O Legado de Nhô Filili (por Luís Urgais)



Estou a ler este livro acabado de sair, que conta uma história de amor em tempo de escravatura, entre uma «escrava» e o seu «senhor». O tal amor acontece na vila da Praia da ilha de Santiago, nas barbas da alta sociedade local, com casamento de papel passado, no século XIX.


CURIOSIDADES::
Este é um livro sobre a história do pai de Armando Napoleão Rodrigues Fernandes e avô da escritora Orlanda Amarilis.


FALHAS GRAVES::
1) Rabelados surgiram na década de 1940, numa luta contra a discriminação racial no seio da igreja católica. Portanto, nunca foram uma comunidade de escravos fujões, pois, os tráficos negreiros - legal e clandestino - foram abolidos desde o século XIX. De maneira que, não faz sentido misturar a história dos rabelados com a luta contra a escravatura.

2) A língua das ilhas de Cabo Verde já faz parte de facto do património nacional. Entretanto, é bom não esquecer que existem diferentes variantes e cada qual com a sua história. Ignorando tal questão básica, poderá ser visto como um erro grosseiro a utilização da variante de uma dada ilha na conversa habitual de habitantes doutras ilhas, ainda mais em certos períodos históricos. Portanto, torna-se importante não ignorar o modo de falar de cada lugar.

3) História de Cabo Verde. (Por vezes, fica a ideia que este livro tem muito mais descrições de viagens turísticas do que ficção histórica. A história de Cabo Verde é muito rica. E já há muitos documentos e análises históricas à mão de qualquer interessado, seja de origens caboverdianas, seja de outros países.)

«O Vírus do Poder» | um poema de Artur Vieira (ilha Brava)


Dona Chica sintonizou o pequeno rádio
À cata de novidades de seu sofrido país.
Anunciou-se a chegada da Democracia
Sob os auspícios de Desenvolvimento e Liberdade
Para promover o progresso da nação.
Pela manhã, os jornais em enormes manchetes
Elogiaram tanto a Democracia, que dona Chica
Imaginou-se soberana Dama com poderes especiais
Para realizar o milagre tão almejado do progresso.

Dona Chica soube por uma professora local
Que a Democracia se instalou no acanhado bairro
Ali, na esquina, pertinho de sua casa.
Então, dona Chica, como nos bons tempos, se enfeitou
Para uma visita à distinta Dama que chegara.
E qual não foi seu espanto ao encontrar a Democracia
Esfarrapada, magra, olhar mortiço.

Depressa, dona Chica voltou ao modesto recanto
Pegou sua única galinha, preparou apetitosa canja
Para a democracia, levando-lhe seu melhor vestuário.
Retornou no dia seguinte, esperando encontrá-la melhor.
Grande a sua decepção! A Democracia estava pior,
Quase agonizante, e a nova roupa também corroída.
Foi buscar sua única cabra, pediu à professora trajes decentes
E ambas foram socorrer a venerada Democracia.

Ao terceiro dia, o estado da paciente a preocupou
E dona Chica procurou um médico, versado em política.
Este, só de olhar para a Democracia, diagnosticou:
– Está afetada pelo vírus do afro sistema político vigente.
Dona Chica removeu a moribunda para sua pobre casa
Em trapos, esmaecida, já quase inerte.
Pelas portas, janelas e buracos do tecto, os abutres
Invadiram o casebre, numa atrocidade
                               [própria das matas palacianas.

Artur Vieira (poeta da ilha Brava)

as águas subterrâneas



Na ilha
há anos
pelas esquinas do outro lado da
cidade
jazem as estátuas de velhas promessas.
Porquê?
E todo este povo calado.
Do alto da ilha
nua
por dentro de tudo
tua voz de pedra
brada contra os murmúrios
dos subúrbios
desconhecidos
rogando pragas às raças malditas
quedando os sonhos
de todo este povo
da ilha.

