Início da viagem... foi uma maravilha!

Este ano, com a chegada do «verão quente», aceitei o desafio de redescobrir bocados da terra lusa. Como adoro cidades históricas, sobretudo aquelas pacatas que quase ninguém dá por elas, foi com muita emoção que peguei na minha velha mochila de couro, metendo lá dentro um diário cor‑de‑rosa, um lápis afiado, uma máquina fotográfica digital, um livro de poesia com folhas soltas e uma caixinha de maquilhagem com um bâton de cor nenhuma e um pequeno espelho. Numa sacola extra, levei um protector solar, uma garrafa de água, uma escova azul para os dentes e uma outra para os cabelos, entre outras tralhas de mulheres... Saí de casa preparada para o grande sol que se previa: uma boina, uns óculos bué da giros, pernocas ao léu e uma blusa verdazul. Entrei na viagem.

A passagem mágica pela Ponte da Arrábida, que liga Porto e Vila Nova de Gaia, foi a primeira grande maravilha da viagem. O silêncio do rio Douro convidávamos para uma outra viagem, mas não caímos na tentação e seguimos o nosso percurso previamente delineado. Continuamos a flutuar pela auto-estrada com muita música, prosa e suspiros...

Vou de férias!!!

portugando de alto à baixo em oito dias:
Caminha. Viana do Castelo. Vila Nova de Gaia. Coimbra. Lisboa. Sintra.

não quero ouvir adeus, que seja até breve!




Oh, Lino, quase me fizeste gotejar com o teu segundo parágrafo. Porém, após uma respiração funda, percebi que as tuas razões não me satisfazem. Acho que podias continuar com o teu cantinho intimista, sem que isso atrapalhe os teus outros compromissos e responsabilidades. E no teu blog sabes que podes escrever quando quiseres e como bem entenderes. Esta é a grande vantagem em relação aos outros ciclos que fechaste no passado. Não consigo entender as tuas justificações, pois acredito que a vida é feita de múltiplos ciclos, muitos deles em simultâneo. Muitas vezes, perco minutos a reler o meu blog e pergunto para mim mesma se “quando for grande” irei continuar com o meu blog que é tão intimista e numa escrita afectiva, sensual e feminística. Não encontro resposta. Certamente, poderei adoptar uma outra forma de escrita, mais sociológica ou cronicada. Isto é para te dizer que, enquanto uma das blogueiras que gosta do teu blog e vai lá muitas vezes, acho que talvez chegou o momento em que devias adoptar um outro estilo de escrita e com outra periodicidade, mas nunca fechar o teu blog. Por exemplo, há um blogueiro na vizinhança (não o conheço pessoalmente, mas é amigo de uma tia minha e de um tio meu, mas ele não sabe…) que tem uma vida profissional de loucos, mas consegue colocar bons posts no seu blog. Faça uma visitinha até “Passageiro em Trânsito”! E há muitos/as outros/as blogueiros/as (tanto em Cabo Verde, como por outras bandas do planeta) que não têm muita disponibilidade, mas conseguem provocar debates e despertar ideias nos seus blogs.

No meu caso, nem imaginas a vida que tenho! Não tenho nem tempo para pensar em mim. É muita coisa em cima da minha cabeça: os meus compromissos académicos, profissionais e o activismo; as minhas responsabilidades pessoais e familiares. É muita coisa para os meus 26 anitos. Mas consigo tirar bom proveito do meu blog. Escrevo para partilhar as minhas angústias, emoções, reflexões e até consigo fazer amigos/as, o que já é bom porque tenho uma vida muito fechada entre “o meu quarto” e a faculdade. É um correr para aqui e para ali, que quando chego à casa no final do dia farto-me de aliviar com os meus passeios pela blogosfera.

Lino, desde o primeiro dia que te conheci na blogosfera, fiquei encantada com o teu sorriso verde, as tuas caminhadas na minha ilha, o teu espírito aberto, a tua forma alegre de encarar a vida, a tua paixão pelas coisas boas e a tua solidariedade, cooperativismo e atenção ao mundo que te rodeia. Passei a gostar mais da tua ilha, a ver pequenas coisas que às vezes na fugacidade dos dias esquecemo-nos de prestar atenção. Fui pessoalmente até Fajã Domingas Bentas. A tua mãe Silva de Junzim d'Polina recebeu-me com um alegre sorriso. Na companhia do teu irmão e da minha amiga-colega Elinha, a teimosia me levou a calcorrear pela montanha ti sukuru fitxa. O teu irmão disse-me que, por mais duas vezes naquele ritmo, eu podia ganhar qualquer maratona na Praia. E disse-me mais: “podes dizer ao Paulino que agora conheces Fajã melhor do que ele!” Foi uma linda caminhada e as gentes do teu cutelo foram amáveis comigo. E o teu irmão tão atencioso, não só contou-me estórias do teu cutelo, como mostrou-me sítios e encantos e apresentou-me pessoas que já conhecia através do teu blog ou através do teu livro “Gentes das Ilhas”. Veja lá o que estás a fazer comigo com este “teu gesto egoísta” (não combina contigo, pois não?) de fechar o blog que já não é apenas teu! É meu também e é de tantas outras pessoas que por lá passam para um chá ou um groguinho de Sintanton. Caramba, já basta o feiticeiro Barbosa que desapareceu sem deixar rastos ou o aprendiz de feiticeiro Djoy que saiu de fininho (vi que ele já regressou, mas não consigo meter nenhum comentário no blog dele. ele deve ter escolhido uma opção que está a bloquear a colocação de comentários – veja lá, Djoy!)!!! E mais, Lino, não me queiras ver chateada grrrrrrrrrrrrr!

Independentemente da tua opção em deixar a blogosfera berdiana (durante algum tempo, ainda indefinido), querido vizinho na blogosfera e na capital, desejo-te as maiores felicidades e quero continuar a ver-te nas minhas próximas idas às ilhas!

Um beijinho com muitos miminhos…



Um Poema Para Ti

Emprestei um poema da minha ilha para te oferecer. Quem melhor do que um poeta de Assomada (também ela verde) para te falar desta «cor mais bela, porque é a cor da esparança»!


Permanência

A pedra continua inerte
A loucura continua efémera
O sonho continua eterno
O solilóquio da solidão continua terno
O caminho das lanternas continua traiçoeiro
As promessas da madrugada continuam incertas

A água de cada dia continua térmica
O trópico de Câncer de olhar posto em Santiago
----------continua aridamente hemisférico
Os insultos no estádio da várzea continuam esféricos
O amor na praça da cidade continua desinibidamente espérmico
A aurora para além dos labirintos do subúrbio continua quimérica
O polegar de txibita continua cadavérico
----------e ressequido sobre o deserto do seu crânio
Os pedintes continuam elegantemente raquíticos
----------e sentados compõem o requiem do quotidiano

A ilusão continua verde
(do verde lunar das serenatas)
neste país
de pedras
que sonham
na face imaginada da água
e rejubilantes
digerem
a esperança
sempre erecta
no seu verdejar
----------na aurora do pedinte…

Lisboa, Julho de 2008
(versão ligeiramente refundida
do poema homónimo, constante
do volume II da obra poética
À Sombra do Sol, Praia 1990.
O autor dedica este poema ao Mito.)

José Luís Hopffer Almada

«Eileenístico: Contos e Crónicas» – um ano depois


uma escrita jovem e citadina

Eileen Almeida Barbosa, nascida numa terça-feira de Carnaval, tem as suas raízes fincadas na ilha do Porto Grande e é a partir do Mindelo que emoldura a sua escrita. Aprendeu a gostar das letras ainda criança. No jardim‑de‑infância, ensaiava as suas primeiras palavras. Na escola primária e no Liceu, aprendeu a traduzir os desenhos em sinais datiloescritos e, inesperadamente, surgiram os seus primeiros contos e os seus primeiros poemas.

Com o livro Eileenístico, constituído por 48 belíssimos contos e crónicas, alguns embrulhados num aroma de sonhos floridos de uma menina da cidade, outros carregando a alma da cidade, a autora junta-se a um conjunto (ainda estreito) de vozes de jovens do pós‑independência. Em poucas palavras, ela apresenta-nos uma escrita cabo-verdianamente jovem e citadina.


