«África-bunda»: a propósito da tal capa do novo romance de Gualberto do Rosário, Ex-Primeiro Ministro de Cabo Verde
4.5.12
Eurídice Monteiro
«África-bunda»
Existem
hoje vários estudos críticos em torno da
imagética europeia sobre os trópicos. Parafraseando a expressão
camoniana «pretidão de amor», e analisando a literatura, a fotografia ou a pintura,
por exemplo, alguns estudos ressaltam o olhar de homens europeus, como também
de africanos, sobre as mulheres negras, que, exaltando a sua beleza, “apesar”
do seu tom da pele (“é pretinha mas bonitinha”), não deixam de as reduzir a uma
vertente carnal, sem densidade psicológica. E é assim que a sensualidade, o
exotismo e o erotismo ganham centralidade numa certa imaginação literária,
fotográfica e pictórica. Vejamos alguns exemplos de ideias veiculadas a
propósito das «crioulas» de Cabo Verde.
Num
texto elogioso – para manifestar o seu encantamento com as ilhas, que considera
como sendo As Ilhas Afortunadas (1988)
da mitologia grega –, o inglês Basil Davidson defende que: “as ilhas onde se
encontravam as Hespérides só podiam ser as de Cabo Verde: em que outro lugar
destas águas se podem ver tão maravilhosas mulheres?”
No
mesmo tom laudatório e exaltador da «beleza crioula», o fotógrafo português
José A. Salvador, que acompanha o escritor caboverdiano Germano Almeida em Cabo Verde: Viagem pela História das Ilhas (2003),
declara: “Quando parti para esta viagem pelas ilhas de Cabo Verde levei um
bloco de notas, que na capa tinha a pomba de Picasso desenhada em 28-12-1961.
Picasso nunca foi a Cabo Verde, porque nada consta a este propósito na sua
biografia oficial, mas seria com certeza homem para se deixar seduzir pelo
arquipélago das mulheres mais bonitas da costa ocidental de África. Picasso,
tal como eu e o German, cada um a seu modo e instância, inclinou-se a admirar a
beleza feminina... e eu e o German, cada um de nós com intensidade e por razões
diversas, a amar Cabo Verde.”
Também no romance de viagem do francês
Jean-Yves Loude, Cabo Verde: Notas Atlânticas
(1999), o autor classifica a mulher citadina da ilha de São Vicente como «musa
crioula», retratando a “doçura de Mindelo” e a sedução da “miss perfumada”, i.e., a imaginada facilidade de os homens
encontrarem o amor em “Mindelo, terra de amores”.
Um autor anónimo brasileiro, no texto sobre “a
bunda”, explica que as mulheres de Cabo Verde “não
são negras como as vizinhas senegalesas, são marrons. Ou castanhas, como
preferem elas. E lindas. As cabo-verdianas são lindas. Uma espécie de Sônia
Braga bem queimada. Olhos claros como dos piratas bisavós. Uma porção de
Patrícia França. Fica difícil descrever a bunda das mulheres de Cabo Verde. Tem
que ver para crer. São Tomé não acreditaria em seus próprios olhos. Mas olhando
uma delas passar, você percebe que ela está no doce balanço a caminho do mar (do
Brasil). Um dia estava com um amigo português, o cineasta Paulo de Souza,
especialista em cinema africano, numa praça de Mindelo, a capital intelectual
do país e das bundas (a capital do país chama-se Praia, pode?). Eis que passa
na nossa frente uma bunda vestida com uma minissaia verde, justa. Justíssima.
Não tivemos dúvida. Seguimos a bunda por vários quarteirões, em homenageante
silêncio, até que ela entrou numa casa e nós voltamos para a praça sem a
necessidade de dizermos nenhuma palavra um para o outro. Era uma obra-prima da
natureza aquela menina. De noite, lá pelas duas da manhã, estou eu no meu hotel
a dormir e batem na porta. Era o Paulo que havia ido a uma boate. Estava
trêmulo, suado: - Vem, vem, lembra daquela bunda? Veste,
veste! Ela está na boate. A bunda está dançando na boate!”
