Diga: BASTA!!!

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Violência contra as mulheres é intolerável!
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Pincelada: Edith Borges

Amadora: uma cidade para tod@s!

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Acabo de receber a informação de que o luso-caboverdiano Francisco Pereira vai candidatar-se à presidência da Câmara Municipal da Amadora, nas próximas eleições autárquicas portuguesas. Esta candidatura independente «pretende dar resposta ao inconformismo da população, e em especial da população jovem, face à difícil situação social em que Amadora se encontra.»

Francisco Pereira afirma que: «É uma aposta, um desafio que enfrentaremos em conjunto, com coragem, com a firme convicção que havemos de vencer, pois temos uma enorme vontade de fazer e de transformar a Amadora, que é hoje uma cidade insegura, triste e cinzenta.» Veja mais: aqui!

Trata-se de uma candidatura pela inclusão, numa cidade onde uma larga franja da população experimenta os mais diversos tipos de exclusão! Desde já, Igualdade na Diferença promete estar atenta a esta onda a favor da justiça social, da dignidade, da cidadania e da democracia, e deseja ao Francisco Pereira e à sua equipa uma boa preparação da candidatura!

Francisco Pereira é licenciado em Ciência Política e Relações Internacionais, pós-graduado em Estudos Africanos e do Desenvolvimento e mestre em Relações Interculturais. Neste momento, é investigador no Centro de Estudos de Migrações e Relações Interculturais, da Universidade Aberta, estando também a preparar o seu projecto de doutoramento em Ciência Política e Relações Internacionais.

Recordar…

Vinte Sete

Faço anos. Já sabem que sou escorpião: temperamental, teimosa, possessiva, ciumenta, persistente, determinada, resistente, sensível, calorosa, emotiva, arrojada, misteriosa e sentimental... Promessa seja feita aqui e agora: vou lutar para ser uma pessoa melhor (menos chata!) nas próximas sete décadas!!!... Os anos são para mim, mas o bolo é para quem aparecer cá em casa, uma boa razão para juntar a malta, comemorando a eleição de Barack Obama e recordando Myriam Makeba.

“Retratos Cativos”


4.
Vai a mulher de boi pelo abismo
da manhã. Que langor e delícia terna
na austera vigil fronte, embora
hajam ali depositado deuses
seu alqueire de injúrias.

Pedrestes e negros, vão ele e ela,
mai-la sombra que é de ambos.
Diz-me, tu, António, se é o boi
da paciência ou bulimundo
caminho do enlace.

Diz-me que torpor ou sombra dele
se adivinha nas íris da mulher,
ou na fonte do bovino esponsal.
Diz-me, tu, cujos olhos conhecem
o prodígio que se não repete,

inda tê-lo contemplado um dia
transformou-te, como a mulher de lot,
em emudecida estátua nos baldios
onde o primeiro raspão do frio
nos punha o coração em padecimento.

Orai por eles, para que lhes seja leve
o céu ensombrecendo-se a cada
rotação, mas cimeiro retumbem sinos
de passarem à rubra esquina do tardecer.

José Luís Tavares
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Parabéns, José Luís Tavares e Gláucia Nogueira pelo prémio Literatura para Todos (Brasil/2008)!

Cantos do meu país

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Canto as mãos que foram escravas
nas galés
corpos acorrentados a chicote
nas américas

Canto cantos tristes
do meu País
cansado de esperar
a chuva que tarde a chegar

Canto a Pátria moribunda
que abandonou a luta
calou seus gritos
mas não domou suas esperanças

Canto as horas amargas
de silêncio profundo
cantos que vêm da raiz
de outro mundo
estes grilhões que ainda detêm
a marcha do meu País

Julião Soares Sousa (natural de Bula, Guiné-Bissau)

Sra. Ministra!!!

«Só podemos considerar discriminação as medidas que tratam de uma forma diferente situações iguais. Nessa altura, ainda não estava no ministério da Educação, mas como mulher, cidadã e ligada aos Direitos Humanos foi uma questão que sempre me preocupou (...). Desde o primeiro momento essa medida mostrou-se ser uma suspensão temporária, de forma a que a jovem possa ter o seu bebé da melhor forma, sem perder o direito à frequência. Na realidade a aluna grávida que, permanece no sistema de ensino, a maior parte das vezes perde o ano escolar. Portanto, essa medida foi adoptada para proteger a maternidade e a infância e criar condições para que haja igualdade de situação das alunas na sala de aula. Não defendemos que seja o único caminho para combater a gravidez precoce. É somente uma das medidas.» Ver mais aqui.

Infelizmente, desiludida estamos com esta posição da Sra. Ministra Vera Duarte! Em vez disso, uma boa contribuição da Sra. Ministra seria no sentido de facilitar o levantamento de dados sobre a “suspensão temporária de alunas grávidas dos estabelecimentos de ensino secundário” e incentivar o ICIEG (Instituto Cabo‑verdiano para a Igualdade e Equidade de Género) a realizar um estudo sobre a questão, com a finalidade de encontrar uma medida inclusiva e não discriminatória como a que esta em vigor.

