Conferência Internacional | «As Mulheres em Cabo Verde»

Universidade de Cabo Verde
9-10 de Novembro de 2010

Em 2010, assinalam-se oficialmente 550 anos do achamento das primeiras ilhas do arquipélago, 35 anos da Independência Nacional e comemora-se o centenário da Revolta de Ribeirão Manuel, uma revolta protagonizada por mulheres contra as relações laborais e as condições de sobrevivência da época colonial. Neste contexto, torna-se central colocar na agenda de debate, não só o passado de escravatura e colonização, mas também o papel e a situação das mulheres cabo-verdianas enquanto sujeitos históricos desta nação transnacionalizada.

Assim, o Centro de Investigação e Formação em Género e Família da Universidade de Cabo Verde – com a parceria do CODESRIA e do CES-UC – está a organizar um encontro internacional sobre o percurso histórico do país e das mulheres cabo verdianas, subordinado ao tema «As Mulheres em Cabo Verde: Experiências e Perspectivas». Esta conferência terá lugar na cidade da Praia, nos dias 9 e 10 de Novembro de 2010, com o objectivo de desenvolver um programa de actividades transversal a diferentes áreas de interesse académico, contribuindo para a construção de novos e amplos conhecimentos no que se refere à problemática do género, no país e na sua diáspora. Esta conferência incide sobre os seguintes temas:

• História das Mulheres de Cabo Verde
• Mulheres, Escravatura e Pós-colonialismo
• Mulheres, Revoltas Sociais e Reformas Institucionais
• Educação, Ciência e Cidadania
• Migrações, Diáspora e Política Externa
• Mulheres e Violências: Passado e Presente
• Turismo, Ambiente e Desenvolvimento Rural
• Música, Cultura e Representações do Feminino

Organização
Centro de Investigação e Formação em Género e Família (CIGEF-UNICV)
Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra (CES-UC)
Council for the Development of Social Science Research in Africa (CODESRIA)

Comissão Organizadora
Carmelita Silva, CIGEF
Leopoldo Amado, UNICV
Eurídice Furtado Monteiro, CES-UC
Ângela Coutinho, CESNOVA
Katia Cardoso, CES-UC
Roselma Évora, UnB
Celeste Fortes, CIGEF

Comissão Científica
Cláudio Furtado – Professor Associado, UNICV, Cabo Verde
Iolanda Évora – Investigadora Associada, CESA-UTL, Portugal
José Carlos Gomes dos Anjos – Professor Adjunto, UFRGS, Brasil

Patrocínio
Council for the Development of Social Science Research in Africa (CODESRIA)
Gabinete do Primeiro Ministro da República de Cabo Verde
West African Research Association (WARA)

Facebook: Mulheres Cabo Verde Site Oficial: UNICV Site Alternativo: «As Mulheres em Cabo Verde»

Edith, Rua Banana

No mês de Agosto, estive durante uns breves três dias, na Cidade Velha, ou melhor, na actual cidade da Ribeira Grande de Santiago. Uma cidade histórica, pousada no fundo da ribeira, rodeada de sumptuosas montanhas, e acariciada pelas ondas da belíssima baía. Pretendia observar o património arquitectónico recuperado do lugar e revisitar a história... Fiquei hospedada numa residência familiar.

Tal como as daquela área residencial, a casa da Dona Ermelinda tem uma entrada principal pela Rua Banana e outra secundária pela Rua Carreira. Ambas são ruas históricas da cidade que preservam a arquitectura local. Na Rua Banana, as casas são feitas de pedra rústica, caiadas de branco, e cobertas de colmo; na Rua Carreira, há sinais de construções mais arrojadas, com um notável telhado avermelhado.

Edith é a senhora mais carismática da vizinhança. Alta, magra, morena. Na faixa dos quarenta anos de idade, Edith é uma beldade da ilha, sem maquilhagem, nem acessórios. Carinhosamente, chamam-lhe de miss cabo verde, e ela agradece! Tal como a Edith, a sua casa é uma referência na Cidade Velha, e tornou-se a imagem de postais...

