ilhas
























penetraram através da ilha maior.
com artificies sagrados, minaram a terra.
depositaram sementes, que deram frutos.

Eurídice

Imagem:
Sandro Brito

Global Voices

Acordei com uma dor de cabeça terrível. Ao entrar no meu blog, verifiquei uma grande surpresa: o post que escrevi por ocasião do dia das mulheres cabo-verdianas teve ecos que desconheço a proporção. Partilho convosco esta alegria de ver uma citação sobre as mulheres cabo-verdianas no Global Voices.


Cape Verde: Woman's day

The point is that we try to understand the current situation and demand that, regardless of gender, people are treated with respect and have the necessary means to live with dignity.” - Língua Inglesa (trata-se de uma língua europeia, que tem vindo a ganhar terreno a nível mundial).

O que importa é tentarmos compreender a situação actual e exigir que, independentemente do sexo, as pessoas sejam tratadas com respeito e tenham as condições necessárias para viverem com dignidade.” - Língua Portuguesa (trata-se de uma língua europeia, exportada para as antigas colónias africanas, nomeadamente para Cabo Verde).

Ny zava-dehibe ankehitriny dia ny fiezahanay mamantatra izay toe-java misy sy ny fitatakianay, tsy misy fanavakavahana izay filahiany na fivaviany, ny hanajana ny zon'ny tsirairay sy ny mba hananany izay ilainy mba hiainany amin-kaja.” - Malagasy ou Malgaxe (trata-se de uma língua africana, do povo de Madagáscar).


Também chegou ao Japão (31/03/2008)

。「重要なのは、私たちが現状を理解しようとすることと、ジェンダーに関係なく、人びとが尊敬をもって扱われ、尊厳をもって生きるのに必要な手段を持つことだ。」- Língua Japonesa (trata-se de uma língua asiática, do povo de Japão).


……................................

(07/03/2008)

Aproveito para reagradecer a tod@s que contribuíram para espalhar essas breves linhas banais: Mpandika Tomavana, Hanako Tokita e Paula Góes. Não sei quem são, mas acho interessante a forma como vasculham a blogosfera!

Paula Góes, a dor de cabeça já passou…

P.S.: pela primeira vez, através de um simples post, senti vontade de abraçar os quatro continentes (África-América-Ásia-Europa). Então, aqui vai:

Um forte abraço

Mulheres Cabo-Verdianas

Sema Lopi

bu pari matcho, bu pari cordon
bu pari femia, bu pari labada
bu pari matcho, bu ba sirbi rei
bo qui pari femia, bu ba sirbi mundo


(música popular)


Hoje, Dia das Mulheres Cabo-Verdianas, na minha visita matinal pelo mundo da informação, tropecei-me numa nota acerca de uma sondagem aos/às leitor@s do asemana-online, onde os resultados apontam alguma reserva quanto à real emancipação das mulheres cabo-verdianas, sendo que apenas 22% considera que, no meu país, existe uma igualdade entre os sexos.

Aqui, já escrevi dois posts específicos sobre a situação das mulheres cabo-verdianas: Violências contra as Mulheres e Direitos Humanos das Mulheres. Acima de tudo, a minha preocupação é com a dignidade humana das mulheres (e também dos homens). Porém, sabemos que existem ainda inúmeras barreiras que entravam uma verdadeira emancipação das mulheres das ilhas. Não vele a pena atirarmos a culpa para as próprias mulheres ou para os homens. O que importa é tentarmos compreender a situação actual e exigir que, independentemente do sexo, as pessoas sejam tratadas com respeito e tenham as condições necessárias para viverem com dignidade.

Claro, fico furiosa quando vejo que a minha geração continua ainda a praticar actos que tão pouco merecem ser referidos aqui, na medida em que ilustram a grande resistência quanto à igualdade entre os homens e as mulheres. Infelizmente, temos ainda que insistir na luta para a promoção e protecção das mulheres. Claro, fico triste quando as mulheres são vistas como meras vítimas, frágeis e coitadinhas. É preciso uma outra postura em relação a essa problemática.

Não me venham dizer que as mulheres tendem a ser machistas sem mais! É preciso questionar. Sem dúvida que muitas mulheres continuam ainda a assumir essa posição, porque acreditam que para se triunfarem precisam pautar as suas acções de acordo com um ideal, sendo que este ideal assemelha muito a posicionamentos masculinos... Para o bem-estar da nossa nação secular, temos que lutar por uma cultura que respeita a igualdade na diferença e não humilhar/maltratar as mulheres do nosso país!...

Neste mês de Março, sem ignorar as demais instituições, aproveito para parabenizar: a OMCV, pelo trabalho que tem vindo a realizar, desde a sua fundação oficial a 27 de Março de 1981; a MORABI, pela contribuição, desde a sua criação a 28 de Março de 1992, sobretudo a nível financeiro, nesta luta pela melhoria da situação de muitas famílias e, especialmente, de muitas mulheres cabo-verdianas.

As minhas escolhas

Antes de tudo, o meu agradecimento ao Pedrabika por ter incluído “Igualdade na Diferença” na sua lista, ao lado do Djaroz.