Voltei da ilha

Fui no dia 2, e voltei no dia 7. Foram dias intensos, marcados pelas discussões acerca das “Mestiçagens Socioculturais e Procura de Identidade na África Contemporânea”, e noites serenas. Não havia música na capital para a malta dançar, apenas umas migalhinhas da música tradicional lá no Quintal... Limitei‑me a convívios caseiros (comi milho assado, e trouxe Spiga do Princezito!). Também escutei a sugestão do Vadu: Dixi Rubera! Dei uma escapadela ao interior da ilha...


Calheta na penumbra

Triste fiquei ao ver Calheta na penumbra! Voltámos à era do podogó! E parece que ninguém se importa com o facto de os frigoríficos da aldeia estarem vazios e do nosso almoço voltar a depender do peixe trazido diariamente pelos pescadores... Nos últimos vinte dias, o único saldo positivo parece ter sido a aquisição de rádios de pilha por causa da eleição de Barack Obama. Para além da falta de energia eléctrica, também a vila padece de água potável. Até quando? Ninguém sabe, nem a municipal câmara, que tem suportado os custos do abastecimento de água para a satisfação das necessidades mínimas da população!

à caminho da ilha maior

Vou ao encontro de Santiago, desejando que os próximos dias tardem a passar, e rogando para que as noites sejam longuíssimas!... E que me guardem milho assado! Também vou querer ver a nova roupagem da ilha, e deliciar-me da fragrância de Novembro.

Latada

Vejo a caloirada solta por um lado ou por outro, mas a maioria está “acorrentada” à sua madrinha ou ao seu padrinho. A Festa das Lata de Coimbra começou há uma semana, com serenata, concertos e bebedeira. E, esta terça‑feira, a Praça da República está engarrafada por causa do cortejo da latada. Latada é uma festa parecida com o carnaval, uma espécie de ritual de iniciação pública para a caloirada. Saindo do largo D. Denis, a malta segue pela avenida até ao Mondego, entoando cânticos de bizarria e rindo-se à‑toa para a multidão que se aproxima do palco da festa. Quando a noite começa, a caloirada baptizada com as águas do rio liberta‑se para devaneios até ao amanhecer.

No meu tempo, quando cheguei em Novembro de 2000, tinha já terminado a época de recepção da caloirada, mas aproveitei o meu segundo ano de curso para viver o que não tinha vivido no ano anterior e para “dar cabo da vida” das minhas duas afilhadas (Dulcineia de São Tomé e Salette do Porto) e dos dois extra-afilhados (Jailson de Assomada e Marcelo do Fogo). Hoje, até dizem que fui boazinha!...

Michelle and Barack Obama (II)

…última semana antes da grande terça. Tudo indica que Obama será eleito no dia 4 de Novembro.
Inicia-se assim a contagem decrescente…

Grande Prémio Cidade Velha


Grande Prémio Cidade Velha 2008

O historiador Elias Moniz, autor da tese de doutoramento Africanidades e Eurocentrismos em Pelejas Culturais e Educacionais no Fazer-se Histórico de Cabo Verde, é o vencedor do Grande Prémio Cidade Velha, instituído pelo Ministério da Cultura de Cabo Verde. Trata‑se do maior prémio nacional atribuído à investigação científica, social e humana, sobre a realidade cabo-verdiana, sendo um incentivo à produção nacional, num país onde quase inexistem apoios institucionais nesta área.


Grande Prémio Cidade Velha 2005

Na 1ª edição do Grande Prémio Cidade Velha, o vencedor foi o sociólogo Gabriel Fernandes. A sua tese de doutoramento deu origem ao livro Em Busca da Nação: Notas para uma Reinterpretação do Cabo Verde Crioulo, que juntamente com a sua obra prima (--A diluição da África: Uma Interpretação da Saga Identitária Cabo‑verdiana no Panorama Político (Pós)colonial--) e os livros de José Carlos Gomes dos Anjos (--Intelectuais, Literatura e Poder em Cabo Verde: Lutas de Definição da Identidade Nacional--) e de Manuel Brito‑Semedo (--A Construção da Identidade Nacional: Análise da Imprensa entre 1877 e 1975--) constituem os principais trabalhos sobre a (des)construção da identidade nacional, fabulosa e estrategicamente inventada e defendida como sendo mestiça.

…

Feliz Dia da Cultura Cabo-Verdiana!
Parabéns, Elias Moniz!
Parabéns, jovens Prémio Pantera!

«perguntas cafeanas»


João Branco

Uma jovem mulher que mora com um “tio”, toma conta da casa, dá-lhe carinho, amizade, sexo, em troca das propinas da Universidade e de umas roupas na boutique mais in da cidade, entra num sistema de trocas que não difere muito do tipo de relacionamento que existe em tantos casais que vemos por aí, ou é preciso chamar os bois [leia-se “vacas”! --- (este parêntese é da inteira responsabilidade da autora deste blog)] pelos seus nomes?


