A Pedra do Letreiro


Eu sei que foi num fim-de-semana. Lembro-me que acordei por volta das 6h15, com o alarme do despertador. Pretendia chegar ao cais do Porto Grande antes das 7h. A partida do navio Mar d’Canal estava prevista para um quarto de hora antes das 8h. Este barco, que é da companhia Naviera Armas, continua fazendo diariamente a ligação marítima entre as ilhas de São Vicente e Santo Antão. Tendo comprado o meu bilhete, e enquanto aguardava a hora da partida, desviei-me, num instante, em direcção ao bar da cabotagem. Ali, escutei novamente alguém retorquir que, em Cabo Verde, talvez não exista nenhum serviço mais pontual do que o navio que faz a travessia do canal que separa as duas ilhas. Contudo, desta vez, houve um ligeiro atraso. Quando saímos, tinha estranhamente passado das 8h.

Fiquei instalada no convés superior para melhor apreciar a paisagem, sentir a brisa do mar e observar o manto azul que se estendia no horizonte. Ilhéu dos Pássaros, Monte Cara, Porto Grande. Desvaneciam-se mansamente na belíssima paisagem. Peixinhos voadores entravam em cena, despertando olhares curiosos, e em malabarismos fintavam as aves que os queriam bicar. A viagem à ilha das montanhas foi toda ela tranquila. Entretanto, devido a uma anomalia qualquer, o navio demorou algum tempo a atracar. Desembarquei na cidade do Porto Novo, em Santo Antão, um quarto de hora depois das 9h. Normalmente, a travessia do canal demora apenas 45mn. São ilhas vizinhas, unidas secularmente. De uma é possível apreciar os contornos das montanhas da outra, as casas na zona baixa da cidade do Mindelo de São Vicente ou da cidade do Porto Novo de Santo Antão, e inclusivamente há quem diga sorrindo que do Porto Novo não é totalmente impossível avistar gentes nas ruas do Mindelo.

Um breve pequeno-almoço ainda em Porto Novo. E depois uma boleia num jipe alugado, através da estrada asfaltada Porto Novo «» Janela. Inaugurada em 2009, esta nova estrada, além de enormes precipícios, surpreende as visitas com os dois magníficos túneis, que atravessam rochas antes impenetráveis. Uma excelente obra de arte, engenhosamente desenhada por uma equipa italiana. Instalei-me na italiana Aldeia Jerome, no Paul, cujo principal órgão municipal estava ainda sob a liderança de uma mulher. Fui lá por razões de pesquisa académica. Então, mal cheguei, iniciei logo os primeiros contactos. A filha de uma informante levou-me até à residência de uma mulher responsável por uma ong local. Logo de seguida, do centro da Vila das Pombas, desloquei-me numa viatura comercial para a localidade de Eito. Desci defronte à residência de uma outra activista comunitária. Conversámos...

Esperei algum tempo, em Eito, até conseguir um lugar numa viatura para a vila. Regressei de boleia, numa viatura que transportava funcionários de algum ministério. Fiquei surpreendida ao saber que estavam em observações de terreno, porque era mais fácil reunir o grupo ao fim-de-semana. Como não tinha nenhuma actividade planeada, decidi acompanhá-los. Fomos à ribeira de Janela. Avistámos em cima o Farol de Boi que, tal como o nome sugere, fica defronte ao Ilhéu de Boi. Janela fora outrora estigmatizada como a aldeia das bruxas, marcada pelas estórias de feitiçarias. É na ribeira de Janela que se encontra uma lendária pedra, Pedra do Letreiro, com inscrições antigas, ainda não desvendadas. A curiosidade levou-me à dita pedra. Na minha ignorância, só identifiquei algo que parece ser mesmo um símbolo religioso, quase uma cruz.

Depois de um almoço rápido, segui para a vila de Ribeira Grande para me juntar a mais um grupo de viajantes. Quando o sol se apaziguou, o anfitrião daquela localidade fez-nos uma visita ao concelho. Visitámos as duas ribeiras do concelho, a larga Ribeira Grande e a estreita Ribeira da Torre, e o centro administrativo que fica na localidade de Ponta do Sol. No final da tarde, regressei à Vila das Pombas, no Paul. Jantei meia pizza, no restaurante Veleiro II.

Tal como a Cidade Velha, na ilha de Santiago, a Vila das Pombas é contornada por sumptuosas rochas e banhada por uma bela baía. Traz-me sempre lembranças da Cidade Velha... Eram 23h, e eu ainda estava no restaurante Morabeza, frente à Aldeia Jerome. Tomava um chá de ervas locais, enquanto rabiscava num bloco de notas. Lá fora, ainda estavam algumas pessoas na praça da vila, mas os três senhores que tocavam o violão no Bar da Curva já não se encontram aí. Ali, no restaurante, estavam três homens ligados a esse serviço de restauração, dois casais de turistas e eu. Depois fui dormir...