550 anos... do achamento das primeiras ilhas

É de modo crítico ou fascinante que se anima a hipótese de Cabo Verde ter sido conhecido antes das navegações portuguesas do século XV. Quer o mistério da Rotcha Scribida, na Ribeira da Prata (São Nicolau), quer da Pedra do Letreiro, na Ribeira de Janela (Santo Antão), suscitam controvérsias... Quanto à mim, só me falta descobrir se sou neta de Jalofos e Piratas, e comprovar se sou descendente das ninfas Hespérides.

a nossa luta e o 25 de abril

«Estamos certos de que a liquidação do colonialismo português arrastará a destruição do fascismo em Portugal.», Amílcar Cabral.

Cuba do Alentejo

a solidariedade sem fim...
uma vez, numa conferência em Aveiro, um economista falou-me de Amílcar Cabral com muita emoção: «Um dos momentos altos da pesquisa para a minha tese de doutoramento em economia, foi quando li o trabalho de fim de curso do Amílcar Cabral... Imaginar o jovem Amílcar Cabral, nos anos cinquenta, em Cuba do Alentejo, preocupado com a situação no Alentejo foi, para mim, muito emocionante!»

Murais Artísticos de Abril

Entre 22 a 30 de Abril de 2010, CES, Coimbra. Esta exposição reúne fotografias tiradas por Conceição Neuparth a pinturas murais, durante os anos que se seguiram ao 25 de Abril. Fiquei feliz por ver tantas pinturas nas paredes de Portugal em solidariedade com a nossa luta de libertação. E nós retribuímos com as palavras de Amílcar Cabral: «os nossos povos fazem a distinção entre o Governo colonial fascista e o povo de Portugal: não lutamos contra o povo português. Contudo, a situação objectiva de largas camadas do povo português, oprimidas e exploradas pelas classes dirigentes do seu país, deve fazer-lhes compreender as grandes vantagens que para eles derivarão da vitória dos povos africanos sobre o colonialismo português. […] A destruição do fascismo em Portugal deverá ser obra do próprio povo português; a destruição do colonialismo português será obra dos nossos próprios povos.» E viva a liberdade!

René Pélissier

«cabo-verdianos eram mais educados, porque beneficiavam de cinco séculos de colonização.» - René Pélissier. Agora pergunto: é possível um país colonizado beneficiar da sua colonização? Sei que tivemos agentes coloniais, escravocratas e administradores, e existia um nível de instrução mais elevado, em comparação com as outras antigas colónias. Mas isto acontecia dentro da lógica colonial, com todas as suas contradições…

Quando vejo para a escravatura nas ilhas, séculos de fome e mortandade, penúria humana, emigração forçada, desumanidade laboral no campo, prisões políticas, elites aviltadas, como devo reagir?

Mário Soares: o último rei de Cabo Verde

Suponho que, depois de 35 anos, Mário Soares ainda não compreendeu que a independência nacional era a única via necessária para Cabo Verde! Colónia ou Província, Jamais! Posto isto, podemos ser parceiros – como iguais – para tudo e mais alguma coisa...

Meus Primos Thugs

Quando tudo começou? Digamos que foi em 1947. Naquele ano de mortandade, tio Duarte tinha tomado a corajosa decisão de migrar para Praia, fazendo uma longa viagem pé na txon. Salvou-se da fome e da morte. Casou-se depois com uma bonita badia da capital. Teve um batalhão de filhos e filhas. Abriu uma padaria em Achada de Santo António, certamente para alimentar a sua multidão. Prosperou-se, e foi feliz... Até aqui, tudo bem!

Agora, não acreditam que, sessenta anos depois, os bisnetos do tio Duarte decidiram desmigrar para Calheta. Entraram num Hiace, e horas depois apareceram lá em casa.
- Ya, primo! – disse o Nhuné, um primo meu da Calheta.
- Ya, brother! Ya, anhos di fora, nhos e cool, ya! – disse um dos meus primos thugs.

Despistaram para o poial, e conversaram demoradamente com o Nhuné. Quando me juntei à conversa, estavam no capítulo “kel pikena ki ben di Praia”. Nhuné queria saber se eles conheciam tal jovem de um grupo de dança do Bairro Craveiro Lopes que se encontrava na vila para participar no festival de dança daquela noite. Depois conversamos um pouco, e quis saber se eram thugs. Riram-se, disseram-me que era apenas new style. Riram-se...

Passando três semanas, eles continuavam na vila. De modo que, tive que tomar a difícil decisão de escorraça-los para a capital, dizendo-lhes que, em memória do tal tio Duarte, eles deviam confraternizar com os seus colegas thugs lá da capital, e se inscreverem no ensino superior. Juraram-me que se inscreveriam. Passando uns dias, decidiram regressar à capital. E ontem vi um deles no HI5 com uma foto sobre Calheta e comentários sobre os seus primus di fora.

