ana Paula, que me instigou a não registar no meu diário as suas qualidades ao volante. Por volta das 14h, estacionamos em Santa Ovaia, uma pequena aldeia portuguesa.

Quando cheguei, fui recebida com o afago de sempre. Entretanto, importa realçar que cheguei num momento sensível para a minha família oliveirinha: a avó queixava-se de uma das pernas; a filha preparava-se para o início da sua aventura universitária (tal como o irmão, ela sempre ambicionou estudar em Coimbra); o filho recém-licenciado parecia animado com o Peugeot 308, acabadinho de ser apresentado pelo concessionário Automóveis do Mondego; o pai aguardava o Benfica-Sporting, mas orientava as nossas conversas sobre o sistema judicial português; a mãe de lindas madeixas estava preocupada com as mudanças por que passava a família, mas aproveitava sempre para atestar o meu paladar. O jime, um novo membro da família, não me conhecia, mas tão cedo parou de latir.

Depois do almoço, da habitual ida ao café e de uma volta em Oliveira do Hospital, apanhamos a auto-estrada para Figueira da Foz. Portanto, fizemos marcha-atrás no percurso que eu tinha acabado de trilhar. Observamos o desfile dos gigantes eucaliptos, animados pelas entoações de Rui Veloso. Na praia de Buarcos, vimos o cair da chuva no mar, a fúria das ondas, os sinais de relâmpagos, as gaivotas na areia... Com insistência, alguém repetia um conhecido provérbio: “gaivotas em terra, tempestade no mar”. O cemitério frente ao mar foi o que mais me surpreendeu. Fui informada que a vila guarda a memória de trágicos naufrágios. Depois rodeamos para Figueira da Foz, onde não recusamos um delicioso gelado. Com o cair da noite, deslizamos para a Santa Ovaia.

Queria galgar a Serra da Estrela, mas o mau tempo que se fazia sentir atrapalhou os meus planos. Acabei por ficar pelos arredores da Santa Ovaia. Tive a oportunidade de avistar: a Vila de Avô; a Aldeia das Dez; a Vila Pouca da Beira. Fiquei muito emocionada com a Vila de Avô, banhada pelo rio Alva e depositária de um castelo medieval. Esta vila tem sido apresentada como a terra do poeta-guerreiro Brás Garcia Mascarenhas e onde viveu o médico-poeta Vasco de Campos... No domingo, voltei para Coimbra com a vontade de regressar à Varanda de Avô.

MONDEGO


(sexta-feira, 28 de Setembro...)

Fui ao Mondego, na companhia de um amigo francês. A noite estava perfeita, vislumbrando um céu limpo, no qual a lua solitária vagueava. O ar puro engendrado pelo Parque Verde do Mondego refrescava a minha imaginação, trazendo mantenhas das brisas húmidas nas noites de boka-portu. Confesso que as águas do rio abrandaram as minhas saudades do mar, mexendo nas lembranças engraçadas da minha infância, não muito distante…

BUGANVÍLIAS

Acordei a pensar nas Buganvílias, num jardim invadido pelas buganvílias. Abracei o poema da Vera Duarte sobre as “Buganvílias Lilazes”. Procurei O Sangue da Buganvília da Ana Paula Tavares, mas não encontrei. Pesquisei imagens no gogle e roubei uma para brindar os/as visitantes deste “blogville”.



Faz hoje dois meses de dissecações, de partilhas e de emoções neste esconderijo poético para uns e académico para outros... Pelos emails que tenho vindo a receber, o post sobre “Boka-Portu” e o pequeno poema “A Dor das Raízes” foram os que mais agradaram os/as cibermergulhadores/as. Agradeço a tod@s, por esses dois meses de imaginação poética, sociológica e filosófica...

SIRA BA

Na Casa Municipal da Cultura, aqui em Coimbra, ainda está a decorrer uma exposição de fotografias sobre Timor Leste, intitulada “Sira Ba” (por eles/elas ou eles/elas por). As fotografias parecem representar a ansiosa esperança do povo timorense. Foi essa a sensação com que fiquei depois de ter visto: a linda fotografia do pôr-do-sol, guarnecendo o deslizar das ondas na face da areia negra aureolada; a praia do Cristo Rei; a multidão de bandeira içada; a serenidade da vendedeira de banana, manga e outros frutos que mal conheço; a palidez dos militares australianos, (teimosamente) perpetuando num território que almeja a liberdade; o sorriso das crianças inocentes, esperando o futuro que tarda a chegar... E o que parece ser um simples acto de votar ilustra o desejo sublime da implantação de um sistema soberano sustentado pela vontade do povo...

MODELOS POR UM DIA...

Na sexta-feira, estive a vasculhar o meu ficheiro de fotografias e lembrei-me da campanha pela despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez, em Portugal. Por várias razões, eu só podia abraçar o movimento “Cidadania-Responsabilidade”. Portanto, estive do lado do SIM.



A “não te prives”, uma associação coimbrã, convidou um grupo de jovens investigadoras/estudantes activistas pelos direitos das mulheres para participarem no cartaz de campanha, em Coimbra. Ponderando um pouco, acabei por aceitar. O mais engraçado (embora muito difícil!) foi posar para o fotógrafo. Ele só queria um retrato meu. Até que fiz boa figura. Mas os meus olhos tristes? O poeta disse que são olhos sonolentos. Na falta de alternativas animadoras, preferi acreditar na teoria do poeta.