4 Anos Depois: Recordar o Jornal da Hiena


«África-bunda»: a propósito da tal capa do novo romance de Gualberto do Rosário, Ex-Primeiro Ministro de Cabo Verde


«África-bunda»

Existem hoje vários estudos críticos em torno da imagética europeia sobre os trópicos. Parafraseando a expressão camoniana «pretidão de amor», e analisando a literatura, a fotografia ou a pintura, por exemplo, alguns estudos ressaltam o olhar de homens europeus, como também de africanos, sobre as mulheres negras, que, exaltando a sua beleza, “apesar” do seu tom da pele (“é pretinha mas bonitinha”), não deixam de as reduzir a uma vertente carnal, sem densidade psicológica. E é assim que a sensualidade, o exotismo e o erotismo ganham centralidade numa certa imaginação literária, fotográfica e pictórica. Vejamos alguns exemplos de ideias veiculadas a propósito das «crioulas» de Cabo Verde.

Num texto elogioso – para manifestar o seu encantamento com as ilhas, que considera como sendo As Ilhas Afortunadas (1988) da mitologia grega –, o inglês Basil Davidson defende que: “as ilhas onde se encontravam as Hespérides só podiam ser as de Cabo Verde: em que outro lugar destas águas se podem ver tão maravilhosas mulheres?”

No mesmo tom laudatório e exaltador da «beleza crioula», o fotógrafo português José A. Salvador, que acompanha o escritor caboverdiano Germano Almeida em Cabo Verde: Viagem pela História das Ilhas (2003), declara: “Quando parti para esta viagem pelas ilhas de Cabo Verde levei um bloco de notas, que na capa tinha a pomba de Picasso desenhada em 28-12-1961. Picasso nunca foi a Cabo Verde, porque nada consta a este propósito na sua biografia oficial, mas seria com certeza homem para se deixar seduzir pelo arquipélago das mulheres mais bonitas da costa ocidental de África. Picasso, tal como eu e o German, cada um a seu modo e instância, inclinou-se a admirar a beleza feminina... e eu e o German, cada um de nós com intensidade e por razões diversas, a amar Cabo Verde.”

Também no romance de viagem do francês Jean-Yves Loude, Cabo Verde: Notas Atlânticas (1999), o autor classifica a mulher citadina da ilha de São Vicente como «musa crioula», retratando a “doçura de Mindelo” e a sedução da “miss perfumada”, i.e., a imaginada facilidade de os homens encontrarem o amor em “Mindelo, terra de amores”.

Um autor anónimo brasileiro, no texto sobre “a bunda”, explica que as mulheres de Cabo Verde “não são negras como as vizinhas senegalesas, são marrons. Ou castanhas, como preferem elas. E lindas. As cabo-verdianas são lindas. Uma espécie de Sônia Braga bem queimada. Olhos claros como dos piratas bisavós. Uma porção de Patrícia França. Fica difícil descrever a bunda das mulheres de Cabo Verde. Tem que ver para crer. São Tomé não acreditaria em seus próprios olhos. Mas olhando uma delas passar, você percebe que ela está no doce balanço a caminho do mar (do Brasil). Um dia estava com um amigo português, o cineasta Paulo de Souza, especialista em cinema africano, numa praça de Mindelo, a capital intelectual do país e das bundas (a capital do país chama-se Praia, pode?). Eis que passa na nossa frente uma bunda vestida com uma minissaia verde, justa. Justíssima. Não tivemos dúvida. Seguimos a bunda por vários quarteirões, em homenageante silêncio, até que ela entrou numa casa e nós voltamos para a praça sem a necessidade de dizermos nenhuma palavra um para o outro. Era uma obra-prima da natureza aquela menina. De noite, lá pelas duas da manhã, estou eu no meu hotel a dormir e batem na porta. Era o Paulo que havia ido a uma boate. Estava trêmulo, suado: - Vem, vem, lembra daquela bunda? Veste, veste! Ela está na boate. A bunda está dançando na boate!”

Enfim, o exotismo e o erotismo persistiram no tempo, bem como a redução do feminino à carnalidade da bunda.


