Simone de Beauvoir


Simone de Beauvoir nasceu a 9 de Janeiro de 1908 e morreu a 14 de Abril de 1986, na sua terra natal (Paris, França). Apesar de ter sido filha de uma família burguesa, afastou-se do reino inventado pela burguesia, preferindo adoptar um estilo de vida mais humilde. Teve um percurso académico brilhante, tendo conquistado sempre as melhores classificações.

Ficou conhecida como filósofa existencialista, escritora e feminista. Na sua obra, destaco o livro O Segundo Sexo (1949), onde Simone de Beauvoir analisa o papel das mulheres na sociedade, afirmando que “não se nasce mulher, torna-se mulher”. Esta constatação marcou a sua geração profundamente, tendo influenciado a segunda vaga feminista (entre a década de sessenta e oitenta).

No ano de 1929, na Sorbonne (antiga Universidade de Paris), conheceu o seu Jean-Paul Sartre (filósofo francês). A vida amorosa de Simone e Sartre ficou marcada por “uma relação aberta”, incluindo experiências amorosas com terceiros. Ambos ostentavam as suas liberdades individuais, defendendo também uma vida conjugal saudável.

Neste centenário da Simone de Beauvoir, as mais conceituadas feministas internacionais prestam homenagem à ícone do feminismo, sendo de destacar: Élisabeth Badinter e Julia Kristeva. Ainda, em Paris, entre 9 e 11 deste mês, decorrerá um Colóquio Internacional, intitulado Centenário do Nascimento de Simone de Beauvoir, organizado pela Julia Kristeva.

2008... com oito coisas banais


Nunca acreditei em superstições, mas não custa nada levar em consideração o calendário chinês, que considera oito como sendo um número com muita carga positiva. Por isso, esperei por esse dia para desejar a tod@s um feliz 2008, com oito coisas banais: saúde, sossego, cordialidade, sorrisos, fantasias, música, poesia e amor.

São Miguel

(Flamengos e Calheta, 25 de Dezembro de 2007)

Depois da ceia de Natal em Assomada, de conviver com uma boa parte da minha família paterna, de rever @s velh@s amig@s e do resfriado febril, acordei e segui viagem para o concelho de São Miguel. Antes fiz uma pausa em Flamengos. Andei um pouco, conversei com um senhor da povoação e fiz pequenas anotações. Em seguida, fui até a residência de Figuinho Freire. O meu amigo Filomeno ainda não tinha chegado. Esperei um pouco... Pouco depois, ouvi a voz do Filomeno... Conversei com Figuinho Freire, aproveitando para fazer perguntas sobre antigamente. Não quis recusar o almoço, mas facilmente encontrei uma justificação plausível: “é Natal, a família está à minha espera”.

Com os pés na estrada, continuei a minha viagem e, perto do meio-dia, pisei na minha Calheta. Dei uns beijinhos numas amigas (especialmente, a minha velha amiga Txuka d’Apunina), antes de retomar o caminho de casa. Quando coloquei os pés em casa, o almoço já estava pronto e a família residente na capital estava presente. Faltavam a mamãi Dinora e o papai Yoto, os pilares da família. Queria ver o papai a escutar o Luís Morais, usando o velho gira-discos; queria saborear o doce d’papaia da mamai, feito três dias antes da noite de Natal... Ninguém dizia-me nada! Silêncio apenas... Depois do almoço, a casa esvaziou-se. Começou a pairar um profundo silêncio, maior do que o mar que estava à minha vista. Entrei pelos quartos, abri os armários, fui ao quintal... Apercebi-me de que a casa estava vazia. Fui à varanda, estiquei-me para ver o Porto e caiu sobre mim o vazio: já nem tinha o avô Raúl, o meu último samorai...

De repente, o meu mano Lindo regressou de um curto passeio para retomar o seu papel de protagonista do filme: Sozinho em Casa. E arrumei a minha mochila, embora pouco segura de que tinha energias para continuar a viagem...

Santa Catarina

(Assomada, 24 de Dezembro de 2007)

No dia 24 de Dezembro, estava ainda indecisa quanto ao local onde ia passar a noite de natal. A minha prima Janine apresentou uma lista de argumentos a favor de uma noite de natal em Assomada. A Chuna acrescentou mais argumentos, realçando que quase toda a malta do Liceu estava em Assomada: Gi, Ed, Gaby, Gerson, Filó, Elsio, Ângelo, Pija, Wilson, Jiverson, Belo e Ivandro. Claro, também: a Chuna, a Janine e eu. Então, tomei a minha decisão, pensando em Assomada Nocturna de N’Ze di Sant’y ÁGu. E, pouco depois, a Chuna disse-me: “o Marco já voltou”. E eu: “o Marco está aonde?”... Fomos ao encontro do Marco Paulo Varela. E lá estavam mais outros colegas do Liceu, incluindo o Ivandro Pires, no futebol de sempre. Antes de relatar o meu reencontro com o Marco e o Ivandro, vou voltar para o nosso primeiro encontro.

Numa manhã qualquer de Outono, quando caminhava para o antigo Liceu de Santa Catarina (actualmente, designado por Liceu Amílcar Cabral), vi aquele rapaz delgado seguir ao lado de um outro rapaz mais baixinho. Eram o Marco e o Ivandro. Passando meses, recebi uma convocatória do Já Pixoka para a participação numa reunião, no salão do Liceu. Fui para a tal reunião. Quando lá cheguei, encontrei o Marco e o Ivandro. Estavam a falar na criação da Comissão de Finalistas 2000. Da minha turma (11º ano, Es3), o Já Pixoka e a Eneida estavam por dentro do assunto. No final da reunião, mais oito pessoas da turma aceitaram fazer parte da Comissão (Janine, Geórgeth, Chuna, Belo, Carla, Wilson, Elsa e eu). O Já Pixoka e a Eneida não continuaram até ao fim, porque enfrentaram outros desafios e obstáculos. Havia também colegas de Es1 (Ângelo, Quim e Chido), de H2 (Marco) e de Ct3 (Ivandro, Gy, Jiverson e Zema). No final da caminhada, éramos cerca de 15 membros: Marcos, Ivandro, Janine, Jiverson, Geórgeth, Zema, Chuna, Belo, Carla, Wilson, Quim, Ângelo, Elsa, Chido e eu. Na Comissão, não havia hierarquia. Cada membro tinha a sua função.

Durante dois anos, procuramos dar vida ao Liceu e angariar capital financeiro suficiente para fazer a Grande Festa de Finalistas 2000, com a realização de: actividades culturais, no Museu da Tabanca; Concursos Cultura Geral, no Liceu; matiné dançante, no Tropical. Tínhamos os bolos da Janine, o Dj Wilson, o tesoureiro Jiverson, a modelo Geórgeth, a amizade da Eneida sobrinha do Amândio (sócio nº1 do Tropical), etc. E ainda tínhamos uma espécie de sede: o ZEIJM. O ZEIJM era o ponto de encontro de cinco amigos: Z – Zema; E – Edson; I – Ivandro; J – Jiverson; M - Marco. Como quatro dos sócios do ZEIJM faziam parte da Comissão, não foi difícil transformá-lo na nossa sede.

O ZEIJM era uma casa muito escura, onde podíamos reunir. Lembro-me que, a casa pertencia a um imigrante irmão do Zema, havia Whisky numa estante também escura e os miúdos da Comissão gostavam de sentar no sofá do meio da sala com copos à frente. Como tudo era escuro (nem havia luz eléctrica, apenas um motor raramente usado), o ZEIJM era um bom espaço para namoricos. É pena que não havia casais na Comissão. Apenas grupinhos de amigos: Jiverson e Zema; Carla e Elsa; Belo e Wilson; Janine, Geórgeth e Chuna; Quim, Ângelo e Chido; Marcos, Ivandro e eu. Foram dois anos de intensa amizade e múltiplas cumplicidades.