Para dar continuidade a esta onda, que começou no Café Margoso, entre tantos blogs berdianos de que gosto, mas evitando o efeito repetição, aponto o meu dedo para dois super deliciosos: o primeiro, pelo verde e pela amizade, que começou na blogosfera e fortificou lá fora, no espaço real; o segundo, pelos seus belíssimos poemas, que me contagiam sempre que o acaso, quase habitual, me leva a aportar por aquelas bandas.


Blog d'kel Bom: Blog do Paulino e Soncent.

...a problemática do acesso à água potável

Afroinsularidade


Deixaram nas ilhas um legado
de híbridas palavras e tétricas plantações

engenhos enferrujados proas sem alento
nomes sonoros aristocráticos
e a lenda de um naufrágio nas Sete Pedras

Aqui aportaram vindos do Norte
por mandato ou acaso ao serviço do seu rei:
navegadores e piratas
negreiros ladrões contrabandistas
simples homens
rebeldes proscritos também
e infantes judeus
tão tenros que feneceram
como espigas queimadas

Nas naus trouxeram
bússolas quinquilharias sementes
plantas experimentais amarguras atrozes
um padrão de pedra pálido como o trigo
e outras cargas sem sonhos nem raízes
porque toda a ilha era um porto e uma estrada
sem regresso
todas as mãos eram negras forquilhas e enxadas

E nas roças ficaram pegadas vivas
como cicatrizes, cada cafeeiro respira agora um
escravo morto.

E nas ilhas ficaram
incisivas arrogantes estátuas nas esquinas
cento e tal igrejas e capelas
para mil quilómetros quadrados
e o insurrecto sincretismo dos paços natalícios.
E ficou a cadência palaciana da ússua
o aroma do alho e do zêtê d'óchi
no tempi e na ubaga téla
e no calulu o louro misturado ao óleo de palma
e o perfume do alecrim
e do mlajincon nos quintais dos luchans

E aos relógios insulares se fundiram
os espectros, ferramentas do império
numa estrutura de ambíguas claridades
e seculares condimentos
santos padroeiros e fortalezas derrubadas
vinhos baratos e auroras partilhadas

Às vezes penso em suas lívidas ossadas
Seus cabelos podres na orla do mar
aqui, neste fragmento de África
onde, virado para Sul,
um verbo amanhece alto
como uma dolorosa bandeira.

Conceição Lima (São Tomé e Príncipe)

máquina de costura


Ainda ontem, pensei em comprar uma máquina de costura, muito catita. Lembrei-me de que a minha avó tinha uma máquina de costura cheia de ferrugem, que apenas ocupava espaço lá em casa. Foi naquela máquina que a minha mãe e as minhas tias aprenderam a remendar. Num passo geracional, aquela máquina deixou de ter utilidade. Eu não aprendi a coser, não fui induzida a inscrever nos cursos de corte e costura na casa das irmãs-de-caridade... Não faço ideia onde é que aquela máquina anda, mas recordo de que era parecida com esta que acabei de encontrar na Internet.

treze contos em duas noites

Waldir Araújo, quando te conheci, aqui neste espaço que denominaste por “mar de desabafos”, percebi pelas tuas primeiras palavras a poesia que existe na tua alma. Ao procurar saber mais sobre ti, através do Rio Geba, descobri a tua música poética, embrulhada em estórias da tua Guiné-Bissau. Desde o primeiro momento, fiquei fascinada pela simplicidade dos teus gestos e das tuas palavras.

Ao marinar no teu livro, Admirável, sucumbi e fui devorada pelos treze contos em duas noites. Apetecia-me dizer sim que os teus contos são “esteiras suaves e boas de adormecer, onde a verdade das coisas nos atrai por não ser tão real quanto a verdade do que foi escrito porque foi sonhado” (usando as palavras ditas pelo Ondjaki no prefácio).

Esta semana, andei atarantada atrás do carteiro, que tardou a chegar. Pensei no Mimito Adão, “o escritor ambulante”. Talvez fosse a pessoa mais indicada para me ajudar a escrever meia dúzia de linhas sobre os teus contos, mas suponho que Mimito Adão anda mais é fascinado com os beijos na boca da Mina Sandi. Enquanto esperava sofregamente pela chegada de uma mensagem das Tágides, imaginava as andanças do Admirável Diamante Bruto, as discussões das mulheres da ilha de Etionkó, a nova vida do Carlos Nhambréne, o sorriso do pobre pai natal, as mortíferas flores do Rachid Ismael, o desgosto da Sara... Porém, faltam-me ainda palavras para te transmitir o meu tamanho deleite ao beber desta tua primeira poção mágica. Antes de terminar esta minha pequena nota, deixo cair uma migalhinha do conto que mais gostei:


O dia do amor-próprio

“(...) Naquela reunião de mulheres, as verdadeiras chefes desta ilha de Etionkó, no arquipélago dos Bijagós, discutia-se a atitude de Ernesto Nanqui, que foi encontrado, alcoolizado, a tentar mutilar o seu pénis como protesto pelo desprezo a que a sua mulher o tinha votado nos últimos tempos (...).”

...…………………………

Apresentação em Lisboa

Nesta sexta-feira, 14 de Março, pelas 18:30mn, na Casa Fernando Pessoa, será apresentado em Lisboa o primeiro livro do jornalista e escritor Waldir Araújo, intitulado Admirável Diamante Bruto e Outros Contos, sendo que a apresentação estará a cargo do jornalista e poeta Toni Tcheka. A primeira apresentação pública deste livro decorreu no dia 12 de Fevereiro, na Póvoa do Varzim, no âmbito das Correntes d’Escrita.