Parabéns, Eileen!

Querida, muitas águas tens pela frente! Sabes que és capaz de navegar e tens a coragem (sim, digo coragem, porque é o que falta em muitas mulheres, quer nas mais maduras, quer nas mais jovens… estou a pensar concretamente nas mulheres das nossas ilhas) para seguir, seguir, como uma sereia na sua laginha! Sabes que podes voar, voar, como uma butterfly!...

Deixo aqui estas palavras – insuficientes para compensar o prazer que tive ao ler Eileenístico – como se fosse, não apenas um incentivo, em jeito de resposta a uma certa carta que ainda não respondi.

Beijinhos e um forte abraço cheio de sonhos.

Dia das Mulheres Africanas

MULHER, Mulheres

Não sei o que escrever neste dia dedicado às mulheres do meu chão! Talvez deveria escrever uma carta para contá-las um segredo, daqueles que só as mulheres conhecem... Se tivesse uma pena suave, talvez escreveria um poema, daqueles que acordam a alma feminina escondida atrás da cara fumada, do peito caído, da saia molhada, da pele queimada, da mão enodoada... Se fosse bailarina, talvez arriscaria a pista quão uma estrela para iluminá-las de riso... Se fosse encantada cantadeira, talvez entoaria uma linda canção, daquelas de arrepiar o leão... Porém, como me falta jeito para essas coisas, vou saltar para o próximo ponto.


Blog pela Educação

Para não deixar apagar a luz que acendemos no mês de Junho, hoje, dia das mulheres africanas, enquanto a classe política cabo-verdiana sentada na Assembleia Nacional faz a seu jeito uma avaliação do Estado da Nação, aproveitamos para lança um Blog pela Educação, onde se pretende juntar e divulgar um conjunto de informações contra a medida de exclusão das alunas grávidas dos estabelecimentos de ensino secundário em Cabo Verde: legislação; estatísticas nacionais e internacionais; posicionamentos de instituições e de personalidades; declarações políticas; material de imprensa; textos de opinião; reacção na blogosfera, etc. Num apelo ao “Djunta-mon pela Educação”, esse movimento espontâneo solicita a sua colaboração e conta consigo nesta causa, que é uma causa das mulheres e dos homens que lutam por uma sociedade mais justa, democrática e de respeito para com os direitos humanos.

1 ANO… nem senti o deslizar do tempo

Acordei com o sabor das palavras nos meus lábios, o desejo de soltar um grito pela sensação do primeiro aniversário deste ciberesconderijo, uma vontade de apalpar os rostos escondidos atrás de cada blog, um querer apertar as mãos anónimas que rabiscam num post ou noutro...

No dia 25 de Julho de 2007, comecei a nadar na blogosfera. Numa pranxa verdazul, fui tacteando no abecedário, dando cambalhota do meu jeito. Era para ter colocado este post ontem, mas não me recordava com precisão da data do aniversário. Só agora, numa visita cuidadosa ao blog, reparei-me que afinal já fez um ano, nem senti o deslizar do tempo... Nesta data de bolinhos e abraços, para além de oferecer flores às visitas, aproveito para falar um pouco de mim. Não sei como começar!... Sou uma cabo-verdiana quase perdida numa cidade distante: Coimbra. Passo os meus dias entre os livros e afastada dos miminhos da terra mãe. Sinto múltiplas saudades, vontade de chorar e outros sintomas parecidos...

Adoro a noite e, quando a escuridão invade o silêncio do pátio que cerca a vista do meu quarto, vagueio-me pela blogosfera. Decidi criar este ciberesconderijo de sociabilidade (que o Mito designou por “blogville”, para além de ter escolhido o bouquet de apresentação), para despejar as minhas angústias, emoções e pequenas reflexões comprometidas com o lema “Igualdade na Diferença”. Desde aquela quarta-feira, quando um menino de olhos azuis me desafiou a criar este espaço de partilha das coisas banais que me tocam a alma, fui deixando a madrugada penetrar no meu ser, enquanto misturo a realidade e uma faísca de ficção, deixando flutuar um pedaço de mim, dos meus sonhos, dos meus afectos e dos meus desejos.

Confesso que, muitas vezes, quando deixo ou encontro palavras neste ciberesconderijo, perninhas de lágrimas melancólicas deslizam pela minha face de menina-mulher. Recordo-me de um dia em que recebi uma visita da Lilian, que falava nos meus olhos tristes. Não consegui aguentar, desabrochei-me em soluços. Maravilha mesmo são os momentos de boas risadas, de conversa afiada, de cumplicidades e de solidariedade blogosférica. Não consigo descrever a minha alegria quando recebo visitas de pessoas amigas ou de outras desconhecidas. Gosto de receber as visitas com amabilidade, imaginando este cantinho como uma casa arejada e com muita luz do sol, na minha aldeia, no interior de Santiago.

Entre vários rascunhos que deixei aqui, vou escolher quatro de que mais gostei e que me trouxeram lembranças alegres da minha baía: boka-portu (registos quase-esquecidos), boka-portu, A Ilha da Batalha e Orfeu e Eurídice. Entre os comentários, muitos me tocaram profundamente e também muitos me obrigaram a reflectir sobre o segredo das palavras, a magia dos gestos e o calor dos afectos. Vou deixar em baixo alguns que são uma delícia, um verdadeiro glace de baunilha e chocolate do Marisol, num final de tarde, na Prainha.

Através da blogosfera, tenho conhecido muitas pessoas bonitas e queridas. Ganhei um primo, Tide Pedra; descobri uma amiga de infância, Eileen; e, como o mundo é pequeno, encontrei o Paulino, o menino de sorriso verde, que, afinal, é meu vizinho lá na capital. A vontade de viajar pela blogosfera e os diálogos construídos no meu ciberesconderijo ou noutras bandas foram sempre um incentivo para continuar a partilhar as palavras da forma como gosto, sem preconceito e com ternura.

«As palavras têm para mim uma carga. Sinto-me incapaz de escapar à mordedura de uma palavra, à vertigem de um ponto de interrogação» e, «quando escrevo, procuro tocar afectivamente o meu leitor... isto é, irracionalmente, quase sensualmente.», transcrevendo as belíssimas palavras de Frantz Fanon, in Peau Noire, Masques Blancs.


……………

conversa afiada, pedaços de ternura


o acto de descobrir...

«Não sei como o teu blog surgiu no meu caminho. Ou terá sido o contrário? O certo é que, um dia, ao navegar nessa auto-estrada sem fim, cai neste mar de desabafos que passei a visitar amiúde. Não te conheço, Eury, mas toca o que escreves. Quem descreve assim as memórias da sua infância, das gentes da sua terra, tem pela frente sem dúvida muita história por viver (…)…»
«(...) Continuo a seguir com atenção o teu diário suave, este teu caderno de memórias feito poesia. Um testemunho a que nos vamos habituando... continua,»
Waldir