Amizadi Prende-m Korason

- Odjo d’uba, kabelo kosta korbo. Ratxa du ba nes kaminho trobesado. Mundjer bonita ka meste pintura, rapaz ratorko ka meste dinheiro. Kretcheu di dia é mar d’agosto, di noti inda é mindjor, mas na terral na terral é doce é sabe é suma mel.
- Odju ma lua naris ma stréla pistana sima arku-da-bedja. Djo li: ami nau!

Qué se puede hacer con el amor? Falávamos ontem de um tempo quando as moças eram da igreja e os mocinhos andavam em aulas teóricas e práticas e ensaios dias a fio para não falharem na hora de desencaracolarem a língua. Nesse tempo que já lá vai, as moças tinham um papel passivo no jogo do amor e ficava bem se perante o olhar atrevido de um qualquer reagissem com uma nega das grandes. Então ontem sob a sombra do busto do poeta, uns recitavam de cor versos do finason da ilha; outrum dizia que no seu tempo tinha um caderno das conquistas. Oje bo ta espectacle, ah se mom tava alçançame costa..., queria ele demonstrar a sua habilidade a dar pik quando alguém interrompeu: ouvi dizer que fulano das finanças arrombou a porta para fazer aquilo com a mulher... Porra, fazia uma serenata e seria ela a abrir a porta ou a saltar a janela...

É a lestada

Minha pele está coberta de uma penugem alourada, eriçada. Lembro-me da minha viagem de regresso da ilha do Fogo no mês de Fevereiro. O sol dos Mosteiros entranha-se na pele da gente, disse-me Matos. A lestada. Eu já sabia mais ou menos que era aquilo. Nós do litoral do norte desta ilha éramos feitos da mesma penugem, até os cabelos da cabeça de crianças ficavam da cor castanho claro acaju e pontas espigadas por causa da água do mar todo dia. Criança não pode passar dia inteiro no mar, vociferava Mamãe, que não é bom para menino de escola porque enfraquece a memória. Meu tio, que era do tempo da escola de nhu padre, apanhava o livro deRobert et Nicole, enganava Mamãe que ia ler ao pé do mar ali à frente ou detrás da casa. Brisa do mar refresca a memória, dizia a velha. Mas recomendava que titio não ficasse ao sol, dizia, que ler ao sol cega os olhos, ficam fusco. Agora, cá entre nós, digam-me a verdade!, há coisa melhor do que ler ao sol da manhã dum sábado de Outubro sentado no parapeito da casa?

Letras da Diáspora

Leopoldina Barreto e Carlota Barros


Nos últimos anos, a produção literária da diáspora tem vindo a ganhar terreno no particular contexto caboverdiano, trazendo exemplos desde um poeta como Daniel Filipe ou uma contista como Orlanda Amarílis aos casos mais recentes de escritores e escritoras migrantes ou descendentes da chamada «segunda geração». Não se trata, neste pequeno texto, de discutir a elasticidade do conceito de diáspora, nem discutir a questão da nacionalidade dos sujeitos literários da diáspora. Mas, ilustrar tão-somente a intensa produção essencialmente marcada pela vivência nessa «décima primeira ilha» deste arquipélago transnacional.

Realce-se que, se o percurso da mulher migrante em si já se abria a um enorme e intenso leque de interrogações, curiosidades e perplexidades, também a mulher da diáspora tem vindo a assumir como um sujeito literário, que preserva e representa liricamente a nostalgia, a memória, os sonhos ou o desejo de regresso. E é assim todo um mundo maravilhoso de «sonhos sonhados» e de «metáforas sagradamente guardadas» que tem sido exaltado e rememorado, através da experiência da diáspora, dispersa por lugares insuspeitos do destino caboverdiano. Juntamente com outras vozes da diáspora, Leopoldina Barreto e Carlota Barros destacam-se pela maneira sensível e esteticamente como inventam uma escrita memorialista, da saudade e do amor à terra distante.

Leopoldina Barreto nasceu em Setembro de 1937, na ilha de São Nicolau, onde viveu até aos trinta anos de idade. Em 1967, emigrou com os seus dois filhos, ainda pequenos, para junto do marido na Suécia, passando a viver na cidade de Gotemburgo. Depois de aposentada das funções que exercia numa grande fábrica de confecções e com os filhos já formados, Leopoldina dedicou-se inteiramente à pintura e à escrita, tendo dado à luz três livros: «Monte Gordo» (romance, 1997); «A Ilha do Rei Titão» (infanto-juvenil, 2000); «As Vítimas do Amor Impossível» (romance, 2004). Construiu a casa dos seus sonhos, junto ao mar da Preguiça, onde passou longas temporadas durante os últimos anos da sua vida. Morreu em Abril de 2007, na Suécia. Os poemas soltos, a aventura infanto-juvenil e os romances de Leopoldina revelam a sua vivência no arquipélago e na diáspora, numa escrita feminina desafiadora do imaginário dominante sobre o lugar das mulheres na comunidade de origem e no mundo. Segue este poema sobre a sua aldeia natal, Preguiça.


