Virgem Maria Berdiana

Frequentemente atropelo-me em notícias que deveriam nos irritar. Desta vez, o Expresso das Ilhas informa que, cerca de 40% das crianças cabo-verdianas, com menos de 1 ano, não estão registadas. Trata-se de um direito básico das crianças que sistematicamente continuamos a violar. Está entranhado nas nossas ilhas? Parece que sim! Há quem diga, melhor a história confirma que já foi bem pior. Mas isso não é motivo para batermos as palmas. A verdade é que, para além das crianças de ruas ou nas ruas, mesmo no seio da nossa «sagrada» família, a situação das crianças continua ainda muito preocupante. Ok, há quem ainda acrescenta que já melhorou bastante, que Cabo Verde está muito bem posicionado no ranking X ou Y.
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Todavia, é preocupante a forma como a paternidade e a maternidade irresponsáveis afectam as nossas crianças. Queria chegar nesse ponto, e demorar-me cinco segundos na triste questão da irresponsabilidade paternal. É que, para mim, a maior violência contra as mulheres cabo-verdianas é a irresponsabilidade paternal. Tal prática constante nas nossas ilhas atinge gravemente as nossas crianças. Põe tanto as nossas mulheres, como a família cabo-verdiana, em situações de maior vulnerabilidade. Entretanto, aplaudimos hipocritamente que as nossas mulheres são fortes, verdadeiramente heroínas sofridas, porque frequentemente assumem sozinhas, em condições difíceis, a responsabilidade para a educação das crianças e o sustento do seu agregado familiar... A nossa hipocrisia atinge ao cúmulo quando, através de despachos administrativos, deixamos subentendido que as mulheres cabo-verdianas - mais problemático ainda quando estão na tenra idade - são Virgens Marias, pois parece que concebem sem pecar. Daí peregrinam para Belém, melhor para a Exclusão, e ali ficam sozinhas à espera do nascimento do menino ou da menina Jesus. Sim, algumas regressam, e ajoelhadas continuam a caminhada; mas a maioria perde-se no deserto!
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Imagem: Foto di Tera.

Direitos das Crianças...

Vinte anos depois da convenção sobre os direitos das crianças, há situações que continuam ainda arrepiantes.
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Da educação à saúde, da alimentação à habitação, da dignidade à paz...
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Hoje, escolhi esta lindíssima fotografia de Carlos Nolasco, e chamo a atenção de todos e todas para a imagem quase desvanecida de uma menina no fundo. E assim convido-vos também a pensarem na situação das meninas à volta do nosso mundo.
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Deixo aqui os meus votos para que cada sorriso seja uma nova esperança!

... contra dengue!

Caim, Jesus & Eu


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Fui hoje ao Novo Santuário de Fátima. Uma promessa, ok! E eu que tinha andado muito distraída, nos últimos anos, qual não foi meu encantamento, constatar in loco, el nuevo Jesus, belíssimo!
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Saramago, vejo a nudez de sempre; em vez do esquelético, medito agora diante de um corpo atlético, um olhar distante, um rebelde de dred encarapinhada, um poema, melhor um heteropoema dos novos tempos e templos!

Regresso

Mamãe Velha, venha ouvir comigo
o bater da chuva, lá no seu portão.
É um bater de amigo
que vibra dentro do meu coração.
.A chuva, Mamãe Velha, a chuva,
que há tanto tempo não batia assim...
Ouvi dizer que a Cidade-Velha,
a ilha toda –
Em poucos dias já virou jardim...
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Dizem que o campo se cobriu de verde,
da cor mais bela, porque é a cor da esp'rança.
Que a terra, agora, é mesmo Cabo Verde.
É a tempestade que virou bonança...
.Venha comigo Mamãe Velha, venha,
recobre a força e chegue-se ao portão.
A chuva amiga já falou mantenha
e bate dentro do meu coração!
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Amílcar Cabral
(Cabo Verde e Guiné-Bissau)
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Mais um caso de violência sexual

Desta vez, uma jovem, natural de São Domingos, quando regressava à casa, após um dia de trabalho, foi abusada por um condutor de Hiace, que diariamente a transportava. A jovem Indira, com apenas 20 anos de idade, teve a coragem de denunciar o caso, que agora anda nas mãos da PJ.
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Na esquina do tempo

