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Eu, ...


blogosfera berdiana: destaques

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2008 foi um ano maravilhoso para a blogosfera berdiana. Novos blogs foram inaugurados, trazendo mais ideias e emoções, com inevitáveis polémicas, a esta nossa “nova diáspora” (usando a expressão do poeta bloguista-- não me lembro em que post). De entre tantos outros novos blogs, daqui vai um bouquet de flores especialmente para: Bianda, Ku frontalidade e Ali bem tempu. No meio desse aflorescimento, vozes amigas e informativas foram silenciando: Blog do Paulino e Amante da Rosa... O ano que está prestes a acabar foi marcado, acima de tudo, pela solidariedade na blogosfera: o caso Ana Rodrigues (todas as contribuições estão disponíveis no Blog pela Educação); o caso Procurador Vital Moeda (um dossiê documentado seguiu para as instituições públicas competentes). Esses dois gestos, juntando a mil e tantos posts e a uma tonelada de comentários, mostram a importância da ocupação deste novo espaço, sempre aberto a quem queira entrar. Sim, não é fácil manter um blog, não por causa do tempo porque isso arranja-se sempre, mas sobretudo por causa da pequenez das nossas ilhas ou da mesquinhez de muitas almas, mas o prazer de uma masturbação consequente supera qualquer mal-estar. Por isso, desejo que, em 2009, apareçam mais blogs para enriquecer a nossa blogosfera.


Igualdade na Diferença 2008 (destaques)

Alegria: Vinte e Sete
Tristeza: não quero ouvir adeus
Causa Justa: Ana Rodrigues
Viagem: Sintra
Fúria: Anónimos
Basta!: DomésticaViolência
Saudade: meu porto seguro
Sonho: Praça das Estórias


Blogosfera Berdiana 2008 (as minhas preferências)

Harmonia: Bianda
Olhos-nos-Olhos: Ku Frontalidade
Trabalho de Equipa: Ali bem tempu
Ficção: Soncent
DinamizAção: Café Margoso
Humor: Jornal da Hiena
Polémica do Ano: Os momentos
Fotografias do Ano: Son di Santiago --N ben di Fora!
Post/problematização do Ano: Albatrozberdiano


Votos de festas felizes a todos e a todas, bloguistas e visitantes!...
E para a malta de outras “comunidades blogosferas”, um abraço.

«perguntas cafeanas»


João Branco

Uma jovem mulher que mora com um “tio”, toma conta da casa, dá-lhe carinho, amizade, sexo, em troca das propinas da Universidade e de umas roupas na boutique mais in da cidade, entra num sistema de trocas que não difere muito do tipo de relacionamento que existe em tantos casais que vemos por aí, ou é preciso chamar os bois [leia-se “vacas”! --- (este parêntese é da inteira responsabilidade da autora deste blog)] pelos seus nomes?


Eileen

[…] Eu ainda acho que o “tio” que paga as propinas é que sai com lucro do tal relacionamento. Vejamos: já está com mais de cinquenta, tem um bom salário, logo, dinheiro não é problema. Mas! Está só, não sabe tomar conta de si, porque foi casado e era a mulher que lhe fazia a comida, cuidava dos filhos, vigiava a sua própria saúde, dizendo-lhe “não comas isso, não bebas aquilo, vai fazer análises, toma este comprimido”. Separaram-se e o “tio” ficou perdido na vida. Precisa de alguém que lhe passe a roupa e lhe compre os boxers, que lhe diga que o cabelo já levava um corte e que se calhar esse caroço na próstata devia ser visto por um médico; ele ainda dá um bom show entre os amigos e enfeita o jeepão; essa moça faz as compras, cozinha, lava, blá blá blá e isso tudo só custa dinheiro. E dinheiro, ele tem. // Mas vamos ver o lado da nossa estudante. É nova e bonita, podia ter o rapaz novo e fogoso que quisesse. Mas não. Lá está ela com o “tio” gorducho, cabeludo, com um hálito meio podre, a tomar conta dele, provavelmente com pouco respeito por si própria, mas pensado: eu ainda vou ser alguém na vida e dar um futuro diferente aos meus filhos... […]

tantas interrogações

...um mito?