Eileen

[…] Eu ainda acho que o “tio” que paga as propinas é que sai com lucro do tal relacionamento. Vejamos: já está com mais de cinquenta, tem um bom salário, logo, dinheiro não é problema. Mas! Está só, não sabe tomar conta de si, porque foi casado e era a mulher que lhe fazia a comida, cuidava dos filhos, vigiava a sua própria saúde, dizendo-lhe “não comas isso, não bebas aquilo, vai fazer análises, toma este comprimido”. Separaram-se e o “tio” ficou perdido na vida. Precisa de alguém que lhe passe a roupa e lhe compre os boxers, que lhe diga que o cabelo já levava um corte e que se calhar esse caroço na próstata devia ser visto por um médico; ele ainda dá um bom show entre os amigos e enfeita o jeepão; essa moça faz as compras, cozinha, lava, blá blá blá e isso tudo só custa dinheiro. E dinheiro, ele tem. // Mas vamos ver o lado da nossa estudante. É nova e bonita, podia ter o rapaz novo e fogoso que quisesse. Mas não. Lá está ela com o “tio” gorducho, cabeludo, com um hálito meio podre, a tomar conta dele, provavelmente com pouco respeito por si própria, mas pensado: eu ainda vou ser alguém na vida e dar um futuro diferente aos meus filhos... […]

Doméstica violência, e se eu for a próxima?

«em alguns bairros críticos da Cidade
de São Filipe, 43% das mulheres dizem
que são agredidas
diariamente.»
…
…
…
doméstica violência…
e se eu for a próxima?
…
se esta minha pele macia, sumaúma,
agredida for por um…?
…
se o meu corpo de sereia
manchado ficar com as mãos di nha kretxeu, ki kren txeu?
…
se na minha face de encantada
o sorriso for travado por lágrimas desesperadas?
…
e se eu for a próxima?
…
…
…

Voto pela Felicidade!

Sim, sou a favor da união entre pessoas do mesmo sexo! Contra todos os preconceitos e moralismos vazios, devíamos deixar de obstaculizar a felicidade dos gays e das lésbicas! É claro como a água do riacho que «os direitos sexuais são direitos humanos»! (Veja os principais pontos em discussão na terra lusa aqui: Lilás com Gengibre)...

………..

Notícia da hora do almoço --- infelizmente, o projecto de lei do BE (casamento entre homossexuais) foi chumbado! E o PS justificou que «não era o momento certo para fazer alterações à lei em vigor». Conta outra, PS!!! Uma excepção fantástica, a do Manuel Alegre... Um dia desses vou declarar a minha paixão por Manuel Alegre!

o desejo da viagem


Poema do Mar

O drama do Mar,
o desassossego do mar,
---------sempre
---------sempre
---------dentro de nós!

O Mar!
cercando
prendendo as nossas Ilhas,
desgastando as rochas das nossas Ilhas!
Deixando o esmalte do seu salitre nas faces dos pescadores,
roncando nas areias das nossas praias,
batendo a sua voz de encontro aos montes,
baloiçando os barquinhos de pau que vão por estas costas...

O Mar!
pondo rezas nos lábios,
deixando nos olhos dos que ficam
a nostalgia resignada de países distantes
que chegam até nós nas estampas das ilustrações
nas fitas de cinema
e nesse ar de outros climas que trazem os passageiros
quando desembarcam para ver a pobreza da terra!

O Mar!
a esperança na carta de longe
que talvez não chegue mais!...

O Mar!
saudades dos velhos marinheiros
contando histórias de tempos passados,
histórias da baleia que uma vez virou a canoa
de bebedeira, de rixas, de mulheres,
nos portos estrangeiros...

O Mar!
dentro de nós todos,
no canto da Morna,
no corpo das raparigas morenas,
nas coxas ágeis das pretas,
no desejo da viagem que fica em sonhos de muita gente!

---------Este convite de toda a hora
---------que este Mar nos faz para a evasão!
---------Este desespero de querer partir
------------------e ter que ficar.

Jorge Barbosa

Lá no meu cutelo, temos uma velhota que sonhava viajar pelo mundo. Um belo dia, à sombra de uma velha acácia, na rua das padarias, Vinda foi desembrulhando o grande sonho da sua vida. Então a velhota revelou que queria viajar para países que ficam no além das fronteiras de Cabo Verde, mesmo que fosse para ir até Maio! A velharada que escutava abanou a cabeça num sinal de entendimento da profundeza do sonho partilhado, mas a criançada não esperou um segundo sequer para romper gargalhadas. A tarde enchera de riso, mas Vinda nem se importava com o motivo da risada. Queria viajar... tão-somente!...

tantas interrogações

...um mito?