Hoje, pelas 18:15mn, no auditório da Biblioteca Nacional, o antropólogo Manuel Brito‑Semedo apresenta-nos o seu novo livro, intitulado Na Esquina do Tempo: Crónicas de Diazá.
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Trata-se de um pequeno livro, cronicado, feito de momentos tacteados na fina-flor da infância e juventude do autor. A apresentação estará a cargo da escritora Fátima Bettencourt.
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Certamente, mais do que recordar coisas de diazá, Brito‑Semedo nos proporcionará um momento de introspecção e de partilha, de emoção e de cidadania. O livro é um reconhecimento do autor à sua mãe, que anda doentinha, e a totalidade das vendas reverte-se a favor da Associação Cabo-verdiana de Luta Contra o Cancro.
.Um abraço ao autor. Desta vez, lá estarei.

Brinka Batuku

A mansidão do mar, a secura da terra, a canção das ondas na praia da minha infância. Calheta, pela madrugada, não tem igual. Preferia que a noite não acabasse nunca, que as pessoas continuassem adormecidas no sossego das suas casas, que a vida continuasse assim encostada no sonho. Porém, o sol rebelde acorda-se rezingão, e desalenta toda a aldeia. Desafia-me, sempre. Convida-me para um mergulho na praia da Batalha. Aceito, vejo o fundo do mar. Recordo a noite passada, o festival de dança no Polivalente Grande, o batuque quente no quintal da dona que desconheço o nome. Nos quatro cantos do concelho, donas e crianças cantam e dançam, misturando o «tradicional» e o «moderno» para uma revolução do batuque. E eu, se jeito tivesse para a dança, da minha Calheta, inventaria uma que afagasse o sol e excitasse a chuva.

oh mar, oh mar!

estou nas ilhas, no largo do atlântico…
oh mar, oh mar!
como é bom voltar ao teu regaço!!!

Praianas

Todos nós éramos
praienses adoptivos convictos praianos
irmãos dilectos dos nativos da cidade
cientes das suas susceptibilidades
e dos sonegados pergaminhos
da cidade amada que nos criou
da urbe adoptiva que aprendemos
.............................................../a venerar
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Poemas de Nzé di Sant’ y águ.
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É hoje, pelas 18.30, na Associação Cabo-Verdiana, em Lisboa, o lançamento do novo livro do poeta cabo‑verdiano José Luís Hopffer Almada. A apresentação estará a cargo da professora Ana Maria Martinho, do poeta Luís Carlos Patraquim e da poetisa Ana Paula Tavares.

Cidade Velha, Património Mundial

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Cidade do mais antigo nome
(excertos)
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Não pediste o alimento ínvio
nos íngremes dias de infância,
nem o peso do pó regateaste
pelo lento entardecer dos anos,
embora setembro nas alturas
seja tanta luz a apascentar o verde.
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Altas vozes te nomearam
impávido cordeiro do sacrifício,
mas sei que eras apenas essa criança
sobressaltada quando no horizonte
surdem velas corsárias e o céu se
despenha da rota algibeira de deus.
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Por isso este abismo cavado
à flor da tua fala mansa, e as luzes
que trazes nos cabelos pulsando
como um anoitecido rebanho de estrelas.
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Estes desgrenhados versos que te ofereço
agora são o viático da desforra
nos enrouquecidos pulmões da história:
tudo cabe na garganta do tempo
ou à ilharga desse sol pernalta
pastoreando as mudáveis coisas do mundo.
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José Luís Tavares

«O útero da casa»