Hoje, ao desfolhar o meu diário cor-de-rosa, relembrei-me de coisas incríveis que escrevi sobre o Marco e o Ivandro: “Marco, meu melhor amigo. Aquele que mudou o ritmo dos meus dias […]. Ivandro, meu tio (prefiro dizer: meu primo) e meu grande amigo. Amigo de todos os momentos”. Também apalpei as letras do Marco e do Ivandro, gravadas no meu diário. E esses versos com a cara dos tempos do Liceu (!): “(…) Na tua parte negativa / há algo que me cativa!” (Marco); “a mais doce de todas as doçuras da vida é a amizade” (Ivandro) (27/12/1999). Lembro-me desse dia. Estávamos a preparar a festa da passagem para o ano 2000, organizada pela Comissão de Finalista 2000 e pelo Grupo Black Street. Havia boatos de que o mundo estava prestes a desmoronar-se. Num passo de magia ou de tormento, tudo ia terminar. Então, pela via das dúvidas, decidimos reunir a malta amiga para passarmos juntos a chegada ou não do desejado/temível ano 2000. Na altura, uma boa parte das miúdas da Comissão era virgem. Daí aquele suspense (!): “será que Deus é tão mau para nos deixar morrer virgens?!”

Lembro-me como se fosse ontem de quando regressei para Calheta, levando todas as minhas malas e caixas de livros. Ou seja, toda a minha tralha de estudante. Foi no dia 22 de Julho de 2000, tinha terminado a época das Provas de Acesso ao Ensino Superior. Ainda tenho registado a dor que senti ao deixar Assomada, após dois anos de estudo, amizade e namoricos. A minha dor era maior quando pensava no Marco e no Ivandro: já não podíamos passar horas e horas a jogar conversa fora, a planear fugas colectivas para o interior da ilha, a sonhar com o futuro que nos era distante, etc. Meses depois, no dia 10 de Novembro, fui despedir-me d@s amig@s, porque ia seguir para Coimbra. E, pela primeira vez, vi três pernas de lágrimas deslizarem pela cara do Marco e um sorriso triste na cara do Ivandro. Um ano depois, o Marco foi para São Paulo, frequentar o curso de Ciências Sociais. O Ivandro ficou no país, matriculado numa instituição de Ensino Superior. Anos mais tarde, reunimos no Hi5. Sete anos depois, conseguimos estar juntos no mesmo espaço real. Assim, ganhei o Natal...

São Domingos

(Rui Vaz, 18 de Dezembro de 2007)

Ao sabor do vento, eu e o Lino trepamos as montanhas à procura de um amigo (diga-se de passagem, quase velho amigo, se não fosse a miudeza dos dias). Quando chegamos, o velho amigo estava à nossa espera, cheia de coisas para contar e de risadas para aquecer o clima. Tínhamos o horizonte nas nossas mãos. Depois do almoço, a deliciosa sobremesa “Romeu e Julieta” determinou o rumo da conversa. Pedido feito (!): da próxima, Eurídice e Orfeu...

Quando descemos, falando em Fajã Domingas Bentas, lembrei-me das palavras e das imagens com vida de Gentes das Ilhas de Paulino Dias. No fim da aventura das montanhas, guardei o verde, o sorriso e a amizade.

São Salvador do Mundo

(Picos, 24 de Dezembro de 2007)

Na manhã do dia 24 de Dezembro, tinha uma reunião no concelho de São Salvador do Mundo. Acordei cedo, fui buscar uma documentação em Achada Santo António. Em seguida, segui viagem, com mais dois companheiros e com Nhara Santiago de Nhônhô Hopffer. Pouco depois, já estávamos na rotunda da Praceta de Cachéu. Estacionamos à frente da residência da família Barros. Entramos pela sala adentro, enquanto o Victor chamava pela mãe, que se encontrava a preparar o almoço.

O Victor levou-nos para um espaço de pura magia verde: o Pomar de Barros. À sombra de um velho abacateiro (pensei logo no Ondjaki!!!), jogávamos conversa fora e deslizávamos para outros caminhos. De repente, o Victor apareceu com uma garrafa de grogue temperado com erva-doce e xali. Para mim, mandou preparar uma jarra de sumo de limão do Pomar de Barros. Pelo portão semi-aberto, entrou o Jairzinho Pereira, aquecendo a conversa no Pomar de Barros.

No Pomar de Barros, com atenção registei a convivência amigável entre as bananeiras, as goiabeiras, a videira, as laranjeiras, os limoeiros, os tomateiros, os cajueiros, as papaieiras, a cana-de-açúcar, a malagueta, o ananás, etc. Numa das extremidades do Pomar de Barros, vi uma capoeira, onde (no lugar das galinhas) vive um cão: o casper.

Chegada a hora do almoço, surgiu a Dona Titina, trazendo os cheiros da cozinha. Na mesa, estava à nossa espera um almoço típico: massa d’milho e xerém d’milho. Tudo preparado à lenha. Sobremesa: doce d’papaia do Pomar de Barros. Com barriga farta, saímos da sala de jantar e fomos espreitar a paisagem natural: os vales, as montanhas e o nevoeiro. Até apetecia-me beber o cálice da montanha e redesenhar o relevo em versos.

Regressando para o Pomar de Barros, por Decreto-Lei nº ---/---, de 24 de Dezembro, fundamos a República de Cachéu. No acto da tomada de posse da Comissão de Representantes do Povo da República de Cachéu, um indivíduo do povo ergueu-se a voz e disse: “estamos aqui presentes para comemorar a fundação da República de Cachéu. A República de Cachéu ainda é uma criança, acabou de nascer. Mas pensa em grande (…palmas…). Em Cachéu abundam jovens com formação superior, como comprova a enorme lista de diplomas estampados na Praceta de Cachéu. Até podia dizer que Cachéu é um dos cutelos mais letrados destas bandas. Inclusive, temos um Historiador em cada esquina: Victor Semedo, Victor de Barros, Nuno (esqueci-me do apelido), etc. E, aqui perto, em Chão de Taberna, temos o Jairzinho Pereira. Portanto, minhas senhoras e meus senhores, temos Historiadores. E, com a fundação da República de Cachéu, inventamos um facto.”

Ribeira Grande de Santiago

(Cidade Velha, 17 de Dezembro de 2007)

Cidade Velha ficou conhecida como a primeira cidade construída pelos portugueses no além-mar. Também foi a primeira capital do arquipélago de Cabo Verde, com a designação de Ribeira Grande, tendo sido marcada pelo tráfico negreiro. Hoje, a marca mais gritante dos dias de sofrimentos na antiga Ribeira Grande é o Pelourinho, fixado no centro desta antiga capital.

Para além da curta estadia do Padre António Vieira, as fontes evidenciam registos da passagem de Vasco da Gama, na sua viagem à Índia, e de Cristóvão Colombo, na sua terceira viagem à América, pelo porto da antiga Ribeira Grande. Nesta antiga cidade-porto, candidata a Património Histórico da Humanidade, encontram-se ainda: a Igreja Nossa Senhora do Rosário, a mais antiga igreja colonial do mundo; as ruínas da Sé Catedral; a Fortaleza Real de São Filipe, preparado para defender a antiga colónia portuguesa de ataques dos piratas franceses e ingleses.