Calhetlântida

Alguém acabou de me perguntar qual é a origem do nome da minha aldeia. Não sei a resposta! A minha avó Dinora nunca me contou nenhuma estória que reportasse as aventuras de Jolofos pela ilha maior, nem a chegada das caravelas do século XV. Pensando bem, talvez o nome da minha aldeia deve ter sido importada de outras bandas. É que lá no arquipélago da Madeira, há sete léguas do atlântico médio, existe também uma Calheta, fundada em 1430, muito antes da minha. Trata-se de uma das mais antigas freguesias da ilha da Madeira. É também banhada por uma pequena baía, que lhe deu o nome. É muito verdejante, mas nem por isso mais bela do que a minha.

Podem me chamar de calhetista, mas já comprei o livro de Albano Figueiredo, um belo convite à Calheta da Madeira!

Caramba, não me aparece cá nenhum ser humano da minha Calheta que me escreva estórias dos homens do mar e da praça, da vida no campo e nas letras, das peixeiras batukadeiras e das crianças di boka portu, das lojas nas horas mortas e do cair da noite, do tempo em que o mar banhou o porto, das fofoqueiras e dos romances em formato livro, etc. ... De repente, fiquei com muita fome dos filhoses e das estórias.

mudjer, amdjer






















Boneca Cely, Tania Romualdo.

parabéns a todas! um lindo dia, outros sempre melhores!

A morte da poetisa II

Onde estão os homens caçados neste vento de loucura

O sangue caindo em gotas na terra
homens morrendo no mato
e o sangue caindo, caindo...
Fernão Dias para sempre na história
da Ilha Verde, rubra de sangue,
dos homens tombados
na arena imensa do cais.
Ai o cais, o sangue, os homens,
os grilhões, os golpes das pancadas
a soarem, a soarem, a soarem
caindo no silêncio das vidas tombadas
dos gritos, dos uivos de dor
dos homens que não são homens,
na mão dos verdugos sem nome.
Zé Mulato, na história do cais
baleando homens no silêncio
do tombar dos corpos.
Ai, Zé Mulato, Zé Mulato.
As vítimas clamam vingança
O mar, o mar de Fernão Dias
engolindo vidas humanas
está rubro de sangue.
- Nós estamos de pé -
nossos olhos se viram para ti.
Nossas vidas enterradas
nos campos da morte,
os homens do cinco de Fevereiro
os homens caídos na estufa da morte
clamando piedade
gritando pela vida,
mortos sem ar e sem água
levantam-se todos
da vala comum
e de pé no coro de justiça
clamam vingança...
Os corpos tombados no mato,
as casas, as casas dos homens
destruídas na voragem
do fogo incendiário,
as vias queimadas,
erguem o coro insólito de justiça
clamando vingança.
E vós todos carrascos
e vós todos algozes
sentados nos bancos dos réus:
-- Que fizestes do meu povo?...
-- Que respondeis?
-- Onde está o meu povo?...
E eu respondo no silêncio
das vozes erguidas
clamando justiça...
Um a um, todos em fila...
Para vós, carrascos,
o perdão não tem nome.
A justiça vai soar,
E o sangue das vidas caídas
nos matos da morte
ensopando a terra
num silêncio de arrepios
vai fecundar a terra,
clamando justiça.
É a chamada da humanidade
cantando a esperança
num mundo sem peias
onde a liberdade
é a pátria dos homens...

Alda Espírito Santo (1926-2010), São Tomé e Príncipe.

O Olho de Hertzog

Lançamento em Coimbra,
na Livraria Almedina (Estádio),
a 20 de Março, 19h,
com apresentação do
Prof. Boaventura de Sousa Santos.

Neste novo livro, Prémio Leya 2009, o escritor João Paulo Borges Coelho narra os combates das tropas alemãs contra as tropas portuguesas e inglesas no decurso da I Guerra Mundial, na fronteira entre Moçambique e o ex-Tanganica. O confronto entre africânderes e ingleses, a emigração moçambicana para a África do Sul, a reacção dos mineiros brancos, as primeiras greves dos trabalhadores negros e o nacionalismo moçambicano encaixam aqui numa harmonia literária própria do seu autor.