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Mátria
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Quero-me desperta
se ao útero da casa retorno
para tactear a diurna penumbra
das paredes
na pele dos dedos reviver a maciez
dos dias subterrâneos
os momentos idos
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Creio nesta amplidão
de praia talvez ou deserto
creio na insónia que verga
este teatro de sombras
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E se me interrogo
é para te explicar
riacho de dor cascata de fúria
pois a chuva demora e o obô entristece
ao meio-dia
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Não lastimo a morte dos imbondeiros
a Praça viúva de chilreios e risonhos dedos
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Um degrau de basalto emerge do mar
e na dança das trepadeiras reabito
o teu corpo
templo mátrio
meu castelo melancólico
de tábuas rijas e de prumos.
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in O útero da casa,
Conceição Lima (Santana, ilha de São Tomé).
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O destino de Cidade Velha
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Amanhã, em Sevilha, decorre a 33ª Sessão do Comité de Património da UNESCO para a avaliação final da candidatura da antiga cidade de Ribeira Grande, a nossa Cidade Velha, à Património Mundial da Humanidade. Trata-se do berço da nação cabo-verdiana, uma cidade erguida num pedaço de chão, no remoto século XV. E fica aqui este poema emprestado da Conceição Lima para uma meditação enquanto as novas não chegam…

Isaura Gomes

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Isaura Gomes, Cabo Verde.
primeira mulher deputada na Assembleia Nacional (1975-1980).
primeira mulher presidente de uma Câmara Municipal (eleita em 2004; reeleita em 2008).
primeira mulher a se disponibilizar para uma eventual candidatura à Presidência da República.
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Parabéns, Zau. E obrigada por quebrar muitas barreiras.
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A actual conjuntura interna parece favorável para a corrida presidencial no feminino: ela-contra-ela.
Uma já se disponibilizou. Falta a outra...
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a eurodeputada

eleições europeias.
resultados históricos para o BE:
Miguel Portas, Marisa Matias, Rui Tavares.

Marcha contra Violência...

Hoje, a sociedade civil cabo-verdiana vai se manifestar, com uma marcha pelas ruas da capital, que começa às 15h, condenando a violência contra as mulheres. Sabemos que a violência contra as mulheres é uma maldição nas nossas casas, nas nossas vilas e cidades, nas nossas ilhas, no nosso país, no nosso mundo. Portanto, ninguém deve se calar perante o incrementar de mais casos trágicos que assolam famílias, crianças e a nossa juventude.
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Percurso: Achadinha Cima, Avenida Cidade de Lisboa, Fazenda, Plateau, com paragem na praça Alexandre de Albuquerque, frente ao Tribunal; descida do Plateau, Rotunda de Chão de Areia, Avenida Cidade de Lisboa, com paragem frente ao Palácio de Governo.

Poeta-laureado

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XXIº Prémio Camões: Arménio Vieira
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...Meus amigos e minha amigas, Camões chega finalmente às ilhas afortunadas... Arménio Vieira, um poeta e escritor que já estava quase esquecido lá pelas bandas da capital cabo‑verdiana, acaba de ser galardoado com o Prémio Camões 2009. Este prémio maior da literatura produzida na lingua lusa já distinguiu mais de duas dezenas de escritores e escritoras, poetas e poetisas, que também são meus/minhas: Miguel Torga, Jorge Amado, Maria Velho da Costa, José Saramago, Pepetela, Sophia de Mello Breyner, Eduardo Lourenço, José Craveirinha, Agustina Bessa-Luís, António Lobo Antunes e agora Arménio Vieira...
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Arménio Vieira nasceu na cidade da Praia (ilha de Santiago, Cabo Verde), em Janeiro de 1941. Foi um elemento activo da geração de sessenta, um dos fundadores da Sèló: Folha dos Novíssimos. Tem colaboração dispersa em várias publicações (Mákua, Alerta, Imbondeiro, Ariope, Boletim de Cabo Verde, Vértice, Raízes, Ponto & Vírgula, Fragmentos e Sopinha de Alfabeto). Está incluído em diversas colectâneas. Publicou dois livros de poesia - Poemas (1981) e MITOgrafias (2007); a novela O Eleito do Sol (1989) e o romance No Inferno (1999). Acaba de concluir um novo livro de poesia, pronto para a sua publicação (que seja em Cabo Verde e além fronteiras!). Também já foi galardoado com muitos outros prémios. Em Março deste ano, João Branco encenou a peça “No Inferno”, que foi mais um momento de emoções para o autor da obra.
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…fico feliz, porque ainda estou vivo...
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Das reacções
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«A título pessoal, eu esperava o prémio. Mas por causa de ser Cabo Verde, admiti que fosse ainda um bocado cedo. É pequeno em relação à imensidão do Brasil, que tem centenas de escritores óptimos. E Portugal também [...]. Acho que é uma honra para Cabo Verde. É histórico, Cabo Verde nunca tinha ganho. Desta vez, lembraram-se do nosso pequeno país», disse Arménio Vieira.
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«Arménio Vieira reagiu, à sua maneira [...]: “Eu preferia não ganhar […]. Já recebi mais de 100 telefonemas, já dei várias entrevistas, enfim, isto cansa.”», disse Arménio Vieira.
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«É um escritor/poeta de ruptura, que saiu da tradicional ladainha da terra de Cabo Verde e abriu-se ao mundo. Arménio Vieira faz uma literatura de dissidência saudável [...]», Ministro da Cultura de Cabo Verde, Manuel Veiga.