«Olha só como te descobri… Tu estás cá com uma garra! Isto vai desde a poesia, às teorias pós-coloniais, ou pós-colonizadas (dependendo do ponto de vista), das reivindicações de justiça e direitos, da luta, da doméstica e da domesticidade... Nem consegui ver tudo. E assim certinha e com disciplina. Mesmo bem, Eury. Curti bués. Agora tem-me calma e não me dês mais trabalho do que o que eu já tenho que o que eu não gosto mesmo é de trabalhar (caraças esta frase ficou com demasiados "ques"!). Tem mais: desculpa desiludir-te mas estou na fase de uma fatalidade tal que já prefiro 10000 azulejos para limpar do que um computador para escrever a frase de uma tese. Ok, eu posso escolher. No entanto, nestas alturas lembro-me sempre da Tabacaria de Pessoa: "Vivi, estudei, amei e até cri, E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu." porque antropafagiando o poeta : malhas que o império tece, jaz morta e apodrece a tese filha da mãe. E quanto ao comentário posterior sobre a maioria das mulheres que tem possibilidades de estudar e provavelmente nunca ocuparão cargos de chefia e sem querer ser ofensiva, só consigo pensar: - sorte a delas e do mundo que conta pensamentos informados e que nunca ocuparão cargos de medíocres e inertes. Um registo feminino testemunhal: eu não me chateio nada com essas questões sexuais porque o que eu quero da vida é não fazer nenhum. Olha lá, isto de escrever em blogs até é giro, que uma pessoa pode descarregar a neura e ninguém sabe. Manda lá com mais posts a ver se eu animo e continuo a estudar para "ser alguém na vida".»
Anónima subalterna


cantarolando,

«Já que o tema de conversa é fim-de-semana, e uma vez que ninguém se interessa pelo meu, aqui vai a minha reivindicação para que deixem os subalternos falar. Então foi mais ou menos assim: segui de carro até a casa de uns amigos, mas antes parei para meter gasolina (bués de cara, até dá vontade de dizer um palavrão!). Tinha levado uns panados de porco e um taxo de arroz de alho embrulhado no jornal (como eles tinham cervejas e gelado, tava-se bem). Sentei-me a seguir em frente a um computador velho na tentativa de instalar um sistema operativo mais recente. Afinal esse era o meu pretexto de escape. Falhei. Fui tomar café e depois vi têvê. O raio do computador antigo não me saía da cabeça de modo que nem sei qual era o filme que vi (mas deve ter sido daqueles americanos que acabam ao soco, porque para eu ficar a ver até ao final...). Fomos comer uns petiscos (eram muitos e com um aspecto de "so typical"). Esses gajos fartam-se de fazer massa á conta da orelheira ensaboada em gordura. Mesmo bom (glup!) Cheguei a casa com o papo cheio e fui dormir. Acordei duas horas depois e dirigi-me a uma estação de serviço para comprar água das pedras. Depois lembrei-me que tinha lutado a minha vida inteira (bem, só prai depois dos 20 anos) para ser socióloga. Sozinhei: Isto não é vida para mim! Uma estação de serviço? Agua das pedras? Decidi então ir a um bar muito e bués de cultural onde costumavam parar sociólogos e afins (sociólogos, estudantes de sociologia e os seus respectivos professores preferidos e outros do mesmo grupo das ciências sociais, mas mais o género de verdadeiros artistas) e mais uns gajos que gostam de música e bebem uns copos e que são olhados pelo resto do gang como "ya, estes até davam uns bons entrevistados para eu fazer um doutoramento sobre culturas juvenis" (agora já são todos amigos porque os primeiros perceberam que "ya, eles é que curtem!"). Fui para casa e dormi até as 11 da matina. Moral da História: sou feliz porque pelo menos não ando nos centros comerciais a impingir cartões de crédito e a perguntar aos outros se gostariam de ser felizes. Olha, tinha que te dar esta seca! Fiquei roida de inveja porque nas minhas fugas à cidade só encontro cidades (ou às tantas vivo numa aldeia e não percebi - por favor não comentem algo com a expressão aldeia global que eu juro que grito). Bjs, linda! Até breve. Foi só para balear saudades.»
Anónima subaltarna


afinal, ainda existem “dinossauros”...

«Em nome dos homens – este ser tão maltratado ultimamente pelo género feminino quando o assunto é romantismo... - permita-me protestar vivamente quanto à subtil alegação de que “já não se fazem homens como antigamente!” Rs...
Olha, engano seu. Os homens (ainda!) continuam a apaixonar-se perdidamente, a sentir o coração kutrum kutrum que nem panela de pápa ta rompê férva quando pressente o tal olhar, o tal sorriso, o tal perfume, ainda – sim senhora! - escreve-se poemas de amor entre duas notas de um violão ou entre dois copos de cerveja, o olhar vago perdido sabe-se lá onde...
Provocação: será que foram as mulheres que deixaram de valorizar essas pequenas coisas? Em nome da emancipação feminina, talvez?
(Xiii, prepara-te meu velho, que lá vem chumbo...rs.)
Excelente poema, é um dos meus preferidos. Já agora, há cerca de 18 anos ofereci este mesmo poema a uma mocinha, colega de infância, por quem estava “adolescentemente apaixonado”. Pena que ela nunca me tenha respondido que sim, nem quando dancei com ela um coladera de quel bom...Thanks pela lembrança!»
Paulino

«Assino por baixo o protesto do Paulino. Sabes que há um rapaz que um dia falava com uma menina amiga no msn e decidiu perguntá-la como dizer na língua materna dela algo como isto “Quero gritar aos quatro ventos que estou perdidamente apaixonado por...” e “... a Rosa que veio do Norte”. Ela disse tudo. O que ela não esperava era que o rapaz ia mandar imprimir tais palavras numa t-shit branca e ficar à espera dela na estação dos comboios em Coimbra, num frio crepúsculo de Outubro. Quando ela chegou, por entre as amigas, ela viu o tal rapaz e elas também. Perceberam que algo de anormal estava a passar, pois ela ficou pedrada a olhar para ele; uns segundos volvidos agarrou-se ao rapaz e em soluços, dizia umas palavras que o rapaz reserva só para ele. Eram apenas amigos, mas o rapaz persistia numa relação amorosa. Tal viria dois meses depois.
Já não se fazem homens como antigamente? Será que as mulheres hodiernas estão prontas para ler os gestos genuinamente românticos? Não os encararão como uns tontos. Pois, não temendo ser tonto no amor, faço tontices de amor apenas para aquelas que as sabem ler.
Paulino, e nunca teremos medo de sermos dinossauros ou ETs.»
Jairzinho


intuição feminística

«Cara candidata à entrada na Sala dos Caramelos (Capelos, desculpem-me! Engano-me sempre...),
Permita-me que eu esclareça consigo - defensora incansável dos direitos das mulheres e portanto dos meus (o que eu acho óptimo, diga-se de passagem) - uma dúvida que me assaltou sobre a questão do silenciamento. Trata-se, com efeito, de uma pergunta importante para um trabalho de “descaramento” (sem autorização do nome do autor, 2006) que eu tento com todas as minhas forças arrancar: terá havido, no referido contexto, antes de se começar a ouvir a deliciosa voz/escrita da Ana Paula, mais surdos ou mais mudas? Se não for pedir muito, gostaria que me enviasse a sua resposta no prazo máximo de 1 ano, em espaço 1.5, letra 12, ocupando 600 páginas, com as referências bibliográficas em texto, diversificadas e destacando o contributo dos teóricos mais revoltados com a hegemonia anglo-saxónica. Claro que serei capaz de reconhecer o seu generoso contributo e agradecer (em nota de rodapé, letra 8) os seus preciosos comentários que ocupariam, volto a repetir para que não persistam dúvidas, 600 páginas em formato A4. Gostaria igualmente de me comprometer, na presença de toda a comunidade virtual, gestual e testemunhal, em partilhar consigo uma fantástica bolsa de estudos durante um ano. Lembro ainda que por este andar poderíamos ir as duas para Cabo Verde - tu para trabalho de campo e eu para um merecido trabalho de praia (pois apesar da dicotomia considero as duas tarefas interdisciplinares). Se eu fosse mais ajuizada, escusava de me sujeitar a semelhante humilhação pública de tentativa de “suborne” (chuuu!!! palavra proibida! não se diz, que é feio!) e aproveitava a treta para escrever. Mas como não sou.... Beijos. A estas horas só me dá para dizer tontearias. (da anónima subalterna que fala mais do que o que deve e que tu desmascaras sempre) hasta breve comandanta Eury. ah, não vou poder estar no dia 12, mas quase sempre estou em qualquer lado, quando precisares. Dá notícias.»
Anónima subalterna

«Cara subalterna
Foi com agrado que acabei de registar a sua pequena solicitação. Vou criar as devidas condições para poder ter uma resposta à sua questão “no prazo máximo de 1 ano, em espaço 1.5, letra 12, ocupando 600 páginas, com as referências bibliográficas em texto, diversificadas e destacando o contributo dos teóricos mais revoltados com a hegemonia anglo-saxónica”. Agradeço o seu nobre gesto em partilhar a sua bolsa. Mas apraz-me informar-lhe que o concessionário Automóveis do Mondego acabou de apresentar o Peugeot 308. Trata-se de um novo modelo que tanto me encorajaria durante o “trabalho de campo”, imprescindível para a resolução da sua questão. Sem a pretensão de possibilitar a sua inclusão (como elemento principal do grupo-alvo) no Observatório do Endividamento dos Consumidores, preferia estabelecer uma relação de proximidade com o Peugeot 308, na medida em que este modelo carece de um estudo sociológico a partir do sul. Risosss. Um abraço»
Eury