Enfim,
o exotismo e o erotismo persistiram no tempo, bem
como a redução do feminino à carnalidade da bunda.
A tal capa
Com
alguma curiosidade, tenho acompanhado o debate por aí sobre a tal CAPA do
novíssimo romance A Herança da Chaxiraxi,
de Gualberto do Rosário, um alto
representante da Nação cabo-verdiana, que até já foi Primeiro Ministro. Realce-se
que, para além de empresário radicado na ilha do Sal, o homem também conhecido
pela polémica daqueles montes de dólares é agora presidente do Conselho
Directivo da Câmara de Turismo de Cabo Verde, num pequeno Estado que se diz de direito democrático, assente nos
valores da igualdade independentemente da diferença de género.
A
imagem da tal capa do romance e a ideia de ordem da contracapa corporizam os
pré-juízos redutores e sexistas, enraizados na memória colonial. Com efeito, a
pequena editora, publicando no mercado português, aproveitou-se do «mito do
amor luso-tropical» para delinear a sua estratégia de marketing: umas três
bundas morenas em pose sensual e um trecho com descrições sexuais de cortar a
respiração. Será que o autor não
poderia, utilizando as prerrogativas jusautorais, vetar a escolha da imagem da
capa e o teaser do excerto
transcrito? Não o tendo feito, tudo indica que anuiu na redução do seu romance
a um panfleto exortando as ilhas como um destino de turismo sexual e anunciando
a mulher caboverdiana como um mero objecto de prazer. Independentemente do enredo
deste romance cuja trama se desenrola num imaginado período pré-colonial, a
capa (tal como um cartaz de cinema softcore)
já se assume como um factor de atracção de leitores buscando o povoamento de um
imaginário erótico.
A um
alto representante da Nação que já exerceu os cargos executivos de maior
responsabilidade – no âmbito dos quais tinha forçosamente, por imperativos
constitucionais, de promover políticas de igualdade e de dignidade da mulher –
exigia-se certamente um comportamento nos antípodas daquele que revelou ao
(deixar) publicar a tal capa. Ainda abunda o estereótipo da «África-bunda».
Aquele excerto
“A dançarina entrou em
transe e começou a libertar-se. Primeiro, das luvas. Depois, do vestido. Soltou
as peças de roupa, uma a uma, até ficar completamente nua. E se confundiu
absolutamente com o ritmo, a cor e o perfume que tomou conta do ar. Até cair em
meus braços, com o serenar da música. Amámo-nos. Como nunca o fizéramos. Sem
qualquer pressa. Exploramos cada poro dos nossos corpos. Experimentamos todas
as intimidades. Utilizamos todos os nossos sentidos. E fizemos todas as
rotações possíveis. Tudo com enorme delicadeza. Obedecendo à mais perfeita
harmonia e devoção. Como que respeitando a um ritual. Tântrico. A rumba
continuou a rodar, recriada pelo corpo e pela alma da Odete. Dessa vez
acompanhei. Me perdi nos acordes e na batida dos instrumentos. Até à completa
fusão. A Odete e eu. A música e o ritmo. Transfigurámo-nos numa estrela.
Tornámo-nos no Sol, que subiu até ao zénite e inundou tudo com a mais intensa
luz. A seguir, declinou e se escondeu nas águas dos nossos oceanos serenos,
deixando atrás um céu glorioso, de intensa cor laranja.”
Mudjer di nha tera...
12.3.12
Eurídice Monteiro
Panu maradu, grasa na rostu
Pé finkadu ta ora propostu
É mudjer di nha tera!