A tal capa

Com alguma curiosidade, tenho acompanhado o debate por aí sobre a tal CAPA do novíssimo romance A Herança da Chaxiraxi, de Gualberto do Rosário, um alto representante da Nação cabo-verdiana, que até já foi Primeiro Ministro. Realce-se que, para além de empresário radicado na ilha do Sal, o homem também conhecido pela polémica daqueles montes de dólares é agora presidente do Conselho Directivo da Câmara de Turismo de Cabo Verde, num pequeno Estado que se diz de direito democrático, assente nos valores da igualdade independentemente da diferença de género.

A imagem da tal capa do romance e a ideia de ordem da contracapa corporizam os pré-juízos redutores e sexistas, enraizados na memória colonial. Com efeito, a pequena editora, publicando no mercado português, aproveitou-se do «mito do amor luso-tropical» para delinear a sua estratégia de marketing: umas três bundas morenas em pose sensual e um trecho com descrições sexuais de cortar a respiração. Será que o autor não poderia, utilizando as prerrogativas jusautorais, vetar a escolha da imagem da capa e o teaser do excerto transcrito? Não o tendo feito, tudo indica que anuiu na redução do seu romance a um panfleto exortando as ilhas como um destino de turismo sexual e anunciando a mulher caboverdiana como um mero objecto de prazer. Independentemente do enredo deste romance cuja trama se desenrola num imaginado período pré-colonial, a capa (tal como um cartaz de cinema softcore) já se assume como um factor de atracção de leitores buscando o povoamento de um imaginário erótico.

A um alto representante da Nação que já exerceu os cargos executivos de maior responsabilidade – no âmbito dos quais tinha forçosamente, por imperativos constitucionais, de promover políticas de igualdade e de dignidade da mulher – exigia-se certamente um comportamento nos antípodas daquele que revelou ao (deixar) publicar a tal capa. Ainda abunda o estereótipo da «África-bunda».


Aquele excerto

“A dançarina entrou em transe e começou a libertar-se. Primeiro, das luvas. Depois, do vestido. Soltou as peças de roupa, uma a uma, até ficar completamente nua. E se confundiu absolutamente com o ritmo, a cor e o perfume que tomou conta do ar. Até cair em meus braços, com o serenar da música. Amámo-nos. Como nunca o fizéramos. Sem qualquer pressa. Exploramos cada poro dos nossos corpos. Experimentamos todas as intimidades. Utilizamos todos os nossos sentidos. E fizemos todas as rotações possíveis. Tudo com enorme delicadeza. Obedecendo à mais perfeita harmonia e devoção. Como que respeitando a um ritual. Tântrico. A rumba continuou a rodar, recriada pelo corpo e pela alma da Odete. Dessa vez acompanhei. Me perdi nos acordes e na batida dos instrumentos. Até à completa fusão. A Odete e eu. A música e o ritmo. Transfigurámo-nos numa estrela. Tornámo-nos no Sol, que subiu até ao zénite e inundou tudo com a mais intensa luz. A seguir, declinou e se escondeu nas águas dos nossos oceanos serenos, deixando atrás um céu glorioso, de intensa cor laranja.”

Mudjer di nha tera...

Panu maradu, grasa na rostu
Pé finkadu ta ora propostu
É mudjer di nha tera!

K sabi bafa dor [sabe esconder a sua dor]
K konxi storia, k tem kusa-l fla... [conhece a história e tem muito que contar]
É mudjer di nha tera! [é a mulher da minha terra]

Matakam di ser k ka ta tadjadu, [Ser de grandeza indomável]
Karamba si dja tem mudjer fadjadu [pois, se existe mulher generosa]
É mudjer di nha tera! [é a mulher da minha terra]

K ta argi pa si resam
Ta deta noti ta kuda manham,
Ta panha tristeza ta fasi koragem
Na kada kombersu ta passa um mensagem,
É mudjer di Kau Berdi! [é a mulher de Cabo Verde]

K ta panha lágua ta fasi força
Ta panha xintidu ta fasi distinu
La undi k medu ta bira sorti,
É mudjer di nha terá
É mudjer di Kau berdi!