«Minhas senhoras: muita me apraz vir ter a este blog e encontrar por estas linhas escrita tão elaborada como prenha de humor e é do meu órgão pulsante que vos agradeço em verdade a generosidade com que apresentais este líquido para amolecer lentes de contacto ressequidas do trabalho diário. O poema da Ana Paula, que eu não conhecia, está também muito bem e é por estas e também por outras que apresento os meus sinceros parabéns à dona deste espaço e me dou por contente por tê-lo entre os meus preciosos e exclusivos links.»
Eileen

«Cara Eileen
Igualmente, me apraz ter o seu blog entre os poucos que visito diariamente. Realmente, a sua escrita é "uma delícia para quem tem o bichinho da leitura". Confesso que me agrada bastante quando a Eileen “manda à merda”.
Saudações de Coimbra»
Eury


Un djatu...

«(...) continuar a negligenciar o papel do crioulo significa continuar a ignorar o caboverdiano que pensa, age e se expressa a partir do crioulo, mesmo que ele domine o Japonês.»
Obikuelu


...e a tod@s, obrigada pela vossa visita!
Eury

saudades do antigamente


Na Minha Terra Também Se Ama

É hoje, pelas 18:30mn, o lançamento do
livro póstumo de Dionísia Velhinho Rodrigues, D. Bia d’Velhinho Rodrigues, intitulado Na Minha Terra Também Se Ama. Esta primeira mulher das letras da minha aldeia à beira mar morreu no passado mês de Abril, aos 85 anos, deixando o seu primeiro livro no prelo. A apresentação estará a cargo da Lígia Fonseca.


no antigamente

Falaram-me de um passado cheio de estórias vividas na minha aldeia à beira mar. Durante a minha infância, ouvia incansavelmente as estórias de boka‑portu. A noite trazia essas estórias, como se de um passo de magia se tratasse.

Às segundas-feiras, depois do ressonante “seti hora na tudu kantu di Kaoberdi”, aquele famoso noticiário na Rádio Nacional, o humorista nhu Puxim (Anastácio Lopes) desabrochava as gargalhadas lá na casa caíada de branco, onde acompanhávamos assiduamente aquele programa radiofónico. “Fidju di boka‑portu” – dizia o papai Yoto.

Ainda guardo comigo um mapa com o nome de vários membros da família boka‑portuense. Neste meu mapa porta-porta, tentei resgatar, juntamente com as personagens, alguns factos ocorridos à volta da baía do Porto. Infelizmente, hoje, ao dar uma olhadela no Mapa de Boka-Portu, apercebi-me de que as grandes referências da minha baía estão a caminhar para o mundo dos mortos. Apenas para recordar, deixo aqui alguns nomes estóricos: nha Quitéria, nha Beta, nha Liminha, Sr. Olímpio, Sr. Vicente Luciano, Sr. Velhinho Rodrigues, D. Bia, Tuy, nha Amélia, Papa di Djodja, Tio Pedro, titio Beraldo, nhu Tánazio, bisavô Manel di Santu, nha Razência, nhu Donda, Maria Miranda, Dota, Ponpilo, vó Nené d’Raul (a Elisa dos olhos cor‑de‑mel), papai Yoto, mamãi Dinora... E, há poucos meses, desapareceu a última velharia masculina do Porto, o vô Raul d’Missão.

Arrisco-me a dizer que Gil d’Jóia e o Cabiote são as figuras lendárias da minha aldeia que ainda se encontram no mundo vivente... Como dizem as estatísticas, as mulheres são mais resistentes. Por isso, ainda a pouco tempo atrás, a mais velha da aldeia era a Margarida Kraki, que caminhou para a eternidade com mais de noventa anos. Se não me engano, quase arrebentou a meta dos 100 anitos. Não tenho notícias da Nhánhá, segunda esposa do bisavô Manel di Santu. Ela deve ser a mais velha lá da aldeia. Dizem que a velhota ainda vai viver muitos mais anos. Se os factos não me falham, posso acrescentar que a pessoa que morreu com mais anos de idade na Calheta foi o Biaricá, que morreu aos 110 anos. Era o meu bisavô. Quando morreu, eu tinha nove anos. E lembro-me da mamãi Dinora a gabar-se que o velhote morreu um dia antes de completar os seus 111º primaveras. Este meu bisavô comeu muita katchupa, e não recusava um bom singuelu (desculpem o anacronismo!)...


Calheta, ma petite ville

Sempre que lá regresso, fico triste por encontrar a minha Calheta cada vez mais pobre: as grandes referências estão a caminhar para o mundo dos mortos (deixando a malta jovem desolada, sem as palavras de repressão pela rebeldia juvenil ou de incentivo pelos actos “gloriosos”).

A aldeia encheu-se de prédios coloridos e modernos, as casas dos avós estão a cair em pedaços, a noite ficou relativamente mais clara, a praça do Porto deixou de ser um espaço de estórias, a areia preta do Porto está a perder o seu brilho, os meninos da minha rua já não jogam à apanhada, as meninas já não vão às tranças na casa d’Angelina, os telemóveis abundam nas ruas, a Internet quase se transforma na praça de reencontros.

Quando cresci, a baía do Porto já estava quase vazia de personalidades do antigamente, daquele tempo que parece tão longínquo na minha memória de menina‑moça. O papai Yoto contava-me de quando os homens desciam à antiga praça velha. Quando penso na praça velha que ficava sentada no Porto de Calheta sinto um aperto enorme no meu coração. Ao lado da praça havia um Pelourinho, onde vendia-se açukrinha e um pouco da doçaria lá da aldeia. Na década de noventa, quando estudava na cidade grande, num maldito dia, recebi a triste notícia de que a praça velha ia ser demolida e que uma outra seria construída para levar a modernidade ao meu Porto. Na altura, sentia uma dor terrível mais porque tinham deitado abaixo duas velhas tamareiras que davam tâmaras tão boas aos olhos da criançada, que não deixava de atirar umas pedradas enquanto esperava pela sua vez para encher as suas vasilhas de água no velho xafariz, também agora modernizado. O meu Porto, o Porto que vinha nas estórias do papai Yoto, desapareceu e ficaram apenas as estórias e a imagem que vejo num postal da Deutsch Wagram, Áustria. Que modernidade é está que esta a apagar o meu passado, o passado de boka-portu?...

«o verão trouxe-me»

Os sintomas do verão já atingiram a Ala Marginal e no conhecido Café Margoso não se fala de outra coisa. No meu caso, aqui nesta cidade distante a transpirar os 37º, entre os meus afazeres inadiáveis e os meus planos para uns dias de férias lá no norte, o verão trouxe-me uma tonelada de recordações infanto-juvenis, da aldeia onde nasci e onde está o embrião da minha família, apesar das tentativas do vento em espalhar pequenos retalhos pelos quatro cantos do mundo.

O verão trouxe-me a vontade de arrumar a minha velha mochila de couro e seguir viagem para Calheta. O verão trouxe-me uma fina saudade da baía do porto; do reencontro prolongado com a minha família boka-portuense, depois de um ano lectivo fora de casa; da minha varanda na casa caiada de branco, escutando o som das ondas lá no fundo; do sabor do silêncio da noite nos meus lábios; da ida às tranças na casa d’Angelina; dos jogos na minha rua; das minhas fantasias de sereia pura, filha do mar.

O verão trouxe-me a recordação das previsões do Cabiote (pescador da aldeia) acerca da chuva; da secura da minha aldeia; do pouco cheiro de terra molhada; do curto sorriso da mamãi Dinora; do amarelo das mangas madurinhas de Txan pa Riba; das conversas com o papai Yoto que me apontava para o pouco verde no Monte Galion, após as primeiras minguadas chuvas; do milho assado no forno fincado na cozinha de pedra; dos meus soluços até adormecer por não me terem deixado dar uma escapadela até à praça do Porto (injustiça, pá! o meu mano ia todos os dias, sem falta... no meu caso, nem valia a pena protestar!).