Carlota Barros nasceu em 1942, na ilha do Fogo. Até aos oito anos de idade, viveu também nas ilhas de São Vicente, São Nicolau e Brava. Em 1950, com a família, partiu para Moçambique, tendo seguido, em 1957, para Portugal e, em 1966, para Angola já na companhia do marido. Em 1966, regressou à ilha de São Nicolau, tendo permanecido até 1974. Iniciou as suas funções de professora nessa ilha e em São Vicente, continuando a leccionar em Lisboa, onde concluiu a licenciatura em Filologia Germânica. Além de participar em algumas antologias e colaborar com alguns jornais literários, publicou três livros de poemas: «A Ternura da Água» (2000); «A Minha Alma Corre em Silêncio» (2003); «Sonho Sonhado» (2007), que já conta com uma edição trilingue (caboverdiano, português e inglês). Carlota vive em Portugal, sendo uma das dinamizadoras de actividades culturais e associativas da comunidade caboverdiana lisboeta.



Sonhei uma ilha
onde a chuva
de madrugada
beijava os campos.
boca a boca.sonhei uma ilha
onde o coração do sol
sorria alegre
aos camponeses.
sorriso a sorriso.ao amanhecer
a chuva poisava
um beijo quente
na respiração dos monte.
suspiro a suspiro.e o azul do ar
sorria-me nas mãos
azul a azul.
Carlota Barros


Leopoldina e Carlota conheceram-se em 1966, na ilha de São Nicolau. Separaram logo no ano seguinte, quando Leopoldina emigrou para Suécia, mas, dez anos mais tarde, as duas amigas reencontram-se em Gotemburgo, numas férias em família. Os laços que as uniam se estreitaram ainda mais. Tornaram-se duas escritoras e amigas, ambas com uma longa vivência na diáspora e um grande amor por Cabo Verde.

Mar Bravo

Houve um tempo em que choveu muito
Não havia barcos na baía
Um temporal caíra sobre a terrinha
Na memória da minha tia Aninha
Chuva nunca tinha chegado tanto assim

Pasarinh’azul

nh’amor é un violon
morna batuku finason
nun konpasu ritimadu
nes tardinha divagar
reloji paradu pa tenpu ka fuji
noti ta ben na mi di mansinhu
strela na séu riba lá ta spreta
brufa na mar ti madrugada

palmanhã na korda di violon
son di pasarinh’azul
dun ventura na ilha maior

Gil di Jóia: Uma História, Uma Vida

...si agu-mar bira grogu,
ma Gil di Jóia ta bira pexi...
(Manel di Candinho)

Há algum tempo, fui ao Manguinho visitar os homens mais velhos da Calheta. Entre eles, claro, consta um homem singular: Virgílio Furtado, Diboia ou simplemente Gil di Jóia. O velho acamado ofereceu-me um exemplar da sua biografia: Gil di Jóia: Uma História, Uma Vida da autoria do seu afilhado Nataniel Vicente Barbosa e Silva (redigido a partir da Vila do Tarrafal, em 2006).


Gil di Jóia

«Nasceu na Calheta, a 3 de Fevereiro de 1930. De tez negra, estatura média, afável, bem-humorado, com grande amor à vida, solteirão, brincalhão, de espírito aberto, franco e leal, tocador de gaita nos tempos da juventude, conversador e conservador das suas raízes. De voz timbrada e rouca quando canta, o que não é sempre, a sua voz assemelha a de Louis Armstrong, o famoso cantor negro norte-americano.»


Gil di Jóia e as suas aventuras por terras de África

«Gil di Jóia, então já adulto e amadurecido, responsável e senhor de si, tenta resolutamente lançar no mundo das aventuras. Assim, em 1951, aos 26 anos de idade, parte para Angola, viajando a céu e mar durante 18 dias e 18 noites, a bordo do Sofala, passando para a Ilha do Príncipe, no meio do Atlântico, entre alegria e a saudade da sua terra e dos seus ente-queridos. Chega então ao Porto Ambuim sem nenhum sobressalto que merece destacar, a não ser o falecimento repentino de uma criança de 10 anos em pleno alto mar, acontecendo aí mesmo o seu sepulto obedecendo rigorosamente os rituais próprios.

Após os ofícios fúnebres, o barco continuou a sua viagem calmamente para a Catumbela, ficando entretanto uma parte dos contratados na primeira etapa e a outra parte neste último destino. Aí, então se estabeleceu o grande aventureiro, Gil di Jóia. No entanto, os dias iam passando e o Gil pouco se ia adaptando com o terreno. O destino reservou-lhe um lugar cómodo, chamado Sanzala Muro-Galo, tendo conseguido um emprego numa fábrica de açúcar com o salário mensal de 90$. Recebendo apenas uma metade, ficando a outra parte na Caixa. Entre a vida e a morte, trabalhou arduamente o jovem aventureiro, enfrentando todas as adversidades, escapando milagrosamente de um acidente de comboio, no descarrilamento de um dos vagões.

Depois de três anos de ausência, regressa à terra de origem, o grande aventureiro, sem nenhuma jóia, mas com alguns vinténs, muito pouco para se dar ao luxo de viver como gente grande. Ainda bem jovem e folgazão, como sempre, com a sua boa arte de conquistar as amizades, as fofinhas, das mais bonitas nunca lhe faltaram; mas, casamento? Casamento, nem pensar. O casamento não fazia parte do plano de vida de Gil que só gostava de curtir... e muitas promessas ainda pairam no ar. [...]