Eneida Nelly (15 Nov 1986 - 18 Jul 2011, Tarrafal)

Nha Nácia Gomi | Jornada de uma Badia

Djobe li: [olha essa]
N ba ta pasa na rubera, [passando pela ribeira]
N atxa mudjeris ta kanga boi, [encontrei mulheres cangando bois]
rapariga nobu ta pika kana; [raparigas novas cortando canas]
N atxa móna-bédja ta po na birsi, [encontrei mulheres maduras trapichando]
ku ses boi sotadu, rabu nhemedu, [com os seus bois amansados e de cauda encurtada]
si kana piladu, bagas fuliadu, [com a sua cana moída e os bagaços retirados]
si kuba baredu, kalda korenti, [a sua cuba esvaziada e a calda correndo sempre]
si agordenti y agu na garafon! [o seu grogue e a água no garrafão]

Nha Nácia Gomi (Principal, 18 Jul 1925 - S. Cruz, 4 Fev 2011)

Salvem os românticos! Do amor à política educativa...

Para além dos poemas de Eugénio Tavares, Pedro Cardoso, Januário Leite e José Lopes da Silva, este último acertou em cheio numa questão que ainda hoje faz parte das reivindicações de mulheres do mundo inteiro:

“A educação que as caboverdianas recebem é quase totalmente doméstica e restrita aos costumes; mas a instrução, essa rudimentar instrução que tão escassamente se lhes proporciona, só a compartilham filhas de pais abastados e de medianos haveres ou de gente pobre a quem suceda residir nas proximidades das escolas. Assim, pois, a mulher caboverdiana, principalmente a do povo, não sabe ler, nem escrever, nem contar...” (José Lopes da Silva, séc. XIX).

É simplesmente singela esta generosidade do poeta com as mulheres em geral e as mulheres do povo em particular. Relativamente às mulheres nas ilhas de S. Nicolau, S. Antão, S. Vicente, Fogo, Santiago e Brava, no século XIX e princípios do seculo XX, a vida quotidiana era evidentemente constrangida por distinções de raça, classe e região, de maneira que a larga maioria da camada feminina não beneficiava de qualquer «direito à civilização». Assim, havia naquela época apenas um grupo de mulheres cujo acesso à educação lhes permitia tomar parte na vida cultural e nas altas rodadas das cidades e dos vilarejos.

Mesmo assim, tais mulheres privilegiadas eram afectadas pelas desigualdades de género, de maneira que, por mais que tivessem estudado nos colégios lusitanos e parisianos, a sua vida nas ilhas circunscrevia-se ao espaço da cozinha (os tais concursos de doçaria) e à animação dos saraus culturais em Nova Sintra, Ribeira Brava, S. Filipe, Praia e Mindelo. Embora tenham surgido algumas mulheres escritoras e jornalistas, perderam-se nas prateleiras da história. São elas: Maria de Spencer Freitas (S. Antão, primeira poetisa caboverdiana); Antónia Gertrudes Pusich (S. Nicolau, autora da primeira obra literária publicada de autoria caboverdiana); Emília Aguiar; Maria Luísa de Senna Barcellos; Gertrudes Ferreira Lima; Maria Cristina Rocha; Adélia Nobre Martins; Ida Loff Fonseca; Adelaide Maria das Neves; Maria Helena Spencer (Praia, uma das primeiras jornalistas e contistas caboverdianas), etc.

Adeus, até ao próximo ano! Um dia feliz para as mulheres de todas as ilhas, para as mulheres de outros mundos que residem nas ilhas e para as mulheres do mundo inteiro! E já agora: para os homens também!

As Badias

Badias quer dizer indomáveis. Foram tantas, nem sei por onde começar... Vejo ao espelho: um bikini novo faz toda a diferença! E pronta para um mergulho. «Dona Beba, nha danu benson!» Ela, enchendo a cara de sorriso, disse-nos: «Deus dá nhós vergonha!» Uh, Dona Beba está muito contente, pois Dona Lilika está cá! E lá vão elas, mãe e filha... Há muito tempo que eu já não sentia a areia macia na planta dos pés. E assim, o tempo passa como um pássaro que voa voa. É difícil dizer: adeus, Tarrafal!