K sabi bafa dor [sabe esconder a sua dor]
K konxi storia, k tem kusa-l fla... [conhece a história e tem muito que contar]
É mudjer di nha tera! [é a mulher da minha terra]
Matakam di ser k ka ta tadjadu, [Ser de grandeza indomável]
Karamba si dja tem mudjer fadjadu [pois, se existe mulher generosa]
É mudjer di nha tera! [é a mulher da minha terra]
K ta argi pa si resam
Ta deta noti ta kuda manham,
Ta panha tristeza ta fasi koragem
Na kada kombersu ta passa um mensagem,
É mudjer di Kau Berdi! [é a mulher de Cabo Verde]
K ta panha lágua ta fasi força
Ta panha xintidu ta fasi distinu
La undi k medu ta bira sorti,
É mudjer di nha terá
É mudjer di Kau berdi!
Eneida Nelly (15 Nov 1986 - 18 Jul 2011, Tarrafal)
Nha Nácia Gomi | Jornada de uma Badia
9.3.12
Eurídice Monteiro
Djobe li: [olha essa]
N ba ta pasa na rubera, [passando pela ribeira]
N atxa mudjeris ta kanga boi, [encontrei mulheres cangando bois]
rapariga nobu ta pika kana; [raparigas novas cortando canas]
N atxa móna-bédja ta po na birsi, [encontrei mulheres maduras trapichando]
ku ses boi sotadu, rabu nhemedu, [com os seus bois amansados e de cauda encurtada]
si kana piladu, bagas fuliadu, [com a sua cana moída e os bagaços retirados]
si kuba baredu, kalda korenti, [a sua cuba esvaziada e a calda correndo sempre]
si agordenti y agu na garafon! [o seu grogue e a água no garrafão]
Nha Nácia Gomi (Principal, 18 Jul 1925 - S. Cruz, 4 Fev 2011)
Salvem os românticos! Do amor à política educativa...
8.3.12
Eurídice Monteiro
Para além dos poemas de Eugénio Tavares, Pedro Cardoso, Januário Leite e José Lopes da Silva, este último acertou em cheio numa questão que ainda hoje faz parte das reivindicações de mulheres do mundo inteiro:
“A educação que as caboverdianas recebem é quase totalmente doméstica e restrita aos costumes; mas a instrução, essa rudimentar instrução que tão escassamente se lhes proporciona, só a compartilham filhas de pais abastados e de medianos haveres ou de gente pobre a quem suceda residir nas proximidades das escolas. Assim, pois, a mulher caboverdiana, principalmente a do povo, não sabe ler, nem escrever, nem contar...” (José Lopes da Silva, séc. XIX).
É simplesmente singela esta generosidade do poeta com as mulheres em geral e as mulheres do povo em particular. Relativamente às mulheres nas ilhas de S. Nicolau, S. Antão, S. Vicente, Fogo, Santiago e Brava, no século XIX e princípios do seculo XX, a vida quotidiana era evidentemente constrangida por distinções de raça, classe e região, de maneira que a larga maioria da camada feminina não beneficiava de qualquer «direito à civilização». Assim, havia naquela época apenas um grupo de mulheres cujo acesso à educação lhes permitia tomar parte na vida cultural e nas altas rodadas das cidades e dos vilarejos.
Mesmo assim, tais mulheres privilegiadas eram afectadas pelas desigualdades de género, de maneira que, por mais que tivessem estudado nos colégios lusitanos e parisianos, a sua vida nas ilhas circunscrevia-se ao espaço da cozinha (os tais concursos de doçaria) e à animação dos saraus culturais em Nova Sintra, Ribeira Brava, S. Filipe, Praia e Mindelo. Embora tenham surgido algumas mulheres escritoras e jornalistas, perderam-se nas prateleiras da história. São elas: Maria de Spencer Freitas (S. Antão, primeira poetisa caboverdiana); Antónia Gertrudes Pusich (S. Nicolau, autora da primeira obra literária publicada de autoria caboverdiana); Emília Aguiar; Maria Luísa de Senna Barcellos; Gertrudes Ferreira Lima; Maria Cristina Rocha; Adélia Nobre Martins; Ida Loff Fonseca; Adelaide Maria das Neves; Maria Helena Spencer (Praia, uma das primeiras jornalistas e contistas caboverdianas), etc.
