Ilha do Fogo, Livro de Viagem

Depois de ver o documentário «Itinerâncias de um Geógrafo», sobre a vida e a produção científica de Orlando Ribeiro, que também visitou a ilha e escreveu sobre as suas erupções vulcânicas, deixo aqui esta nova sugestão de viagem à ilha do Fogo (e de estudo da sua paisagem geográfica, social, cultural e política).

Nastaci Lopi sempri na topi

Nastaci Lopi (nhu Puxim) com Shokanti
Nastaci Lopi foi um dos maiores humoristas de Cabo Verde, na década de noventa. Das suas várias historietas, quem não se lembra de «Nem Tudo Subiu», «Capacete», «Rescaldo das Eleições», «Polícia Quinzenal», «Mini-saia», «Tapa Braco», «Ranja Noiva», «Carta pa Lisboa», «Relógio Nobo» ou «Badja Noticiário». Tudo isso, assim, à «homem vivente», num estilo irónico e mordaz, na fina flor da tradição oral santiaguense, por entre as fronteiras reais e imaginárias do campo e da cidade.


Havia, com efeito, um propósito de abanar o imaginário cultural e social, a começar pelas controvérsias de ordem linguística e geocultural. De forma cómica, Nastaci Lopi abordava diversas questões sociais, como o mundo da política, o contacto com outras culturas, a vida do emigrante, a urbanidade e a ruralidade, a masculinidade imperante, a violência doméstica, a galhofa sexista, a sexualidade ou a «vivida arcoólica».

Enfim, as peripécias de um «rapazinho esperto» transformaram-se nas maravilhosas aventuras de nhu Puxim, na companhia de figuras populares hilariantes, como Compadre Magalhães, Mindo, Lina di nha Txubinha, Gaudêncio, nha Francesa, Titio Dezidere, Nha Saramãe, Xibiote, Joaquinzinho, Ntoninhu di Sema, Dole ou Bandan di nha Mita. E também, tal como as figuras populares enriqueciam as curtas narrativas inventadas, alguns lugarejos da ilha de Santiago renasciam das cinzas recarregadas de humor: Pilonkan, Kadjéta, Rubera da Barca ou Renki Purga.

Inauguração do novo Estádio Nacional não contará com a presença dos Tubarões Azuis

Hoje, por volta das 15h, aqui na cidade da Praia, será inaugurado o novo Estádio Nacional de Cabo Verde, construído em Monte Vaca, com o apoio da cooperação chinesa, representada na cerimónia de hoje pela figura do seu Embaixador, Su Jian. A cerimónia de inauguração, que será durante toda a tarde deste sábado, contará com a presença de várias entidades nacionais e uma grande moldura humana já está sendo mobilizada para tomar parte no acontecimento. Sabe-se, no entanto, que não contará com a presença da seleção nacional de futebol.

Lula antevê Marina em 2º lugar


Folha avança que a cúpula do PT, incluindo Lula, já considera que Marina poderá ficar em 2º lugar e exorta que Aécio Neves, “se quiser reverter o quadro atual, terá de bater na nova adversária em disputa.” A confirmar esta previsão, e imaginando um cenário de segunda volta (segundo turno), pesquisas indicam que Marina poderá ficar à frente de Dilma.

Outra fonte dá a conhecer quem são os principais conselheiros de Dilma, Marina e Aécio:
- Dilma Rousseff conta com o ex-presidente Lula, João Santana e Giles Azevedo.
- Marina Silva terá provavelmente a seu lado Walter Feldman, Sérgio Xavier e Eduardo Gianetti da Fonseca.
- Aécio Neves conta com o apoio de sua irmã Andréa Neves, Antonio Anastasia e do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que levantou das cinzas para não perder esta parada.

A ciência por cá

O blog na esquina do tempo acaba de publicar uma curta e dura crónica ou uma espécie de desabafo (conquanto com uma boa dose de humor), onde se pode ler o seguinte:
Mindelo, uma cidade nascida sob o signo da história, hoje já só tem estórias para contar. Anunciam-se com ciência, paliativos e soluções às gentes sem ciénça encalhadas na ilha.
SonCent sempre foi conhecida como tendo gente de ciénça, com habilidade, jeito, criatividade, auto-suficiência e, sobretudo, que respinga, que não leva desaforo […]. Hoje a ilha pode gabar-se de muitas conquistas, incluindo a universidade para os seus filhos, mas a sua gente já não é o que era. Ela tornou-se despreparada, sem fibra, balofa, sem respeito, sem auto-estima, dependente, em suma, sem ciénça […]
Na ilha-sede [ST] abriu-se, há já algum tempo, com pompa e circunstância, uma Casa da Ciência. Na altura, publicitou-se ou justificou-se uma idêntica para a ilha do norte [SV]. Contudo, nem aquela funciona nem esta foi instalada. Diz-se que isso só é possível porque o próprio dono da Casa não tem ciénça […]. v+

Isto está a dar muito que falar junto de um pequeno grupo no facebook. Tece-se argumentos e contra-argumentos sobre informações e saberes disponíveis em cada época, como também quanto aos métodos de ensino-aprendizagem.