Numa entrevista ao Jornal de Notícias, Sveva Casati Modignani afirma que «a igualdade entre o homem e a mulher é um mito» (bom, eu acredito que é possível, embora a luta seja árdua, necessitando da colaboração não só das mulheres, como dos homens!). Apesar disso, não posso deixar de aplaudi­r a autora do Feminino Singular quando realça que «actualmente, as mulheres têm dois empregos: fora de casa e dentro dela. Mesmo a vida de uma mulher que se considera insignificante daria por certo um grande romance. Ser educada como mulher, casar-se, constituir família, criar os filhos... É uma tarefa ingrata que só nós podemos fazer. A autoconfiança das mulheres tem que ser elevada. Basta vermos a nossa coragem.»

Ainda agrada-me ouvir que, «no romance Feminino Singular, sobre a maravilha que é a maternidade, conto a história de uma mulher que tem que criar três filhos sem a ajuda de ninguém e, no entanto, sai-se lindamente. Quantos homens poderiam fazer o mesmo que ela faz? As mulheres são seres extraordinários.» Para terminar, a autora não deixa de concluir que, «no campo do trabalho, as mulheres ganham menos do que os homens. Nos postos de liderança, seja nos governos ou multinacionais, as mulheres são quase excluídas (...). As capacidades femininas têm que ser reconhecidas na exacta medida do que já acontece com os homens. O mundo irá funcionar melhor quando os dois sexos forem colocados no mesmo nível.» Belíssima entrevista, e agora fiquei curiosa para ler o referido livro!


Mito sou eu!

«O meu trabalho é feito de afectos», disse Mito Elias ao Expresso das Ilhas, numa entrevista crítica que extravasa a produção artística em Cabo Verde. Gostei da perspectiva crítica! E aproveito para ressaltar três ideias abordadas pelo artista berdiano. Aqui vão elas:
1. «Na nossa Arca de Noé só são permitidos alguns bicharocos.»
2. «Sempre tiveram um porte soslaio com os meus projectos, mas eu tenho uma teoria para isso: como todos os meus projectos têm uma veia descomplexadamente em crioulo, será certamente por aí que se deve procurar as razões.»
3. «Apesar da Internet e das facilidades de comunicação que existem, hoje em dia, as informações são mal processadas, a ponto de termos documentários sobre música que se confundem com teleculinária ou blogocratas que se julgam os faróis da nossa cegueira.»


Blogosfera berdiana

A blogosfera berdiana está a crescer a olhos vistos. Porém, não sei por que razão, tem sido alvo de pequenas duras críticas. O que está a acontecer? O que significa «blogocratas»? Será que temos «blogocratas que se julgam os faróis da nossa cegueira»?

Independentemente das respostas, a blogosfera berdiana está uma maravilha, numa diversidade significativa. Entretanto, toda a humildade é necessária e deve ser a marca dourada de qualquer blog ou blogista, pois os nossos saberes e as nossas experiências são sempre uma pontinha do que existe...

Faces da Vila

Gostei de ver! Linda menina, minha Calheta...

Raízes no Mar


Parte de um cais a minha viagem
E ela só leva uma trouxa de mim

Há um mar que à minha saudade se agarra
E um monte que da minha solidão abdica

Vadinho velhinho

Ajeitei a minha mochila e segui viagem. Por mais quantos anos? Talvez três ou quatro. Só sei que quero sair de Coimbra antes das minhas primeiras rugas!...

I.5. festança

Assembleia da Aldeia decretou que o ambiente deve ser preservado para o conforto das nossas gentes e para as futuras gerações... Aprovamos a construção de três complexos hoteleiros de padrão internacional para o povoamento do Monte Txota, do Monte Serrado e da vizinhança do Cemitério de Ponta Verde, com o imprescindível lema de turismo ecológico, tendo a natureza como a protagonista em qualquer actividade (um dia desses, vou acompanhar um grupinho numa caminhada pelo concelho, subindo e descendo os montes, e, no final, nada melhor do que ver peixinhos no fundo do mar!).

Depois do regresso da paz, a Assembleia da Aldeia decidiu fazer uma festança. Convidámos os concelhos vizinhos. De Cidade Velha, chegaram vasilhas de grogue; de Assomada, sacos de milho; de São Domingos, batatas e cenouras para o guisado; de Picos, feijão verde; de Pedra Badejo, atum fresco; do Tarrafal, mariscos; dos Órgãos, frutas de três variedades; da Praia, uma carrada de rusgadores. Antes das visitas chegarem, a casa já estava arrumada, y Máxima d’Guida trazi bodeku, na korda. Foladu bodeku, matadu porku y piskadoris trazi txitxaru fresku pa grelhada. Foi uma grande festa, com artistas locais e nacionais. Inclusive, elementos do grupo‑kanekinha reapareceram (fiquei um pouco triste, porque, após dois singuelada, Nelu desatinou e, numa música desaforada, rematou com esta: “nhós bá garbata mar!” Nelu, nunca mais diga isso!). Apesar desse pequeno chateanço, fartei‑me de dançar o batuque na melodia da Nasia Gomi e da Mimita Pereira. Nunca tinha dançado tanto... E nunca ninguém tinha assistido a uma festa dessa, nem nas aldeias vizinhas.