Adeus, até ao próximo ano! Um dia feliz para as mulheres de todas as ilhas, para as mulheres de outros mundos que residem nas ilhas e para as mulheres do mundo inteiro! E já agora: para os homens também!
As Badias
7.3.12
Eurídice Monteiro
Badias quer dizer indomáveis. Foram tantas, nem sei por onde começar... Vejo ao espelho: um bikini novo faz toda a diferença! E pronta para um mergulho. «Dona Beba, nha danu benson!» Ela, enchendo a cara de sorriso, disse-nos: «Deus dá nhós vergonha!» Uh, Dona Beba está muito contente, pois Dona Lilika está cá! E lá vão elas, mãe e filha... Há muito tempo que eu já não sentia a areia macia na planta dos pés. E assim, o tempo passa como um pássaro que voa voa. É difícil dizer: adeus, Tarrafal!
Aqui vou eu, subindo a Serra, e serpenteando a ilha toda. «Ah Somada», essa foi mesmo à Vanusa! Outrora, em cada rua de aqui, havia uma mãe de terrorista, como dizia a Pide. Na praça, havia jasmim e rosas, tão cuidadas por femininas mãos. Nesta hora, a minha bisavó solta o fio da memória, lembrando de tantas vezes que não havia mercado por causa de greves das rabidantes de antigamente. Pergunto: «como eram as festas com as cantadeiras, como Nha Nácia e Nha Bibinha?» E ela desfaz-se num sorriso, afagando-me com as mãos de veludo. De Somada para Praia ou para Calheta? Praia!
Muita gente não sabe que Picos já foi «sede da província», nem que aqui há uma mulher que toca gaita e que, em três tempos, todo o mundo dança. Essa ponte remota liga a uma época em que coronéias abundavam nessa ribeira. Havia uma que chamava-se Izabel Bezerra, viúva do governador Oliveira e avó do coronel Bezerra. Uma outra chamava-se Violante. Esta, no seu tempo, o governador fora avisado de que ela, o seu irmão mais velho, o ouvidor geral, o padre guardião e o cura da Sé encontravam-se «todas as noites para conspirarem». De maneira que, no caso concreto desta dona, fora ordenada a sair da Praia para os Órgãos, onde tinha uma fazenda, «de onde nunca mais poderia sair sem ordem de sua majestade.» Nesse antigamente, havia donas com muito «cabedal» que faziam das suas contra os gregos e os troianos. Tudo isso termina na Cidade Velha, mas, enfim já é de noite, vou dormir!...
A Ilha das Mulheres | Cesária Évora International Airport
6.3.12
Eurídice Monteiro
Vou-te buscar no aeroporto da Cesária, depois ficas comigo na rua da Dra. Isaura Gomes. Almoças com a candidata Filomena Vieira. Às 15h, tens uma reunião com a directora do jornal. O nome dela é Filomena Silva, mas quem vai-te receber é a jornalista Matilde Dias. Logo, às 18h, poderás assistir ao lançamento da obra completa da poetisa Yolanda Morazzo, a cargo da poetisa Vera Duarte e da historiadora Elisa Andrade; ou terás a oportunidade de assistir à abertura da exposição das artistas plásticas Luísa Queiroz e Edith Borges. Haverá no sábado um jantar com as mulheres fundadoras da OM, entre as quais a Dra. Crispina Gomes e a Dra. Maria das Dores. Mas, hoje, a noite será «entre mornas e fados»:
vozes: Celina, Titina, Nancy e Teté
piano: Tututa
viola: Iloisa Monteiro
[...]
E quem disse-te que Mont’Cara não é uma mulher?
[...]
bjinho
E quem disse-te que Mont’Cara não é uma mulher?
[...]
bjinho
Nhánha Mudjer Balenti (1910) | «Guerra é Guerra»
5.3.12
Eurídice Monteiro
Afinal os soldados vacilaram, quando Nhánha e um mar de gente marcharam em direcção ao presídio de Cruz Grande, exigindo a libertação das condenadas por furto de purga.