...para que serve o dia 8 de Março?


Este ano, tirei a tarde do dia 8 de Março para mim. Aproveitei para fazer coisas de que quase já não me lembrava do seu sabor. Gostei de ter lembrado de mim mesma!

Alguma vez já pensaram no significado do dia 8 de Março, na sua história?

Será que é uma data apenas para as mulheres receberem mais flores, palavras bonitas especialmente desenhadas para esse dia, telefonemas de pessoas amigas e amigas da luta por uma maior inclusão da camada feminina nas nossas sociedades...?

batuque... apenas um ensaio

Maria Miranda

O mês de Fevereiro de 2008 ceifou a vida de uma das mulheres mais antigas da Calheta. Maria Miranda foi uma figura proeminente do seu tempo. Vivia em Cutelo Miranda, donde provinha o seu nome de família. Cutelo sempre pertenceu por nascença à família Miranda, que cresceu ao longo do tempo, tendo padecido de fome durante os maus anos agrícolas, como o resto da minha aldeia piscatória.

A pequena casa de Maria Miranda, feita de pedra e de barro, fica localizada entre a casa de Txabinhu e Maria d’Txabinhu e a casa de Totó e Lourdes d’Totó, lá no topo habitável de Cutelo Miranda. Conhecida pelas suas mãos angelicais, que traziam ao mundo as crianças da Calheta, Maria Miranda ganhou o título de “Parteira do Povo”, cunhada pela belíssima jornalista Aidé Carvalho. Esta mulher respeitada pelos seus dotes medicinais, sobretudo no que se respeita à obstetrícia, era proprietária de uma pequeníssima mercearia, ao lado da loja de Nho Nuna e Nha Diminga. Com a sua balança de quilo certo, Maria Miranda mercava a banana verde para o kaldu pexi boka-portuense, muitas vezes sem o esperado peixe.

Lingua Maternu

Oji, dia 21 di Febreru, e Dia Internasional di Lingua Maternu.

UNESCO ta difende ma: “Kes serka di 6000 lingua di mundu ta ser glorifikadu na Dia Internasional di Lingua Maternu, dia pa prumove diversidadi linguistiku i ensinu multilingi.”

Sekretariu-Jeral di UNESCO, Koïxiro Matsuura, ta difende ma: “lingua e mutu mas ki un instrumentu, konsideravelmenti mas ki un feramenta. Pa organiza nos pensamentus, stabelese rilasons sosial i konstrui nos rilason ku meiu envolventi, lingua e karateristika fundamental di un ser umanu. E ku i atraves di lingua ki nu ta vive.

Di prinsipiu ti fin di nos bida, di jerason pa jerason, lingua ta kunpanha-nu, ta sirbi-nu, ta kria-nu. Lingua sta na sentru di vida familiar, di trabadju, skola, pulitika, media, justisa i investigason sientifiku. Lingua sta na bazi di relijion, tanbe.

Pabia di kel la, uzu di lingua ka pode odjadu sima un prublema tekniku, mas sin soluson pa un monti di prublemas inpurtanti. Posibilidadi di uza o proibison di uza un lingua publikamenti (sima na skola, media o internet) ta dipende di identidadi, patriotismu o puder.

Sienti des aspetus, Konferensia Jeral di UNESCO disidi, na mes di Novenbru di 1999, kria Dia Internasional di Lingua Maternu, dia pa dibatis i sensibilizason. Desdi kel data priokupason ku kistons di lingua ten stadu ta aumenta manenti.”

Sekretariu-Jeral di UNESCO ta difende inda ma: “linguas ten inpurtansia di me di sisu pa konsigi kes 6 objetivu di Edukason pa Tudu Algen i pa objetivus di Dizenvolvimentu di Mileniu ki Nasons Unidu difini na anu 2000. Linguas ten inpurtansia si nu kre prumovi diversidadi kultural, luta kontra analfabetismu, garanti un ensinu di kualidadi – ki ta iziji nxina na lingua maternu na kes primeru anu di skola. Linguas ten inpurtansia na garanti maior inkluzon sosial, pa maior susesu kultural, pa dizenvolvimentu ikunomiku i pa prizervason di sabedoria popular.”

Skodjedu es dia (21 di Febreru) pamodi nes data, na 1952, na enton Pakiston-Lesti (oji Bangladex), gentis faze manifestason na rua pa iziji ofisializason di ses lingua maternu (Bangla) onbru onbru ku kel ki dja era ofisial – Urdu. Urdu era papiadu esensialmenti na Pakiston-Osidental. Pulisia da gentis tiru ti more kantu.

Enkuantu gentis di Bangladex, antis ten 6 anu dipos di ses indipendensia, da sangi pa ofisializason di ses lingua maternu, anos li nu sta inda prezu na amaras di mentalidadi skravu, dipos di 32 anu di suberania.