Aqui vou eu, subindo a Serra, e serpenteando a ilha toda. «Ah Somada», essa foi mesmo à Vanusa! Outrora, em cada rua de aqui, havia uma mãe de terrorista, como dizia a Pide. Na praça, havia jasmim e rosas, tão cuidadas por femininas mãos. Nesta hora, a minha bisavó solta o fio da memória, lembrando de tantas vezes que não havia mercado por causa de greves das rabidantes de antigamente. Pergunto: «como eram as festas com as cantadeiras, como Nha Nácia e Nha Bibinha?» E ela desfaz-se num sorriso, afagando-me com as mãos de veludo. De Somada para Praia ou para Calheta? Praia!

Muita gente não sabe que Picos já foi «sede da província», nem que aqui há uma mulher que toca gaita e que, em três tempos, todo o mundo dança. Essa ponte remota liga a uma época em que coronéias abundavam nessa ribeira. Havia uma que chamava-se Izabel Bezerra, viúva do governador Oliveira e avó do coronel Bezerra. Uma outra chamava-se Violante. Esta, no seu tempo, o governador fora avisado de que ela, o seu irmão mais velho, o ouvidor geral, o padre guardião e o cura da Sé encontravam-se «todas as noites para conspirarem». De maneira que, no caso concreto desta dona, fora ordenada a sair da Praia para os Órgãos, onde tinha uma fazenda, «de onde nunca mais poderia sair sem ordem de sua majestade.» Nesse antigamente, havia donas com muito «cabedal» que faziam das suas contra os gregos e os troianos. Tudo isso termina na Cidade Velha, mas, enfim já é de noite, vou dormir!...

A Ilha das Mulheres | Cesária Évora International Airport

Vou-te buscar no aeroporto da Cesária, depois ficas comigo na rua da Dra. Isaura Gomes. Almoças com a candidata Filomena Vieira. Às 15h, tens uma reunião com a directora do jornal. O nome dela é Filomena Silva, mas quem vai-te receber é a jornalista Matilde Dias. Logo, às 18h, poderás assistir ao lançamento da obra completa da poetisa Yolanda Morazzo, a cargo da poetisa Vera Duarte e da historiadora Elisa Andrade; ou terás a oportunidade de assistir à abertura da exposição das artistas plásticas Luísa Queiroz e Edith Borges. Haverá no sábado um jantar com as mulheres fundadoras da OM, entre as quais a Dra. Crispina Gomes e a Dra. Maria das Dores. Mas, hoje, a noite será «entre mornas e fados»:
vozes: Celina, Titina, Nancy e Teté
piano: Tututa
viola: Iloisa Monteiro
[...]
E quem disse-te que Mont’Cara não é uma mulher?
[...]
bjinho

Nhánha Mudjer Balenti (1910) | «Guerra é Guerra»

Afinal os soldados vacilaram, quando Nhánha e um mar de gente marcharam em direcção ao presídio de Cruz Grande, exigindo a libertação das condenadas por furto de purga.
– Dessa vez, a guerra chegou a Caboverde!
– É melhor não fazer guerra. Temos poucos soldados e os guardas do coronel Aníbal não são de confiança.
– E esses indígenas?
– Valai-me Deus!
– Pressinto que, dessa vez, tencionam nos degolar.
– A minha mulher e os meus filhos ficaram na metrópole, de maneira que não desejo morrer na colónia.
– Ai de mim que ainda nem tenho filhos!