Em 1955, já com alguma experiência do além-fronteiras, o jovem conquistador lança novamente em aventuras por terras verdejantes de África, desta feita ruma-se para o Sul (São Tomé e Principe), estabelecendo-se na Roça Praia das Conchas, onde trabalhou numa fábrica de café, azeite, sabão e caroço, como contratado; uma vez mais o destino não lhe foi assim tão sorridente, tendo em conta um acidente sofrido na linha de ferro em que fracturou uma perna que infelizmente lhe molestou até à data [...].

Decorria pois o ano de 1959, o Virgílio, de novo na sua terra natal, andando agora na casa dos 29 anos, ainda bem rijo e jovem para se conformar com os parcos recursos que conseguiu angariar [...]. Confiante no futuro, parte pela segunda vez para o Sul, como então se dizia, e lá foi como canta o saudoso Ildo Lobo, di maleta na mó y sperança na coraçon, à procura de um novo sol, conseguindo ali um modesto lugar na Roça Porto Alegre [...]. Após os bem sacrificados quatro anos de trabalho regressa então definitivamente ao seu torão natal com algumas migalhinhas no bolso, deixando naturalmente, como é evidente, na Caixa, algumas notinhas para a reforma, que ainda hoje vem esperando [...].

O Gil di Jóia, com a bonita idade de 33 anos, já um homem amadurecido, mas ainda novo, conquista com a sua jovialidade muitas amizades. Ironizando, diz que as amizades foram repartidas: 75% às mulheres e 25% aos homens. O Gil demonstra aí que o inglês tem razão, quando diz: woman in first time.»

……………

SUMÁRIO da biografia do Gil:
01 | Nota de abertura
02 | Gil di Jóia
03 | Uma das mais engraçadas peripécias de Gil di Jóia
04 | Gil di Jóia e as suas primeiras trajectórias por terras de África
05 | Gil di Jóia regressa à terra natal
06 | Gil di Jóia na sua terra faz amigos e conquista corações
07 | Gil di Jóia em Assomada implacável com um bêbado
08 | Gil di Jóia enfreta corajosamente a «fúria» de um «policeman»
09 | Gil di Jóia nas festa de São Miguel di Maio
10 | Gil di Jóia desce a ladeira às costas
11 | Gil di Jóia em Ponta Verde passa as festas do fim de ano, de copo na boca
12 | O excesso de álcool, a euforia e a intolerância tentam estragar a vida do Gil
13 | Gil di Jóia nas festas de Nhô Santo Amaro
14 | Gil di Jóia e a nostalgia do passado
15 | Como vive presentemente o Gil?

Namoro Hojendia


Elas

estou farta desse namoro
há muita pressa, muita pressa
namorar tem que ser devagar
na praça e no cinema

                fala sério, amiga!
                não há tempo,
                nem cavalheiros nem damas!

badio, não!
fogo, cruzes!
sintanton, nenrasa!
soncent, não dá!
brava, não conheço!
diáspora, mesma espécie!
outros mundos, pouca variação!
china, muito tempo só de viagem!


Eles

só por uma noite, moss
não deixe rastos
nem promessas
rapidinha
noite toda
tanto faz, moss

oh, moss!
namorar é outra coisa!

sim, mas com quem?
já não há mulheres sérias!
nem na novela nem na vida real.
sem chorar, nem lamentar,
coragem, bola pra frente, moss!

cunha no amor


deixa-me rir de mim
agora que estou só
nesta minha perfeita solidão

quisera minha amiga meter-me uma cunha junto de ti
minorar os meus defeitos
pintar-me de rosa
e esconder a cicatriz que ainda trago no peito

por orgulho recusei toda e qualquer cunha
convicta de que das minhas conquistas cuido eu
recusei toda e qualquer cunha no amor
assim como recusei mendigar o teu regresso

rio-me desta minha ansiedade
dos versos sepultados na gaveta
do telefone desligado
do offline no facebook
do post-it: «não hei-de chorar por ti!»
rio-me de mim

O Legado de Nhô Filili (por Luís Urgais)



Estou a ler este livro acabado de sair, que conta uma história de amor em tempo de escravatura, entre uma «escrava» e o seu «senhor». O tal amor acontece na vila da Praia da ilha de Santiago, nas barbas da alta sociedade local, com casamento de papel passado, no século XIX.


CURIOSIDADES::
Este é um livro sobre a história do pai de Armando Napoleão Rodrigues Fernandes e avô da escritora Orlanda Amarilis.


FALHAS GRAVES::
1) Rabelados surgiram na década de 1940, numa luta contra a discriminação racial no seio da igreja católica. Portanto, nunca foram uma comunidade de escravos fujões, pois, os tráficos negreiros - legal e clandestino - foram abolidos desde o século XIX. De maneira que, não faz sentido misturar a história dos rabelados com a luta contra a escravatura.