Nes anu ki Asenbleia Jeral di ONU pruklama “Anu Internasional di Linguas” i pabia (sima slogan di UNESCO – koordenador des disizon di ONU – ta fla) “linguas ten inpurtansia”, pelu menus pa Guvernu publika un planu ki ta mostra modi i na ki prazu el ta pensa kunpri ordi Konstitusional pa ofisializa nos lingua maternu – Artigu 9º, numeru 2. Pelu menus!

Marsianu nha Ida padri Nikulau Ferera

Ritos de Passagem

«Ritos de Passagem é o primeiro livro de Ana Paula Tavares, cuja primeira edição ocorreu em Angola, em 1985, e que surge agora numa nova edição da Caminho, enriquecida por ilustrações de Luandino Vieira: um escritor que “lê” a poesia de Ana Paula Tavares através de manchas de café e tinta-da-china.

Neste livro percebem-se já a coragem, a vontade e a sensibilidade da autora para o árduo trabalho da palavra em poesia. O início de um caminho que está longe de terminar.» A apresentação decorre, hoje, pelas 18h, em Lisboa.

Aproveito para saudar a Ana Paula Tavares pelo “Prémio Nacional de Cultura e Artes 2007”, na Categoria Literatura, atribuído em Angola, o seu país natal.

Palavras

Joana Lopes arrastou-me numa correnteza para o oceano do alfabeto português. Após escarafunchar o meu Diário, seleccionei as doze palavras mais fofinhas “nesta língua lusa, que mal entendo”:

aurora
faísca
bagaço
bruma
espuma
catita
suculenta
podridão
malvada
salgado (salgar, salgando)
labuta (labutar, labutando)
matuta (matutar, matutando)

Gostei de rebolar nas palavras! E agora convoco para esta dança tagarelada: Margoso (Mindelo), parabenizando pelos 15 anos de muita merda nas ilhas e arredores; Cuscavel (Porto), imaginando as novidades desta caçadora de palavras; A Cidade das Mulheres (Lisboa), querendo saber se existe um dicionário de mulheres; Alex! (Rio de Janeiro), pensando nas novíssimas descobertas deste menino aventureiro; Dominus (Belo Horizonte), bebendo a arte da escrita; feiticeiro Barbosa (Praia), chamando pelas palavras com sabor de antigamente.

Orfeu e Eurídice

Eurídice

Vem pela mão de Orfeu.
Vem, através dos tempos
E da morte,
Realizar, enfim,
O seu noivado eterno.
Do negro inferno
Do esquecimento,
Vem, casta e feminina,
Oculta no seu próprio encantamento.
Vem só em pensamento.
Ele é que a imagina.

Miguel Torga


Orfeu

I
Orfeu! Orfeu!
Nas profundezas do Hades,
Senti a força da tua imaginação.
Revoltada no mundo dos mortos,
Inventei a Ilha da Batalha.
Atravessei os tempos, venci a morte.
Libertei-me. Nasci de novo.
Badia. Fêmea. Mulher.

II
Escuto o som da tua lira, uma morna.
Vens no meu pensamento.
Imagino-te.
Saltitamos pelos campos floridos.
Aconchego-me no teu peito,
Onde sou eternamente a tua Eurídice.
Na primavera, erguer-nos-emos,
Indo além da imaginação.

Eurídice

“Dor di Sodade”


Há dias que acordo sem vontade de sair na rua ou de mover qualquer folha de papel. Uma sensação que não me é estranha tomba sobre mim, uma dor que vem de dentro: a doce saudade. Porém, não sei do que sinto saudade mais apertada! Talvez seja da brisa do mar. Talvez! Só sei que a família, o cheiro da terra, o sabor da água, a cor da noite, a música, o calor dos abraços e a alegria dos sorrisos ganharam uma outra dimensão na minha imaginação.

Às vezes, pergunto à mim mesma: “o que faço nesta cidade distante?” Parece sensato responder: “quero aprender coisas novas ou quero desenhar outros caminhos.” Até pode ser por isso que sacrifico o meu presente, preferindo passar a maior parte dos meus dias encravada à frente de uma máquina de escrever (...desculpem o anacronismo!).

Consciente de que a minha estadia nesta cidade é passageira, tento torná-la menos dolorosa, mais suportável. Aproveito para conhecer outras gentes, passear pela cidade, jogar futebol, correr no parque, andar de barco no Mondego, ler um livro sobre jardinagem ou sobre como preparar um jantar especial para uma pessoa especial numa noite especial. Apesar dessas fugidinhas, quando não tenho obrigações fora de casa, passo a maior parte do meu tempo trancada num quarto. Daí que, por mais que tento fugir da dor que vem de dentro, não consigo ignorar que aqui os meus dias tardam a passar. Assim, tento regar a minha alma com a poesia do povo das ilhas. Custa-me recitar “A! kaoberdi”, sem chuviscar.


A! Kaoberdi

Ka ten kusa mas kasabi
Ki nhu sta longi’l terá nho
Ka xintadu
Ka sakedu
Ka na sonu
Ka kordadu
Ka mo zdreta
Ka mo skerda
Ka ntende
Ka ntendedu
Ora norti
Ora sul
Ta nabega riba d’agu
Sen un napundi certu.

Bo ki ben bu larga tera
Bu dexa mai
Bu dexa kretcheu
Bu larga tudu
Pamo ancia’l ben mas ki fika
Má ken ki ben sta fadigadu
Ku xintidu so na bai
Si ben e sabi
Fika e riba’l sabi.