A crónica, eu acho, toca em parte numa ou noutra questão há muito comentada à boca miúda. Na verdade, a efervescência científica em Cabo Verde nunca foi forte. Também é verdade que temos, há já algum tempo, uma certa sensação de que deixamos de pensar criticamente as coisas que nos rodeiam, talvez porque mergulhámos cada vez mais em uma tal morabeza ainda que artificial. Por outro lado, acredito que São Vicente e outras ilhas deste arquipélago continuam como palcos de produção artística, cultural e de saberes de várias ordens. E tudo isto é ciência, também.

Eleições no Brasil

Coisa parecida havia sucedido em algum lugar próximo de nós. Ali ao lado, em Portugal. Uma quinta-feira, 4 de Dezembro de 1980, três dias antes do domingo eleitoral, despenhava-se uma avioneta levando a bordo Francisco Sá Carneiro e demais companheiros que descolaram de Lisboa em direcção ao Porto para participarem num comício. Sá Carneiro não era candidato àquelas eleições presidenciais, mas ocupava há quase um ano o cargo de primeiro-ministro de Portugal, tendo sucedido a Maria de Lurdes Pintasilgo (a primeira mulher e ainda única que esteve na chefia do Governo naquele país). Para as eleições presidenciais de 6 de Dezembro de 1980, os principais candidatos eram Ramalho Eanes (presidente em exercício e apoiado pela esquerda) e António Soares Carneiro (apoiado pela coligação de centro-direita Aliança Democrática, que suportava o então governo e era composta por PSD, CDS, PPM e alguns independentes). O funeral de Sá Carneiro foi na sexta-feira que antecedia ao domingo eleitoral. Realizaram-se as eleições presidenciais. Ganhou Ramalho Eanes. E logo depois houve um momento de grande turbulência em torno da escolha do novo primeiro-ministro de Portugal. Quem passou à chefia do governo e do PSD foi Francisco Pinto Balsemão.Na altura, Diogo Freitas do Amaral (líder do CDS, parte da coligação que suportava o governo e anterior vice-primeiro-ministro de Sá Carneiro) ficou fora do novo executivo.

Recentemente, houve algo muito parecido: a morte de Eduardo Campos, ex-governador de Pernambuco e então candidato às eleições presidenciais no Brasil (com apoio da aliança programática entre o seu PSB e a Rede Sustentabilidade de Marina Silva), na sequência da queda do avião que seguia do Rio de Janeiro para Guarujá, onde tinha agendado acções da sua campanha. A morte de Campos fez Marina Silva se emergir como candidata às eleições presidenciais de 5 de Outubro próximo para enfrentar Dilma Rousseff (actual Presidenta, apoiada pelo PT) e o senador Aécio Neves (apoiado pelo PSDB). Circulou um boato sobre possíveis candidatos a vice, incluindo a viúva de Campos, o irmão e outros socialistas. Um processo sucessório que deu que falar, mas parece que já há luz verde. Um tal Beto Albuquerque foi escolhido para o lugar de vice. E hoje será oficialmente apresentado esta nova dupla.

Arquivo digital

Não é nada raro se ver gente com os cabelos em pé por causa de algum livro ou apontamento perdido algures por entre as tralhas do trabalho ou em casa. No meu caso pessoal, este ano decidi que iria arquivar tudo. Os livros já estão devidamente arrumados nas prateleiras. As papeladas estão agora em molhos temáticos e dispersos pelas diversas divisões criadas especificamente para tal efeito. A partir deste ano pretendo decisivamente mudar de estratégia: vou apostar em arquivos digitais. É isso aí...

A coerência histórica: holandês devolve prémio de Israel após perder parentes em Gaza

Em 2011, o advogado holandês Henk Zenoli recebeu um prémio simbólico do Estado de Israel por ter salvo um menino judeu de 11 anos das garras dos nazistas durante a II Grande Guerra Mundial. Entretanto, no passado mês de Julho, Zenoli devolveu tal prémio após perder seis parentes num bombardeio das tropas israelitas em Gaza. Conta-se que uma sobrinha neta dele, a diplomata holandesa Angelique Eijpe, é casada com o economista palestino Isma’il Ziadah, cuja mãe foi atingida por um bombardeio, no dia 20 de Julho, quando se encontrava em casa. Ela, três irmãos de Ziadah, uma cunhada e um primo morreram. Numa carta dirigida ao embaixador de Israel na Holanda, Henk Zanoli escreveu que: 
«Dado o nosso histórico é particularmente chocante e trágico que, quatro gerações depois, nossa família sofra com o assassinato de nossos parentes em Gaza. Um assassinato conduzido pelo Estado de Israel. Os bisnetos de minha mãe perderam sua avó palestina, três tios, uma tia e um primo pelas mãos do Exército de Israel. […] Para mim, continuar com essa honra concedida pelo Estado de Israel, nessas circunstâncias, seria um insulto à memória da minha corajosa mãe, que arriscou a vida dela e dos filhos contra a opressão e pela preservação da vida humana. É também um insulto à minha família que, quatro gerações depois, perdeu nada menos que seis membros em Gaza pelas mãos do Estado de Israel.»
O material jornalístico produzido pelo Estadão é protegido por lei. Para compartilhar este conteúdo, utilize o link:http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,holandes-que-salvou-menino-do-nazismo-devolve-premio-apos-perder-familia-em-gaza,1544337
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Mil maneiras de estar de férias