Com todo o seu peso cultural e tendo o pôr-do-sol como cenário, rabisquei um poema sobre “Cidade Velha. Enquanto imaginava meia dúzia de versos, não conseguia tirar da minha cabeça o primeiro tema de Trás di Son, um projecto organizado pelo músico cabo-verdiano Djinho Barbosa.


un batuku xatiadu si

ka por si
ki mi n’naci negru
n´fazedu scrabu
n´ganadu mar
mi goci djan ganha

(…)


Este tema dedicado à ilha maior, Santiago, simboliza o grito de liberdade do povo das ilhas, que passaram 500 longos anos sob o regime colonial, fazendo referência também às tradições migratórias cabo-verdianas.

Ainda aproveitei o sossego da noite na Cidade Velha para ninar as ondas, que, na minha presença, não ofereceram resistência. E, sentada na areia negra da praia, contei estórias para as estrelas sobre as ondas que respiravam a dor do silêncio.

Cidade Velha: outrora, porto da sujeição; hoje, berço de memórias...

Cidade da Praia

(Praia, 28 de Dezembro de 2007)

Cheguei a tempo de assistir à apresentação do álbum Badyo de Mario Lúcio. Podia escrever tantas palavras para descrever a minha tamanha emoção aquando da apresentação do novo álbum deste artista badyo. Porém, prefiro apenas recordar a magia do silêncio que circundava o Farol da Praia, o som das ondas no fundo da noite, o cair do milho no balaio da dona que desconheço o nome e a contagiante melodia do Mário Lúcio. Também registei com muito agrado o facto do Mário Lúcio ter convidado dois dos seus amigos para a apresentação do álbum: António Correia e Silva (Sociólogo e Historiador); Djinho Barbosa (músico).

O meu desejo de abraçar a cultura d’terra era tanto, que fui a tempo de espreitar a exposição Entre o Trabalho e o Sonho do jovem das montanhas Bento Oliveira, na Reitoria da Universidade de Cabo Verde. Não podia deixar de espionar, no Palácio da Cultura Ildo Lobo, a exposição das obras que participaram no “IV Concurso Jovens Pintores”, patrocinado pela Companhia de Seguros Garantia.

A minha paixão pela leitura me levou até a Biblioteca Nacional para assistir à apresentação do novo livro da Vera Duarte, intitulada Construindo a Utopia, apresentada por Manuel Faustino e pela Cristina Fontes. Ainda, na Biblioteca Nacional, tive a oportunidade de assistir à apresentação do livro de Jeremias Dias Furtado, que incide sobre a Regulação dos Transportes Rodoviários no Desenvolvimento Sócio-económico e na Integração Cultural. Confesso que após as palavras iniciais do Gabriel Fernandes (Sociólogo), fiquei com sede na boca e só queria mergulhar pelas estradas projectadas em linhas filosóficas por Jeremias Dias Furtado.

A minha vontade de conhecer mais jovens com interesses pela investigação científica me levou até a Reitoria da Universidade de Cabo Verde, com a finalidade de participar no II EJIC, que foi um encontro de partilha de ideias e de emoções, de críticas e de solidariedade académica. Como tive a possibilidade de constatar, o II EJIC foi um encontro que estendeu-se para além dos três dias. No meu caso, colhi boas frutas. Estive com a Maria do Rosário Varela e a Arlinda Cabral. Abracei os meus irmãos de Coimbra: Odair Varela e Victor de Barros. Murmurei sobre o novo estilo demasiado desportivo do Jairzinho Pereira, o nosso menino rebelde d´Helsínquia. Sintonizei com a Ivone Centeio e o Gaudino Cardoso. Gostei de saber que o Mário Carvalho é irmão do Francisco Carvalho. Chamei Kaka (nome do meu pai e de quase todos os Carlos) ao Carlos Tavares. O Suzano Costa exaltou-se comigo, mas acredito que foi por um simples equívoco. Para além do Cecílio Pires, cruzei-me com mais jovens de São Miguel com interesses pela investigação científica: Clementina Furtado e João Semedo. Fiquei maravilhada com as investigações da Celeste Fortes e da Maria Verúcia de Souza (mais duas problematizadoras da situação das mulheres cabo-verdianas). Bebi das reflexões do Daniel Costa, abrindo focos para futuros debates. Gostei da intervenção da Ivete Ferreira, na sequência da minha apresentação. Simpatizei-me com a Vera Alfama, a Sónia Silva Victória, a Graça Sanches, o Júlio Rocha Delgado, o António Baptista e o Elias Moniz. Belisquei o Rui Freitas, quando este falava da língua cabo-verdiana, brincando que a variante de São Vicente é mais deliciosa do que a variante de Santiago. Projectei conversas de cafés com o Milton Paiva e o João Dono. Ganhei nov@s amig@s: Jorge Brito Neves, Sá Nogueira, Aguinaldo Monteiro e Danilson Barros. Gostei de ter convivido com os demais participantes no encontro. E ainda fiquei sensibilizada no segundo dia do II EJIC, quando o Danilson perguntou-me se eu tinha de regressar à Calheta no fim do dia. Respondi: “sim”. E ele virou para mim e disse: “se quiseres podes ficar na casa da minha irmã. Ela não está no país e podes lá ficar até amanhã (ou seja, até ao final do II EJIC)”. Gostei do gesto e da sinceridade no olhar deste doce menino d’Praia. Juro que se não tivesse um esconderijo na capital, eu aceitaria o agasalho do Danilson (Dany, obrigada pelo gesto e pela preocupação!).

Gostei das delícias nos cobiçados recantos da capital: Quintal da Música (pela musicalidade e magia), Noz África (pelo paladar africano), K (pela presença do mar)... Após as escapadelas de fim-de-tarde e das programações de início da noite, nada saciou as minhas saudades como a vista sobre a praia de Quebra Canela a partir da Cruz do Papa. Foi ali que sacudi as minhas asas ao sabor do luar.

Na Kapital, conheci pessoas bonitas, muitas da blogesfera berdiana. Gostei de arriscar a pista pelas mãos do Tide, o meu mais recente primo (ciberdescoberta!). Depois fomos com a turma do II EJIC para o Max Club, mas não gostei. Peço desculpas a tod@s por não ter tido a paciência de ficar até mais tarde. O ar estava muito abafado e havia muita gente em tão compacto espaço. Pior, eu não tenho tanta paciência para aturar música bué de alta nos meus ouvidos, miúdos transpirados a tentarem encostar a cabecinha na minha, inspirações de semi-embriagados, etc. Enfim, ainda bem que, de quando em vez, alguém me desvia para outros sítios.

Santiago (depois)

(Lisboa, 29 de Dezembro de 2007)

No cambar da noite de sábado do passado dia 8 de Dezembro, apanhei um avião no Aeroporto da Portela (Lisboa) e, com a minha mochila às costas, segui viagem para a capital cabo-verdiana. Cheguei à cidade da Praia por volta das 2h da madrugada. A cidade estava ainda meio escurecida.

Durante vinte e um dias, estive nos braços de Santiago. Queria dar uma ou outra escapadela, mas as rochas gigantescas prenderam-me na ilha. Assim, sem comprometer os meus compromissos de investigação e as minhas outras escritas, consegui desfrutar de mais dias com Santiago.

Não de lés a lés, estacionei-me nos seguintes concelhos: Praia, Ribeira Grande de Santiago, São Domingos, São Salvador do Mundo, Santa Catarina, Santa Cruz e São Miguel. Entre os nove concelhos de Santiago, só não tive tempo para dizer um olá ao meu ex-professor de Matemática Victor Baesa, em São Lourenço dos Orgãos, e ao José Soares, no Tarrafal. Em Santa Cruz, foi apenas uma curta passagem, pensando no mar e no pôr-do-sol.