Al final de este viaje en la vida

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Al final de este viaje en la vida quedarán
nuestros cuerpos hinchados de ir
a la muerte, al odio, al borde del mar.
Al final de este viaje en la vida quedará
nuestro rastro invitando a vivir.
Por lo menos por eso es que estoy aquí.
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Somos prehistoria que tendrá el futuro,
somos los anales remotos del hombre.
Estos años son el pasado del cielo;
estos años son cierta agilidad
con que el sol te dibuja en el porvenir,
son la verdad o el fin, son Dios.
Quedamos los que puedan sonreír
en medio de la muerte, en plena luz.
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Al final de este viaje en la vida quedará
una cura de tiempo y amor,
una gasa que envuelva un viejo dolor.
Al final de este viaje en la vida quedarán
nuestros cuerpos tendidos al sol
como sábanas blancas después del amor.
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Al final del viaje está el horizonte,
al final del viaje partiremos de nuevo,
al final del viaje comienza un camino,
otro buen camino que seguir

descalzos contando la arena.
Al final del viaje estamos tú y yo intactos.
Quedamos los que puedan sonreír
en medio de la muerte, en plena luz.

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Silvio Rodríguez (Cuba)

«a vida é um ai que mal soa…»

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Gabriel Pina (Gabi/Gi), jovem dinâmico, humilde, afável, comunicativo, de sorriso fácil e contagiante. Às vezes, recorria ao humor negro para revelar o que realmente lhe ia na alma. A sua curta e saudosa permanência entre nós deixa‑nos com a eterna lembrança de um jovem requintado e multifacetado; amante de valores como amizade, solidariedade, companheirismo e abnegação.
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Nasceu no dia 20-12-82, em Assomada, Cabo Verde. Oriundo de uma família batalhadora, personifica a trajectória historicamente protagonizada pelo povo das ilhas. Abraçou a educação, a instrução académica e o conhecimento com garra. Licenciado em Medicina, encontrava-se em fase de especialidade, em Havana, Cuba. Tinha 26 anos. Enfrentou com dignidade a maldita leucemia, encorajando, até aos últimos minutos, os seus colegas, amigos e familiares.
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Embora sabendo que “a vida é um ai que mal soa”, o dia 03-05-09 foi, para nós, de muita dor. Apesar da dor irreparável, e todos os gestos de conforto insuficientes para nos ajudar a lidar com essa perda, na primavera da vida, o desaparecimento físico do Gabi não apagará a imagem que temos do jovem daquele sorriso sempre contagiante e terno, como quem estivesse a atenuar a dor dos que o rodeavam, perante uma anunciada fatalidade.
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À família enlutada e aos amigos Gilson Cabral e Ed Rodrigues (3b is forever.), o nosso abraço.
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Suzano Costa, Eurídice Monteiro, Chuna Costa, Janine Rosa, Marco Varela, Ivandro Teixeira, Nadine Rodrigues, Gerson Semedo, Pedro Borges Tavares, José Augusto Cabral, Ricardo Borges, Nivaldo Vicente, Elsa Monteiro, Rosa Monteiro, Carlita Lopes, Evandra Sá Nogueira, Lezy Andrade, Carla Fernandes, Micau Furtado, Minga Afonso, Dirce Furtado, Kime, Quim, Jeff, Artemisa Monteiro, Marlice Santos, Alice, Tó, Claudia Teixeira, Denilson Cabral, Lúcia Veiga, Felisbelo, Aleida Furtado...
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Amig@s em Cabo Verde e na Diáspora.