Às quatro da tarde entrei em casa. Logo aconcheguei-me na rede e abri o portátil ao regaço. Entrei no facebook para ver o que se passa no mundo... Uma estudante me escreveu da ilha do Maio, dizendo que está curtindo suas férias. Adicionou três fotos de Beach Rotcha para reportar as maravilhas do seu verão em Djarmay.
- uauh!
- Bem panha um feria pa li ntom! Es temp li sta jogo na areia sta fx sem manha.
- Vou pensar... Lá para final de setembro.
- Na inicio di setembro ta sta mas fx k na fim go.
- Vou pensar.
- Pensa rapid.
Não disse-lhe nem sim, nem não. Mudei de assunto, contando-lhe que estive há dias na minha aldeia que virou cidade. Que o sol estava abafado, nem dava para ver a ilha do Maio. Contei-lhe dos meus dias de infância e adolescência quando mirávamos aquela ilha, que é a que fica mais próxima da minha aldeia, de tal sorte que até meu avô brincalhão conseguia identificar onde é que ficava a casa de uma tetravó minha, uma tal de Nha Júlia Bapor, que se mudou para lá e cuja alcunha se devia directamente ao facto dela se ter casado com um fulano mercador de sal daquela ilha. Isso foi há muito, muito tempo...

Acaba de entrar no facebook um outro estudante, que se encontra de férias em São Domingos. Confirma-me que continua lendo com entusiasmo o livro Amor de Perdição de Camilo Castelo Branco.
- prosora k dia k bu ta ben kumé pastel di midju li são domingos?
- um dia desses...

Porque tenho um assunto a tratar vou sair do facebook... mas volto mais logo.

A Rainha Ginga


Estou neste momento a ler o novíssimo romance do escritor angolano José Eduardo Agualusa. Uma leitura agradável para estes dias da época mais quente cá nas ilhas. Agualusa traz-nos uma versão deliciosa sobre a celebrizada Rainha Ginga (1583-1663), que eu já conhecia através dos estudos da historiadora haitiana e afro-feminista Linda M. Heywood. A figura do narrador é um estranho, por sinal um padre pernambucano em plena crise de fé, enviado pelo Bispo por encomenda do governador português Luís Mendes de Vasconcelos com o propósito de a servir quando ainda nem era rainha mas usufruía do facto de ser a irmã mais velha e conselheira preciosa do rei, o belicoso senhor Dom Ngola Mbandi. Estando nas páginas iniciais do romance ainda não posso descrever com precisão o teor da narrativa mas tudo indica ser uma empolgante e fascinante história de combate entre Angola e Portugal numa época agitada e marcante dos primórdios do ciclo colonial-escravocrata. Publicado no passado mês de Junho, este romance é agora apontado como um dos momentos mais altos da obra de José Eduardo Agualusa.

Borrifar as flores com água da chuva

Creio que foi num sábado à tarde, nos primeiros tempos da mudança para este lugar, que titia inventou esta tese incontestável: «cuidar do verde dentro de casa dá sorte, atrai bons pensamentos e enxuta maus-olhados.» Lembro-me que me agradou a apreciação dela sobre o estado das plantas, e até comentei que me sinto bem com este jardim improvisado à janela da cozinha. Ela, mulher do campo que o destino obrigou a mudar para a cidade grande, parecia tão maravilhada. Levei-a a pensar na minha aflição sempre que ausento por um período superior a três dias. Disse-lhe que não sabia o que fazer com as plantas. Como se tivesse sonhado comigo, telefonou-me e perguntou-me há alguns dias por que razão não peço ao meu tio para me ajudar a resolver esse problema de uma vez por todas, instalando-me o sistema de rega gota-a-gota. Não achei má ideia. Até porque uma colega já me tinha sugerido algo parecido: «arranja umas garrafas de litro e meio de água e pendure numa corda acima da cabeça das plantas.» Também não achei má ideia. Acordei hoje com a chuva amiga batendo no portão, como se batesse no meu coração. Dei por mim apanhando às pressas os vasos de plantas para conduzi-las todas para varanda a fim de tomarem um banho de chuva. Pensei: «ter plantas dentro de casa quando chove lá fora é como aninhar peixinhos no aquário numa casa à beira-mar.» Às tantas olhei para o céu e não vi chuva caindo. Mas está tudo bem. Parece que hoje é dia de chuva.

Os instantes

Nunca conheci ninguém tão sorridente como o meu amigo Maravilhas. Quem lhe impingiu a alcunha foi um amigo do bairro onde morava nos tempos da infância. Tudo era: que maravilha, uma maravilha ou maravilhoso!

Uma vez, por sorte, descobrimos que estávamos na mesma cidade. Eu e ele em Paris? Pensei que certamente daria um filme de comédia. Marcamos um encontro na cafetaria da livraria fnac de saint-lazare. Ele chegou atrasado, com desculpas de que não sabia que metro apanhar, que não é assim atrasado, que esteve perdido durante algum tempo ali na gare a tentar recordar qual dos caminhos ia dar à fnac. Para ser simpática, apenas por ser o nosso primeiríssimo encontro fora das redes sociais, eu disse-lhe que fui-me entretendo com leituras vagas das contracapas de um molho de livros que tinha à frente. E ele sorriu muito, desfolhando dois livros ao mesmo tempo. Parecia um pouco atrapalhado.