Orlanda Amarílis | Ser Badia, Inscrever Soncente

Filha do bravense filólogo Napoleão Fernandes, Orlanda Amarílis nasceu em 1924, na vila de Assomada, ilha de Santiago. Vivia no sítio de «Galo Canta», a cerca de três quilómetros da escola de Cabeça Carreira. Por isso, aos cinco anos, teve que se mudar para a ilha de São Vicente, a fim de estudar. Enquanto sobrinha de António Aurélio Gonçalves, tinha acesso privilegiado aos espaços culturais, o que lhe permitia conviver com escritores de nomeada da época. Tão cedo revelou interesse pela escrita, tendo sido a única rapariga da Academia Cultivar do Liceu Gil Eanes. Nesse frenesi juvenil, conheceu e casou-se com o ensaísta português Manuel Ferreira, que na altura era militar radicado naquela ilha. Com o marido, foi para Goa e deu volta ao mundo, e depois fixou-se em Lisboa. Com os filhos já crescidos, publicou alguns livros de contos, como «Cais-do-Sodré té Salamansa» (1974), «Ilhéu dos Pássaros» (1983) e «A Casa dos Mastros» (1989), para além de títulos da literatura infantil. Curiosamente, Orlanda Amarílis é uma das primeiras e poucas escritoras nascidas em Santiago, mas, se fosse forçoso situar a sua escrita literária, diria que ela é uma escritora mindelense e da diáspora lisboeta. Isto complexifica a identidade romanesca cabo-verdiana, sem dúvida...

«A Preta Fernanda» no Coração do Império (séc. XIX-XX)

Andresa do Nascimento (aliás, Fernanda do Vale) nasceu em 1859 numa aldeia perto de Ribeira da Barca, filha de catadores de purga. Deixou-se enrolar por um marinheiro bem-falante, e fugiu com ele para Dakar, onde seria abandonada. Lá teve que se casar com o alemão Fritz, produtor e bebedor de cerveja, e embarcou com este para Lisboa. Poucos anos depois, o homem morreu. Sozinha em Lisboa teve que se desenrascar. Primeiro convidaram-lhe para posar como uma das «figuras episódicas» da estátua do Marquês de Sá da Bandeira. Como ela tinha um calo no pé, desentendeu-se com o escultor, e foi demitida. Depois encontrou emprego como criada de servir duma dona chique, com quem ficou durante dezoito anos. Com a sua poupança e uma lista de contactos da elite lisboeta, abriu um «salão» no Bairro Alto, que foi inaugurado com muita luxuria. Era ali um dos pontos de encontro noturnos de escritores, políticos e turistas de Lisboa daquele tempo, e ela era uma das «protagonistas exóticas».

Magdalena (1775) | Canibal em Tempo d’As-Secas

Em 1774-75, houve uma onda de mortandade sem trégua em Caboverde. Na ilha Brava, por falta de mantimentos, o povo comia tudo, e nesse ano em toda a ilha já não havia «nem gatos nem cachorros».

Nesse ano, navios ingleses e franceses levaram muita gente livre das ilhas de S. Nicolau, Maio, Brava, Fogo e Santiago, «roubando uns e entregando-se outros que só pelo sustento se deixavam escravizar por dez anos». Nas ilhas de S. Nicolau e Brava, houve quem fizesse negócio, vendendo gente livre aos ingleses. Era ainda tempo de escravatura, sem dúvida. Porém, a venda de gente livre nas ilhas era um acto fora-da-lei.

Então corria esse ano de 1775, o governador mandou prender alguns «ladrões, salteadores, cabeças de bandos e incendiários». Entre tais notáveis, destacava-se Magdalena, natural da ilha de Santiago, que matou seis pessoas, «comendo-as depois com mais dois sócios». 

ami N ka mudjer? | ain’t I a woman?

Kel ómi lá fla ma mudjer ten ki djudadu subi na karu, libradu di labada, e dadu midjor kantu na tudu banda. Ningen nunca ka djuda-m subi na karu, salta rubera ó da-m bon kantu pa-m xinta. Y ami N ka mudjer? Txeka-m! Txeka nhas brasu! N ten andadu na simentera, monda y kodjeta, ki nenhun ómi ka pasa-m! Y ami N ka mudjer? N podi trabadja y kumé sima un ómi – óra ki-m atxa kumida – y xinti dor tanbé. Y ami N ka mudjer? N tive 13 fidjus, y N odjas kuazi tudu ta bendedu pa skravatura; y kantu N txora dor di mai, ningen, só nhordés ki obi-m! Y ami N ka mudjer?