Entre a história e a literatura

Filho de pai transmontano e mãe moçambicana, o escritor João Paulo Borges Coelho é também professor de História Contemporânea de Moçambique e África Austral na Universidade Eduardo Mondlane. Da bibliografia deste escritor moçambicano, constam nomeadamente: As Duas Sombras do Rio; Índicos Indícios; Crónica da Rua 513.2; Campo de Trânsito; Hinyambaan.

A morte da poetisa I

No mesmo lado da canoa

As palavras do nosso dia
são palavras simples
claras como a água do regato,
jorrando das encostas ferruginosas
na manhã clara do dia-a-dia.

É assim que eu te falo,
meu irmão contratado numa roça de café
meu irmão que deixas teu sangue numa ponte
ou navegas no mar, num pedaço de ti mesmo em luta com o gandu
Minha irmã, lavando, lavando
p'lo pão dos seus filhos,
minha irmã vendendo caroço
na loja mais próxima
p'lo luto dos seus mortos,
minha irmã conformada
vendendo-se por uma vida mais serena,
aumentando afinal as suas penas...
É para vós, irmãos, companheiros da estrada
o meu grito de esperança
convosco eu me sinto dançando
nas noites de tuna
em qualquer fundão, onde a gente se junta,
convosco, irmãos, na safra do cacau,
convosco ainda na feira,
onde o izaquente e a galinha vão render dinheiro.
Convosco, impelindo a canoa p'la praia
juntando-me convosco
em redor do voador panhá
juntando-me na gamela
vadô tlebessá
a dez tostões.

Mas as nossas mãos milenárias
separam-se na areia imensa
desta praia de S. João
porque eu sei, irmão meu, tisnado como eu p'la vida,
tu pensas irmão da canoa
que nós os dois, carne da mesma carne
batidos p'los vendavais do tornado
não estamos do mesmo lado da canoa.

Escureceu de repente.
Lá longe no outro lado da Praia
na ponta de S. Marçal
há luzes, muitas luzes
nos quixipás sombrios...
O pito dóxi arrepiante, em sinais misteriosos
convida à unção desta noite feiticeira...
Aqui só os iniciados
no ritmo frenético dum batuque de encomendação
aqui os irmão do Santu
requebrando loucamente suas cadeiras
soltando gritos desgarrados,
palavras, gestos,
na loucura dum rito secular.

Neste lado da canoa, eu também estou irmão,
na tua voz agonizante, encomendando preces, juras, maldições.

Estou aqui, sim, irmão
nos nozados sem tréguas
onde a gente joga
a vida dos nossos filhos.
Estou aqui, sim, meu irmão
no mesmo lado da canoa.

Mas nós queremos ainda uma coisa mais bela.
Queremos unir as nossas mãos milenárias,
das docas dos guindastes
das roças, das praias
numa liga grande, comprida
dum pólo a outro da terra
p'los sonhos dos nossos filhos
para nos situarmos todos do mesmo lado da canoa.

E a tarde desce...
A canoa desliza serena,
rumo à Praia Maravilhosa
onde se juntam os nossos braços
e nos sentamos todos, lado a lado,
na canoa das nossas praias.

Alda Espírito Santo, in É nosso o solo sagrado da terra.


A poetisa da libertação, Alda Espírito Santo, natural de São Tomé, faleceu hoje aos 84 anos. Mulher das letras e da política; lutou e escreveu pelo seu país e pela África unida. Juntamente com Noémia de Sousa e Alda Lara, foi pioneira do nacionalismo africano. Entre Lisboa e Coimbra, sobretudo à volta da antiga Casa de Estudantes do Império e do Centro de Estudos Africanos, este último criado na casa da sua própria família, conviveu com homens e mulheres do período revolucionário africano. Entre a malta desse antigamente, inspirada também pela figura do santomense Francisco José Tenreiro que lhes precedeu, encontram-se: Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade, Marcelino dos Santos, Agostinho Neto, Eduardo Mondlane e Vasco Cabral... Apesar das incursões da PIDE, discutiam as mais pertinentes questões sobre a África colonizada.

Celebrizou o massacre de Batepá. E é autora do hino nacional de São Tomé e Príncipe. Foi uma mulher singular, a quem a poetisa Conceição Lima - que lhe sucedeu no canto da afroinsularidade - dedica os mais belos poemas e prosas sobre o espaço afro-insular e a quem a nova geração  chama de “a nossa poetisa”.