Para pegar no meu pé, ele tratou de dizer que sou mais bonita «ao vivo», embora não fosse tão bonita como ele imaginava. Então, para pagar com a mesma moeda, disse-lhe que parecia mais velho do que na fotografia da badana do livro que me enviara para o endereço de coimbra e que, tal como me havia dito um amigo comum, ele parecia muito stressado. Ah, disse-me que a idade já lhe pesava, andava perto da casa dos quarenta, queria publicar um livro nesse entretanto, que a vida não estava a correr como tinha previsto. Conversamos sobre o seu projecto de livro, aliás a sua tese que seria traduzida de inglês para português e publicada numa editora de renome. Perguntei-lhe que mais queria. Durante um bom bocado só falávamos de livros e outras coisas em redor do mesmo assunto.

Dias depois do primeiro encontro, já estávamos do outro lado da cidade, no musée du louvre. Ficou combinado que encontraríamos na pirâmide translúcida. Dessa vez, atrasei-me. Tive que pedir desculpas, pois estava em visita a montparnasse, jardin du luxembourg e sorbonne, rememorando sinome de beauvoir. Falamos de tudo e mais alguma coisa: arte, poesia, boémia, ciência, conferências e música. Ao fim da tarde, deslizamos pela rue de rivoli até avenue des champs-élysées. Fotografámos o arc de triomphe. Sem saber como, de um momento para o outro, desdobramos até chegar às margens de seine. Uma sensação incrível.

Foi na hora do adeus que ouvi meu amigo dizer, sem querer, aquela expressão que lhe é característica: «maravilha, nunca mais vou-te ver». Rimos até não poder mais, abraçamos e saltamos como crianças... E nunca mais vi esse meu amigo. Isso me fez recordar de um outro amigo que, certa vez, numa estação, olhou para mim e disse: «Observa estas pessoas. Pode ser um espectáculo único.»

Crioulo é ainda mais complicado que o resto do mundo

Manhã cedo, recebo um alô de uma pessoa amiga morta de felicidade. Torno-me feliz com a felicidade dessa pessoa amiga. Saltamos e cantamos como duas crianças.
- Já acordei a casa toda, eu acho!
- Também eu. Quer dizer, não deixei ninguém dormir toda noite.
Depois de uma eternidade a conversar, eis que essa pessoa me pergunta:
- Que achas?
- Vou te contar: o teu «sim» vai ser criticado por mais de 99% das pessoas que te conhecem e de quem tu esperavas apenas um apoio incondicional; o teu «não» vai continuar adiando a tua felicidade; e, como sabes, há coisas que não dá para ficar no «assim-assim». Agora, a decisão é tua, só tua! E sabes, desde que mundo é mundo, tem sido dificil agradar a toda a gente.
- É verdade, tens razão! Não sei por que razão, mas acho que crioulo é ainda mais complicado que o resto do mundo.

A Pedra do Letreiro


Eu sei que foi num fim-de-semana. Lembro-me que acordei por volta das 6h15, com o alarme do despertador. Pretendia chegar ao cais do Porto Grande antes das 7h. A partida do navio Mar d’Canal estava prevista para um quarto de hora antes das 8h. Este barco, que é da companhia Naviera Armas, continua fazendo diariamente a ligação marítima entre as ilhas de São Vicente e Santo Antão. Tendo comprado o meu bilhete, e enquanto aguardava a hora da partida, desviei-me, num instante, em direcção ao bar da cabotagem. Ali, escutei novamente alguém retorquir que, em Cabo Verde, talvez não exista nenhum serviço mais pontual do que o navio que faz a travessia do canal que separa as duas ilhas. Contudo, desta vez, houve um ligeiro atraso. Quando saímos, tinha estranhamente passado das 8h.

Fiquei instalada no convés superior para melhor apreciar a paisagem, sentir a brisa do mar e observar o manto azul que se estendia no horizonte. Ilhéu dos Pássaros, Monte Cara, Porto Grande. Desvaneciam-se mansamente na belíssima paisagem. Peixinhos voadores entravam em cena, despertando olhares curiosos, e em malabarismos fintavam as aves que os queriam bicar. A viagem à ilha das montanhas foi toda ela tranquila. Entretanto, devido a uma anomalia qualquer, o navio demorou algum tempo a atracar. Desembarquei na cidade do Porto Novo, em Santo Antão, um quarto de hora depois das 9h. Normalmente, a travessia do canal demora apenas 45mn. São ilhas vizinhas, unidas secularmente. De uma é possível apreciar os contornos das montanhas da outra, as casas na zona baixa da cidade do Mindelo de São Vicente ou da cidade do Porto Novo de Santo Antão, e inclusivamente há quem diga sorrindo que do Porto Novo não é totalmente impossível avistar gentes nas ruas do Mindelo.