FEMICÍDIO

Nesta terça-feira (18/09/2007), na Quinta da Portela, um jovem de 23 anos assassinou brutalmente aquela que era a sua namorada. A jovem degolada tinha apenas 20 anos de idade. Ambos frequentavam o curso de Engenharia Civil, na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC). Como seria de esperar, a juíza do Tribunal de Instrução Criminal de Coimbra aplicou a medida de coacção mais pesada ao jovem homicida: prisão preventiva.

Este acontecimento trágico, que tanto envergonha a comunidade universitária coimbrã, foi abordado com consternação na cerimónia de abertura oficial do novo ano lectivo, tanto pelo Reitor da Universidade de Coimbra (Doutor Seabra Santos), como pelo Presidente da Associação Académica de Coimbra (Paulo Fernandes). Em vez de remeter para o silêncio, este episódio tresloucado chama a atenção para a necessidade de questionar a “violência” aqui nesta universidade secular e cosmopolita (certos gestos ligados à praxe académica, a agressão frequente entre casais de namorados, etc.).

HIGIENE MENTAL

Estou muito ansiosa! Tem sido complicado aguentar os dias nesta cidade distante (distante da minha terra, distante da minha gente e distante de mim própria).

Ainda não fui de férias... Entretanto, tenho ainda que despachar mais algumas coisitas antes de usufruir de uns diazitos de férias. Não terei muito tempo!

Preciso descobrir um esconderijo e passar um fim-de-semana com o silêncio (sem livros, sem computador, sem telemóvel). Apenas preciso de breves momentos de contemplação, descanso total, desfrute das maravilhas que a natureza oferece sem malícia. Tendo em atenção a minha disponibilidade momentânea, pensei em três alternativas:

- (praia de Mira) deliciar-me-ia a mergulhar no fundo de uma piscina verdazul, intervalando com mergulhos em água salgada.

- (Oliveira do Hospital) aventurar-me-ia a subir a Serra da Estrela ao sabor do vento. E, lá no cimo da montanha, gritar “Obikueluuuuuuuuuu” (só para escutar a voz que vem de dentro).

- (Alentejo) observar o azul do céu estampado, sentir o calor do sol, contar estórias para as estrelas... Satisfazer-me-ia uma casinha abandonada na redondeza alentejana. Uma porta para entrar e outra para sair. Pois, “janelas para quê?”...

Em todas essas possibilidades reais, o que me acalma mesmo é a doçura do pôr-do-sol.

UMA SINGELA ENCOMENDA

(sexta-feira, dia 14 de Set, 19h42...)

Tive uma semana muito difícil... Entretanto, acabei de chegar ao meu esconderijo mágico e encontrei uma encomenda da Nancy T: Navega de Mayra Andrade, com um especial autógrafo. Gostei dos sonhos, do carinho e da mulher! Gostei demais...

Ouvi cada tema do álbum com ternura. No seu todo, o álbum revela a delicadeza, voluptuosidade, exuberância e serenidade da doce jovem cabo-verdiana. Dos temas (en)cantados, “lua” e “navega” prendem a minha concentração. Há algum tempo que ando de mãos dadas com o tema “lua”, especialmente nas noites em que transformo-me na Lua e vagueio no silêncio da madrugada. Por sua vez, o tema “navega” leva-me a (re)imaginar o meu porto, versejando a mulher-de-pescador à espera do barquinho...

...Promessa feita: quando a Lua apresentar ao seu cutelo, haverá “lua”...

RAGAZZA CON OMBRELLO


Gostei do postal, motivo que me levou a visitar o esconderijo ciber da Barbara Berardicurti... Mais um postal, desta vez de uma italiana, anima o meu espaço de ReivindicAção.

O MITO BERDIANO

Acordei com os dedos tremendo, com uma enorme vontade de registar alguma nota sobre esse dia, que reaviva o mito do povo berdiano. Desde pequena, eu ouvia dizer que esse povo resultou do caldeamento de raças e culturas. Como o mundo cabia nas minhas mãos, eu pensava que, a panela tripé da mamãi Dinora (cheia de tisna), tinha ajudado a misturar os europeus e as africanas...

Sempre encontrei justificação para as minhas idiotices de infância. Em relação ao surgimento do povo berdiano, concentrei a minha atenção na panela tripé entisnada. Eis que me ocorreu a ideia de que essa panela tripé entisnada podia simbolizar a mãe negra na rota da escravatura (América, Europa e África). Foi uma explicação que encontrei!...

No dia 12 de Setembro de 1924, nasceu aquele que viria a lutar para que a mãe negra tivesse voz, despertando do sono profundo causado pela opressão colonial. Amílcar Cabral!!! O herói do sonho berdiano. Cabral nasceu no solo guineense, sendo filho de pais cabo-verdianos. Essa ligação umbilical pode ser avançada como um dos argumentos justificativos da sua vontade de levar avante uma luta de libertação bi-nacional (Guiné e Cabo Verde).

Como reza a mitologia berdiana, Cabral fez os seus estudos primários e secundários em Cabo Verde. Em 1945, recebeu uma bolsa para frequentar os estabelecimentos de ensino superior em Portugal e matriculou-se no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa...

Em 1956, juntamente com outros colegas, Cabral fundou o Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC). De 1956 a 1973, altura em que foi assassinado, Amílcar Cabral (pseudónimo de guerrilheiro: Abel Djassi) lutou pela libertação da Guiné e Cabo Verde...

O povo berdiano ainda canta: “Kabral ka morrê”. E espera o eterno amanhecer...

 
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