O verão trouxe-me as saudades, muitas saudades...

Imagem: João Lima

Parabéns, Mandela!

É sempre emocionante ver as imagens e ouvir as palavras acerca de uma luta que ainda é necessária. No espectáculo multicultural de celebração dos seus noventa anitos, o ex-prisioneiro 46664 falou da liberdade e da paz, relembrando que está nas nossas mãos a possibilidade de um mundo melhor. É no dia 18 de Julho os anos do menino Nelson Mandela, mas a festa já começou: Fundação Nelson Mandela.

vozes de diferentes gerações
















Destino de Bai
Antologia de Poesia Inédita Cabo-Verdiana

José Luís Hopffer Almada
Carlos Araújo
Eileen Barbosa
Kaká Barboza
Paulino Dias
G. T. Didial
Vera Duarte
Filinto Elísio
Anita Faria
Tchalê Figueira
Jorge Carlos Fonseca
Margarida Fontes
Corsino Fortes
Adriano Gominho
Lay Lobo
José Vicente Lopes
Chissana Magalhães
Vasco Martins
Mito
Jorge Miranda
António de Nevada
Oswaldo Osório
Valdemar Pereira
Maria Helena Sato
Luiz Silva
Mário Lúcio Sousa
Danny Spínola
Paula Vasconcelos
Arménio Vieira
Artur Vieira
José Maria Neves

Desenhos: Elisa Schneble


Hoje, em Coimbra, foi apresentada esta antologia, que junta vozes de diferentes gerações cabo-verdianas. Durante a sessão de apresentação, particularmente duas vozes foram ressaltadas: Eileen Almeida Barbosa “Sou uma caboverdesa”; Paulino Dias “Versos soltos”. Morri de tanto orgulho desta nova geração! E não parava de largar sorrisos. Parabéns aos poetas e às poetizas que participaram nesta antologia!...

33º Aniversário da Independência de Cabo Verde


No país e na diáspora, várias actividades marcam este grande dia na vida do povo cabo-verdiano. Este ano, mais uma vez, a cidade de Coimbra não deixa esta data passar em branco. Desde o dia 21 de Junho, um conjunto de actividades culturais e debates têm sido levados a cabo pela Associação de Estudantes Cabo-verdian@s em Coimbra e pela Saúde em Português. Procurando chamar à atenção para a situação das mulheres nas ilhas, no dia 30 de Junho, foi realizado uma mesa redonda sobre o significado da independência para as mulheres cabo‑verdianas, destacando a discriminação feminina em diferentes áreas (enfatizando a medida de suspensão temporária das alunas grávidas nos estabelecimentos de ensino secundário).


Mesa Redonda: Mulher Cabo-verdiana Contemporânea

Roselma Évora
Raúl Fernandes
Clara Spencer
Odair Varela
Katia Cardoso
Carlos Elias Barbosa
Eurídice Monteiro



Ainda no âmbito da comemoração da independência nacional, no dia 7 de Julho, está previsto a participação do Primeiro Ministro José Maria Neves nas festividades nesta cidade universitária.

Women's Worlds 2008

conta com mais de 3000 propostas de comunicação e com a presença de prestigiad@s académic@s e activistas.

Ingrid Betancourt


o sabor da liberdade

mais mulheres no Governo... que mulheres e que significado?


Dr. José Maria Neves - Primeiro Ministro

Eng. Manuel Inocêncio Sousa, Ministro de Estado e das Infra-estruturas, Transportes e Telecomunicações;

Dr. Basílio Mosso Ramos, Ministro de Estado e da Saúde;

Dra Cristina Fontes, Ministra da Reforma do Estado e da Defesa Nacional;

Eng. José Brito, Ministro dos Negócios Estrangeiros, Cooperação e Comunidades;

Dra. Cristina Duarte, Ministra das Finanças;

Dr. Lívio Lopes, Ministro da Administração Interna

Dra. Marisa Morais, Ministra da Justiça;

Dra. Fátima Fialho, Ministra da Economia, Crescimento e Competitividade;

Dra. Madalena Neves, Ministra do Trabalho, Formação Profissional e Solidariedade Social;

Dr. Sidónio Monteiro, Ministro-Adjunto e da Juventude e Desportos;

Dr. José Maria Veiga, Ministro do Ambiente, do Desenvolvimento Rural e dos Recursos Marinhos;

Dra. Sara Lopes, Ministra da Descentralização, Habitação e Ordenamento do Território;

Dr. Manuel Veiga, Ministro da Cultura;

Dra. Vera Duarte, Ministra da Educação e Ensino Superior:

Dra. Janira Hopffer Almada, Ministra da Presidência do Conselho de Ministros e dos Assuntos Parlamentares;

Dr. Romeu Fonseca Modesto, Secretário de Estado da Administração Pública;

Dr. Jorge Borges, Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros;

Dr. Humberto Brito, Secretário de Estado da Economia;

Dr. Octávio Tavares, Secretário de Estado da Educação.


O que dizer?!

Acredito firmemente na necessidade e nas potencialidades de uma maior presença das mulheres nos órgãos de poder político. Por isso, a minha satisfação é enorme perante a remodelação governamental efectuada pelo Sr. Primeiro Ministro José Maria Neves, cumprindo assim a sua promessa de colocar igual número de homens e de mulheres no Governo, pelo menos na categoria dos/as ministros/as. Porém, não consigo me livrar de um conjunto de interrogações. A questão que não posso deixar de colocar é até que ponto esta remodelação favorece a luta pela igualdade entre os homens e as mulheres em Cabo Verde, nomeadamente no que se refere à luta contra a não discriminação das alunas grávidas nos estabelecimentos de ensino secundário. Ou seja, será que a nova Ministra da Educação e Ensino Superior (que no passado defendeu afincadamente a adopção desta medida) vai conviver com esta discriminação ou procurará uma alternativa mais digna e de respeito para com os direitos humanos? Importa realçar que, em 1995, a Dra. Vera Duarte foi galardoada com o Prémio Norte-Sul dos Direitos Humanos e, com a criação da Comissão Nacional para os Direitos Humanos e a Cidadania, assumiu plenamente as suas funções enquanto uma das maiores defensoras dos direitos humanos no nosso país. Desta forma, para além de ter argumentos fortes contra esta medida e sobretudo porque os direitos das mulheres são direitos humanos, aproveito para apelar à Dra. Vera Duarte (ícone do feminismo cabo-verdiano) para que ponha fim a essa terrível humilhação feminina!!!

a caminho de Lisboa…

Congresso de Sociologia,
na Universidade Nova de Lisboa.

Congresso Feminista 2008,
na Fundação Calouste Gulbenkian e na Faculdade de Belas-Artes.
Organizado pela UMAR,
alargada a uma vasta Comissão Promotora.
Uma iniciativa de âmbito internacional.

Michelle and Barack Obama (I)

V. Debate no Parlamento sobre a Exclusão das Alunas Grávidas

Para além da Ordem dos Advogados, o ICIEG (Instituto Cabo-Verdiano para a Igualdade e Equidade de Género) já se posicionou contra a medida de suspensão temporária das alunas grávidas dos estabelecimentos de ensino secundário em Cabo Verde.

Ontem, no Parlamento, com o início do período de interpelação ao Governo, começaram a chover questões sobre a medida de suspensão temporária das alunas grávidas dos estabelecimentos de ensino secundário em Cabo Verde. O maior partido da oposição (MpD - Movimento para Democracia) argumentou que esta medida constitui uma violação dos direitos das mulheres e interrogou sobre o silêncio de algumas instituições/organizações. O partido no poder (PAICV - Partido Africano da Independência de Cabo Verde) apresentou as suas justificações a favor desta medida, sendo de destacar a lamentável posição da Sra. Ministra da Educação e do Ensino Superior em defesa da maldita medida. Entretanto, tanto o PAICV, como a terceira força política no Parlamento (UCID - União Cabo-verdiana Independente e Democrata) defendem que é necessário realizar um estudo sobre o impacto desta medida. Resumindo e concluindo, o debate está mesmo relançado!