Pe. Arlindo, Pe. Angelino e Pe. Teodoro chegaram para benzer a obra, louvando um povo que cedo aprendeu a dançar ao som das ondas, e a contar estórias às estrelas.

I.4. bodeku


Então, no passado mês de Maio, houve tanta confusão por causa de um bodeku desaparecido... Mas isso não interessa agora!... Retomando o sonho, Djon‑Da‑Kruz Kamundongu começou a fazer geminações aqui e acolá. É só geminações!... Disseram-me que cunharam-lhe de Kamundongu por causa do seu paladar afinado. Como bafiu, tartarugas e pombas, não! Ele toca noutra banda! Disseram-me que ele prefere lagartixas fritas e gafanhotos grelhados. E até dizem que é por isso mesmo que Djon‑Da‑Kruz Kamundongu tem um físico atlético, invejado pela malta da oposição local. Bom, indo directamente ao sonho, Djon‑Da‑Kruz Kamundongu conseguiu um montão de computadores e materiais didácticos para as escolas e centros juvenis do concelho; quase meia dúzia de autocarros, sendo três especificamente para deslocar a malta universitária; ambulâncias para levar os casos de emergência directamente ao Hospital Regional de Santiago Norte.

Os rapazes da oposição local invejaram a obra do Djon‑Da‑Kruz Kamundongu. Numa das suas visitas ao concelho, Ti‑toru Bazofu e Octávion Kankan avançaram com inaugurações. Ti‑toru Bazofu abriu as portas de um Centro de Emprego, em Veneza. Na qualidade de membro do gang d’Zema, Ti‑toru Bazofu aproveitou para fazer o seu discurso ao povo: “aqui não queremos malandrecos e malandrecas a dormirem a sesta nas sombras das nossas acácias floridas. Se quiserem emprego, temos um centro cheio de ideias e recursos. Tragam os vossos sonhos que nós transformamos em projectos! Hoje és um pescadorzinho ou uma peixeirinha, mas amanhã podes ser um empresário ou uma empresária. És um imigrante cheio da grana, venha até nós que te ajudamos a fazer aplicação certa. Nu bai gentis, nu bai, tudu pa micro‑empreendedorismuuuuu! Nos e bazofu propi!!! Não é poesia, nem filosofia... É puro troco no bolso! Acabou a era do kaldu pexi sen pexi. Gosi kada boka‑portuese ten direitu a sê laska‑pexi. Y quiçá bodeku també! Nu bai gentis, nu bai...”

Bom, Nhu-Kankan també ka fika pa traz. E meti si mô na bolsu na stilu capatas di MDR, e larga di sel: “educason pa tudu gentis! Tudu mundu pa scola! Tudu pa formason! Educason y formason pa tudu gentis! E mi propi ki flá!!! E verdadi nha povuuu... Dja nu manda fazi scola y jandim pa tudu greta, di cutelo dixi rubela. Djan papia ku Zema (ki gosi sta pueta!) pe manda tudu mundu pa scola, tudu mundu. Nu bai, nu bai guentis.”

Lá len di baxu-l, Nhu-Flipinhu ben ta katriça ku kuitosu baxu-l braçu (uma encomenda para a equipa do Zema, com um bilhetinho de agradecimento pelo empréstimo, e a boa-nova de que agora na nossa aldeia já não precisamos deste produto). Nhu-Flipinhu contra ku Nhu‑Beku Salú lá Passadera. “Odjú na bodeku!” - disse Nhu‑Flipinhu. “Mos, calma mos!.... Mi e más basofu ki bó, N ten odju d’gatu!...”- ripostou Nhu‑Beku Salú, na posi badjador di sakis. Trocaram mais duas ou três baboseiras, e, não sei por que razão, surgiu uma grande confusão à volta. Ninguém entendia ninguém. Pedrada por aqui e acolá. Até que um velho sábio apareceu para acalmar a confusão, acrescentando que somos de uma pequena aldeia, e somos primos e primas, independentemente da cor ou ausência desta na nossa camisola. E que qualquer ofensa ou soco no focinho de alguém seria uma afronta aos nossos antepassados. Então voltou‑se a paz.

Num botequim qualquer, na berma da estrada principal, Miguelu e Manuelon mintiravam acerca do que a equipa amarela ou a equipa verde pretendiam fazer não sei quando. Menino‑p‑D, o puto mais politizado da aldeia, passou e interrogou os políticos singuelados. Perguntou o que é que os dois deputados do círculo da Europa pretendiam fazer agorinha para o concelho, também não esqueceu de mandar mantenhas ao Zema por ter metido dois naturais da terra na sua equipa, e ainda concluiu favoravelmente acerca da pedalada do presidente da equipa verde. Bom, Menino‑p‑D confirmou que só depois desse djunta-môn é que ele se apercebeu de facto que São Miguel tem excelentes quadros lá na capital e noutras paragens. Os deputados nem entenderam a preocupação do miúdo, nem interessava-lhes. O importante é que naquela noite havia uma festança de confraternização na residência presidencial. Claro, iam comparecer para o habitual enchimento da pança...