Nharmum!
Sakuta bu obi

Dexa familia e ka nada
Dexa tera e suportavi
Ma dor di sodadi
E cima dor di duença fraka
Ki ta rukuti bida
Ta legra alma
O ki xintidu kore na bai
Ka ten ramedi
Nin korenti ki ka ta sapa
Cimé na mundu largu
Rodiadu di galantaria
Baxu’l dinheru branku
Sta bu força’l trabadju
O ki nobidadi ben na karta
Bu koraçan tristi
Ta bira mas kontenti
Noticia sabi ta fase tchora
Kel kasabi ta dizanimabu

Nharmun!
Aian! Sakuta bu obi

Nos tera e pobri
Di tchada limpu kutelo seku
Rubera baziu
Rotcha kran ta djobe ceu
Sol forti raganhadu
Ceu azul mar d’anil
Ta saluça n’area mortu
Nubris branku ta lora dibagar
Ta kuda ingratidan di tchuba
Mocinhus na stori
Na sombra d’impena
Noti serenu luarentu

Violon detadu na peru’l kriolu
Morna maguadu na boka’l kantista
Batisadu kuarta
Kasamentu sabru
Badju sabi na son di gaita
Batuku kenti grogu na kalman
Fogueti na len festa no guentis
Preta bunita di odju grós
Kabelu stendedu rostu lorondu
Korpu filadu na nó di sulada
Ta sukuta koxa na finaçan di cimboa

Nharmun!
Aian! Sakuta bu obi

E keli ki ata barian xintidu
Ta pon ta boita ta raboita
Cima don-dagu na rubera
Cima pitada kan-kan fedi
Mi! Mi li!
Djan ba kaoberdi
La ke kura’l nha duença
Ramedi nha fronta
Pan bá diskança xintidu

AH! KAOBERDI!
LARGAU DJA SO SI... ...

KáKá Barbosa

Carole Pateman (num colóquio da FLUC)

Este fim-de-semana, dias 8 e 9 de Fevereiro, a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC) realizou um colóquio internacional dedicado ao tema “Estudos Feministas e Cidadania Plena”, tendo convidado um conjunto de académic@s e activist@s para um diálogo sobre a possibilidade de uma cidadania plena das mulheres, neste mundo de amplas leis e práticas ainda discriminatórias. Logo na cerimónia de abertura, a assistência foi desafiada sobretudo com as palavras da ensaísta, crítica literária e profa. Maria Irene Ramalho, com a sua sabia mensagem sobre «as mulher substantivas». O momento mais alto da manhã ficou marcado com a exigente e depurada intervenção da politóloga Carole Pateman. Sem querer destacar apenas a intervenção desta académica internacional, queria chamar a atenção para o seu trabalho (uma vez que se trata da minha área de estudo), sendo de sublinhar três grandes obras da sua autoria: Participation and Democratic Theory (1970), The Sexual Contract (1989) e The Disorder of Women: Democracy, Feminism and Political Theory (1989). Aquele auditório quase mofo, para além das representações institucionais, foi perfumando ainda com as intervenções principais de Rosemaire Buikena (Univ. de Utreque) e de Fernanda Henriques (Univ. de Évora). Também foram fundamentais as mesas-redondas sobre “mulheres e migrações”, “mulheres e corpo” e “mulheres e violência”, que fomentaram o debate com as intervenções de Maria do Céu Cunha Rego, Carlos André, Virgínia Ferreira, Maria José Magalhães, Alcestina Tolentino, Teresa Cunha, Isabel Allegro Magalhães, Lígia Évora Ferreira, Cecília MacDowell Santos, Teresa Toldy, Mónica Andrade, Angélica Lima e muitas outras vozes. Com o cair da primeira noite, a poesia e a presença da poetisa Ana Luísa Amaral parece ter esbarrado subitamente as fronteiras de sexos.

MGF: Basta!!!

Pessoalmente, respeito as diferenças culturais neste nosso mundo. Porém, custa-me acreditar que, em pleno século XXI, tantas mulheres e raparigas são violentadas por causa de tradições culturais. Quando penso no caso da Mutilação Genital Feminina (MGF), fico furiosa. E, claro, penso (!): e se fosse comigo, com as minhas manas ou com as minhas primas? Por isso mesmo, sinto a dor da MGF, que não passa de um atentado aos direitos humanos das mulheres, embora tem sido relegado um conjunto de factores “positivos” relativos a essa prática, que atinge sobretudo os países islâmicos. Infelizmente, ainda inúmeros países praticam a MGF, condicionando a sexualidade das “suas” mulheres (vendo-as como objectos, que têm de ser controladas).

Acredito que, seja homem ou mulher, nascemos livres e iguais, temos os mesmos direitos relativos à nossa vida, ao nosso corpo e à nossa sexualidade (esta não deve ser instrumentalizada por nenhum tido de decreto). Sendo assim, hoje, Dia Internacional de Tolerância Zero à MGF, grito bem altooooooo: BASTA!!!

Negro ou Mulher?

Obama: “Yes, we can!”