Numa entrevista ao Jornal de Notícias, Sveva Casati Modignani afirma que «a igualdade entre o homem e a mulher é um mito» (bom, eu acredito que é possível, embora a luta seja árdua, necessitando da colaboração não só das mulheres, como dos homens!). Apesar disso, não posso deixar de aplaudi­r a autora do Feminino Singular quando realça que «actualmente, as mulheres têm dois empregos: fora de casa e dentro dela. Mesmo a vida de uma mulher que se considera insignificante daria por certo um grande romance. Ser educada como mulher, casar-se, constituir família, criar os filhos... É uma tarefa ingrata que só nós podemos fazer. A autoconfiança das mulheres tem que ser elevada. Basta vermos a nossa coragem.»

Ainda agrada-me ouvir que, «no romance Feminino Singular, sobre a maravilha que é a maternidade, conto a história de uma mulher que tem que criar três filhos sem a ajuda de ninguém e, no entanto, sai-se lindamente. Quantos homens poderiam fazer o mesmo que ela faz? As mulheres são seres extraordinários.» Para terminar, a autora não deixa de concluir que, «no campo do trabalho, as mulheres ganham menos do que os homens. Nos postos de liderança, seja nos governos ou multinacionais, as mulheres são quase excluídas (...). As capacidades femininas têm que ser reconhecidas na exacta medida do que já acontece com os homens. O mundo irá funcionar melhor quando os dois sexos forem colocados no mesmo nível.» Belíssima entrevista, e agora fiquei curiosa para ler o referido livro!


Mito sou eu!

«O meu trabalho é feito de afectos», disse Mito Elias ao Expresso das Ilhas, numa entrevista crítica que extravasa a produção artística em Cabo Verde. Gostei da perspectiva crítica! E aproveito para ressaltar três ideias abordadas pelo artista berdiano. Aqui vão elas:
1. «Na nossa Arca de Noé só são permitidos alguns bicharocos.»
2. «Sempre tiveram um porte soslaio com os meus projectos, mas eu tenho uma teoria para isso: como todos os meus projectos têm uma veia descomplexadamente em crioulo, será certamente por aí que se deve procurar as razões.»
3. «Apesar da Internet e das facilidades de comunicação que existem, hoje em dia, as informações são mal processadas, a ponto de termos documentários sobre música que se confundem com teleculinária ou blogocratas que se julgam os faróis da nossa cegueira.»


Blogosfera berdiana

A blogosfera berdiana está a crescer a olhos vistos. Porém, não sei por que razão, tem sido alvo de pequenas duras críticas. O que está a acontecer? O que significa «blogocratas»? Será que temos «blogocratas que se julgam os faróis da nossa cegueira»?

Independentemente das respostas, a blogosfera berdiana está uma maravilha, numa diversidade significativa. Entretanto, toda a humildade é necessária e deve ser a marca dourada de qualquer blog ou blogista, pois os nossos saberes e as nossas experiências são sempre uma pontinha do que existe...

Basta!!!

Na minha aldeia, ensinaram-me a receber bem as visitas, com a necessária morabeza e a oferecer pelo menos um copo de água fresca. Também ensinaram‑me que, na casa das outras pessoas, não devemos nunca esquecer as regras da boa educação, entrando e saindo sem provocar sarilhos em espaços alheios. Não recordo qual procedimento é mais indicado para lidar com as visitas quando começam a ser incómodas. Longe de nós da aldeia mandar alguém para fora da nossa humilde casa! Enquanto penso nisso, vou aquecendo os músculos...