2) A língua das ilhas de Cabo Verde já faz parte de facto do património nacional. Entretanto, é bom não esquecer que existem diferentes variantes e cada qual com a sua história. Ignorando tal questão básica, poderá ser visto como um erro grosseiro a utilização da variante de uma dada ilha na conversa habitual de habitantes doutras ilhas, ainda mais em certos períodos históricos. Portanto, torna-se importante não ignorar o modo de falar de cada lugar.

3) História de Cabo Verde. (Por vezes, fica a ideia que este livro tem muito mais descrições de viagens turísticas do que ficção histórica. A história de Cabo Verde é muito rica. E já há muitos documentos e análises históricas à mão de qualquer interessado, seja de origens caboverdianas, seja de outros países.)

«O Vírus do Poder» | um poema de Artur Vieira (ilha Brava)


Dona Chica sintonizou o pequeno rádio
À cata de novidades de seu sofrido país.
Anunciou-se a chegada da Democracia
Sob os auspícios de Desenvolvimento e Liberdade
Para promover o progresso da nação.
Pela manhã, os jornais em enormes manchetes
Elogiaram tanto a Democracia, que dona Chica
Imaginou-se soberana Dama com poderes especiais
Para realizar o milagre tão almejado do progresso.

Dona Chica soube por uma professora local
Que a Democracia se instalou no acanhado bairro
Ali, na esquina, pertinho de sua casa.
Então, dona Chica, como nos bons tempos, se enfeitou
Para uma visita à distinta Dama que chegara.
E qual não foi seu espanto ao encontrar a Democracia
Esfarrapada, magra, olhar mortiço.

Depressa, dona Chica voltou ao modesto recanto
Pegou sua única galinha, preparou apetitosa canja
Para a democracia, levando-lhe seu melhor vestuário.
Retornou no dia seguinte, esperando encontrá-la melhor.
Grande a sua decepção! A Democracia estava pior,
Quase agonizante, e a nova roupa também corroída.
Foi buscar sua única cabra, pediu à professora trajes decentes
E ambas foram socorrer a venerada Democracia.

Ao terceiro dia, o estado da paciente a preocupou
E dona Chica procurou um médico, versado em política.
Este, só de olhar para a Democracia, diagnosticou:
– Está afetada pelo vírus do afro sistema político vigente.
Dona Chica removeu a moribunda para sua pobre casa
Em trapos, esmaecida, já quase inerte.
Pelas portas, janelas e buracos do tecto, os abutres
Invadiram o casebre, numa atrocidade
                               [própria das matas palacianas.

Artur Vieira (poeta da ilha Brava)

as águas subterrâneas



Na ilha
há anos
pelas esquinas do outro lado da
cidade
jazem as estátuas de velhas promessas.
Porquê?
E todo este povo calado.
Do alto da ilha
nua
por dentro de tudo
tua voz de pedra
brada contra os murmúrios
dos subúrbios
desconhecidos
rogando pragas às raças malditas
quedando os sonhos
de todo este povo
da ilha.

4 Anos Depois: Recordar o Jornal da Hiena


«África-bunda»: a propósito da tal capa do novo romance de Gualberto do Rosário, Ex-Primeiro Ministro de Cabo Verde


«África-bunda»

Existem hoje vários estudos críticos em torno da imagética europeia sobre os trópicos. Parafraseando a expressão camoniana «pretidão de amor», e analisando a literatura, a fotografia ou a pintura, por exemplo, alguns estudos ressaltam o olhar de homens europeus, como também de africanos, sobre as mulheres negras, que, exaltando a sua beleza, “apesar” do seu tom da pele (“é pretinha mas bonitinha”), não deixam de as reduzir a uma vertente carnal, sem densidade psicológica. E é assim que a sensualidade, o exotismo e o erotismo ganham centralidade numa certa imaginação literária, fotográfica e pictórica. Vejamos alguns exemplos de ideias veiculadas a propósito das «crioulas» de Cabo Verde.

Num texto elogioso – para manifestar o seu encantamento com as ilhas, que considera como sendo As Ilhas Afortunadas (1988) da mitologia grega –, o inglês Basil Davidson defende que: “as ilhas onde se encontravam as Hespérides só podiam ser as de Cabo Verde: em que outro lugar destas águas se podem ver tão maravilhosas mulheres?”

No mesmo tom laudatório e exaltador da «beleza crioula», o fotógrafo português José A. Salvador, que acompanha o escritor caboverdiano Germano Almeida em Cabo Verde: Viagem pela História das Ilhas (2003), declara: “Quando parti para esta viagem pelas ilhas de Cabo Verde levei um bloco de notas, que na capa tinha a pomba de Picasso desenhada em 28-12-1961. Picasso nunca foi a Cabo Verde, porque nada consta a este propósito na sua biografia oficial, mas seria com certeza homem para se deixar seduzir pelo arquipélago das mulheres mais bonitas da costa ocidental de África. Picasso, tal como eu e o German, cada um a seu modo e instância, inclinou-se a admirar a beleza feminina... e eu e o German, cada um de nós com intensidade e por razões diversas, a amar Cabo Verde.”