Um breve pequeno-almoço ainda em Porto Novo. E depois uma boleia num jipe alugado, através da estrada asfaltada Porto Novo «» Janela. Inaugurada em 2009, esta nova estrada, além de enormes precipícios, surpreende as visitas com os dois magníficos túneis, que atravessam rochas antes impenetráveis. Uma excelente obra de arte, engenhosamente desenhada por uma equipa italiana. Instalei-me na italiana Aldeia Jerome, no Paul, cujo principal órgão municipal estava ainda sob a liderança de uma mulher. Fui lá por razões de pesquisa académica. Então, mal cheguei, iniciei logo os primeiros contactos. A filha de uma informante levou-me até à residência de uma mulher responsável por uma ong local. Logo de seguida, do centro da Vila das Pombas, desloquei-me numa viatura comercial para a localidade de Eito. Desci defronte à residência de uma outra activista comunitária. Conversámos...

Esperei algum tempo, em Eito, até conseguir um lugar numa viatura para a vila. Regressei de boleia, numa viatura que transportava funcionários de algum ministério. Fiquei surpreendida ao saber que estavam em observações de terreno, porque era mais fácil reunir o grupo ao fim-de-semana. Como não tinha nenhuma actividade planeada, decidi acompanhá-los. Fomos à ribeira de Janela. Avistámos em cima o Farol de Boi que, tal como o nome sugere, fica defronte ao Ilhéu de Boi. Janela fora outrora estigmatizada como a aldeia das bruxas, marcada pelas estórias de feitiçarias. É na ribeira de Janela que se encontra uma lendária pedra, Pedra do Letreiro, com inscrições antigas, ainda não desvendadas. A curiosidade levou-me à dita pedra. Na minha ignorância, só identifiquei algo que parece ser mesmo um símbolo religioso, quase uma cruz.

Depois de um almoço rápido, segui para a vila de Ribeira Grande para me juntar a mais um grupo de viajantes. Quando o sol se apaziguou, o anfitrião daquela localidade fez-nos uma visita ao concelho. Visitámos as duas ribeiras do concelho, a larga Ribeira Grande e a estreita Ribeira da Torre, e o centro administrativo que fica na localidade de Ponta do Sol. No final da tarde, regressei à Vila das Pombas, no Paul. Jantei meia pizza, no restaurante Veleiro II.

Tal como a Cidade Velha, na ilha de Santiago, a Vila das Pombas é contornada por sumptuosas rochas e banhada por uma bela baía. Traz-me sempre lembranças da Cidade Velha... Eram 23h, e eu ainda estava no restaurante Morabeza, frente à Aldeia Jerome. Tomava um chá de ervas locais, enquanto rabiscava num bloco de notas. Lá fora, ainda estavam algumas pessoas na praça da vila, mas os três senhores que tocavam o violão no Bar da Curva já não se encontram aí. Ali, no restaurante, estavam três homens ligados a esse serviço de restauração, dois casais de turistas e eu. Depois fui dormir...

Amizadi Prende-m Korason

- Odjo d’uba, kabelo kosta korbo. Ratxa du ba nes kaminho trobesado. Mundjer bonita ka meste pintura, rapaz ratorko ka meste dinheiro. Kretcheu di dia é mar d’agosto, di noti inda é mindjor, mas na terral na terral é doce é sabe é suma mel.
- Odju ma lua naris ma stréla pistana sima arku-da-bedja. Djo li: ami nau!

Qué se puede hacer con el amor? Falávamos ontem de um tempo quando as moças eram da igreja e os mocinhos andavam em aulas teóricas e práticas e ensaios dias a fio para não falharem na hora de desencaracolarem a língua. Nesse tempo que já lá vai, as moças tinham um papel passivo no jogo do amor e ficava bem se perante o olhar atrevido de um qualquer reagissem com uma nega das grandes. Então ontem sob a sombra do busto do poeta, uns recitavam de cor versos do finason da ilha; outrum dizia que no seu tempo tinha um caderno das conquistas. Oje bo ta espectacle, ah se mom tava alçançame costa..., queria ele demonstrar a sua habilidade a dar pik quando alguém interrompeu: ouvi dizer que fulano das finanças arrombou a porta para fazer aquilo com a mulher... Porra, fazia uma serenata e seria ela a abrir a porta ou a saltar a janela...

É a lestada

Minha pele está coberta de uma penugem alourada, eriçada. Lembro-me da minha viagem de regresso da ilha do Fogo no mês de Fevereiro. O sol dos Mosteiros entranha-se na pele da gente, disse-me Matos. A lestada. Eu já sabia mais ou menos que era aquilo. Nós do litoral do norte desta ilha éramos feitos da mesma penugem, até os cabelos da cabeça de crianças ficavam da cor castanho claro acaju e pontas espigadas por causa da água do mar todo dia. Criança não pode passar dia inteiro no mar, vociferava Mamãe, que não é bom para menino de escola porque enfraquece a memória. Meu tio, que era do tempo da escola de nhu padre, apanhava o livro deRobert et Nicole, enganava Mamãe que ia ler ao pé do mar ali à frente ou detrás da casa. Brisa do mar refresca a memória, dizia a velha. Mas recomendava que titio não ficasse ao sol, dizia, que ler ao sol cega os olhos, ficam fusco. Agora, cá entre nós, digam-me a verdade!, há coisa melhor do que ler ao sol da manhã dum sábado de Outubro sentado no parapeito da casa?