1.3. Praça das Estórias

«Numa noite de Verão, à varanda da nossa casa frente ao mar e hoje frente à Praça, contemplava a minha aldeia mergulhada numa escuridão tremenda e eu, sonhadora e romântica, antevia Calheta num prisma diferente: uma Vila iluminada e com vida nocturna capaz de desafiar a própria Vila do Tarrafal. De mansinho, o mar beijava a praia na areia luminosa, como que debaixo do cântico da magia das sereias.»

Dionísia Velhinho


Utopicamente tinha pensado que em cinco dias ia conseguir dar conta do sucedido, mas, pelo andar da caminhada, apercebi-me de que vou precisar de mais diazitos para relatar este sonho. Bom, foi assim...

Nu kebra kel matacan de penedu kés botá dentu-l di nos Portu, reconstruímos a nossa Praça das Estórias, uma praça rasa para recordar a antiga praça do Porto. No lugar onde havia o Pelourinho, montámos dois pequenos Quiosques Turísticos simbolizando a ressurreição do monumento, bestialmente assassinado em meados da década de noventa do século XX.

Um camião de areia limpa e fresca encheu a baía negra de brilho. A Cooperação Japonesa desembarcou um barco de pesca todo branquinho na nossa baía. Salvador d’Kalina foi o primeiro a avistar o barco e logo recordou daquele tempo em que ele mesmo descobriu um Yate nas nossas águas e trouxe para repousar na nossa baía até que o dono veio buscar. Também recordou os bons anos em que a Landa repousava na baía, após uma boa pescada, trazendo peixes para o kaldu pexi da aldeia. Nunca dantes o nosso kaldu pexi teve tanto sabor de peixe! Então, por deliberação da Assembleia da Aldeia, o nosso barquito foi baptizado de Nossa Landa. Três lanchas de riscas passaram a descansar atrás da casa de Nhu‑Nuna e Nha‑Diminga para colorirem o Porto. Depois da ida ao mar, aparecem sempre pescadores enfadados que remendam as suas redes.

Falando nas praias da vila, a praia da Batalha recebeu como oferta um lindo projecto esboçado por jovens ambientalistas (brevemente, gostaria de partilhar convosco uma imagem da rejuvenescida praia da Batalha). Ainda esses jovens ambientalistas apresentaram o Plano B para a preservação das tartarugas que aninham nas nossas areias macias. Para além de que agora nenhum micaelense come carne das tartarugas ambulantes, conseguimos arranjar alternativas para a mulherada e criançada que extraia arreia nas nossas praias. Areia Branca voltou a encher­-se de grãozinhos dourados; Cadjetona é agora a menina de todos os festivais.

No antigo pedra-pexi edificámos o Monumento do Pescador, com a figura do mais antigo pescador da aldeia, observando o estado do mar. Cabiote foi um pescador impar de toda a aldeia, aparecendo no monumento ku dos pé di kalça ramangadu, mô na kexada ta kuda ngratidon di txuba y maré kasabi. Ao lado do monumento, o escultor praiense concordou que gravássemos um poema do nosso poeta, especialmente poetizado para não esquecer o sofrimento do povo de boka‑portu. Para completar, a família boka-portuense passou a receber periodicamente as dez páginas da Revista de Boka-Portu. E a jornalista Aidé Carvalho criou um site na Internet, onde alojou o Jornal da Aldeia.

A casa do falecido Tio-Pedro passou a ser o Posto do Pescador, onde encontra-se tudo o que um pescador ou um turista armado em pescador precisa para a pesca. A antiga mercearia da parteira Maria Miranda, passou a ser a Loja dos Remédios, contendo um conjunto variado de chás e óleos tradicionais para o parto, o reumatismo e até para uma simples gripe febril. Também a antiga Farmácia do Porto e o antigo Posto de Saúde da Calheta ressurgiram nos lugares de outrora.

Zita continuou na sua casa, agora pintadinha de cores do mar. Os seus bordados e rendas tradicionais passaram a render tostanitos. Maria Djuzé reabriu as portas do seu cinema caseiro, oferecendo filmes de acção às sextas e telenovelas brasileiras nas noites de manso luar. Na Praça das Estórias, a criançada da vila passou a ouvir estórias dos avós aos sábados e, de quando em vez, aparece lá o Nhu‑Puxim para desabrochar as gargalhadas mais bonitas do mundo.

Na antiga loja do Sr. Olímpio e Nha-Liminha, Djá abriu uma Lojinha de Retalhos. Na antiga loja da família Vicente Luciano, surgiu a Cozinha de Boka-Portu, um pequeno restaurante onde só servimos pratos típicos: katxupa rafogadu ku longuiça y ovu streladu; peixe fresco grelhadinho; salada de variedade nenhuma; peixes e mariscos de diversidades incontáveis. A açukrinha tornou-se o docinho para todos os miminhos. Até há donas que querem abrir uma Açukrinheira!