– Dessa vez, a guerra chegou a Caboverde!
– É melhor não fazer guerra. Temos poucos soldados e os guardas do coronel Aníbal não são de confiança.
– E esses indígenas?
– Valai-me Deus!
– Pressinto que, dessa vez, tencionam nos degolar.
– A minha mulher e os meus filhos ficaram na metrópole, de maneira que não desejo morrer na colónia.
– Ai de mim que ainda nem tenho filhos!
Orlanda Amarílis | Ser Badia, Inscrever Soncente
2.3.12
Eurídice Monteiro
Filha do bravense filólogo Napoleão Fernandes, Orlanda Amarílis nasceu em 1924, na vila de Assomada, ilha de Santiago. Vivia no sítio de «Galo Canta», a cerca de três quilómetros da escola de Cabeça Carreira. Por isso, aos cinco anos, teve que se mudar para a ilha de São Vicente, a fim de estudar. Enquanto sobrinha de António Aurélio Gonçalves, tinha acesso privilegiado aos espaços culturais, o que lhe permitia conviver com escritores de nomeada da época. Tão cedo revelou interesse pela escrita, tendo sido a única rapariga da Academia Cultivar do Liceu Gil Eanes. Nesse frenesi juvenil, conheceu e casou-se com o ensaísta português Manuel Ferreira, que na altura era militar radicado naquela ilha. Com o marido, foi para Goa e deu volta ao mundo, e depois fixou-se em Lisboa. Com os filhos já crescidos, publicou alguns livros de contos, como «Cais-do-Sodré té Salamansa» (1974), «Ilhéu dos Pássaros» (1983) e «A Casa dos Mastros» (1989), para além de títulos da literatura infantil. Curiosamente, Orlanda Amarílis é uma das primeiras e poucas escritoras nascidas em Santiago, mas, se fosse forçoso situar a sua escrita literária, diria que ela é uma escritora mindelense e da diáspora lisboeta. Isto complexifica a identidade romanesca cabo-verdiana, sem dúvida...
«A Preta Fernanda» no Coração do Império (séc. XIX-XX)
28.2.12
Eurídice Monteiro
Andresa do Nascimento (aliás, Fernanda do Vale) nasceu em 1859 numa aldeia perto de Ribeira da Barca, filha de catadores de purga. Deixou-se enrolar por um marinheiro bem-falante, e fugiu com ele para Dakar, onde seria abandonada. Lá teve que se casar com o alemão Fritz, produtor e bebedor de cerveja, e embarcou com este para Lisboa. Poucos anos depois, o homem morreu. Sozinha em Lisboa teve que se desenrascar. Primeiro convidaram-lhe para posar como uma das «figuras episódicas» da estátua do Marquês de Sá da Bandeira. Como ela tinha um calo no pé, desentendeu-se com o escultor, e foi demitida. Depois encontrou emprego como criada de servir duma dona chique, com quem ficou durante dezoito anos. Com a sua poupança e uma lista de contactos da elite lisboeta, abriu um «salão» no Bairro Alto, que foi inaugurado com muita luxuria. Era ali um dos pontos de encontro noturnos de escritores, políticos e turistas de Lisboa daquele tempo, e ela era uma das «protagonistas exóticas».
Magdalena (1775) | Canibal em Tempo d’As-Secas
24.2.12
Eurídice Monteiro
Em 1774-75, houve uma onda de mortandade sem trégua em Caboverde. Na ilha Brava, por falta de mantimentos, o povo comia tudo, e nesse ano em toda a ilha já não havia «nem gatos nem cachorros».
Nesse ano, navios ingleses e franceses levaram muita gente livre das ilhas de S. Nicolau, Maio, Brava, Fogo e Santiago, «roubando uns e entregando-se outros que só pelo sustento se deixavam escravizar por dez anos». Nas ilhas de S. Nicolau e Brava, houve quem fizesse negócio, vendendo gente livre aos ingleses. Era ainda tempo de escravatura, sem dúvida. Porém, a venda de gente livre nas ilhas era um acto fora-da-lei.