Letras da Diáspora

Leopoldina Barreto e Carlota Barros


Nos últimos anos, a produção literária da diáspora tem vindo a ganhar terreno no particular contexto caboverdiano, trazendo exemplos desde um poeta como Daniel Filipe ou uma contista como Orlanda Amarílis aos casos mais recentes de escritores e escritoras migrantes ou descendentes da chamada «segunda geração». Não se trata, neste pequeno texto, de discutir a elasticidade do conceito de diáspora, nem discutir a questão da nacionalidade dos sujeitos literários da diáspora. Mas, ilustrar tão-somente a intensa produção essencialmente marcada pela vivência nessa «décima primeira ilha» deste arquipélago transnacional.

Realce-se que, se o percurso da mulher migrante em si já se abria a um enorme e intenso leque de interrogações, curiosidades e perplexidades, também a mulher da diáspora tem vindo a assumir como um sujeito literário, que preserva e representa liricamente a nostalgia, a memória, os sonhos ou o desejo de regresso. E é assim todo um mundo maravilhoso de «sonhos sonhados» e de «metáforas sagradamente guardadas» que tem sido exaltado e rememorado, através da experiência da diáspora, dispersa por lugares insuspeitos do destino caboverdiano. Juntamente com outras vozes da diáspora, Leopoldina Barreto e Carlota Barros destacam-se pela maneira sensível e esteticamente como inventam uma escrita memorialista, da saudade e do amor à terra distante.

Leopoldina Barreto nasceu em Setembro de 1937, na ilha de São Nicolau, onde viveu até aos trinta anos de idade. Em 1967, emigrou com os seus dois filhos, ainda pequenos, para junto do marido na Suécia, passando a viver na cidade de Gotemburgo. Depois de aposentada das funções que exercia numa grande fábrica de confecções e com os filhos já formados, Leopoldina dedicou-se inteiramente à pintura e à escrita, tendo dado à luz três livros: «Monte Gordo» (romance, 1997); «A Ilha do Rei Titão» (infanto-juvenil, 2000); «As Vítimas do Amor Impossível» (romance, 2004). Construiu a casa dos seus sonhos, junto ao mar da Preguiça, onde passou longas temporadas durante os últimos anos da sua vida. Morreu em Abril de 2007, na Suécia. Os poemas soltos, a aventura infanto-juvenil e os romances de Leopoldina revelam a sua vivência no arquipélago e na diáspora, numa escrita feminina desafiadora do imaginário dominante sobre o lugar das mulheres na comunidade de origem e no mundo. Segue este poema sobre a sua aldeia natal, Preguiça.


Carlota Barros nasceu em 1942, na ilha do Fogo. Até aos oito anos de idade, viveu também nas ilhas de São Vicente, São Nicolau e Brava. Em 1950, com a família, partiu para Moçambique, tendo seguido, em 1957, para Portugal e, em 1966, para Angola já na companhia do marido. Em 1966, regressou à ilha de São Nicolau, tendo permanecido até 1974. Iniciou as suas funções de professora nessa ilha e em São Vicente, continuando a leccionar em Lisboa, onde concluiu a licenciatura em Filologia Germânica. Além de participar em algumas antologias e colaborar com alguns jornais literários, publicou três livros de poemas: «A Ternura da Água» (2000); «A Minha Alma Corre em Silêncio» (2003); «Sonho Sonhado» (2007), que já conta com uma edição trilingue (caboverdiano, português e inglês). Carlota vive em Portugal, sendo uma das dinamizadoras de actividades culturais e associativas da comunidade caboverdiana lisboeta.



Sonhei uma ilha
onde a chuva
de madrugada
beijava os campos.
boca a boca.sonhei uma ilha
onde o coração do sol
sorria alegre
aos camponeses.
sorriso a sorriso.ao amanhecer
a chuva poisava
um beijo quente
na respiração dos monte.
suspiro a suspiro.e o azul do ar
sorria-me nas mãos
azul a azul.
Carlota Barros


Leopoldina e Carlota conheceram-se em 1966, na ilha de São Nicolau. Separaram logo no ano seguinte, quando Leopoldina emigrou para Suécia, mas, dez anos mais tarde, as duas amigas reencontram-se em Gotemburgo, numas férias em família. Os laços que as uniam se estreitaram ainda mais. Tornaram-se duas escritoras e amigas, ambas com uma longa vivência na diáspora e um grande amor por Cabo Verde.

Mar Bravo

Houve um tempo em que choveu muito
Não havia barcos na baía
Um temporal caíra sobre a terrinha
Na memória da minha tia Aninha
Chuva nunca tinha chegado tanto assim

Pasarinh’azul

nh’amor é un violon
morna batuku finason
nun konpasu ritimadu
nes tardinha divagar
reloji paradu pa tenpu ka fuji
noti ta ben na mi di mansinhu
strela na séu riba lá ta spreta
brufa na mar ti madrugada

palmanhã na korda di violon
son di pasarinh’azul
dun ventura na ilha maior

Gil di Jóia: Uma História, Uma Vida

...si agu-mar bira grogu,
ma Gil di Jóia ta bira pexi...
(Manel di Candinho)

Há algum tempo, fui ao Manguinho visitar os homens mais velhos da Calheta. Entre eles, claro, consta um homem singular: Virgílio Furtado, Diboia ou simplemente Gil di Jóia. O velho acamado ofereceu-me um exemplar da sua biografia: Gil di Jóia: Uma História, Uma Vida da autoria do seu afilhado Nataniel Vicente Barbosa e Silva (redigido a partir da Vila do Tarrafal, em 2006).