II EJIC (Praia, 2007)

Entre os dias 20 a 22 de Dezembro de 2007, na Reitoria da Universidade de Cabo Verde, foi realizado o II Encontro de Jovens Investigador@s Cabo-verdian@s, subordinado ao tema Cabo Verde na Investigação Promovida por Jovens. Na programação para este segundo fórum de intercâmbio académico, encontravam-se inscrit@s cerca de 50 jovens com comunicações, sendo de destacar a participação tanto d@s que se encontram a desenvolver projectos de investigação junto de instituições estrangeiras, como d@s que se encontram ligad@s a instituições nacionais.

A propósito do “Encontro da Praia”, deixo aqui três das minhas preocupações relativamente à actividade científica no nosso país. A minha primeira preocupação prende-se com a difusão do saber científico na nossa sociedade. A minha segunda preocupação refere-se à ecologia dos saberes e, em particular, à valorização dos outros saberes não contemplados pela ciência moderna (nomeadamente os saberes catalogados como sendo tradicionais). E, por fim, a minha terceira preocupação prende-se com a relação entre as línguas e a ecologia dos saberes, destacando o papel da língua cabo-verdiana na produção de saberes. Deixo em aberto as minhas preocupações, querendo encontrar novas pistas de entendimento, particularmente a partir do nosso contexto insular.


Nota de Rodapé

Antes de terminar, aproveito para parabenizar a organização por ter esforçado para que o EJIC não se sucumbisse nas fronteiras da diáspora cabo-verdiana, conseguindo enfrentar o mar largo e chegar até a nossa própria casa. Os meus abraços a aquel@s que participaram no “Encontro de Lisboa”, mas que não estiveram presentes no segundo encontro (em especial, um abraço bem forte para @s restantes membros do “Grupo de Cabo Verde em Coimbra”: Katia Cardoso, Carlos Elias Barbosa, Clara Spencer…; e ao Juscelino Almeida Dias, actualmente entre Lisboa e Paris). De resto não posso deixar de dizer que estou já com saudades dos miminhos d@s velh@s amig@s/colegas e d@s nov@s amig@s/colegas, adquirid@s no “Encontro da Praia”.

I EJIC (Lisboa, 2006)

No dia 21 e 22 de Dezembro de 2006, nas instalações da Universidade Nova de Lisboa, foi realizado o I Encontro de Jovens Investigador@s Cabo-verdian@s, subordinado ao tema A Juventude e a Promoção da Cultura de Investigação. Na programação para este fórum de intercâmbio académico, encontravam-se inscrit@s cerca de 31 jovens, com projectos de investigação nas diversas universidades portuguesas, inclusivamente em regime de co-tutela com outras universidades europeias.

O “Encontro de Lisboa” abriu um espaço de diálogo entre as diferentes áreas do saber científico representadas pel@s jovens investigador@s cabo-verdian@s, que, num pequeno auditório, apresentaram as suas comunicações, proporcionando um debate activo no seio da pequena comunidade reunida.

Deste encontro, importa analisar a importância do diálogo entre as ciências para a construção de uma comunidade académica coesa e, efectivamente, comprometida com a dinamização de uma cultura de investigação, em Cabo Verde. Atendendo aos novos desafios epistemológicos, o diálogo entre as ciências surge como uma condição necessária para o avanço da investigação científica, no contexto cabo-verdiano. Por conseguinte, a contribuição d@s jovens investigador@s revela-se como sendo fundamental para responder aos actuais desafios que, estrategicamente, tem sido assumidos como uma aposta indispensável para o desenvolvimento do país.

Neste sentido, torna-se necessário incentivar a actividade académica, sendo imprescindível estimular a publicação aos níveis nacional e internacional. Evidentemente, a afirmação da comunidade académica cabo-verdiana requer uma participação activa nos espaços de actividade científica internacional. Deste modo, o EJIC surge com um potencial acrescido por possibilitar um espaço de diálogo académico que extravasa as fronteiras nacionais, acompanhando assim a intensificação dos processos de globalização, que têm tido reflexos nos próprios modos de produção científica.

PRÉMIO DIREITOS HUMANOS (2007)

Hoje, a Assembleia Nacional de Cabo Verde foi palco de uma belíssima cerimónia em prol dos Direitos Humanos, organizada pela Comissão Nacional para os Direitos Humanos e a Cidadania (CNDHC).

A abertura esteve a cargo das criancinhas do nosso país, que, numa musicalidade afinada, exigiram o respeito para com os direitos humanos d@s pequenotes. Num grito contagiante, aguçaram a sua voz para que, desde a tenra idade, cada ser humano (sendo homem ou mulher) tenha a possibilidade de exercer os seus amplos direitos com dignidade. Logo no discurso de abertura, proferida pela Dra. Vera Duarte (Presidente da CNDHC), foi evidenciada essa necessidade de reforçar a luta pela dignidade humana e pela justiça para tod@s, nomeadamente no nosso espaço insular.

A hora mais vigiada da cerimónia foi a de entrega do “Prémio Nacional dos Direitos Humanos” (edição: 2007), nas três categorias contempladas:

- Reportagem: “Quebra o meu silêncio com um gesto do teu amor”, levada a cabo pela jornalista(activista) Maria de Jesus Lobo, que procurou dar visibilidade às crianças e famílias que vivem o drama da Paralisia Cerebral, numa situação de vulnerabilidade social chocante à luz do dia. Para além dessa reportagem inquietante, a jornalista(activista) Maria de Jesus Lobo tem tentado contribuir para a procura de soluções no sentido de possibilitar melhores condições de vida às crianças portadoras dessa deficiência.

- ONG: associação Acarinhar, dirigida pela activista Teresa Mascarenhas, que tem vindo a trabalhar junto de crianças portadoras da Paralisia Cerebral. Para além de identificar as famílias que enfrentam esse drama, esta ONG tem tentado dialogar com diferentes instituições para proporcionar dias mais tranquilos a essas crianças (tendo em atenção as limitações da deficiência).

- Estudo Científico: dissertação de mestrado, intitulada “Mulheres, Democracia e Desafios Pós-Coloniais: Uma Análise da Participação Política das Mulheres em Cabo Verde”, da jovem investigadora(activista) Eurídice Furtado Monteiro.

Portanto, a manhã desta segunda-feira, foi de reconhecimento do trabalho realizado (sobretudo pelas nossas mulheres) para a protecção e a promoção dos direitos humanos, em Cabo Verde. Em jeito de balanço final, com uma euforia renovada, o Chefe de Estado Pedro Pires exaltou o engajamento nacional pelos Direitos Humanos, evidenciando o discurso institucional de respeito para com os direitos consagrados no ordenamento jurídico nacional e internacional. A cerimónia contou ainda com a presença da Dra. Filomena Martins (Ministra da Educação e Ensino Superior), Dr. José Manuel Andrade (Ministro da Justiça) e representantes de instituições públicas e da sociedade civil cabo-verdiana.

Santiago (antes)

(Coimbra, 6 de Dezembro de 2007)

Durante vinte e um dias, vou estar com Santiago, dando uma ou outra escapadela. Entre os meus compromissos de investigação e as minhas outras escritas, pretendo desfrutar de uns dias de intensa cumplicidade nos braços de Santiago. Preciso regressar com a minha cabeça fresquinha para continuar a pedalada.

Mais do que acomodar/acordar os meus gemidos silenciados, desejo a aura de dias orquestrados no meu corpo olvidado, onde habitam as gotículas em pó-badiu. Neste meu corpo, a pasárgada sonhada em contos húmidos, repousam ainda as marcas de breves dias passados com o amargo sabor do mel...