A casa da família Vicente Luciano foi transformada na municipal Pousada das Sereias. O velhinho sobrado da família Velhinho Rodrigues passou a ser o Museu da Poesia, recebendo visitas nacionais e internacionais e grandes doações de obras para cultivar a cultura. Em vez de petróleo, na Loja do Pompílu, Cida passou a comerciar materiais de iluminação, com destaque para as lâmpadas económicas. Brincando um pouco para passar a mensagem, Cida fixou à frente da loja uma caixinha para a venda de preservativos (1 por apenas 5$. Ubááa!!! Há mais: no Posto de Saúde da Calheta é gratuito e confidencial!).

Polivalente Grande foi remodelado, podendo receber torneios de futebol, andebol, voleibol, basquetebol e atletismo. Polivalente Pequeno foi doado à Associação de Estudantes de São Miguel, onde a malta estudantil pode viajar pelo espaço ciber na total gratuitidade, e usufruir das boas leituras. Antes que me esqueça, eu e a kota Zabel abrimos a tão esperada Livraria Monteiro, no segundo piso da casa-cor‑de‑rosa, agora na sua feição moderna‑tradicional, tendo lá dentro um espaço para materiais escolares, um cantinho encantado para a criançada e um pequeno esconderijo de poesia ao sabor de um chá quentinho.


joviando

No final do dia, passamos a assistir futebolanda na areia do Porto, antes do desejado mergulho na baía da nossa infância. Aos sábados, temos sempre o sagrado futebol feminino, arbitrado por jovens de tão sábios conhecimentos futebolísticos.


ruas recém-nomeadas

Com a fundação de Rua da Holanda, a tonelada de boka-portuenses residentes naquele país europeu decidiu fazer uma vaquinha e procurar financiamentos extra‑especiais para calcetar a dita rua, bem como trazer contentores novos para arquivar os lixos vidoeiros, papeleiros e plastiqueiros.

Foi uma chicosidade que a malta residente em França, desatinou e criou a Rua de Paris. Pouco tempo depois, nasceu a Rua de Lisboa. Entre estas ruas recém‑nomeadas, pode-se comer às quartas-feiras comida portuguesa, às quintas-feiras comida holandesa e às sextas-feiras comida francesa. Tudo na perfeita perfeição, com música ao vivo, que só um freguês ou uma freguesa avisado/a lembra-se de que afinal está na pacata vila da Calheta.

Para mata-bichar a população de boka-portu, Manuelon inaugurou a padaria Pão de Mar-ino, onde bolaxona e pão de sal saem directamente do forno para a manteiga. Zú não resistiu e meteu lenha no Forno da Titosa, alternativando com pão doce e bolinhos de areia.


batucando

Festival Funaná e Batuque voltou à sua aldeia, agora festivada em Cadjetona, iluminada por favas de luz. Sim, agora tudu mundu na areia ta sakuta nos tradison...

1.2. de alto à baixo


Se

Se cada gesto saísse solto
Se casa desejo tivesse corpo
De uma rocha de sol
Se cada lágrima cavasse a alma
E túnel fosse onde coubesse
Se com a força dos meus dedos
Rasgasse o vento (…)

Tacalhe


São Miguel Arcanjo, nosso intercessor lá no céu, batalhou contra os malvados espíritos que bolçaram sangue na nossa terra. Para fazer a justiça, durante três dias, não parou de chover, mansamente. Chovia na terra e no mar; chovia dentro de nós. Num piscar de olhos, um manto verde estendeu‑se pelo concelho, desde o cimo dos montes até às ribeiras. Verdejava ternamente. E as nascentes brotavam água como no antigamente, rastejando pelas ribeiras. Em Flamengos, Ribeira Principal, Ribeireta e Ribeira de São Miguel, as águas cristalinas relembravam os velhos tempos. Manguinho de Seti Rubera voltou a combinar o azul do mar com o verde da paisagem...

Um conjunto de equipamentos e infra-estruturas multiplicaram-se no concelho. Logo na primeira semana, a atenção foi canalizada no básico: rede de abastecimento de água, rede de esgoto, recolha e evacuação do lixo e iluminação pública. Nessa semana, dedicada ao ambiente, homens e mulheres entraram nos bairros da vila armados com martelos, picaretas, machados, pás de lixo e vassouras. E dois bulldozers circulavam-se pela vila, arrastando as inutilidades para uma lixeira. Recolhemos toda a lixarada de ruas e kobons para a reciclagem, enchendo a vila de árvores parideiras de frescas sombras. E as mulheres de mãos floridas, ofereceram cores nas suas varandas cheias de trepadeiras e girassóis.

Engenheiros, quase todos de Pilão Cão, queriam arrumar a vila. Do sol, do mar e do vento, colheram quantidade certa de energia; instalaram wireless nas principais praças da vila; montaram uma Rádio Comunitária para contar os feitos das gentes do concelho. A rádio tem sido um sucesso: cantigas da criançada, hip-hop da malta jovem, estórias da velharada, filosofias da malta sabichona e promessas de políticos...