“I believe in angels”

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Gabriel Pina, Gabi/Gi,
20-12-82, Cabo Verde -- 03-05-09, Cuba.
26 anos...
médico. quase especialista...
menino de Assomada, do riso e de sonhos...
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Imagem: Edith Borges

Ela-contra-Ela

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8-8... alcançamos um excelente resultado!
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Desta vez, com um dos potenciais árbitros da partida de pingue‑pongue em vias de ser substituído por um ex‑jogador de xadrez, e o outro a restabelecer as suas energias depois da última caçada desafortunada, aguarda-se uma jogada, se a memória não me falha, nunca dantes vista, nem nas ilhas, nem nos arredores, desde tempos imemoriais!
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De um lado, ela, ela mesma. Do outro, uma delas.
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Eis a questão: porque é que todas, de um lado e do outro, se emudecem?
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...mas eles não estão preparados para «deixá‑las» flutuar, disse-me uma voz.
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This Is My Africa

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Em Lisboa, acontece!
Novos cinemas de África.
Para este fim-de‑semana,
fica uma sugestão: This Is My Africa.
Se não chover por cá, estarei lá...
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Espreitar o programa completo: lisin.

Máxima di Guida, uma mulher-rural

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Tudo indica que nasceu na pequena aldeia à beira mar. Ali cresceu, e fez-se mulher. Mãe de um rapaz e de duas raparigas, que educou e sustentou sozinha aos olhos de toda a população da aldeia. Dos estudos, não tirou grande proveito. Por isso, cedo inventou mil alternativas para a sobrevivência do seu agregado familiar. Passou pelas Frentes de Alta Intensidade de Mão-de-Obra, com as suas anedotas e gargalhadas contagiantes; especializou‑se em fresquinhas e gelados caseiros, cobrindo, ainda hoje, com essa actividade, uma parte das suas despesas mensais. Aventurou-se pelo mundo do batuque, até se destacou em festivais e campanhas eleitorais lá na aldeia. Com os seus esforços, conquistou um emprego nos serviços dos registos e notariado do concelho. Mas não é só por essas habilidades em dar a volta à vida que Máxima di Guida é conhecida. Ela é uma das mulheres mais populares da minha aldeia piscatória.

A residência de Máxima di Guida fica localizada estrategicamente entre o antigo Posto de Saúde da Calheta e a antiga Esquadra. Portanto, no centro dos acontecimentos mais babados. Os casos mais cabeludos da aldeia não escapavam aos olhares atentos desta mulher, que quase numa lenda se transforma. Mal a assistente Alicina do Posto de Saúde da Calheta transmitia as informações relativas ao falecimento de fulano ou beltrano, Máxima di Guida se encarregava de noticiar a aldeia, através do seu choro‑cantado. Apesar dessa sua vocação em encenar o choro, o que Máxima di Guida gosta mesmo é de grandes festas e anedotas. As estórias verdadeiras da aldeia, muitas se encontram salvaguardada na sua memória. Teve contactos privilegiados, familiares, com figuras estóricas de Cutelo Miranda, e nunca esteve desactualizada sobre a vida da aldeia. Ainda hoje, vivendo na pacata Calheta, onde nem há incêndios, nem escândalos maiores, apenas teatro de rua sob a animação de populares enfadados, o seu posto de trabalho lhe mantém actualizada acerca dos nascimentos e dos óbitos, que não deixam de ser factos demasiado valiosos para as tardes de conversas afiadas, atrás da casa de Nhu Nuna e Nha Diminga, onde a aldeia espera incansavelmente pelo regresso das lanchas, agora mais vazias do que cheias.