Barack Obama Jr. nasceu a 4 de Agosto de 1961, no Havai, filho de um queniano e uma norte-americana, natural do Estado de Kansas. Formado em Ciência Política e em Direito, para além da advocacia, é professor na Faculdade de Direito da Universidade de Chicago, tendo sido antes o primeiro afro-americano Presidente da Harvard Law Review. Este “jovem” Senador pelo Estado de Illinois, é o único negro na actual legislatura norte-americana. Desde que começou a desempenhar funções políticas de maior destaque, Obama não tem deixado de referir à relação entre os seus pais, chegando a afirmar, durante a Convenção Nacional Democrática 2004, que “os meus pais não compartilharam só um amor improvável, eles compartilharam uma fé nas possibilidades desta nação”.

Enquanto potencial candidato às presidenciais de Novembro de 2008, Obama colocou o pé na poça com questões de política externa, tendo inclusive sido catalogado como sendo um “inexperiente”. Apesar da sua “inexperiência”, Obama tentou espalhar o seu charme político. Conseguiu superar a nível de financiamento para as campanhas, conseguiu o apoio de importantes famílias democratas e procurou jogar com o que tinha pelas mãos, sempre pensando em recuperar o “sonho americano”. O potencial candidato fartou-se de fazer referência às mulheres. Os nomes da avó materna e da mama (as mulheres que o criaram, a quem ele dedica o seu segundo livro, intitulado The Audacity of Hope), da esposa e das duas filhas, sempre que a situação se revelou oportuna, estiveram presentes no discurso de Obama. A família aparecia frequentemente no seu discurso, sendo o papel das mulheres referenciado. Para além de trazer as mulheres para a centralidade da sua auto-biográfica política, Obama não foi inocente ao abraçar a causa racial, chamando a atenção para séculos de opressão da camada negra na sociedade norte-americana. Já nestas primárias, o grito “Yes, we can!” (e a sua versão musicalizada) parece arrepiar qualquer pessoa atenta às múltiplas injustiças raciais naquela “sociedade democrática”. Até me emociono, com o discurso e o sorriso aberto de Barack Obama! Inclusive tenho passado horas no seu site, tentando analisar a força da expressão “our moment is now”.


Hillary: “We can do it!”

Hillary nasceu a 26 de outubro de 1947, em Chicago. Formou-se em Ciência Política e em Direito, tendo trabalhado no conselho editorial da Yale Review of Law and Social Action. Tem uma carreira de sucesso e uma invejável experiência profissional. Ainda jovem, teve experiência de participação política, despertando também para uma carreira política (veja o site da candidata). Como esposa do presidente Bill Clinton, foi a primeira-dama dos Estados Unidos da América, entre 1993 a 2001, tendo sido a primeira com uma pós-graduação e a primeira a ter uma carreira profissional de sucesso. Como primeira-dama, Hillary destacou-se pelas suas acções em prol dos direitos das mulheres e para o bem-estar das crianças. Desde Janeiro de 2001, tem ocupado o cargo de Senadora pelo Estado de Nova Iorque, sendo a mais jovem dos EUA. Se vencer as primárias democratas, Hillary será a primeira candidata feminina à presidência dos EUA (também teve direito a um video show).

Enquanto uma mulher negra, com um interesse especial pelas questões políticas e, em particular, pela participação política feminina, tenho acompanhado as primárias democratas com muita atenção. No fundo, sinto que estas eleições têm sido delicadas para mim. Tanto apetece-me gritar com o Obama (“Yes, we can!”), como apetece-me recordar o grito das trabalhadoras do século passado (“We can do it!”). Eu acho que, nesta vida, a batata quente está sempre nas minhas mãos. De qualquer maneira, a minha resposta é franca: se tivesse o direito de voto nas primárias democratas, o meu voto seria nulo, porque não seria capaz de votar contra a Hillary e nem seria capaz de votar contar o emocionante apelo de Barack Obama. Se for o Obama a vencer as primárias, desejarei tudo de bom para este “jovem” político e vou torcer para que ele consiga vencer o candidato republicano, esperando também que consiga ter condições para exercer o seu mandato presidencial. Se a Hillary seguir em frente, juntarei as minhas forças à grande movimentação feministas que surgirá a nível internacional. Claro, em Novembro deste ano, estarei nos EUA para trabalho de campo. E desejarei que a Hillary se junte às outras mulheres Chefes de Estado e, por tudo o que é mais sagrado, que ela venha a jogar flores onde houver discórdia. O meu desejo maior é que as mulheres que estão na política contribuam para uma Cultura da Paz, sendo que os EUA têm um papel importante nesta matéria.

Marsianu e Orlanda

(Praia, 23 de Dezembro de 2007)

Marsianu e Orlanda convidaram-me para um jantar com sabores da ilha. Quando cheguei à residência do casal, o cheiro da katxupa tinha já invadido a cozinha. A mesa oval estava à espera apenas da travessa principal. Enquanto aguardávamos pela katxupa, escutávamos “di korpu ku alma” na voz da doce Lura. Pouco depois, sentámos à volta daquela mesa: o Marsianu, a Orlanda, o Hélio (segundo filho do casal), a Sandra e a dona Zinha (filha francófona e esposa do padrinho de Marsianu) e eu. Saboreamos a katxupa!