Na sequência da sua morte, o seu país decretou cinco dias de luto nacional.

Nu ta ba Praia pa Somada!

Calheta y Kadjetona

Era uma vez, uma aldeia de nome Calheta. A  pequena povoação à beira-mar vivia da agricultura, da pesca e do comércio. Sabe-se que sucedera a Ribeira de São Miguel, antes centro do aglomerado. Prosperará na sequência da extinção do regime de Morgadio que era bem conhecido na Ribeira de Flamengos e na Ribeira de São Miguel. Embora a chuva nas costas da ilha maior seja muito caprichosa, Calheta também tinha uma grande ribeira de nome Kadjetona, onde no antigamente as águas cristalinas percorriam, durante quase todo o ano, em direcção ao mar. Kadjetona possuía grandes extensões de terras irrigadas, que marcavam a vida agrícola da pequena aldeia do interior de Santiago. Porém, na minha infância, tudo o que ouvia eram rumores da bonança dos anos idos. Nunca os meus olhos viram nada do que me relatavam. Apenas as cicatrizes nos vales e encostas, a secura da terra e o azul do mar que se estende até à vizinha ilha do Maio.

Entretanto, o meu bisavô Biariká, um velhote do século dezanove, entretinha-me com outras estórias. Falava-me das suas viagens à Santa Catarina, ao Tarrafal e à Praia. Falava-me da vida no campo, da vinda da chuva e da alegria de um bom ano agrícola. Falava-me das camponesas, dos lavradores, das peixeiras e dos comerciantes. De entre tantas estórias, recordo-me de uma onde o meu bisavô Biariká narrava a cobiça que o solo fértil de Kadjetona provocava nos homens de olho grande. Contava-me que em Kadjetona também havia uma ponte imponente de acesso à pacata Calheta. Todavia, nos anos de setenta ou oitenta uma tempestade na faixa sahelina, seguida de chuva e cheia imparáveis, derrubara uma parte da dita ponte. Depois de duas ou três décadas, foi finalmente reerguida, mas Calheta já não gozava de honras e privilégios... Kadjetona deste meu tempo somente oferece ondas gigantes para desportos radicais e uma extensa praia de areia negra para a festa da Cinza.

Calheta – Somada – Praia

Mas hoje, numa conversa no MSN, a minha prima Janisse confirmou-me com fotografias coloridas que, no domingo passado, foi finalmente inaugurada uma longa estrada asfaltada de Kadjetona à Flamengos, trepando pela via de Cruz Grande até à cidade de Assomada. Acrescentou chateadamente que na aldeia a população aguarda impacientemente pela via rápida de acesso à capital:
- Timenti strada ka fika dretu, nu ta ba Praia pa Somada!

Mudjeris di Mundu Interu

Feliz dia das mulheres para todas nós!

Martin

I never saw him again.
But I will remember his black eyes forever.
.
Eurídice

Uma flor para a Madeira

Estou a assistir à gala “Uma flor para a Madeira”, que, no dia 20 de Fevereiro, foi surpreendida por uma catástrofe. Neste momento, a contribuição de todos e todas é crucial para a sua reconstrução.
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“Venham à Madeira, e em 2 meses isto ficará melhor!” – suplicou El Presidente Alberto João Jardim.

Campos de Concentração em Cabo Verde

Neste navio…………….embarcados
somos náufragos…………….ancorados
Oh!
neste navio…………….ancorado
somos náufragos…………….embarcados
Oh! Navio!
Oh! Náufragos da terra longe!
Oh! Terra longe!
Oh! Terra!
Oh!

António Jacinto
C. T. Chão Bom, 28.12.65


É amanhã, quarta-feira, pelas 18h, na Livraria Bertrand (Dolce Vita, Coimbra), o lançamento do livro Campos de Concentração em Cabo Verde: Ilhas como Espaços de Deportação e de Prisão no Estado Novo, da autoria de Victor Barros. Tal como o subtítulo indica, Victor Barros concentra a sua análise nas ilhas como espaços de deportação e de prisão, revisitando a tradição histórica do desterro para os destinos insulares, e problematizando a sua apropriação pelo salazarismo para o isolamento e a prisão dos condenados. Uma ideia perpassa a obra, e prende-se com o desterro e a prisão no local de desterro.


ilha prisão e prisão na ilha

Victor Barros faz “um mapeamento dos diferentes destinos de deportação e prisão política, centrado nas ilhas onde ficaram celebrizadas a encenação e a materialização desta prática”. Neste sentido, o autor realça a prisão para deportados políticos na ilha de São Nicolau (1931), analisando depois a escolha de Tarrafal para a punição, primeiramente, dos opositores metropolitanos ao regime fascista instalado em Portugal (Colónia Penal do Tarrafal, 1936-1956) e, posteriormente, dos anticolonialistas africanos (Campo de Trabalho de Chão Bom, 1961-1974). E é em torno do Campo de Trabalho que Victor Barros focaliza a sua análise.