Nunca foi homenageada pelos serviços prestados à aldeia. Com este post tento remediar esse esquecimento, recordando também a sua atenção desinteressada dedicada às crianças da minha geração, nas horas mais perigosas da aldeia – o regresso da escola. Mas não é para falar da localização estratégica da residência de Máxima di Guida e dos seus gestos de solidariedade que escrevo este post. Escrevo para falar da consciencialização desta mulher sobre a difícil luta da mulher-rural para uma vida decente. Escutei, em primeira-mão, as reivindicações de Máxima di Guida, os seus relatos reais sobre as dificuldades que muitas mulheres da minha vila enfrentam para educar e sustentar as suas crianças, muitas sem nenhuma contribuição da figura masculina. A desresponsabilização paternal e o peso que recai sobre as mulheres é hoje alvo de críticas acentuadas, sem que contudo sejam criadas políticas públicas para aliviar a situação das mulheres. Se estas continuam as mais pobres, é tanto por falta de oportunidades de emprego, como também por causa dos custos avultados que têm com o seu agregado familiar. É sobretudo no meio rural que a situação das mulheres encontra-se mais agravada, onde a percentagem das que chefiam famílias monoparentais é mais alta, sendo as possibilidades de emprego menores do que nos meios urbanos. Na minha vila, hoje já não existem as Frentes de Alta Intensidade de Mão-de-Obra, também já não existem os serviços da antiga cooperação austríaca que empregavam mais de 100 homens e mulheres da aldeia. Uma mão cheia de homens e de mulheres se encontra no desemprego, sendo que o desemprego atinge mais às mulheres. Sem recursos para financiarem os estudos das suas crianças, agora com custos adicionais relativas à formação superior no país, na maioria dos casos sem qualquer tipo de apoio das instituições nacionais e locais.

Também é dramático o desemprego jovem. A juventude ambiciona outros voos, sendo que o trabalho no campo deixou de ser uma obrigação ou uma alternativa para quem sonha em fazer parte como sujeito activo desta era do conhecimento e das tecnologias. Em que situação se encontram muitas jovens do meio rural que se aventuram diariamente a caminho das universidades? Que estratégias estão a ser utilizadas pelas nossas jovens de meios precários para a conquista de uma formação superior? Há casos que, acontecem aos nossos olhos, continuam a fragilizar a situação das nossas mulheres. Temos que pensar nas novas situações de subordinação das nossas mulheres, que psicológica e sexualmente acabam por metê‑las num enredo tão contraditório com as leis e os discursos emancipatórias propalados pelos governos nacionais e locais.

De volta

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Estive no arquipélago. Foram breves os dias, mas intensos. Mil alegrias, muita ansiedade. Nervosismo de principiante, percebe-se! Há quem diga que qualquer parto comporta emoções parecidas. No meu caso, tive a felicidade da primeira apresentação pública do livro sobre mulheres na política ter sido no Dia das Mulheres Cabo‑verdianas.
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Conto como foi...
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Na primeira sessão de apresentação, no auditório da Reitoria da Universidade de Cabo Verde, mal a Irene Cruz começou a falar, entrei em transe, desfolhando na imaginação as folhas do livro. Depois o Gabriel Fernandes interrogou-me a partir das entrelinhas, entre o dito e o não dito. Quanto ao pós-lançamento, a noite convidava‑nos para tantas coisas. Foi uma noite das mil maravilhas, entre elas a Gala Dia da Mulher Cabo‑verdiana, com a especial participação da enérgica Maria de Barros e do Vadú.
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No Mindelo, na pequena sala da Uni-Cv, onde nos reunimos, a Eileen Barbosa despertou um diálogo intimista acerca da mulher‑sujeito, convidando a assistência para uma reflexão sobre as práticas discriminatórias; o Olavo Bilac Cardoso preferiu questionar o sistema político. Da cidade, trouxe belíssimas recordações do mar. Desta vez, até o vento se feministizou, bailando suave nas praças e esplanadas.
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Em Assomada, no auditório da Universidade de Santiago, a Ivone Centeio transformou o momento num hino às lutas pela igualdade entre os sexos; o Aquilino Varela decidiu atiçar o debate, naquele cambar de noite, calorosamente acolhida pela comunidade local. Foi um momento de alegria redobrada, sobretudo pela presença de pessoas amigas dos anos mágicos do liceu.
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Em São Miguel, depois de uma manhã na komunidadi di rabeladus, o auditório da municipal câmara foi palco para uma palestra com e sobre as mulheres do concelho. No final, o batuque invadiu o espaço.

um convite muito especial

Falta apenas uma semana

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Vou para o arquipélago da paixão. Brevemente, deixarei neste meu esconderijo um convite muito especial para a blogosfera berdiana. De momento, entre um chá e uma barra de chocolate, anoto no meu bloco as maravilhas do mês de Março.