Também no romance de viagem do francês Jean-Yves Loude, Cabo Verde: Notas Atlânticas (1999), o autor classifica a mulher citadina da ilha de São Vicente como «musa crioula», retratando a “doçura de Mindelo” e a sedução da “miss perfumada”, i.e., a imaginada facilidade de os homens encontrarem o amor em “Mindelo, terra de amores”.

Um autor anónimo brasileiro, no texto sobre “a bunda”, explica que as mulheres de Cabo Verde “não são negras como as vizinhas senegalesas, são marrons. Ou castanhas, como preferem elas. E lindas. As cabo-verdianas são lindas. Uma espécie de Sônia Braga bem queimada. Olhos claros como dos piratas bisavós. Uma porção de Patrícia França. Fica difícil descrever a bunda das mulheres de Cabo Verde. Tem que ver para crer. São Tomé não acreditaria em seus próprios olhos. Mas olhando uma delas passar, você percebe que ela está no doce balanço a caminho do mar (do Brasil). Um dia estava com um amigo português, o cineasta Paulo de Souza, especialista em cinema africano, numa praça de Mindelo, a capital intelectual do país e das bundas (a capital do país chama-se Praia, pode?). Eis que passa na nossa frente uma bunda vestida com uma minissaia verde, justa. Justíssima. Não tivemos dúvida. Seguimos a bunda por vários quarteirões, em homenageante silêncio, até que ela entrou numa casa e nós voltamos para a praça sem a necessidade de dizermos nenhuma palavra um para o outro. Era uma obra-prima da natureza aquela menina. De noite, lá pelas duas da manhã, estou eu no meu hotel a dormir e batem na porta. Era o Paulo que havia ido a uma boate. Estava trêmulo, suado: - Vem, vem, lembra daquela bunda? Veste, veste! Ela está na boate. A bunda está dançando na boate!”

Enfim, o exotismo e o erotismo persistiram no tempo, bem como a redução do feminino à carnalidade da bunda.


A tal capa

Com alguma curiosidade, tenho acompanhado o debate por aí sobre a tal CAPA do novíssimo romance A Herança da Chaxiraxi, de Gualberto do Rosário, um alto representante da Nação cabo-verdiana, que até já foi Primeiro Ministro. Realce-se que, para além de empresário radicado na ilha do Sal, o homem também conhecido pela polémica daqueles montes de dólares é agora presidente do Conselho Directivo da Câmara de Turismo de Cabo Verde, num pequeno Estado que se diz de direito democrático, assente nos valores da igualdade independentemente da diferença de género.

A imagem da tal capa do romance e a ideia de ordem da contracapa corporizam os pré-juízos redutores e sexistas, enraizados na memória colonial. Com efeito, a pequena editora, publicando no mercado português, aproveitou-se do «mito do amor luso-tropical» para delinear a sua estratégia de marketing: umas três bundas morenas em pose sensual e um trecho com descrições sexuais de cortar a respiração. Será que o autor não poderia, utilizando as prerrogativas jusautorais, vetar a escolha da imagem da capa e o teaser do excerto transcrito? Não o tendo feito, tudo indica que anuiu na redução do seu romance a um panfleto exortando as ilhas como um destino de turismo sexual e anunciando a mulher caboverdiana como um mero objecto de prazer. Independentemente do enredo deste romance cuja trama se desenrola num imaginado período pré-colonial, a capa (tal como um cartaz de cinema softcore) já se assume como um factor de atracção de leitores buscando o povoamento de um imaginário erótico.

A um alto representante da Nação que já exerceu os cargos executivos de maior responsabilidade – no âmbito dos quais tinha forçosamente, por imperativos constitucionais, de promover políticas de igualdade e de dignidade da mulher – exigia-se certamente um comportamento nos antípodas daquele que revelou ao (deixar) publicar a tal capa. Ainda abunda o estereótipo da «África-bunda».


Aquele excerto

“A dançarina entrou em transe e começou a libertar-se. Primeiro, das luvas. Depois, do vestido. Soltou as peças de roupa, uma a uma, até ficar completamente nua. E se confundiu absolutamente com o ritmo, a cor e o perfume que tomou conta do ar. Até cair em meus braços, com o serenar da música. Amámo-nos. Como nunca o fizéramos. Sem qualquer pressa. Exploramos cada poro dos nossos corpos. Experimentamos todas as intimidades. Utilizamos todos os nossos sentidos. E fizemos todas as rotações possíveis. Tudo com enorme delicadeza. Obedecendo à mais perfeita harmonia e devoção. Como que respeitando a um ritual. Tântrico. A rumba continuou a rodar, recriada pelo corpo e pela alma da Odete. Dessa vez acompanhei. Me perdi nos acordes e na batida dos instrumentos. Até à completa fusão. A Odete e eu. A música e o ritmo. Transfigurámo-nos numa estrela. Tornámo-nos no Sol, que subiu até ao zénite e inundou tudo com a mais intensa luz. A seguir, declinou e se escondeu nas águas dos nossos oceanos serenos, deixando atrás um céu glorioso, de intensa cor laranja.”