Então corria esse ano de 1775, o governador mandou prender alguns «ladrões, salteadores, cabeças de bandos e incendiários». Entre tais notáveis, destacava-se Magdalena, natural da ilha de Santiago, que matou seis pessoas, «comendo-as depois com mais dois sócios».
ami N ka mudjer? | ain’t I a woman?
12.2.12
Eurídice Monteiro
Kel ómi lá fla ma mudjer ten ki djudadu subi na karu, libradu di labada, e dadu midjor kantu na tudu banda. Ningen nunca ka djuda-m subi na karu, salta rubera ó da-m bon kantu pa-m xinta. Y ami N ka mudjer? Txeka-m! Txeka nhas brasu! N ten andadu na simentera, monda y kodjeta, ki nenhun ómi ka pasa-m! Y ami N ka mudjer? N podi trabadja y kumé sima un ómi – óra ki-m atxa kumida – y xinti dor tanbé. Y ami N ka mudjer? N tive 13 fidjus, y N odjas kuazi tudu ta bendedu pa skravatura; y kantu N txora dor di mai, ningen, só nhordés ki obi-m! Y ami N ka mudjer?
[...] That man over there says that women need to be helped into carriages, and lifted over ditches, and to have the best place everywhere. Nobody ever helps me into carriages, or over mud-puddles, or gives me any best place! And ain’t I a woman? Look at me! Look at my arm! I have ploughed and planted, and gathered into barns, and no man could head me! And ain’t I a woman? I could work as much and eat as much as a man - when I could get it - and bear the lash as well! And ain’t I a woman? I have borne thirteen children, and seen most all sold off to slavery, and when I cried out with my mother’s grief, none but Jesus heard me! And ain’t I a woman? [...] (Sojourner Truth, US, 1851).
tell me who I am
11.2.12
Eurídice Monteiro
oh, you told me: «you are a flower».
but you never told me you love me.
please can you tell me who I am?
Ali ben tenpu... findamor
4.2.12
Eurídice Monteiro
ali ben tenpu ki
ómi ta txeka mudjer lá ta bai
mudjer ka ta djobi pa trás
pamó pa frenti ki sta kaminhu
oji nes terra
un afronta grandi sima ki ka ten fin
kalunia, difamason y injúria di tudu kasta
Tota Kdabra interadu na simiteri Várzia
nun coval anónimo sen nenhun coroa funerária de rosa-querela
Kukinha tmá ofénsa y fká sen dôs dente na se boka
tude gente tava ta tmá fé de tude más kuand plísia txigá já era bastant tarde
fladu fla ma sra. Ministra panhá três sokos y un pontapé
dja kriadu lei anti-pankadaria ma inda kusa sta mariadu
stribilin pa tudu banda
fla-m pamó gó
si é tan sabe kalor dun amor
mudjer ómi ómi mudjer mudjer ómi
lapidu na kumpanheru
djobe li:
djobe li:
Cretcheu más sabe,
é quel que é di meu
el é que é tchabe,
que abrim nha céu.
Cretcheu más sabe
é quel qui crem
ai sim perdel
morte dja bem.
ayan nh’amor
2.2.12
Eurídice Monteiro
Oh Marly
mi lisin ta
pensa na bo
modi ki-m ta trau di kasa oji?
oji bu ta ba ma mi?
Nton nu bai gosi li, Eury!