Durante o jantar, ouvimos as estórias das conquistas do Marsianu nha Ida padri Nikulau Ferera. Orlanda recordou o dia em que deixou a casa dos pais, indo ao encontro do Marsianu. “N ka tra-l di kaza nau! El ki ben (risos).” - disse o Marsianu. “Fomos obrigados a apressar a data do casório por causa do que eu tinha feito ku fidju femia di genti: o Alfredo (o meu primeiro filho) tinha já sido encomendado...” – concluiu o Marsianu.

A minha curiosidade era tanta, que não resisti e perguntei ao Marsianu como tinha conhecido a Orlanda, mas este apenas respondeu-me com uma valente gargalhada. Antes de fechar a boca, contou-me uma pontinha da estória: “foi num sábado de feira, em Santa Catarina. Eu queria ir à feira, mas enganei-me no percurso. Fui parar à frente da Igreja de São Salvador do Mundo. Não me intimidei!... Sendo bisneto do padri Nikolau Ferera, não resisti à tentação: atirei uma piscadela à ainda jovem Orlanda, que se encontrava de joelhos com a cara voltada para o São Salvador do Mundo, que disse: ‘Amém’.”

Eurídice


(Praia, 23 di Dizenbru di 2007)

Marsianu i Orlanda konvida-m un jantar di kumida tera. Kantu N txiga ses kaza, txeru di kumida dja tomaba kuzinha. Meza oval dja staba postu – sa ta faltaba so travesa prinsipal. Timenti nu sa ta speraba katxupa, nu ba ta obi “di korpu ku alma”, na kel vos doxi di Lura. Dentu faxi nu bai pa kel meza: Marsianu, Orlanda, Hélio (ses sugundu fidju matxu), Sandra i sinhora Zinha (fidju femia nasidu/rezidenti na Fransa i mudjer di padrinhu di Marsianu) i mi. Nu purba kel katxupa sabi!

Timenti nu sa ta djantaba, nu ba ta obi partis di konkistas di Marsianu nha Ida padri Nikulau Ferera. Orlanda papia-nu di dia ki el bai fika ku Marsianu. “N ka tra-l di kaza, nau! El ki ben (grasas).” – Marsianu faze kiston di sklarese. “Nu tevi ki kenta pasu ku marka kazamentu - trokadu nha brinkadera ku fidju femia di genti: Alfredo (nha primeru fidju matxu) dja staba na kaminhu ta ben…” – akrisenta Marsianu.

N staba ku tantu kuriozidadi, ki N ka aguenta, N purgunta Marsianu modi ki e konxe Orlanda. Marsianu kumesa ku un grandi gargalhada, pa konta-m dipos un ponta so di storia: “Era nun dia di fera la nha Santa Katrina. N sa ta baba fera, mas N era ku kaminhu, N bai da la igreja matris di Nhu Son Salvador di Mundu. N ka fadiga!... Odju kai-m na kel joven Orlanda, ki staba di juelhu, ta reza. Mi, bisnetu padri Nikulau Ferera, N ka resisti tentason! – N piskal odju i nhu Son Salvador di Mundu fla: ‘Amen’.”

Traduson di Marciano Moreira

A Magia da Noite

Na Calheta da minha infância, tudo era diferente! A noite era maravilhosamente escura. A luz do podogó brilhava-se baixinho, iluminando a pequena sala, onde servíamos o jantar. Lá fora, a lua passeava-se pela noite. E, às vezes, escondia-se. As estrelinhas tapavam o céu quase por completo e, de quando em vez, aparecia uma estrela cadente (a mais vaidosa entre todas). Não tirava os meus olhos do céu. Até contava as estrelas! Fazia pedidos especiais. Acreditava nas estrelas! Estas brindavam a noite com a luz que apimentava as minhas fantasias de infância. Ainda hoje sinto o sabor do silêncio da noite nos meus lábios. Tenho uma enorme paixão pela noite! Gosto de vê-la chegar, trazendo a magia de tempos adormecidos. Perco-me pela madrugada adentro, mergulhada na noite, que vejo da minha janela.

Quebra-cabeça


“Qual é a coisa qual é ela que ninguém ou quase ninguém ousa dizer (denunciar, no verdadeiro sentido da palavra…), mas todos murmuramos?”

Despertar a Cultura (subscrevo!)


Esta semana, foi criado o movimento “Amig@s da Cultura”, tendo apresentado publicamente um manifesto Pelo direito à cultura e pelo dever de cultura!, contando já com mais de 400 subscritor@s com interesses pela cultura. Durante esta primeira semana de manifestação pública, o movimento tem descortinado o palco nefasto da política cultural municipal, acobertada pelo manto folclórico e pela enferrujada garganta da tuna camarária.

O manifesto deixa claro que: “Coimbra é hoje uma cidade amarfanhada do ponto de vista cultural, que só não se tornou absolutamente insignificante a nível nacional graças à actividade que, no limiar da sobrevivência, os poucos agentes culturais que ainda restam conseguem ir desenvolvendo. A Câmara Municipal já não se limita a não apoiar devidamente a actividade cultural que aqui é feita; assume-se, pelo contrário, como um elemento dificultador e tendencialmente destruidor do potencial de criação artística que a cidade possui e que é uma das suas principais mais-valias”.