[...] That man over there says that women need to be helped into carriages, and lifted over ditches, and to have the best place everywhere. Nobody ever helps me into carriages, or over mud-puddles, or gives me any best place! And ain’t I a woman? Look at me! Look at my arm! I have ploughed and planted, and gathered into barns, and no man could head me! And ain’t I a woman? I could work as much and eat as much as a man - when I could get it - and bear the lash as well! And ain’t I a woman? I have borne thirteen children, and seen most all sold off to slavery, and when I cried out with my mother’s grief, none but Jesus heard me! And ain’t I a woman? [...] (Sojourner Truth, US, 1851).

tell me who I am

oh, you told me: «you are a flower».
but you never told me you love me.
please can you tell me who I am?

Ali ben tenpu... findamor

ali ben tenpu ki
ómi ta txeka mudjer lá ta bai
mudjer ka ta djobi pa trás
pamó pa frenti ki sta kaminhu

oji nes terra
un afronta grandi sima ki ka ten fin
kalunia, difamason y injúria di tudu kasta
Tota Kdabra interadu na simiteri Várzia
nun coval anónimo sen nenhun coroa funerária de rosa-querela
Kukinha tmá ofénsa y fká sen dôs dente na se boka
tude gente tava ta tmá fé de tude más kuand plísia txigá já era bastant tarde
fladu fla ma sra. Ministra panhá três sokos y un pontapé
dja kriadu lei anti-pankadaria ma inda kusa sta mariadu
stribilin pa tudu banda

fla-m pamó gó
si é tan sabe kalor dun amor
mudjer ómi ómi mudjer mudjer ómi
lapidu na kumpanheru
djobe li:
Cretcheu más sabe,
é quel que é di meu
el é que é tchabe,
que abrim nha céu.
Cretcheu más sabe
é quel qui crem
ai sim perdel
morte dja bem.

ayan nh’amor

Oh Marly
mi lisin ta
pensa na bo
modi ki-m ta trau di kasa oji?
oji bu ta ba ma mi?
Nton nu bai gosi li, Eury!

(Marly & Eury, 2001)

Si N Sabeba

Des di pikinóti
N mimadu
N stimadu
N kriadu na agu-l boka
Familia pa tudu banda
Ligria y kontentesa
N ka dexadu konxi tristesa
Pa oji mi mudjer
Ku nha dôs pé na txon
Korpu linpu
Lingua doxi
Skóla na kabésa
Pa gaju mal-paridu
Ta injuria-m des manera
Forti ka kusa sabi konta
Keli si nhas grandi sabi
Ta doensi na pó di kama
Ta morri di disgostu
Más N ten fé firmi
Sima ka ten sabi ki ka ta kaba nunka
Tanbe ka ten dor ki ta dura pa sempri
Xuxadera des terra
Ten ki kaba
Es gerason formadu ta tormenta kumpanheru
Sima mi N ten fé ma nha óra ta txiga
Ma lus ta lumia nha kaminhu
Ma felisidadi ta konki-m nes porta

kaminhu lonji

sol forti raganhadu
rotxa ku séu riba lá
txon kenti lumi ta basa
ami mininu di vinti-tal-anu
nes rubera rostu pa skóla
modi bu anda kaminhu ka ta kaba
saku pisadu dor na kosta
subida kumpridu dixida trabesadu
minis sorizu futuru
torna panha kaminhu rostu pa kasa
badiu konxi nha gentis por isu ka ta poi mó na mi
ma sukuru pa ka panha-m
N txiga kasa ka podi nem morri
Mamai fla-m: nha fidju forti kulpa rixu!
Papai fla-m: nha fidju kaminhu mutu longi kela gó ka bu bai más!
N fla: mamai y papai, N ten ki bai, mi ki skodji nha distinu!
Subi riba dixi baxu, korda sedu durmi tardi
Nha kasera di oji, ligria nha fidju manhan, stória pa nha netu otramanhan
Oh vida!
Sta pa nansi gó ómi más bandidu ki Kalú nha kretxeu
Noba del ningen ka ten
Xintadu lisin nes poial ku séu streladu ta toma bentu mar na rostu mi só
Kel gó ka sta dretu propi
Si e ka ben N ten ki bai
N matuta tenpu N da rinkada pa Praia
...oh mundu ka bu kaba...
- ah Somada!
- ui!
Sima mamai fika ku disgostu di Bulimundo pa dia di oji...

 
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