Ah! Se pudésseis aqui ver poesia que não há!

Um rectângulo oco na parede caiada Mãe
.
Três barras de ferro horizontais Mãe
Na vertical oito varões Mãe
Ao todo
vinte e quatro quadrados Mãe
No aro exterior
Dois caixilhos Mãe
somam
doze rectângulos de vidro Mãe
As barras e os varões Mãe
projectam sombras nos vidros
feitos espelhos Mãe
Lá fora é noite Mãe
O Campo
a povoação
a ilha
o arquipélago
o mundo que não se vê Mãe
Dum lado e doutro, a Morte, Mãe
A morte como a sombra que passa pela vidraça Mãe
A morte sem boca sem rosto sem gritos Mãe
E lá fora é o lá fora que se não vê Mãe
Cale-se o que não se vê Mãe
e veja-se o que se sente Mãe
que o poema está no que
.....................................e como se vê, Mãe
Ah! Se pudésseis aqui ver poesia que não há!
.
Mãe
aqui não há poesia
É triste, Mãe
Já não haver poesia
Mãe, não há poesia, não há
Mãe
.
Num cavalo de nuvens brancas
o luar incendeia carícias
e vem, por sobre meu rosto magro
deixar teus beijos Mãe, teus beijos Mãe
.
Ah! Se pudésseis aqui ver poesia que não há!
.
António Jacinto
C. T. Chão Bom, 13.2.68

Olhares Perdidos

Viver e Blogar em Cabo Verde

Esta confirmado que finalmente o Sr. PM tem o seu próprio blog, um cantinho pessoal, conforme o mesmo afirma. Entretanto, seria interessante que o seu dono definisse cedo se trata de um blog de propaganda política, ou realmente de um espaço de viagens existenciais. Não obstante as minhas reservas, apresso-me a deixar aqui os meus votos de muita reflexão existencial ao Sr. PM, ou melhor ao bloguista Zema, e que a experiência lhe seja tão agradável ao ponto dele imaginar como seria bom se mais almas berdianas tivessem condições de vida que lhes permitissem blogar e sem esconderem a sua face atrás da confortável carapuça do anonimato!

Ayan, kretxeu!


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ayan, kretxeu!
queres ir dançar avec moi manhan?

- ah, ok!

Uma horrível sinusite me levou hoje ao serviço de urgência do Hospital da Universidade de Coimbra. Contando ninguém acredita! Mas quando cheguei ao balcão de atendimento me informaram que, na última vez que lá fui, tinha desaparecido antes da alta médica.
- o quê?
- a menina foi-se embora antes da alta médica.
- eu? quando?
- foi há 8 anos atrás.
- Lembro-me de ter vindo cá, acompanhada por três amigos (Jó, Júlio e Gerson).
- Não confirmaram a alta médica. A menina tem que confirmar a alta ali! – apontou-me com o dedo indicador.
- ah, ok!

Fui ao balcão. Falei com um dos senhores que ali se encontrava. Virou para o seu colega, e perguntou-lhe como devia fazer para confirmar uma alta 8 anos depois.
- Se calhar estive em coma durante 8 anos! – intrometi-me sorrindo.
Rimo-nos.

Tudo ficou resolvido no mesmo instante. Entretanto, enquanto aguardava pela minha vez, dei por mim a matutar o que teria sido se realmente tivesse estado em coma; se eu tivesse perdido 8 anos da minha vida, estagnada numa cama de hospital! Arrepiei-me toda, e senti uma vontade enorme de abraçar alguém apertadamente.
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Retrospectiva

Começavam a desfilar à minha frente mil coisas que vivi nesses últimos 8 anos. Lembrei-me de quando cheguei cá em Coimbra, eu e a Beti. Tínhamos apanhado um autocarro em Lisboa, Oriente, e descemos no Mondego em frente do Hotel Astoria. Não tinha telemóvel. Fui à cabine de telefone do Largo da Portagem, e telefonei à Lourdes. Tarina, Solange e Lourdes estavam à nossa espera na rodoviária. Caminharam pela Avenida de Fernão Magalhães, e vieram ao nosso encontro, cheias de comentários sobre caloiras. Beti seguiu com a Tarina para São Martinho do Bispo, e eu fui com a Lourdes e a Solange para a famosa Rua António José de Almeida, primeira paragem para a maioria da malta de Cabo Verde.