IV. O caso da Ana Rodrigues

Objectivos Espontaneamente Delineados

1. Fomentar o ciber-activismo – através da blogosfera berdiana, decidimos suscitar um debate sobre a medida de suspensão temporária das alunas grávidas dos estabelecimentos de ensino secundário em Cabo Verde. Para além da discussão na blogosfera, também houve troca de emails, telefonemas, curtinhas no msn, prosa nos bares, petição online, informação nos jornais (Asemana, Expresso das Ilha, A Nação e Liberal destacaram o caso com artigos de opinião ou notas informativas), etc. Também uma rádio comunitária da ilha de Santo Antão e a Televisão Cabo-Verdiana não deixaram este caso passar despercebido. Pela grande movimentação que tem havido, acreditamos que o debate está relançado.

2. Exigir que a Ana tenha a possibilidade de continuar os seus estudos, sem uma interrupção indesejada neste ano lectivo prestes a findar. Por causa da pressão do tempo, decidimos chamar à atenção da opinião pública e dos sujeitos políticos para que a Ana seja readmitida o mais rápido possível. O nosso maior ganho foi constatar a alegria da Ana ao receber telefonemas de pessoas, sobretudo jovens e mulheres, que ela nem sequer conhecia. Senti que ela ficou bastante comovida com toda esta movimentação e talvez nunca imaginaria que alguém poderia estar preocupado com o seu bem-estar e a sua felicidade. Provavelmente, isso terá efeitos na forma como a própria Ana passará a ver o mundo. Neste momento delicado, ela tem todas as razões para acreditar que neste mundo só existe Lobo Mau. Felizmente, a nossa menina acaba de descobrir que existem pessoas solidárias e que a vida pode sorrir para nós no momento de aflição. Contudo, agradecemos o despacho favorável da Sra. Ministra da Educação e Ensino Superior, que, tendo a consciência do convite tresloucado da Sra. Directora da Escola Januário Leite, “readmitiu” a Ana Rodrigues. Falando nisso, será que a Sra. Ministra da Educação e Ensino Superior vai aproveitar o caso da Ana para fazer alguma coisa contra esta medida discriminatória? Afinal, qual é a posição da Sra. Ministra da Educação e Ensino Superior? Bom, para além de um telefonema às 8h da manhã, a Sra. Directora da Escola Januário Leite devia informar a Ana sobre as razões da sua readmissão. Queríamos ter conhecimento das argumentações da Sra. Ministra da Educação e Ensino Superior! De qualquer maneira, o nosso maior desejo é que a Ana tenha bons resultados escolares e quiçá o desejado 19 valores, prosseguindo os seus estudos superiores, e, talvez um dia, denunciar outras discriminações. Ao nosso bebé Cristian, desejamos muita saúde e uma infância cheia de coisas boas para mais tarde recordar.


Balanço

Tentamos relançar o debate sobre a medida de suspensão temporária das alunas grávidas dos estabelecimentos de ensino secundário e, com maior optimismo, exigir a sua revisão. Percebemos que existem vários argumentos contra esta medida e uma falta de consistência no que se refere à justificação da necessidade da sua existência. Sabemos que o caso da Ana já foi resolvido, mas a medida continua a existir e vai continuar a atingir muitas outras Anas Rodrigues, se não for encontrada uma alternativa mais adequada para combater a gravidez precoce.

III. Eileen Almeida Barbosa, em defesa da não discriminação

Mal soltamos a voz contra a medida de suspensão temporária das alunas grávidas dos estabelecimentos de ensino secundário, um vento suave espalhou o nosso grito aos quatro cantos do mundo. A Global Voices sintetizou a informação e fez circular.

Parece que os “gringos” ficaram confusos com tamanha aberração e convidaram-nos para a BBC. Aceitamos. Assim, a partir de Cabo Verde, perto das 19h, a jovem escritora cabo-verdiana Eileen Almeida Barbosa vai dar uma entrevista ao programa Newshour... Neste momento, estou a terminar uma nota para a RDP‑África. Também temos o convite de uma rádio comunitária da ilha de Santo Antão, mas ainda estamos à procura da pessoa mais indicada para essa entrevista. Contudo, enviamos uma cópia do manifesto e o link da petição, que estão a circular naquela rádio local.

Enviamos o manifesto e o link da petição para diversos jornais cabo-verdianos (Asemana, Expresso das Ilhas, A Nação e Liberal) e alguns já começaram a publicar. A primeira reacção foi de um advogado cabo-verdiano, residente na diáspora, que se disponibilizou a custear as despesas para que a Ana Rodrigues tenha um advogado por perto a seguir o seu caso. Seguidamente, começaram a chover emails e telefonemas de toda parte. Pessoas interessadas em ajudar ou apenas preocupadas com a situação da Ana Rodrigues.

Na sexta-feira passada, na Televisão de Cabo Verde, quem esteve no programa do Abraão Vicente foi o Sr. Primeiro Ministro José Maria Neves, que, ao ser confrontado com a movimentação cívica por causa do caso da Ana Rodrigues e de tantas outras miúdas cabo-verdianas, respondeu mais ou menos assim: “soube disso e liguei à Sra Ministra da Educação e Ensino Superior e ela disse-me que a questão já está resolvida. Portanto, fizeram uma tempestade num copo de água”. Resposta para boi dormir, nem mais! De qualquer maneira, parece que o Sr. PM e a sua equipa estão a escutar a voz da sociedade civil...

Cada vez com mais força, estamos a lutar para a revisão daquela medida discriminatória!!!

II. “Todos os Direitos para Todos e para Todas!”


Movimento pela Educação, surgido na blogosfera cabo‑verdiana e contando com o apoio de um conjunto de cidadãos/cidadãs no país e na diáspora, organiza uma petição contra a medida de suspensão temporária das alunas grávidas do ensino secundário. Este movimento conta ainda com o apoio da aluna Ana Rodrigues e da sua família.


Pelo Direito à Educação!

(…) É com base na legislação nacional e no ordenamento jurídico internacional que invocamos a Meta 4 dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio – “Eliminar a disparidade de género no ensino básico e secundário, se possível até 2005, e em todos os níveis de ensino, o mais tardar até 2015” – e formulamos esta reivindicação pelo direito à permanência sem uma interrupção indesejada no ensino secundário, contestando a referida medida de discriminação negativa das jovens e adolescentes grávidas. Verificamos que, tanto no ensino básico, como no secundário, já atingimos a paridade. Porém, no ensino secundário tem havido quedas da taxa de escolarização feminina, podendo ter alguma correlação com a medida discriminatória existente, sendo de realçar a grande percentagem de jovens e adolescentes mães que se encontram fora do sistema escolar. Certamente, existem outras medidas possíveis de serem aplicadas para combater a gravidez precoce, como a educação para uma saúde sexual e reprodutiva responsável.

A nossa contestação vem na sequência do caso da Ana Rodrigues, publicada no Liberal (secção sociedade, no dia 5/06/2008). Tivemos conhecimento que, no passado dia 28 de Maio deste ano, esta estudante do 11.º ano, na Escola Secundária Januário Leite, no concelho do Paul, foi convidada a anular a sua matrícula “por motivo de parto”. Indignada com esse amargo sabor da discriminação feminina nas escolas cabo-verdianas, Ana Rodrigues escreveu uma carta para o Ministério da Educação e Ensino Superior, suplicando o direito de continuar os seus estudos, sem uma interrupção indesejada neste ano lectivo prestes a findar.

Uma vez que a medida – apesar de ser discriminatória – abrange apenas o período de gestação, impõe-se uma questão: por que razão a estudante Ana Rodrigues foi convidada a anular a sua matrícula “por motivo de parto”? Se a aluna tiver ultrapassado o limite de faltas, exigimos que ela tenha o direito de justificar as suas faltas! Não podemos deixar de relembrar que a dita medida atinge somente as mães, sendo uma clara discriminação das mulheres e desresponsabilização do homem (pai) perante a maternidade. É com uma medida desta natureza que pretendemos “conciliar os princípios constitucionais de protecção da maternidade e da infância”? É desta forma que pretendemos construir uma sociedade mais justa, democrática e de respeito para com os direitos humanos?