1. Celebração do Dia da Mulher Cabo-Verdiana;
2. Lançamento do meu livro sobre mulheres na política;
3. Conversa afiada entre e sobre mulheres, dirigida pela Eileen;
4. Teatro no Mindelo, estreia de No Inferno;
5. Três dias de descanso, sozinha em casa, na minha Calheta.
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Guiné-Bissau

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Desde o início do mês de Março, infelizmente não por bons motivos, a Guiné-Bissau tem estado no centro das atenções. As imagens e notícias que chegam desse país são no mínimo para escandalizar o mundo. Durante as duas primeiras semanas de Março, bonito foi ver a forma como a população da Guiné-Bissau e a sua diáspora reagiram perante os trágicos acontecimentos. E agora, Guiné? O optimismo se generaliza.
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três artigos para uma discussão
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Guinée Bissau : Le tribalisme, une fausse piste ! -- Armando Lona
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«Aujourd’hui, toute tentative de forger une liaison entre l’ethnicité et l’instabilité politico-militaire en Guinée‑Bissau relève de la pure légèreté sinon d’une méconnaissance criarde sur les rapports civilo-militaires dans ce petit Etat africain. Par contre, pour nombre d’observateurs, les réseaux de narcotrafiquants pourraient ne pas être étrangers à ces homicides […].» mais aqui.
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Guinée-Bissau : Comment faire d’un drame un avantage ? -- Waly Ndiaye
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«[…]Bref, une certaine complexité des relations entre groupes ethniques, partis politiques et fractions militaires, notamment après la guerre de juin 1998, à laquelle est venu s’ajouter, ces dernières années, l’installation dans le pays des réseaux colombiens et mexicains de trafic de cocaïne, a rendu ce petit pays ingouvernable, malgré l’attention de plus en plus soutenue que lui prête la communauté internationale […].» mais aqui.
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La Guinée Bissau a besoin d’un nouveau leadership politique -- Carlos Cardoso
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«Pambazuka News : Pourquoi, plus de 30 ans après la lutte de libération nationale, l’armée continue d’avoir un poids aussi important dans la vie politique ?
Carlos Cardoso : En grande partie, c’est dû à la force de cet héritage de lutte qui a marqué la société bissau-guinéenne. D’autant plus qu’après l’indépendance, le nouveau pouvoir n’a pas mené les réformes nécessaires pour définir et faire comprendre aux concernés le rôle de l’armée dans un Etat républicain. A cela s’ajoute un opportunisme de la part des politiques qui, voulant rapidement arriver au pouvoir ou se perpétuer au pouvoir, ont toujours essayé de cultiver des compromis avec les forces armées. Dès lors, il s’est développé un contexte où l’armée était devenu un élément central. Les conflits politiques ne se résolvaient pas par la voie pacifique, mais en usant de l’armée comme d’un instrument. Les politiques ont en quelque sorte instrumentalisé l’armée à leurs propres fins. Il y a donc un ensemble de facteurs convergents qui expliquent qu’on en soit arrivé à une situation où l’armée a toujours eu une forte implication dans la politique.
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Pambazuka News : Y a-t-il des éléments de stabilisation pouvant permettre de sortir la Guinée-Bissau de ce cycle de violence ?
Carlos Cardoso : Pour cela, il faut travailler pour un nouveau leadership. Il faut faire prendre conscience aux hommes politiques du fait que la scène politique est un espace d’expression où l’armée n’a pas sa place et que son rôle dans la République est bien défini. Il faut aussi mener des réformes conséquentes pour mettre les anciens combattants en réserve, tout en leur donnant une place reconnue dans la société. Ils ont mené une lutte de libération nationale et une reconnaissance leur est due, de même que des droits doivent leur être reconnus. Cette réforme serait un pas important pour que le leadership politique soit entièrement entre les mains des civils […].» mais aqui.

 
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