Mudjer di nha tera...

Panu maradu, grasa na rostu
Pé finkadu ta ora propostu
É mudjer di nha tera!

K sabi bafa dor [sabe esconder a sua dor]
K konxi storia, k tem kusa-l fla... [conhece a história e tem muito que contar]
É mudjer di nha tera! [é a mulher da minha terra]

Matakam di ser k ka ta tadjadu, [Ser de grandeza indomável]
Karamba si dja tem mudjer fadjadu [pois, se existe mulher generosa]
É mudjer di nha tera! [é a mulher da minha terra]

K ta argi pa si resam
Ta deta noti ta kuda manham,
Ta panha tristeza ta fasi koragem
Na kada kombersu ta passa um mensagem,
É mudjer di Kau Berdi! [é a mulher de Cabo Verde]

K ta panha lágua ta fasi força
Ta panha xintidu ta fasi distinu
La undi k medu ta bira sorti,
É mudjer di nha terá
É mudjer di Kau berdi!

Eneida Nelly (15 Nov 1986 - 18 Jul 2011, Tarrafal)

Nha Nácia Gomi | Jornada de uma Badia

Djobe li: [olha essa]
N ba ta pasa na rubera, [passando pela ribeira]
N atxa mudjeris ta kanga boi, [encontrei mulheres cangando bois]
rapariga nobu ta pika kana; [raparigas novas cortando canas]
N atxa móna-bédja ta po na birsi, [encontrei mulheres maduras trapichando]
ku ses boi sotadu, rabu nhemedu, [com os seus bois amansados e de cauda encurtada]
si kana piladu, bagas fuliadu, [com a sua cana moída e os bagaços retirados]
si kuba baredu, kalda korenti, [a sua cuba esvaziada e a calda correndo sempre]
si agordenti y agu na garafon! [o seu grogue e a água no garrafão]

Nha Nácia Gomi (Principal, 18 Jul 1925 - S. Cruz, 4 Fev 2011)

Salvem os românticos! Do amor à política educativa...

Para além dos poemas de Eugénio Tavares, Pedro Cardoso, Januário Leite e José Lopes da Silva, este último acertou em cheio numa questão que ainda hoje faz parte das reivindicações de mulheres do mundo inteiro:

“A educação que as caboverdianas recebem é quase totalmente doméstica e restrita aos costumes; mas a instrução, essa rudimentar instrução que tão escassamente se lhes proporciona, só a compartilham filhas de pais abastados e de medianos haveres ou de gente pobre a quem suceda residir nas proximidades das escolas. Assim, pois, a mulher caboverdiana, principalmente a do povo, não sabe ler, nem escrever, nem contar...” (José Lopes da Silva, séc. XIX).

É simplesmente singela esta generosidade do poeta com as mulheres em geral e as mulheres do povo em particular. Relativamente às mulheres nas ilhas de S. Nicolau, S. Antão, S. Vicente, Fogo, Santiago e Brava, no século XIX e princípios do seculo XX, a vida quotidiana era evidentemente constrangida por distinções de raça, classe e região, de maneira que a larga maioria da camada feminina não beneficiava de qualquer «direito à civilização». Assim, havia naquela época apenas um grupo de mulheres cujo acesso à educação lhes permitia tomar parte na vida cultural e nas altas rodadas das cidades e dos vilarejos.

Mesmo assim, tais mulheres privilegiadas eram afectadas pelas desigualdades de género, de maneira que, por mais que tivessem estudado nos colégios lusitanos e parisianos, a sua vida nas ilhas circunscrevia-se ao espaço da cozinha (os tais concursos de doçaria) e à animação dos saraus culturais em Nova Sintra, Ribeira Brava, S. Filipe, Praia e Mindelo. Embora tenham surgido algumas mulheres escritoras e jornalistas, perderam-se nas prateleiras da história. São elas: Maria de Spencer Freitas (S. Antão, primeira poetisa caboverdiana); Antónia Gertrudes Pusich (S. Nicolau, autora da primeira obra literária publicada de autoria caboverdiana); Emília Aguiar; Maria Luísa de Senna Barcellos; Gertrudes Ferreira Lima; Maria Cristina Rocha; Adélia Nobre Martins; Ida Loff Fonseca; Adelaide Maria das Neves; Maria Helena Spencer (Praia, uma das primeiras jornalistas e contistas caboverdianas), etc.

Adeus, até ao próximo ano! Um dia feliz para as mulheres de todas as ilhas, para as mulheres de outros mundos que residem nas ilhas e para as mulheres do mundo inteiro! E já agora: para os homens também!

As Badias

Badias quer dizer indomáveis. Foram tantas, nem sei por onde começar... Vejo ao espelho: um bikini novo faz toda a diferença! E pronta para um mergulho. «Dona Beba, nha danu benson!» Ela, enchendo a cara de sorriso, disse-nos: «Deus dá nhós vergonha!» Uh, Dona Beba está muito contente, pois Dona Lilika está cá! E lá vão elas, mãe e filha... Há muito tempo que eu já não sentia a areia macia na planta dos pés. E assim, o tempo passa como um pássaro que voa voa. É difícil dizer: adeus, Tarrafal!