Assim, por causa do nosso descontentamento com o triste convite endereçado à estudante Ana Rodrigues – que, apesar de estar a enfrentar dificuldades económicas, é uma das melhores alunas da sua escola, com uma média acima dos 17 valores – e também tendo conhecimento de outros casos similares, decidimos avançar com uma petição, exigindo um enquadramento especial para as grávidas nas escolas secundárias, bem como um acompanhamento das mães jovens e adolescentes para prosseguirem os seus estudos. Aliás esta última exigência já foi reconhecida como sendo necessária pelo Plano Nacional para a Igualdade e a Equidade de Género (2005-2009). Queremos deixar claro que a nossa intenção não é incentivar a gravidez precoce, mas combater o possível abandono escolar e a discriminação que a referida medida de suspensão implica. Exigimos o direito à educação!


Movimento pela Educação



… … …


nos kaoberdi di sperança... nu djunta mon nu konstrui nos téra

Um pouco por todo o lado, estamos a fazer muito barulho. Troca de emails, curtinhas no msn, prosa nos bares, discussão nos blogs, mobilização de ideias, informação para os jornais, banner à disposição, petição online… Apesar do grande susto após dôz déde de conversa com a sra directora que nem queremos recordar o seu maldito nome, parece que quase tudo voltou ao normal. Não!... No Café Margoso, a malta continua agitada contra o vergonhoso convite à exclusão e os tambores estão a zunir em Soncent, ecoando em terras distantes. No meio da agitação geral, ouve-se coisas do género: “Vitinho, disfarce a barriga, porque podes ser apanhado!” A novidade chegou quando recebemos o convite para a estreia do novo filme de Tambleitman sobre “um homem grávido e o seu combate para se manter no governo… participação especial de toda a classe política cabo-verdiana”. Não sei quem disse, mas circula um boato de que “aqui não é planeta terra; é Cabo Verde, um país um pouco ao lado da realidade!” Não fiquem tristes, há sempre esperança. A justiça triunfará!

... A bola continua a rolar. Golooo!!! A nossa equipa soma e segue. Claro, com esta força vamos chegar à final, que será no Estádio do Povo, onde receberemos a Taça da Justiça e da Dignidade e uma Medalha Especial de Cidadania Plena para a menina Ana Rodrigues.

I. “por motivo de parto”


“A Direcção da Escola Secundária Januário Leite, vem por este meio avisar aos professores e alunos da turma 11.ºC, Área Económico e Social, que a aluna Ana Rodrigues fica suspensa das aulas por motivo de parto. A mesma deverá pedir a anulação da sua matrícula para o presente ano lectivo(ver mais).

Directora Alda Maria Martins Lima


No passado dia 28 de Maio de 2008, uma jovem cabo-verdiana estudante do 11.º ano, na Escola Secundária Januário Leite, no concelho do Paul, foi convidada a anular a sua matrícula “por motivo de parto”. Indignada com esse amargo sabor da discriminação feminina nas escolas do nosso país, Ana Rodrigues escreveu uma carta para o Ministério da Educação e Ensino Superior, suplicando pelo direito de continuar os seus estudos, sem uma interrupção indesejada neste ano lectivo prestes a findar.

Fiquei furiosa ao saber da situação da jovem Ana, que, apesar de estar a enfrentar dificuldades económicas acrescidas, é uma das melhores alunas da sua escola, com uma média acima dos 17 valores. Ainda a poucos dias, na Feira do Livro de Lisboa, durante a apresentação da Revista Direito e Cidadania, uma distinta senhora de nome Ernestina Santos contestava a discriminação das jovens e adolescentes grávidas nas escolas cabo-verdianas, como que adivinhando o caso da Ana. Como tenho uma preocupação particular com a feminização do abandono escolar, principalmente no ensino básico e secundário, e com a elevada taxa de gravidez precoce, que condena as jovens e as adolescentes a abandonarem os estabelecimentos de ensino, muitas vezes definitivamente, não podia ficar calada perante este caso.

Desde quando andava no liceu, contestava o afastamento das grávidas dos estabelecimentos de ensino, o que tanto prejudica as nossas adolescentes e jovens surpreendidas por uma gravidez numa altura pouco aconselhada. Certamente, existem outras medidas possíveis de serem aplicadas para combater a gravidez precoce, como a educação para uma saúde sexual e reprodutiva responsável. Sabemos que o abandono escolar feminino e a gravidez na adolescência acabam por condicionar a própria situação das mulheres no contexto cabo-verdiano. Na ausência de uma formação académica ou profissional, as mulheres cabo-verdianas são praticamente excluídas do mercado de trabalho formal e procuram formas alternativas de sobrevivência e de sustento dos/as seus/suas filhos/as, sendo que essas alternativas, em grande medida, contribuem para perpetuar a sua subalternização de diversas formas.

Feira do Livro de Lisboa: Cabo Verde País Convidado

A 78ª Feira do Livro de Lisboa, no Parque Eduardo VII, começou no dia 24 de Maio e vai até o dia 15 de Junho, tendo Cabo Verde como país convidado. Para representar o país, com o apoio da nossa embaixada, tem sido desenvolvido um conjunto de actividades, englobando diversas áreas (ciência, música, literatura e gastronomia) e contando com a presença de convidad@s especiais vind@s do país e residentes aqui em Portugal. Quanto à literatura cabo-verdiana, com séculos de existência, sinto um nó na barriga quando penso na sua fraca divulgação além fronteira. Tenho uma enorme inveja da literatura angolana e da literatura moçambicana, que, cada vez mais, têm sido divulgadas pelo mundo. Porque é que tão pouc@s escritor@s cabo-verdian@s conseguem publicar fora do espaço nacional? Acho que chegamos a uma fase em que, deixando de lado os nossos bairrismos e coscuvilhices internas, devemos lutar para projectar a nossa literatura como ela realmente merece.

Na minha primeira visita à Feira do Livro, fiquei boca aberta com tamanha assistência, acima de tudo com a capacidade de resistência das pessoas que compareceram para ouvir os quatro oradores a dissecarem sobre a música cabo-verdiana. A conferência estava marcada para 6:30mn, tendo começado com um ligeiro atraso, à cabo-verdiana. Ainda perto das 22:30mn, a assistência mantinha composta no auditório principal. Desconfio que o que prendia as pessoas naquele auditório era o cheirinho da katxupa, que estava pronta para ser servida. Terminada a sessão, serviram a tão esperada katxupa feita com produtos da terra. Depois chegou a hora para um pé de dança, uma coladeira improvisada. Um jovem mexicano perguntou-me como é que ele devia mexer os seus pezinhos. Fiz de conta que sou uma expert no assunto e lá fui eu ajudar o mexicano que já tinha comido a katxupa, bebido o grogue, comprado um livro e apenas esperava para dançar uma coladeira. Bom, suponho que fiquei bem na fita, até houve palminhas...


Revista Direito e Cidadania

O meu regresso à Feira do Livro foi para a apresentação da Edição Especial da Revista Direito e Cidadania. Num auditório bem composto, o jurista Jorge Carlos Fonseca (Director da Revista e Presidente do Instituto Superior de Ciências Jurídicas e Sociais [ISCJS, Cabo Verde]) deu o pontapé de saída, fazendo uma breve apresentação da conhecida revista e agradecendo pela maravilhosa e notável assistência. Passou a bola para mim, que, entusiasmada perante a assistência, tentei dar a minha contribuição a partir do campo político, avançando para o meio campo feminino. A seguir foi a vez do economista João Estêvão, que fez uma passagem rápida pela economia cabo-verdiana, no pós-independência. E, seguidamente, a psicóloga Iolanda Évora rematou para a baliza da diáspora. No final da apresentação, a assistência mostrou-se satisfeita com a possibilidade de ter pelas mãos 19 estudos/depoimentos sobre o pós-independência cabo-verdiano, abarcando o Estado de direito e a democracia, a economia, a cultura, a educação, a saúde, a justiça e a diáspora.