Gil di Jóia

«Nasceu na Calheta, a 3 de Fevereiro de 1930. De tez negra, estatura média, afável, bem-humorado, com grande amor à vida, solteirão, brincalhão, de espírito aberto, franco e leal, tocador de gaita nos tempos da juventude, conversador e conservador das suas raízes. De voz timbrada e rouca quando canta, o que não é sempre, a sua voz assemelha a de Louis Armstrong, o famoso cantor negro norte-americano.»


Gil di Jóia e as suas aventuras por terras de África

«Gil di Jóia, então já adulto e amadurecido, responsável e senhor de si, tenta resolutamente lançar no mundo das aventuras. Assim, em 1951, aos 26 anos de idade, parte para Angola, viajando a céu e mar durante 18 dias e 18 noites, a bordo do Sofala, passando para a Ilha do Príncipe, no meio do Atlântico, entre alegria e a saudade da sua terra e dos seus ente-queridos. Chega então ao Porto Ambuim sem nenhum sobressalto que merece destacar, a não ser o falecimento repentino de uma criança de 10 anos em pleno alto mar, acontecendo aí mesmo o seu sepulto obedecendo rigorosamente os rituais próprios.

Após os ofícios fúnebres, o barco continuou a sua viagem calmamente para a Catumbela, ficando entretanto uma parte dos contratados na primeira etapa e a outra parte neste último destino. Aí, então se estabeleceu o grande aventureiro, Gil di Jóia. No entanto, os dias iam passando e o Gil pouco se ia adaptando com o terreno. O destino reservou-lhe um lugar cómodo, chamado Sanzala Muro-Galo, tendo conseguido um emprego numa fábrica de açúcar com o salário mensal de 90$. Recebendo apenas uma metade, ficando a outra parte na Caixa. Entre a vida e a morte, trabalhou arduamente o jovem aventureiro, enfrentando todas as adversidades, escapando milagrosamente de um acidente de comboio, no descarrilamento de um dos vagões.

Depois de três anos de ausência, regressa à terra de origem, o grande aventureiro, sem nenhuma jóia, mas com alguns vinténs, muito pouco para se dar ao luxo de viver como gente grande. Ainda bem jovem e folgazão, como sempre, com a sua boa arte de conquistar as amizades, as fofinhas, das mais bonitas nunca lhe faltaram; mas, casamento? Casamento, nem pensar. O casamento não fazia parte do plano de vida de Gil que só gostava de curtir... e muitas promessas ainda pairam no ar. [...]

Em 1955, já com alguma experiência do além-fronteiras, o jovem conquistador lança novamente em aventuras por terras verdejantes de África, desta feita ruma-se para o Sul (São Tomé e Principe), estabelecendo-se na Roça Praia das Conchas, onde trabalhou numa fábrica de café, azeite, sabão e caroço, como contratado; uma vez mais o destino não lhe foi assim tão sorridente, tendo em conta um acidente sofrido na linha de ferro em que fracturou uma perna que infelizmente lhe molestou até à data [...].

Decorria pois o ano de 1959, o Virgílio, de novo na sua terra natal, andando agora na casa dos 29 anos, ainda bem rijo e jovem para se conformar com os parcos recursos que conseguiu angariar [...]. Confiante no futuro, parte pela segunda vez para o Sul, como então se dizia, e lá foi como canta o saudoso Ildo Lobo, di maleta na mó y sperança na coraçon, à procura de um novo sol, conseguindo ali um modesto lugar na Roça Porto Alegre [...]. Após os bem sacrificados quatro anos de trabalho regressa então definitivamente ao seu torão natal com algumas migalhinhas no bolso, deixando naturalmente, como é evidente, na Caixa, algumas notinhas para a reforma, que ainda hoje vem esperando [...].

O Gil di Jóia, com a bonita idade de 33 anos, já um homem amadurecido, mas ainda novo, conquista com a sua jovialidade muitas amizades. Ironizando, diz que as amizades foram repartidas: 75% às mulheres e 25% aos homens. O Gil demonstra aí que o inglês tem razão, quando diz: woman in first time.»

……………

SUMÁRIO da biografia do Gil:
01 | Nota de abertura
02 | Gil di Jóia
03 | Uma das mais engraçadas peripécias de Gil di Jóia
04 | Gil di Jóia e as suas primeiras trajectórias por terras de África
05 | Gil di Jóia regressa à terra natal
06 | Gil di Jóia na sua terra faz amigos e conquista corações
07 | Gil di Jóia em Assomada implacável com um bêbado
08 | Gil di Jóia enfreta corajosamente a «fúria» de um «policeman»
09 | Gil di Jóia nas festa de São Miguel di Maio
10 | Gil di Jóia desce a ladeira às costas
11 | Gil di Jóia em Ponta Verde passa as festas do fim de ano, de copo na boca
12 | O excesso de álcool, a euforia e a intolerância tentam estragar a vida do Gil
13 | Gil di Jóia nas festas de Nhô Santo Amaro
14 | Gil di Jóia e a nostalgia do passado
15 | Como vive presentemente o Gil?