(Marly & Eury, 2001)
Si N Sabeba
1.2.12
Eurídice Monteiro
Des di pikinóti
N mimadu
N stimadu
N kriadu na agu-l boka
Familia pa tudu banda
Ligria y kontentesa
N ka dexadu konxi tristesa
Pa oji mi mudjer
Ku nha dôs pé na txon
Korpu linpu
Lingua doxi
Skóla na kabésa
Pa gaju mal-paridu
Ta injuria-m des manera
Forti ka kusa sabi konta
Keli si nhas grandi sabi
Ta doensi na pó di kama
Ta morri di disgostu
Más N ten fé firmi
Sima ka ten sabi ki ka ta kaba nunka
Tanbe ka ten dor ki ta dura pa sempri
Xuxadera des terra
Ten ki kaba
Es gerason formadu ta tormenta kumpanheru
Sima mi N ten fé ma nha óra ta txiga
Ma lus ta lumia nha kaminhu
Ma felisidadi ta konki-m nes porta
kaminhu lonji
29.1.12
Eurídice Monteiro
sol forti raganhadu
rotxa ku séu riba lá
txon kenti lumi ta basa
ami mininu di vinti-tal-anu
nes rubera rostu pa skóla
modi bu anda kaminhu ka ta kaba
saku pisadu dor na kosta
subida kumpridu dixida trabesadu
minis sorizu futuru
torna panha kaminhu rostu pa kasa
badiu konxi nha gentis por isu ka ta poi mó na mi
ma sukuru pa ka panha-m
N txiga kasa ka podi nem morri
Mamai fla-m: nha fidju forti kulpa rixu!
Papai fla-m: nha fidju kaminhu mutu longi kela gó ka bu bai más!
N fla: mamai y papai, N ten ki bai, mi ki skodji nha distinu!
Subi riba dixi baxu, korda sedu durmi tardi
Nha kasera di oji, ligria nha fidju manhan, stória pa nha netu otramanhan
Oh vida!
Sta pa nansi gó ómi más bandidu ki Kalú nha kretxeu
Noba del ningen ka ten
Xintadu lisin nes poial ku séu streladu ta toma bentu mar na rostu mi só
Kel gó ka sta dretu propi
Si e ka ben N ten ki bai
N matuta tenpu N da rinkada pa Praia
...oh mundu ka bu kaba...
- ah Somada!
- ui!
Sima mamai fika ku disgostu di Bulimundo pa dia di oji...
kantadera mar y terra
29.1.12
Eurídice Monteiro
unbes
tenba un mudjer bedja tamanhu
ki ta kantaba na tudu ladu
ti na festa boneka di minis pikinóti
nton
un dia
nha Kanda
staba ta pasaba na Rotxinha
el odja un menina xintadu riba dun penedu
el txoma-l y el rabida é pergunta-l se nome
era un sereia azul
kel mudjer bedja kantadera
konta pa tudu gentis ma el odja sereia azul
ningen ka pasa-l karton
da-l só padodu fla-l ma el staba ta sunha odju kordadu
Poku algen akredita nel
Mariá d’Ntónia, Beta Branka y Txuxa Preta
tanbe dja tinha obidu stória di sereia
nhu Beraldo, Papá d’Djodja y nhu Tuy
ta flaba ma era fantasias di mininus fémia
nhu Donda, Dota y Gil d’Jóia
ta xintaba ta ri ta konta ta rakonta pa tudu mundu
nhu Bisenti, nhu Velhinhu y nhu Ulímpiu
ta filosofaba: no creamos en las sirenas, pero que las hay, las hay
di kalker manera, povu akredita o nau
aparison di sereia era un faktu pa mudjeris
nton
un dia
nhu Dindin ómi balenti
ki ka tinha medu di nada
nem di Nhordés nem di Xuxu
fika sen durmi noti interu
el da rinkada el perdi na sukuru el bai xinta na beramar
pa el odja si tinha sereia divera o si era lakuna di kabésa mudjeris
inda 4h madrugada nada el ka odja
galu kanta mudjeris labanta piskadoris bai mar
nhu Dindin na frieza detadu kran na parapetu mar
fladu nhu Dindin dja perdi kabésa
sta kuazi tolobasku propi
konfuson di ideia na se kabésa
el fla ma el odja ku se dôs gran di odju
sereia ta kanta un morna lá na Rotxinha
tudu mundu fla: eeeh eeeh, kela tanbe dja odja blue