Barack Obama

Barack Obama acabou de conquistar a sua nomeação como candidato democrata para as próximas eleições presidências norte-americanas. Como escrevi no passado dia 5 de Fevereiro, “enquanto uma mulher negra, com um interesse especial pelas questões políticas e, em particular, pela participação política feminina (…), se tivesse o direito de voto nas primárias democratas, o meu voto seria nulo, porque não seria capaz de votar contra a Hillary e nem seria capaz de votar contar o emocionante apelo de Barack Obama”.

Por um lado, foi com uma enorme tristeza que acompanhei minuto a minuto a fragilização da possibilidade da Hillary vencer essas primárias. A derrota da Hillary merece uma análise que extravasa o estrito campo de poder político e o contexto norte-americano. Trata-se de uma questão que merece uma análise a nível global e em diferentes sectores. A actuação da Hillary e do movimento das mulheres também merecem ser analisadas. Talvez no Women's World 2008!

Por outro lado, sinto uma profunda emoção com a revitalização de uma luta histórica. Não posso deixar de felicitar o Obama, por acreditar num sonho. Sim, hoje, também o sonho de que um outro mundo é possível parece mais palpável com esta nomeação do Obama. Trata-se de uma vitória mais do que merecida, uma vitória necessária. Vale a pena acreditar! E agora é a hora de iniciarmos uma correnteza firme a favor da eleição do Obama e contra o racismo ainda presente nas nossas sociedades (vejam a análise do Noam Chomsky).

I have a dream”!...

Calheta, o meu porto de abrigo...

Monólogos com a minh’aldeia

I
Calheta,
Ao longe,
Sobre os montes,
A cruz da tua capela avisto.
Em meu coração alçada ergue-se a cruz
E com ela tu também.
Invade-me
- sob a concha da infância –
Uma saudade imensa, que me torna imenso.
...
Vêm a meu alado encontro
As aves da minh’aldeia.
A meu encontro vêm.
São tão belas quanto tão belas são!
E quando partem quais os olhos que
Não vêem os horizontes que a meu encontro vêm?
...
Pequena baía do meu coração qu’em ave s’abre,
Sonho de carmesim destes montes à tardinha,
Pátria superna de toda a saudade auroral,
Deusa da minha infância sempre idêntica,
Calheta de mar bucólico até à espuma,
De lua docemente infante na noute
E de céu com saudade de um ninho cá em terra.


II
A casa da minha infância dá para um mar
Que não quer dar para os horizontes
Mas sòmente para as casas da minh’aldeia.

A casa da minha infância tinha um belo quintal,
Um belo quintal bem mais bonito
De que todo o quarto de menino de cidade,
Onde eu brincava sumamente feliz,
Discretamente eterno, com a minha infância.
Lembro-me – disso sempre me lembrarei –
Que se escondia, tão esperta,
De mim a minha infância, pelas gretas da parede.

Meu Deus do Céu, sob a sombra desta mesm’árvore,
Deixai‑me brincar – novamente –
Um só momento com a minha infância.

Vadinho Velhinho


…o prazer de estar em casa.

No meu porto, encontro a paz como em nenhum outro lugar. Em cada esquina, um sorriso me espreita, uma mensagem me faz mergulhar na baía da minha infância. A noite é mágica, nasce e desvanece sorrateiramente. Aqui, as estrelas jogam às escondidas entre os montes. A Lua é uma parte de mim...

Santiago

Quando cheguei à capital cabo-verdiana, estava a decorrer uma conferência internacional na Reitoria da Universidade de Cabo Verde, espalhando um forte cheiro da academia pela cidade. Para além do pessoal da casa, o José Carlos dos Anjos estava na capital, com uma equipa de investigador@s brasileir@s. Eu e o Gabriel Fernandes fomos ter com a malta para um brinde e conversas afins. Do outro lado da linha, o Odair Varela preparava‑se para uma viagem à capital senegalesa. No meu caso, também tinha que dormir cedo, porque, às seis horas da matina, tinha que apanhar um avião para a ilha do Porto Grande. Foi ainda na Praia que assisti o arranque oficial das campanhas eleitorais, marcado pelas marchas do Filú e do Ulisses...

Quando regressei das ilhas do Norte, nomeadamente Santo Antão e São Vicente, iniciei uma marcha contra o tempo. Por isso, apenas visitei cinco concelhos da ilha maior: Praia, Santa Catarina, Tarrafal, São Domingos e São Miguel. No ambiente flutuante das campanhas eleitorais, estive a remar sucessivamente contra o acelerar das horas. Mas nem por isso deixei de acumular o meu stock de risadas. Também fiz questão de saudar @s amig@s/conhecid@s que se encontravam envolvid@s no festival eleitoral (Milton Paiva em São Domingos; Victor Semedo nos Picos; Moisés Borges no Tarrafal; Paula Vaz, Graça e Francisco na Praia; kaka Barbosa em Santa Catarina; @s candidat@s de São Miguel, etc.). Também, sem grande espanto, apercebi-me de que a minha geração já se despertou para a política activa.

Em cada concelho por onde passei registei momentos de maior cumplicidade. Em São Domingos, aplaudi a subida do Milton Paiva ao palanque. Em Santa Catarina, estive com o Marco, o Evando e a Janine. E vi o kaka Barbosa a preparar o último comício do PAICV que contou com a presença do JMN. Gostei da prosa com o feiticeiro Barbosa, insatisfeito com o estado das coisas na sua cidade natal. Em São Miguel, aproveitei para conhecer melhor o meu concelho, as suas gentes e as dificuldades que espreitam atrás das portas. No Tarrafal, congratulei a candidatura do Moisés Borges, o mais jovem cabeça de lista para a Câmara Municipal apresentado nessas autárquicas. Na Praia, foi com satisfação que participei na “Emissão Especial TCV, Autárquicas 2008”: no primeiro painel, juntamente com Sidónio Monteiro (representante do PAICV), Miguel Sousa (representante do MpD) e Jorge Carlos Fonseca (Analista Político); no segundo painel, juntamente com Rui Semedo (representante do PAICV), Lourenço Lopes (representante do MpD) e Jorge Carlos Fonseca (Analista Político). A moderação esteve a cargo do jornalista Waldemar Pirei, sob a coordenação da jornalista Adelina Brito e sob a direcção da jornalista Margarida Fontes.


Blogosfera

Ainda gostei de ter cruzado com o Abraão Vicente e o Djinho Barbosa, caminhando até ao esconderijo da turma “Raiz de Polon”; de ter escutado as palavras do Mário Fonseca aquando do debate sobre Aimé Cesaire lá na agora animada Fundação Amílcar Cabral, onde o Tide tem desempenhado um papel central na dinamização do espaço; de ter reencontrado o Paulino, o Filinto, a Guida e a Margarida Fontes; de ter conhecido muita malta da blogosfera (Miguel Barbosa, César, Mário Almeida, kaka Barbosa e Baluka Brazão).

São Vicente

A ilha estava muito movimentada, com a máquina da campanha a fazer sentir nas ruas da cidade. Nos primeiros dias da minha estadia, havia um sol sedutor dos mergulhos. Já na recta final, a ventania quebrava o sossego da praça.

Apesar da ventania dos últimos dias, trouxe boas recordações da ilha. Para começar, passei o primeiro de Maio com a Eileen, uma boa prosadora. Foi um dia para mais tarde recordar. Gostei de descobrir que a Eileen preocupa com o ambiente, tendo uma postura ecológica. Entre tantos outros gestos a favor do nosso planeta, a Eileen reutiliza a água e usa energia eléctrica de forma racional. Também gostei dos passeios pela cidade, a sensação de sentir a pulsação da cidade... No final do dia, um “café margoso” com o João Branco, acompanhando as risadas e os delírios no cambar da noite.

No Café Mindelo, a Roselma apresentou-me o Olavo, que me levou ao antigo Liceu Gil Eanes para dialogar com a malta dos anos trinta. Depois da pesquisa diária, reencontrar com o Olavo e com a poesia tornou-se num hábito delicioso. Também adorei os passeios pela cidade na companhia da Irina Camões e do Artur Jorge... Assim, fiquei a conhecer um pouco melhor a encantadora cidade do Mindelo.

 
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