Namoro Hojendia


Elas

estou farta desse namoro
há muita pressa, muita pressa
namorar tem que ser devagar
na praça e no cinema

                fala sério, amiga!
                não há tempo,
                nem cavalheiros nem damas!

badio, não!
fogo, cruzes!
sintanton, nenrasa!
soncent, não dá!
brava, não conheço!
diáspora, mesma espécie!
outros mundos, pouca variação!
china, muito tempo só de viagem!


Eles

só por uma noite, moss
não deixe rastos
nem promessas
rapidinha
noite toda
tanto faz, moss

oh, moss!
namorar é outra coisa!

sim, mas com quem?
já não há mulheres sérias!
nem na novela nem na vida real.
sem chorar, nem lamentar,
coragem, bola pra frente, moss!

cunha no amor


deixa-me rir de mim
agora que estou só
nesta minha perfeita solidão

quisera minha amiga meter-me uma cunha junto de ti
minorar os meus defeitos
pintar-me de rosa
e esconder a cicatriz que ainda trago no peito

por orgulho recusei toda e qualquer cunha
convicta de que das minhas conquistas cuido eu
recusei toda e qualquer cunha no amor
assim como recusei mendigar o teu regresso

rio-me desta minha ansiedade
dos versos sepultados na gaveta
do telefone desligado
do offline no facebook
do post-it: «não hei-de chorar por ti!»
rio-me de mim

O Legado de Nhô Filili (por Luís Urgais)



Estou a ler este livro acabado de sair, que conta uma história de amor em tempo de escravatura, entre uma «escrava» e o seu «senhor». O tal amor acontece na vila da Praia da ilha de Santiago, nas barbas da alta sociedade local, com casamento de papel passado, no século XIX.


CURIOSIDADES::
Este é um livro sobre a história do pai de Armando Napoleão Rodrigues Fernandes e avô da escritora Orlanda Amarilis.


FALHAS GRAVES::
1) Rabelados surgiram na década de 1940, numa luta contra a discriminação racial no seio da igreja católica. Portanto, nunca foram uma comunidade de escravos fujões, pois, os tráficos negreiros - legal e clandestino - foram abolidos desde o século XIX. De maneira que, não faz sentido misturar a história dos rabelados com a luta contra a escravatura.

2) A língua das ilhas de Cabo Verde já faz parte de facto do património nacional. Entretanto, é bom não esquecer que existem diferentes variantes e cada qual com a sua história. Ignorando tal questão básica, poderá ser visto como um erro grosseiro a utilização da variante de uma dada ilha na conversa habitual de habitantes doutras ilhas, ainda mais em certos períodos históricos. Portanto, torna-se importante não ignorar o modo de falar de cada lugar.

3) História de Cabo Verde. (Por vezes, fica a ideia que este livro tem muito mais descrições de viagens turísticas do que ficção histórica. A história de Cabo Verde é muito rica. E já há muitos documentos e análises históricas à mão de qualquer interessado, seja de origens caboverdianas, seja de outros países.)

«O Vírus do Poder» | um poema de Artur Vieira (ilha Brava)


Dona Chica sintonizou o pequeno rádio
À cata de novidades de seu sofrido país.
Anunciou-se a chegada da Democracia
Sob os auspícios de Desenvolvimento e Liberdade
Para promover o progresso da nação.
Pela manhã, os jornais em enormes manchetes
Elogiaram tanto a Democracia, que dona Chica
Imaginou-se soberana Dama com poderes especiais
Para realizar o milagre tão almejado do progresso.

Dona Chica soube por uma professora local
Que a Democracia se instalou no acanhado bairro
Ali, na esquina, pertinho de sua casa.
Então, dona Chica, como nos bons tempos, se enfeitou
Para uma visita à distinta Dama que chegara.
E qual não foi seu espanto ao encontrar a Democracia
Esfarrapada, magra, olhar mortiço.

Depressa, dona Chica voltou ao modesto recanto
Pegou sua única galinha, preparou apetitosa canja
Para a democracia, levando-lhe seu melhor vestuário.
Retornou no dia seguinte, esperando encontrá-la melhor.
Grande a sua decepção! A Democracia estava pior,
Quase agonizante, e a nova roupa também corroída.
Foi buscar sua única cabra, pediu à professora trajes decentes
E ambas foram socorrer a venerada Democracia.

Ao terceiro dia, o estado da paciente a preocupou
E dona Chica procurou um médico, versado em política.
Este, só de olhar para a Democracia, diagnosticou:
– Está afetada pelo vírus do afro sistema político vigente.
Dona Chica removeu a moribunda para sua pobre casa
Em trapos, esmaecida, já quase inerte.
Pelas portas, janelas e buracos do tecto, os abutres
Invadiram o casebre, numa atrocidade
                               [própria das matas palacianas.

Artur Vieira (poeta da ilha Brava)

as águas subterrâneas



Na ilha
há anos
pelas esquinas do outro lado da
cidade
jazem as estátuas de velhas promessas.
Porquê?
E todo este povo calado.
Do alto da ilha
nua
por dentro de tudo
tua voz de pedra
brada contra os murmúrios
dos subúrbios
desconhecidos
rogando pragas às raças malditas
quedando os sonhos
de todo este povo
da ilha.

4 Anos Depois: Recordar o Jornal da Hiena


 
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