Nessa mesma noite, fomos à Associação Académica. Encontramos um batalhão de estudantes da terra: Jó, Jéssica, Ben Johnson, Júlio, Adilson, Renato, Odair, Isolino, Samira, Moisés, etc. Estavam alegres, sobretudo porque na samana anterior a lista do Renato e Odair tinham vencido a lista do Adilson e Ben Johnson numa das eleições para a AECVC mais concorridas de sempre. De modo que, naquela altura todas as conversas iam parar no mesmo tema. Apresentaram-me o Adilson, depois o Renato. Havia na época muito dinamismo estudantil. Muita gente bonita, e polemista. Motivo para dizer que, Coimbra, era um bez!

Depois conheci os meninos do Seminário (Paulino, Irineu, Zé Maria Pianista, Zé Mário, Eduardo...), a malta da faculdade de economia e demais grupos da grande comunidade estudantil de Cabo Verde. Seguiram-se a festa de recepção da caloirada, a festa do Natal e a festa do fim de semestre. Das coisas grandes como um louco abraço ao Gi em plena Praça da República até às coisas mais banais como preparar uma katxupada na casa velha da Rua Padre António Vieira, onde morava o trio Jó, Samira e Moisés, recordei-me de muitos momentos de animação plena. Desde as leituras na Salinha; os jantares de curso; as visitas quase diárias ao Castelo (casarão da sindicalista, que fica mesmo ao lado da faculdade), onde vivia a malta mais ri-fixe da época – JP, Laurindo, Higino, Edson, Sam e Eduardo-Djedje. As reuniões com os meninos do Seminário lá no Instituto de Justiça e Paz; as assembleias magnas, latadas e queima das fitas; os acampamentos pelos cantinhos de Coimbra e caminhos de Portugal; as cartas de e para Cabo Verde; os piqueniques no Penedo da Saudade, Jardim da Sereia e Jardim Botânico; as festas na casa do Isolino e Odair; as festas na casa do Fidel e malta de Assomada; as irresistíveis receitas do Avelino; as visitas aos meninos da Ladeira de Seminário (Gi, Nené e Nuno); as danças tradicionais do grupo da Célia; a música do grupo da Sandra Horta (com a Ildy, o Keita e o Tony); o fanteatro de Edmir, Gilson e Samir; as letras rap do Madueno e Jerson; o ku-tornu da Dilma; a arrozada da Eneida e Ariana; o futebol das meninas e dos meninos; a mousse di kamoka da Josiane; os passeios com a Marly pelas margens do rio Mondego e as nossas caminhadas às 7 da manhã no calçadão; os treinos no Estádio Universitário; as aventuras minhas e da Marly pelas Europas; as visitas à residência, onde vivia a Helena e o Hermelindo; as longas prosas com o Jairzinho; as gargalhadas com o Arlindo; a declaração «lapidu na Tunia» do Samir; os amores e as crianças de Coimbra; e os êxitos, os fracassos e as tragédias (a morte do Aldo) na vida de estudantes em terras distantes...

Pico de São Tomé

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Ilha

Em ti me projecto
para decifrar do sonho
o começo e a consequência
Em ti me firmo
para rasgar sobre o pranto
o grito da imanência.

Conceição Lima

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«Olha, Eurídice, cheguei no sábado, às 5h30 da manhã. Nesse mesmo dia, às 6h30, já estava eu de mochila às costas de partida para uma excursão de dois dias de caminhada ao famoso Pico de São Tomé, com cerca de 2.024m de altitude. É muito mais alto do que o teu Pico de Antónia. Situa-se no interior da floresta protegida do Parque Natural Ôbo de São Tomé e Príncipe. Foi uma experiência inesquecível! E, por momentos, fui o santomense mais alto do mundo!» - Menezes.

dimokrasia

 
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