Quero o Mondego

Sou cabo-verdiana, filha do mar. Estou em Coimbra há pouco mais de sete anos. Na Universidade de Coimbra, fiz a minha Licenciatura e o meu Mestrado em Sociologia. Neste momento, estou a remar para a Sala dos Capelos. Estou nesta cidade pelo desejo de estar e quero sentir o prazer de estar aqui. Coimbra também tem um pouco de mim: os meus sonhos, as minhas saudades, as minhas angústias... E eu carrego a marca de dias passados em Coimbra.

Confesso que, nesta Cidade de Encarnação, os meus dias tardam a passar. Em vez de apenas lamentar as saudades de a cultura d’terra, gostaria de tatuar-me de a cultura d’mondego. Quero sonhar e amar em Coimbra, afinal esta é a cidade dos amores (aqui jaz Pedro e Inês). Quero ter uma estória d’coimbra para contar aos/às meus/minhas netos/as. Embora sendo uma “passageira em trânsito”, quero ser uma cidadã nesta cidade e tenho o direito de respirar a cultura! Não quero culpar a ninguém (muito menos ao pobre do Carlos Encarnação) pelas minhas futuras depressões pós-tese. Pois não, irmão da prometida “Europa”?! Então, deixa a cultura flutuar!...

Celas, 26 de Janeiro de 2008
Eurídice
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Ponto de Situação (4 de Fev)

"Pelo direito à cultura e pelo dever de cultura!" já conta com mais de 900 subscritores. Este manifesto não tem passado despercebido para a imprensa portuguesa (tanto a nível local, como a nível nacional). Ainda tem surgido muitos textos de opinião, bem como reacções na blogosfera (“Amig@s da Cultura” conta com o apoio de 50 blogs), sobre essa iniciativa pela cultura. Tendo por objectivo alargar a discussão pública sobre a política cultural em Coimbra, também já se encontra disponível um conjunto de depoimentos pessoais de subscritores do texto. Por tudo isso e pelo esperado debate aberto do dia 20 de Fevereiro, no Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV), pelas 17h, ninguém pode ignorar o êxito desta iniciativa.

O Homem-Golo


(parabéns ao Eusébio pelos 66 anitos)

Heath Ledger

Nasceu a 4 de Abril de 1979 (Perth-Western Australia-Australia).
Morreu no dia 22 de Janeiro de 2008 (Manhattan-New York-USA).

Viviane (...e a Igreja de São Tiago)


Viviane de Melo Resende chegou no início do Outono, com a intenção de passar três meses em Coimbra. Veio do Brasil para escrever uma parte da sua tese, tendo como interesse de estudo a análise crítica do discurso e a etnografia na problematização do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, no contexto brasileiro, e como supervisora a linguista Clara Keating. Tem vindo a desenvolver o seu trabalho académico no âmbito do Núcleo de Estudos sobre Linguagem e Sociedade, na Universidade de Brasília, onde lecciona, tendo já uma pequena vasta produção nesta área de investigação.

Passando para outros registos, que evidentemente são importantes também para compreender os percursos académicos, vou relatar um pouco a passagem da Viviane pela Universidade de Coimbra. Nos primeiros dias da sua estadia em Coimbra, ela estava um pouco triste. Porém, gostava de ver o fumo das assadas de castanhas, na Praça 8 de Maio. Também passava horas a escutar músicas latinas para encurtar a distância

Acabou o Outono, chegou o Inverno. As chuvas e o frio; o quarto quentinho e a preguiça de sair de casa. No meio desse clima pálido, conheci a Viviane, que tinha já conhecido o Pablo (um outro latino perdido nos muros da académica coimbrã… chileno). Almoçávamos no lugar de sempre, tomávamos um cafezinho num bar qualquer e, depois, regressávamos para a labuta.

Um dia, fugimos dos olhos do Pablo e aproveitamos para fazer uma pequena visita à Baixa de Coimbra. Gostei da passeata do Mosteiro de Santa Cruz até a Sé Velha. Primeiro, entramos no Mosteiro de Santa Cruz, fundado em 1131, onde se encontram sepultados os dois primeiros reis de Portugal (D. Afonso Henriques e D. Sancho I). Pois, a cumplicidade entre a igreja e a monarquia...

Seguimos para a Rua Ferreira Borges, decidimos entrar no Café Nicola de Coimbra (um dos vários cafés espalhados nesta rua). Pedi um chá de tília e um pastel de natas; a Viviane apontou-se para o bolinho de bacalhau, preferindo também um descafeinado. Depois de repor as energias, descemos por uma curta escadaria lateral e confessei os meus pecados na Igreja de São Tiago, um templo românico do último quartel do séc. XII, que marcava, em Coimbra, o “Caminho de Santiago” (portanto, a peregrinação até Santiago de Compostela). Confesso também que, desde que estou em Coimbra, era a primeira vez que tinha entrado naquela igreja. Tinha passado vários anos fechada, porque estava a ser remodelada. Saí da Igreja de São Tiago como se tivesse lavado a alma.

Entramos através do Arco de Almedina e subimos pelas escadinhas do Quebra Costas até até a Sé Velha, construída depois da Batalha de Ourique (1139), quando Afonso Henriques se declarou como sendo o rei de Portugal, tendo escolhido Coimbra como a capital do reino. Na Sé Velha, encontra-se sepultado D. Sesnando (Conde de Coimbra).

 
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