Tantas são as saudades: do cheiro da cultura d’terra; dos passeios de fim-de-tarde, quando a paz parece reinar na confusa cidade da Praia; dos reencontros com as ondas rabugentas de quebra-canela; das saídas programadas para o interior; das manhãs de orvalho em Assomada; das noites ao relento na praça do Porto de Calheta; dos mergulhos na praia da Batalha; das conversas afiadas e das risadas da juventude boka-portuense; do milho assado da Anália d´Pundéka; di rapuzada da Sugunda d´Katilina; do doce-de-coco da Lálá; d@s nov@s e velh@s amig@s... Infelizmente, não vou poder dar aquele abraço a tod@s, o mar ciumento não me permite deslizar tanto.

ANTONIETA CUNHA (faz a diferença)


“Antonieta Cunha, 38 anos, é agente da Polícia Nacional na Praia e uma das suas maiores batalhas é a luta contra a violência baseada no género. Trata cada caso, cada pessoa com atenção especial. Dá o seu número pessoal às vítimas e afirma-se disponível 24 horas. É firme e transmite segurança a quem chega até si à procura de ajuda, tenta sossegar as vítimas e garante-lhes que tudo vai ficar bem. Mas, às vezes, também chora de noite as dores que mulheres e crianças lhe levam todos os dias” (www.asemana.cv).

TAVARES

Na passada quinta-feira (29/11/2007), o poeta cabo-verdiano José Luís Tavares, nascido lá pelas bandas do Tarrafal de Santiago, esteve em Coimbra para participar num colóquio dedicado aos claridosos.

O poeta surpreendeu-me com a sua infância revisitada, num diálogo íntimo com o Chiquinho (que, hoje, mocinho já não é, mas permanece assim no imaginário da obra que o protagonizou). A melodia cuidadosa imprimida na “Carta ao Chiquinho” contagiou a assistência. Eu até escutava as risadas inocentes do mocinho Chiquinho e do menino Tavares, enquanto galopeavam. Com a sua poesia, o poeta tinha já acordado o Mondego por ocasião do “VI Encontro Internacional de Poetas”. Desta vez, remexeu nas memórias da sua infância, nem tanto perdida.

Dizem que, desde o seu primeiro livro (Paraíso Apagado por um Trovão), este poeta tem feito um esforço extraordinário de invenção linguística. Infelizmente, ainda não li Paraíso... Nem por isso sinto mais receosa para falar da imaginação poética de José Luís Tavares. Pois, tenho entre as minhas mãos o segundo livro de poesia deste nosso poeta (Agreste Matéria Mundo). Trata-se de um livro com qualidade literária inestimável. Está na minha mesa-de-cabeceira. Por ser bastante denso, ainda não cheguei ao fim. Nem quero chegar ao fim! Prefiro roubar, sempre que me apetecer, um poema e mastigar devagarinho durante horas.

“Nenhum destino está escrito nas estrelas. O meu, construí-o por caminhos de cabras e de pedras, ouvindo perto o rugido do mar e os gemidos dos ventos da serra, entre gente de humilde condição, porém, de uma altivez tal apenas comparável aos impassíveis penhascos que outrora me vigiaram a infância”.
José Luis Tavares

HIV/SIDA

1 de Dezembro - Dia Internacional de Luta contra a Sida

1) O HIV/SIDA tem atingido brutalmente o continente africano, sendo de destacar a elevada taxa de incidência na categoria feminina. Como a principal via de transmissão tem sido a sexual, torna-se imprescindível a sua prevenção (nomeadamente através do uso de preservativos). Contra todos os preconceitos, devemos lutar por uma saúde sexual responsável!

2) A detecção precoce da infecção pode ajudar bastante no seu tratamento, bem como combater a propagação do vírus.

3) Nunca é demais insistir com as acções de sensibilização sobretudo para a prevenção do HIV/SIDA.

CARA EILEEN (II)

Queria começar esta carta da seguinte forma: “Calheta, aos 30 de Novembro…”. De repente, apercebi-me de que estou em Coimbra e apaguei o que tinha já registado. Então, voltei à vida virtual para responder as tuas questões. Antes disso, vou tentar analisar o debate fomentado por sete blogs: Albatrozberdiano, Filinto Elísio; Pedrabika, Amílcar Aristides; Soncent, Eileen Barbosa; Son di Santiagu, Djinho Barbosa; Ala Marginal, Abrãao Vicente; So pa Fla, Chissana Magalhães; Igualdade na Diferença, Eurídice Monteiro.

(Albatrozberdiano, Filinto Elísio) Num post sobre a problemática do bilinguismo (18/08/2007), intitulado “O bilinguismo nosso de cada dia”, Filinto Elísio refere à necessidade de tradução para crioulo cabo-verdiano tanto da Bíblia, como também da Constituição Nacional. Ressalta a necessidade desta língua ser usada também nas situações de comunicação formais, como nas cerimónias religiosas e nas próprias instituições públicas (a Assembleia Nacional, os Tribunais, os Hospitais, as Escolas...). Ainda refere à necessidade da introdução do crioulo cabo-verdiano nos anúncios durante os voos da TACV, juntando assim ao inglês, francês e português. Numa melodia pessoana, Filinto Elísio afirma: “a minha pátria é a língua cabo-verdiana”. Contudo, não deixa de exaltar a língua portuguesa como a sua segunda natureza. Assim, defende a oficialização do crioulo, em prol da construção progressiva de um real bilinguismo, dando especial atenção ao papel central do Estado no que concerne à política linguística. Reforça o papel do português enquanto um recurso estratégico fundamental para o desenvolvimento e a inserção neste mundo globalizado. Neste post, importa realçar a problemática da marginalização do crioulo cabo-verdiano sobretudo no seio da “pequena elite intelectual” e da padronização linguística no que se refere ao domínio da escrita.

(Igualdade na Diferença, Eurídice Monteiro) Numa análise sobre a problemática linguística (19/08/2007), intitulado “A(s) Língua(s)”, tento realçar a diferença “portuguística” no espaço da CPLP. Lembrando do post no Albatrozberdiano sobre o bilinguismo no contexto cabo-verdiano, não deixo de reconhecer que o debate sobre a(s) língua(s) merece ser aflorado e levado a sério pelos responsáveis directos no processo de afirmação do crioulo cabo-verdiano. Para além disso, tento ressaltar duas questões. Por um lado, a questão da geopolítica da língua, referindo à questão do alfabeto unificado no quadro da “dita” CPLP e alertando para a necessidade de ter em atenção os jogos de poder(es) neste espaço em que o português nos (des)une. Por outro, o fenómeno da globalização, afirmando que, ao mesmo tempo que o uso do inglês se intensifica à escala global, faz todo sentido a afirmação da língua cabo-verdiana, sendo que aceitar que é inútil o investimento na língua cabo-verdiana significa “sacrificar a diferença em nome de um princípio de assimilação”. Por fim, frisei o direito e o dever do povo berdiano no sentido da valorização do crioulo cabo-verdiano, não só enquanto elemento cultural, mas também como veículo de produção de conhecimentos, mesmo que sejam (ou sobretudo porque são) os conhecimentos “catalogados” como tradicionais.

As minhas considerações suscitaram alguma discussão, reunindo vinte cibercomentários. Em termos gerais, importa ressaltar duas questões problematizadas ao longo da discussão. Em primeiro lugar, a língua enquanto elemento identitário. Em segundo lugar (e mais problemática), a questão da oficialização, chamando a atenção para a falta de paciência relativamente ao próprio processo e aceitando que o crioulo cabo-verdiano ainda não encontra-se preparado para ser uma língua oficial, tendo sido ressaltado a problemática da escrita.