Através da Cooperação Austríaca, a municipal câmara obteve verbas para resgatar os monumentos do concelho e as casas estóricas da vila que estavam a cair em pedaços, mantendo as feições do antigamente. As desabitadas casas do Porto foram adquiridas pelo município, tendo sido restauradas com a finalidade de preservarem a memória de boka‑portu.

Uma gorducha verba chegou à Espinho Branco, entrando na comunidadi d’rabeladus, contribuindo para a construção de bons funkus d'padja e proporcionando melhores condições de vida para aquela comunidade, «símbolo de resistência», que tem vindo a receber visitantes nacionais e internacionais com interesse em conhecer a sua ciência da vida, os seus hábitos e costumes. Inclusive, têm vindo a feirar as suas obras de artes tradicionais. Também um espacial donativo cambou pela Ribeira Principal para a produção do Singuelu, tanto para o consumo local e nacional, como para a sua exportação às comunidades de emigrantes do concelho.

Em Txatxa, Gongon, Cutelo Gomes e Mato Correia, as criancinhas encheram‑se de alegria com os novos jardins‑de‑infância e praças de diversão, pulando pelas ribeiras e kutelus de contentamento. Em Achada Monte, Pilão Cão, Ponta Verde, Veneza e Calheta, o desenvolvimento urbano e sime-urbano começou a flutuar aos olhos vistos.

Em meia dúzia de segundos, tudo voltou ao normal, numa versão moderna‑tradicional em harmonia com o passado, mas de olhos postos lá no futuro. Nunca tinha visto tão admirável sistema djunta-môn! Não consigo explicar tudo o que conseguimos ajeitar, mas nas próximas tecladas vou tentar resumir o que aconteceu no centrinho da vila.

I.1. tintim por tintim

Contaram‑me tudo, tintim por tintim. Então, disseram‑me que foi no final da tarde, quando toda gente preparava‑se para jantar no sossego das suas casas. Uma chuva das grossas começava a cair, relampeando na terra como nunca dantes. Tombavam sangue dos antepassados que habitavam a aldeia. As bocas berravam tal acontecido facto. A aldeia fervilhava num redemoinho de vozes destoantes. E as humanas almas estremeciam de tamanha injustiça cometida aos antepassados.

Antes do sol raiar, numa reunião na Escola Nova, um grupo de homens e mulheres da aldeia, por unânime unanimidade, concordaram que alguma coisa devida era necessário fazer para apaziguar os espíritos que deambulavam pela aldeia em impetuosa agonia. Os putos urgentaram-se em espalhar a decisão tomada. Surgiram duas ou três vozes que protestaram‑se, mas logo enxergaram‑se que era preciso deixar a moleza e recuperar a paz da aldeia. Pouco depois, nas repartições públicas e nas residências particulares, choviam telefonemas para as Américas, as Europas e as Áfricas.

Numa exacta semana, os filhos e as filhas do concelho – que se escondiam em diversos cantos do país e do mundo – chegaram com os conhecimentos adquiridos e as fortunas acumuladas. A partir desse dia, tudo mudou. O que vou contar foram os meus olhos que testemunharam. O sonho parecia realidade, encostada numa almofada de algodão tão macia.

I. Imaginar São Miguel --- 25 a 29 de Setembro


«O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro.»

Fala de Tuahir (Terra Sonâmbula, Mia Couto).


Em cinco dias, vou deixar aqui pedaços de contestação sobre o estado do concelho de São Miguel. Trata‑se de um sonho para fazer andar a estrada... Este sonho será contado em cinco tecladas: I.1. tintim por tintim; I.2. de alto à baixo; I.3. Praça das Estórias; I.4. bodeku; I.5. festança.

Basta!!!

Na minha aldeia, ensinaram-me a receber bem as visitas, com a necessária morabeza e a oferecer pelo menos um copo de água fresca. Também ensinaram‑me que, na casa das outras pessoas, não devemos nunca esquecer as regras da boa educação, entrando e saindo sem provocar sarilhos em espaços alheios. Não recordo qual procedimento é mais indicado para lidar com as visitas quando começam a ser incómodas. Longe de nós da aldeia mandar alguém para fora da nossa humilde casa! Enquanto penso nisso, vou aquecendo os músculos...

Como sou eu a dona deste blog, vou manter a opção «anónimo». Não me interessa quem é o «anónimo I» ou o «anónimo II», nem descodificar a lista de nomes que começaram a chover neste blog, nos últimos dois meses. Se alguém tiver alguma coisa para dizer ao fulano ou beltrano, faça isso longe daqui! Se alguém tiver alguma coisa para me dizer (se não gosta do meu novo corte, do preto azulado dos meus cabelos, do par de ténis que comprei, do livro que ando a ler, etc.), pode usar o meu email, que vou aplicar aquela máxima metodológica: «sigilo e anonimato»! Quem quiser participar nos debates, apresente ideias e seja firme, mas sem confusão! O que não vou admitir mais é que incomodam a tranquilidade das pessoas que por aqui passam para um curto mergulho ou horas na praia! Ouviram?

 
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