Aqui vou eu, subindo a Serra, e serpenteando a ilha toda. «Ah Somada», essa foi mesmo à Vanusa! Outrora, em cada rua de aqui, havia uma mãe de terrorista, como dizia a Pide. Na praça, havia jasmim e rosas, tão cuidadas por femininas mãos. Nesta hora, a minha bisavó solta o fio da memória, lembrando de tantas vezes que não havia mercado por causa de greves das rabidantes de antigamente. Pergunto: «como eram as festas com as cantadeiras, como Nha Nácia e Nha Bibinha?» E ela desfaz-se num sorriso, afagando-me com as mãos de veludo. De Somada para Praia ou para Calheta? Praia!

Muita gente não sabe que Picos já foi «sede da província», nem que aqui há uma mulher que toca gaita e que, em três tempos, todo o mundo dança. Essa ponte remota liga a uma época em que coronéias abundavam nessa ribeira. Havia uma que chamava-se Izabel Bezerra, viúva do governador Oliveira e avó do coronel Bezerra. Uma outra chamava-se Violante. Esta, no seu tempo, o governador fora avisado de que ela, o seu irmão mais velho, o ouvidor geral, o padre guardião e o cura da Sé encontravam-se «todas as noites para conspirarem». De maneira que, no caso concreto desta dona, fora ordenada a sair da Praia para os Órgãos, onde tinha uma fazenda, «de onde nunca mais poderia sair sem ordem de sua majestade.» Nesse antigamente, havia donas com muito «cabedal» que faziam das suas contra os gregos e os troianos. Tudo isso termina na Cidade Velha, mas, enfim já é de noite, vou dormir!...

A Ilha das Mulheres | Cesária Évora International Airport

Vou-te buscar no aeroporto da Cesária, depois ficas comigo na rua da Dra. Isaura Gomes. Almoças com a candidata Filomena Vieira. Às 15h, tens uma reunião com a directora do jornal. O nome dela é Filomena Silva, mas quem vai-te receber é a jornalista Matilde Dias. Logo, às 18h, poderás assistir ao lançamento da obra completa da poetisa Yolanda Morazzo, a cargo da poetisa Vera Duarte e da historiadora Elisa Andrade; ou terás a oportunidade de assistir à abertura da exposição das artistas plásticas Luísa Queiroz e Edith Borges. Haverá no sábado um jantar com as mulheres fundadoras da OM, entre as quais a Dra. Crispina Gomes e a Dra. Maria das Dores. Mas, hoje, a noite será «entre mornas e fados»:
vozes: Celina, Titina, Nancy e Teté
piano: Tututa
viola: Iloisa Monteiro
[...]
E quem disse-te que Mont’Cara não é uma mulher?
[...]
bjinho

Nhánha Mudjer Balenti (1910) | «Guerra é Guerra»

Afinal os soldados vacilaram, quando Nhánha e um mar de gente marcharam em direcção ao presídio de Cruz Grande, exigindo a libertação das condenadas por furto de purga.
– Dessa vez, a guerra chegou a Caboverde!
– É melhor não fazer guerra. Temos poucos soldados e os guardas do coronel Aníbal não são de confiança.
– E esses indígenas?
– Valai-me Deus!
– Pressinto que, dessa vez, tencionam nos degolar.
– A minha mulher e os meus filhos ficaram na metrópole, de maneira que não desejo morrer na colónia.
– Ai de mim que ainda nem tenho filhos!

Orlanda Amarílis | Ser Badia, Inscrever Soncente

Filha do bravense filólogo Napoleão Fernandes, Orlanda Amarílis nasceu em 1924, na vila de Assomada, ilha de Santiago. Vivia no sítio de «Galo Canta», a cerca de três quilómetros da escola de Cabeça Carreira. Por isso, aos cinco anos, teve que se mudar para a ilha de São Vicente, a fim de estudar. Enquanto sobrinha de António Aurélio Gonçalves, tinha acesso privilegiado aos espaços culturais, o que lhe permitia conviver com escritores de nomeada da época. Tão cedo revelou interesse pela escrita, tendo sido a única rapariga da Academia Cultivar do Liceu Gil Eanes. Nesse frenesi juvenil, conheceu e casou-se com o ensaísta português Manuel Ferreira, que na altura era militar radicado naquela ilha. Com o marido, foi para Goa e deu volta ao mundo, e depois fixou-se em Lisboa. Com os filhos já crescidos, publicou alguns livros de contos, como «Cais-do-Sodré té Salamansa» (1974), «Ilhéu dos Pássaros» (1983) e «A Casa dos Mastros» (1989), para além de títulos da literatura infantil. Curiosamente, Orlanda Amarílis é uma das primeiras e poucas escritoras nascidas em Santiago, mas, se fosse forçoso situar a sua escrita literária, diria que ela é uma escritora mindelense e da diáspora lisboeta. Isto complexifica a identidade romanesca cabo-verdiana, sem dúvida...

 
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