(Pedrabika, Amílcar Aristides) Tendo tido uma participação activa no meu post sobre “A(s) língua(s)”, Amílcar Aristides (5/10/2007) lança o debate no seu blog, que suscitou comentários no sentido da valorização das diferentes variantes do crioulo cabo-verdiano. Uma questão importante realçada prende-se com o reconhecimento do simbolismo cultural e das práticas sociais associadas às diferentes variantes.

(Soncent, Eileen Barbosa) “Em badio é que nos entendemos?” Com esta interrogação começas o teu post (23/11/2007), gerando polémicas na blogesfera berdiana. Contas que ficaste surpreendida ao ouvir as boas vindas de uma assistente de bordo, primeiramente, na variante de Santiago e, depois, em Português, Francês e Inglês. Tendo perguntado a uma das assistentes acerca desta novidade, ficaste a saber que, até Janeiro, o crioulo cabo-verdiano vai ser introduzido em todos os voos daquela companhia.

Do teu post e dos quarenta comentários que suscitou, surgem um conjunto de questões que, embora não sendo inéditas, não deixam de ser preocupantes: 1) a problemática da oficialização do crioulo; 2) a “guerrilha linguística” entre a variante de Santiago e a variante de São Vicente (mais do que isso, entre “badiu” e “sampadjudu”); 3) a influência do português nas diferentes variantes do crioulo cabo-verdiano; 4) o português como língua que une (ou cria zonas de contacto/entendimento) entre @s cabo-verdian@s; 5) a mudança de posição na hierarquia linguística com a oficialização do crioulo cabo-verdiano.

Para além dessas questões, não posso deixar de fazer referência a duas passagens no teu post: “(…) di fora”; “eu até acho o Badio uma língua bonita (…)”. Podemos pensar também nos não ditos implícitos no teu post. Acredito que tenha sido apenas um descuido da tua parte, que, nem sequer, imaginavas que ias acordar os fantasmas da cabo-verdianidade que encontram-se atrás das marcaras da nossa modernidade forjada. Portanto, tocaste na velha ferida (sempre aberta, mas politicamente silenciada), acabando assim por suscitar tamanha polémica.

(Son di Santiagu, Djinho Barbosa) Num post intitulado “O post da Eileen é NORMAL?” (26/11/2007), Djinho Barbosa sugere uma análise crítica do discurso do teu post, sublinhando as partes mais problemáticas. Para além disso, Djinho Barbosa chama a atenção para o lado depreciativo associado ao “badiu”.

(Ala Marginal, Abrãao Vicente) No seu post (28/11/2007), Abrãao Vicente começa por abordar as discussões acerca de “badiu” e “sampadjudos” e os preconceitos que foram sendo enraizados na nossa cultura, com marcas bairristicamente traçadas. Ultrapassando a mera questão linguística, Abrãao Vicente belisca os pressupostos básicos escondidos atrás de um simples debate sobre a problemática linguística, remetendo para a própria problemática da construção identitária no nosso espaço insular.

(So pa Fla, Chissana Magalhães) Chissana Magalhães (28/11/2007) introduz na discussão a distinção entre língua e dialecto, que sistematicamente tem sido referido no âmbito dos debates sobre a problemática linguística sobretudo nas antigas colónias. Ainda realça a diferença que existe no interior da variante de Santiago, bem como as diversas formas de subalternização d@s falantes “di fora”. Para além disso, ressalta o esforço da malta berdiana no que se refere a outras línguas, questão que eu também tentei deixar clara na primeira carta que te escrevi.

[Irmandade Crioula!?...] Tive que recorrer ao debate que encontra-se aberto nos blogs berdianos, porque não podemos ignorar as suas implicações. E, agora, sem rodeio, aproveito para dizer-te que, o escândalo das tuas palavras prende-se com o facto de a Eileen ser uma jovem aberta e esclarecida, que acompanha as mutações da nossa contemporaneidade. No meu entender, devias fazer uma auto-reflexividade acerca do teu post e, por conseguinte, apresentar um pedido de desculpas por ter ferido a susceptibilidade de muit@s leitor@s do teu blog, nomeadamente por causa da seguinte afirmação: “achei mais piada que outra coisa”. Um pedido de desculpas evidenciará a tua maturidade e o respeito para com as nossas diferenças internas, sem comprometer a tua liberdade de expressão.

Bom fim-de-semana!
Eury

QUERIDA EILEEN (I)

Na nossa última conversa instantânea no messenger, tu estavas na Irlanda, desafiando o frio gélido e aquecendo a tua alma com poemas rabiscados por ti directamente na língua inglesa. Gostei deveras daquele poema ("Keep low profile"), especialmente dos últimos versos que quase sinto deslizar nos meus lábios como o meu gloss da Clinique: “Don’t you stare/ Put down your chin/ Don’t show pride/ When you need to hide”.

Enquanto conversava contigo, eu fazia um esforço tremendo para ignorar as lembranças que, teimosamente, persistiam em cada objecto na minha escrivaninha. Por mais que tentava fugir dessas lembranças, algo mais forte me trazia mensagens de momentos registados num pergaminho ou apenas ecoados no chão vermelho do meu coração doentio de tantas saudades. Quando virava para o Norte, pensava no Nikolai e sentia das Parfüm des Schnees. Scheisse! Ainda sinto a suavidade dos fios loiros do Nikos e a inquietação das duas lanterninhas verdazuis deste menino de Berlim. Quando contornava para o Sul, aparecía la imagen del cabrón de Carlos con sus historias de los indígenas de Chiapas. Ainda encravada no Sul, recordava das conversas de horas perdidas com a Eliana e até sentia o meu corpo mexer de tanto pensar na galera do samba. Lembro-me como se fosse ontem da feijoada brasileira feita pela Alene, da caipirinha da Mary, do caldo de mancarra do Julião, do frango de caril do André, dos jantares multiculturais no Casarão e da poesia em diversas línguas e sotaques que mais não eram do que uma forma rebelde de projecção da diversidade de povos e culturas que habitam no meu oceano tempestuoso.

Lembro-me que, quando comecei a conversar contigo, eu tinha acabado uma conversa com a Shahd. No dia anterior, durante um seminário do Grupo de Estudos Anglo-Americanos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, a linguista Clara Keating tinha ficado maravilhada ao perceber que estava perante um grupo marcado pela diversidade linguística: a Shahd tinha trazido o Árabe; a Oriana o francês; eu o crioulo cabo-verdiano (variante de Santiago); as portugas Salomé, Ana Paula, Alexandra, Cristina, Teresa, Dina, Marta, Filipa e Olga acentuavam de modo distinto na língua lusa. Éramos doze jovens numa tarde de Outono poeirento, partilhando as nossas experiências linguísticas. A maestrina da tuna poliglota tentava insistentemente saber mais e mais sobre as nossas vadiagens no reino das palavras. Apesar da ditadura mundial do inglês, tentávamos expressar noutras línguas, que transportavam a nossa própria identidade. Mesmo entre as jovens que tinham uma relação de proximidade com o português, era visível a diferença “portuguística”.

Ontem, após uma visita mais demorada aos blogs berdianos, apercebi-me que, no contexto cabo-verdiano, o debate sobre a problemática linguística merece ser mais incitado, sendo necessário estimular diálogos entre as diferentes variantes do crioulo cabo-verdiano. Digo-te que fiquei surpreendida pela forma como abordaste a variante de Santiago. Não esperava essa atitude da tua parte, sobretudo porque percebo que tens uma mentalidade aberta e a capacidade para compreender (se assim o quiseres) as mensagens de falantes que não se expressam na variante de São Vicente.

Antes de sair para estudar em Coimbra, tive a oportunidade de participar em digressões e encontros juvenis no nosso país. Convivi com jovens das nove ilhas habitadas do nosso arquipélago e fiz amizades que arrastaram no tempo. Mas a minha relação mais calorosa com gentes de outras ilhas começou quando estacionei nesta cidade distante. Aqui apercebi-me que, por mais que estivesse longe da minha terra e da minha família, tenho sempre um ombro berdiano onde posso me encostar quando a saudade aperta. Com vontade de compreender e de ser compreendida, fui-me familiarizando com as diferentes variantes do crioulo cabo-verdiano. Claro, nem sempre compreendo expressões próprias de determinadas ilhas ou localidades. Nunca senti receio de dizer que não faço ideia do que significa determinada palavra, nem de perguntar como devia dizer certas coisas numa variante diferente da minha. Podia passar horas aqui a falar-te da minha convivência no reino linguístico berdiano. Mas prefiro deixar-te com um belíssimo poema da poetisa guineense Odete Semedo.


Em que língua escrever

Em que língua escrever
Contando os feitos das mulheres
E dos homens do meu chão?
Como falar dos velhos
Das passadas e cantigas?
Falarei em crioulo?
Falarei em crioulo!
Mas que sinais deixar
Aos netos deste século?

Ou terei que falar
Nesta língua lusa
E eu sem arte nem musa
Mas assim terei palavras para deixar
Aos herdeiros do nosso século
Em crioulo gritarei
A minha mensagem
Que de boca em boca
Fará a sua viagem
(...)

Deixarei recado
Num pergaminho
Nesta língua lusa
Que mal entendo
(...)

Odete Semedo

Beijinhos,
Eury

25 DE NOVEMBRO


Hoje, Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, não podia deixar de pensar sobre as várias formas de violência (física, sexual e psicológica) que atingem a camada feminina.

Aproveito para fazer um apelo a tod@s no sentido de reflectirem sobre esta problemática no nosso quotidiano...

O FAZEDOR DE UTOPIAS


Hoje, pelas 18:30mn, a Casa Fernando Pessoa vai acolher o lançamento de O Fazedor de Utopias: Uma Biografia de Amílcar Cabral, da autoria do jornalista e escritor angolano António Tomás. A apresentação vai estar a cargo do escritor (também angolano) José Eduardo Agualusa.

Amílcar Cabral nasceu a 12 de Setembro de 1924, na actual Guiné-Bissau, sendo filho de pais cabo-verdianos. Em 1956, fundou o PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde). Quase no fim da luta por ele engendrada, a 20 de Janeiro de 1973, foi assassinado numa noite ainda muito mal contada. Este biografado foi um homem do seu tempo, que conseguiu lançar utopias para além do seu tempo, tendo sido um acérrimo defensor da dignidade humana.

A TI, MULHER!

A ti
Que no teu seio
Recolheste e fecundaste
O gérmen do meu ser
E regaste
O meu corpo
Com o sangue
Das tuas veias

[...]

A ti
Parceira
Certa e quente
Dos meus ardentes
Momentos
Eva sensual
Dos meus
Libidinosos sonhos
E esquivas aventuras

A ti
Mulher
Escrava liberta
Amazona indomável
Da nossa luta

A ti
Mulher
De balaio à cabeça
Enxada ao ombro
Espingarda em punho
Ou livro aberto

A ti
Mulher
De menino às costas
Soprando lume
Ou cochindo milho
Nas ladeiras
Catando lenha
Ou ao sol do meio-dia
Construindo diques
E abrindo estradas
No hospital curando
Ou na escola ensinando
Soldado
Em todas as frentes
participando

A ti
mulher

A ti
Fonga
Munana
Titina
Naia
Muntura
Nhamina

A ti
Mulher
De Chã de Tanque
Rabil
Cova Figueira

Monte-Sossego
Coculi
Nossa Senhora do Monte
Pedra de Lume
Morro
Carriçal

A ti
Mulher de Cabo Verde

A ti
Mulher-mãe
Mulher-filha

A ti
Mulher-esposa
Mulher-amante
Mulher-amada
Mulher-amor

A ti
Minha irmã
Camarada
Amiga
Companheira
Parceira

A ti
Mulher

A ti
Um Verso
Um Poema
Um Hino

A ti
Sempre uma Homenagem!


D.H.A. (26/08/1984)

Filha do Mar

Quando nasci, no dia primeiro da segunda metade de um jucundo Novembro, a minha pequena aldeia parecia serena. A vizinhança escutava a dor da mãezinha, segurada pelo enfermeiro confiante, que recusou chamar a parteira.

A Afrodite preparava-se para pousar no silêncio da noite, acompanhada pela melodia das ondas, que lambiam a areia negra sonolenta. Porém, um manto largo castanho-avermelhado estendia-se no céu, desde o cimo de Monte Serrado. As lágrimas dos deuses e das ninfas começavam a cair. Até pareciam conduzir Orfeu às profundezas do Hades para resgatar a Eurídice.

Algures entre as montanhas e os vales, no momento em que a povoação se preparava para embalar na mansidão da noite, entoei o meu primeiro grito. Emprestaram-me o nome da bela ninfa auloníade, reencarnando subitamente um amor eterno. Para o meu desassossego, semearam o meu cordão umbilical no mar e traçaram o meu destino com o primeiro relâmpago.

...

Já agora, parabéns para a Ana Preste lá no Brasil e para a minha prima Larissa em Cabo Verde, que também fazem anos hoje… E para tod@s outr@s amig@s que (re)nasceram no mês de Novembro, em especial: Elinha, António CeS, Evy e Shely (14 de Nov); Carla Sofia, BSS e Miriam Elizabeth (15 de Nov); Diva (17 de Nov), etc. Ainda um especial abraço a outr@s novembristas: Sara Araújo, que se encontra numa fase de pesquisa empírica em Moçambique; Ondjaki, pelo Há Prendisajens com o Xão, que escolhi para “chãonhe-ser-me”.

PARABÉNS AO MESTRE

Nasceu no dia quinze de Novembro, do ano de mil novecentos e quarenta, em Coimbra. Hoje, é conhecido como sociólogo, professor universitário (professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e professor convidado na Universidade de Wisconsin-Madison), poeta e activista. Através do Centro de Estudos Sociais por ele dirigido, tem vindo a se afirmar como um dos principais intelectuais da área de Ciências Sociais, com mérito internacionalmente reconhecido.

Deixo aqui neste esconderijo, um especial abraço ao meu amável professor e orientador BSS (Boaventura de Sousa Santos), cujo trabalho representa uma forte influência na minha vida académica e pessoal. Mais uma vez, aquele agradecimento por tudo o que com ele tenho vindo a aprender e a (re)descobrir.

SUJEITOS ACTIVOS


No dia 16 de Novembro, pelas 18:30 mn, no Hotel Trópico (Praia, Cabo Verde), será apresentado o livro Género e Migrações Cabo-verdianas, organizado pelas investigadoras: Marzia Grassi (Economista do Desenvolvimento, Investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e autora de Rabidantes: Comércio Espontâneo Transnacional em Cabo Verde) e Iolanda Évora (Psicóloga Social e Investigadora do Centro de Estudos sobre África e do Desenvolvimento do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa).

Nesta colectânea, composta por textos de um conjunto de especialistas internacionais sobre as migrações contemporâneas, a diáspora cabo-verdiana é analisada numa “perspectiva de género”, frisando a trajectória migratória do povo das ilhas. Como realçam as organizadoras desta coletânea, a pertinência do “género” na compreensão da cultura cabo-verdiana prende-se grandemente com a posição que as mulheres assumem na estrutura familiar da nossa sociedade, que lhes atribuem a responsabilidade para o sustento e a reprodução do agregado, sendo que as mulheres migrantes levam consigo esta responsabilidade para as sociedades de acolhimento. Nos diversos estudos de caso incluidos nesta coletânea, as mulheres são vistas como sujeitos activos, que adoptam diferentes estratégias de integração na diáspora cabo-verdiana.

A apresentação estará a cargo do Doutor Gabriel Fernandes (especialista em Sociologia Política e autor de A diluição da África: Uma Interpretação da Saga Identitária Cabo-verdiana no Panorama Político (Pós)colonial e de Em Busca da Nação: Notas para uma Reinterpretação do Cabo Verde Crioulo).


Organização da Colectânea

Introdução
Marzia Grassi e Iolanda Évora

Capítulo 1
Cabo Verde pelo Mundo:
o género na diáspora cabo-verdiana
Marzia Grassi

Capítulo 2
«Minha gente, minha terra»:
as atribuições sociais do papel de emigrante
Iolanda Évora

Capítulo 3
Badiu na Galiza:
mar di homi, tera di mudjeres
Luzia Oca Gonzaléz

Capítulo 4
As mães e os seus filhos dentro da plasticidade parental:
reconsiderando o patriarcado na teoria e na práica
Isabel Fêo Rodrigues

Capítulo 5
Nem homens, nem mulheres, só contratados.
Apontamentos sobre relações de género entre cabo-verdianos
nas roças de São Tomé e Príncipe
Augusto Nascimento

Capítulo 6
Tão longe e tão perto.
Emigração feminina e organização familiar:
Boa Vista (Cabo Verde)
Andréia de Souza Lobo

Capítulo 7
Mulheres que ficam e mulheres que migram:
dinâmicas duma relação complexa na ilha
de Santo Antão (Cabo Verde)
Martina Giuffrè

Capítulo 8
O papel da independência, da emigração e da World Music
na ascenção ao estrelato das mulheres de Cabo Verde
JoAnne Hoffman

AZÁGUA


A sementeira era uma actividade presente na vida da população boka-portuense. Os mais-velhos e as mais-velhas acreditavam que havia de chover, dando milho em abundância para que o país não voltasse a padecer de fome. Sabiam como o país dependia do milho semeado. Por isso, aguardavam com ansiedade a vinda da chuva e alegravam-se quando ouviam notícias de terra molhada nos arredores da Serra de Malagueta.

Os mais-jovens e as mais-jovens (menos crentes!) não depositavam esperança na chuva, nem tinham memória dos tempos famintos vividos nas nossas ilhas. Pronto, havia o Dota com as suas estórias sobre a fome de ´47. O Dota contava que ele resistiu à fome por causa de três grãos de milho cozidos em cinza quente. As suas mãos até tremiam, quando ele relatava as suas memórias de (sobre)vivência.

BOKA-PORTU (registos quase-esquecidos)

(Coimbra, 7 de Novembro de 2007)

Hoje, acordei com uma sensação esquisita. Não sabia se eram os excessos de saudades, ou se eram apenas os efeitos das noites mal dormidas. Quando me levantei da caminha, sintonizei a RDP-África. O meu diário cor-de-rosa continuava aberto, na mesma página que deixei antes de adormecer. Estiquei o meu braço esquerdo e apanhei-o para (re)ler os registos sobre a minha infância-juventude na pequena aldeia onde nasci.

Apetecia-me reescrever algumas linhas sobre a Calheta da minha infância. Como devia recomeçar? Era uma vez... Assim, não me agradava! Pensando um pouco na forma como devia reescrever os registos do meu diário, acabei por decidir que o processo de reescrita seria mais elaborado se eu estivesse sentada na praça do Porto, com a cara virada para o mar. Comecei a rever as gentes, a sentir a brisa do mar, a dançar na areia... Lembrei-me de que...

Calheta ficou conhecida pelo seu Porto, registando as estórias dos barcos que passavam no alto mar e de alguns que se encalhavam na baía rasa. O mar fazia parte da vida das pessoas deste pequeno povoado. Até houve canções de homens aclamando para que a água do mar se transformasse em singuelu (desculpem o anacronismo!), com a intenção de se transformarem em peixes. Em vez de um copinho aqui e um copinho ali, os homens preferiam mergulhar no fundo do mar para verem sereias.

Ao registar estas linhas, lembrei-me da canção do Gil d’Jóia: “si agu-mar bira grogu, ma Gil d’Jóia ta bira pexi”. O nho Donda preferia as anedotas, os provérbios e os pensamentos marotos: “raxa, cosi; duspi, deta (!)”. Já o Biaricá não era para brincadeiras, atirava palavrões sempre que se atropelava na sua muleta. Ninguém esquece esse coxo que se conseguiu aguentar firme até aos 110 anos. Deve ter comido muita katchupa. Acho que sim!...

Na sua lancha e a remar, os pescadores iam ao mar. Sozinhos ou acompanhados, iam buscar peixes para o sustento da sua família. Muitas vezes, voltavam com a lancha vazia, mas não desistiam de ser pescadores. Consolavam as suas tristezas com um groguinho e partilhavam as suas angústias com os homens que desciam à boka-portu. Também não havia muitas alternativas. As alternativas mais palpáveis eram a agricultura e a pastorícia. Como chovia pouco, mesmo essas alternativas não eram bem vistas pelos pescadores. Un linguadu o un bidion animava qualquer pescador. Dava para fazer un caldu-pexi o da gostu na katchupa e a família confortava-se com o pouco que havia. Ás vezes, o facto de encontrar a isca para a próxima pesca era motivo para animar os pescadores. O Cabiote conhecia a vida-no-mar melhor do que ninguém. Ele sabia como era difícil voltar de mãos vazias, vendo a Nhambina a soprar o lume e não sabendo o que dizer para plantar um sorriso na cara da esposa...

Os pescadores conseguiam perceber o estado do tempo através do som das ondas. Então, quando pensavam que o tempo não ia ser bom, preferiam ficar em casa. Alguns iam ajudar a esposa na sementeira ou a resolver alguns problemas domésticos. Outros preferiam ir ao Porto para jogar conversa-fora.

No Porto morava a elite da época, voltada para o comércio. Então, os pescadores sentavam na praça à sombra das tamareiras, depois de beberem na loja do Sr. Olímpio ou do Sr. Vicente Luciano. No pelourinho, encontravam sempre algum bafiu. Falando no Porto, não podia deixar de referir ao sobrado do Sr. Velhinho. Este sobrado guardava muitos mistérios do Porto. Hoje, ninguém comenta, mas suponho que está assombrado! Nas minhas brincadeiras de infância, nunca tive a coragem de me esconder nos quartos escuros deste sobrado quase abandonado...

Quando havia temporal, seguido de chuva, se houvesse pescadores no alto mar, a população ficava preocupada. Não sei se sabem, mas na Calheta chuva era mesmo só no mar. Lembro-me do Cabiote a regressar do mar com a cara preocupada, anunciando que chovia no mar... Todos os anos, a população boka-portuense lamentava a falta de chuva: “boka-portu ka ta txobi”. Só de quando em vez, chovia para o desespero dos pescadores, que tinham de adiar a ida ao mar; também para a despesa das peixeiras, pois tinham que ir ao Tarafal ou à Santa Cruz comprar peixes para venderem. Os agricultores enchiam-se de esperança, embora se desiludissem com o tardar do regresso da chuva. Para as criancinhas, a vinda da chuva era uma maravilha: tomavam banho-de-chuva, aproveitando para jogar à apanhada e outros jogos. Quando o campo se cobria de verde, os miúdos/jovens pastores começavam a desfilar com o seu rebanho...

 
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