Como sou eu a dona deste blog, vou manter a opção «anónimo». Não me interessa quem é o «anónimo I» ou o «anónimo II», nem descodificar a lista de nomes que começaram a chover neste blog, nos últimos dois meses. Se alguém tiver alguma coisa para dizer ao fulano ou beltrano, faça isso longe daqui! Se alguém tiver alguma coisa para me dizer (se não gosta do meu novo corte, do preto azulado dos meus cabelos, do par de ténis que comprei, do livro que ando a ler, etc.), pode usar o meu email, que vou aplicar aquela máxima metodológica: «sigilo e anonimato»! Quem quiser participar nos debates, apresente ideias e seja firme, mas sem confusão! O que não vou admitir mais é que incomodam a tranquilidade das pessoas que por aqui passam para um curto mergulho ou horas na praia! Ouviram?

«Anónimos»


Cavalheiros, se quiserem dar coices, procurem o curral mais próximo! Se quiserem resolver problemazinhos antigos que ainda vos assombram, esperem para quando se cruzarem! Enfrentem-se! Dois ou três socos (risosss…) não faz mal... Não quero com isso incitar a violência, pois basta o que os thugs estão a fazer lá na nossa capital. Mas também estar aqui a ouvir as vossas fúrias... Upss… ai como eu sofro!!!

………

Estou a gostar dessa experiência na blogosfera. Porém, manter um blog dá muito mais trabalho do que inicialmente pensava. Para além de preparar os posts, dialogar com blogistas da vizinhança, receber as visitas e reagir aos comentários, ainda querem que eu compre uma lanterna para vigiar os anónimos.

Bom, nunca preocupei‑me com o anonimato, nem quero ter essa preocupação. Interessa‑me o diálogo, desde que seja com base na partilha de ideias, no respeito pelas diferenças e, claro, com uma necessária dose de seriedade e honestidade. Acho que a liberdade de recorrer ao anonimato deve ser respeitada. É por isso que, como sempre tratei e fui tratada com ternura e confiança, nunca preocupei‑me com o anonimato.

Acontece que, no post sobre a antologia Destino de Bai, cheguei a ficar furiosa. No início, estava com uma ponta de curiosidade em relação à identidade dos anónimos, porque estava a gostar do debate, das diferentes perspectivas e preferências, bem como das sugestões. Recebi piropos que não me desagradaram de todo.

Foi divertido o bate papo! Entretanto, fiquei furiosíssima ao perceber que um dos anónimos, estava a deixar pistas demasiado óbvias, podia ser uma certa pessoa. Também houve um comentário assinado por um que disse que é português, contando coisas sobre a literatura cabo‑verdiana que só um(a) estudioso(a) ou um cabo‑verdiano(a) próximo(a) do meio literário cabo-verdiano podia saber. Acho eu! Nada disso apoquentou-me, até que... apareceu um anónimo apelidado de «Marcos», que, no comentário seguinte, assinou o mesmo nome sem o “s”. Caramba, uma pessoa de nome «Marco» dificilmente pluraliza o seu nome. Disso sei eu! O meu melhor amigo de todos os tempos chama‑se MARCO (Marquito para a malta) e sei como ele fica chateado quando é chamado no plural. Marco é um nome singular! Ok, anónimo Marco-s!? A pluralização do nome do meu melhor amigo é imperdoável!...

Houve mais nomes usados para vestir o anonimato. E, desde aquele post, tem chovido nomes estranhos no meu blog... Parece que o meu blog está a ganhar simpatias extra-especiais ou há quem quer manter a sua presença aqui e sente receio de assumir a sua identidade. Se respondo aos comentários, alguns com um ligeiro atraso, é porque acho que merecem consideração. Agora, apelo à seriedade e honestidade no acto de comentar! Sabiam que tenho medo de lobo-mau? Então não manchem o meu diário!...

Houve momentos em que pensei em partir a loiça. Desabafei com um amigo coimbrã que tentava seguir o debate. Ele aconselhou‑me a não ir por essa via, porque o tal anónimo até que foi simpático. Talvez não quis se expor na blogosfera. Isso não é mal nenhum. O que é pouco correcto é fingir não ser e atirar flechas aos meus poetas. Bom, o JLT apresentou uma longa resposta, bem serena.

Adoro os meus poetas!!! Sim, adoro os meus poetas! Porque é que vou fingir que não exercem influência em mim, se adoro terminar o dia lendo coisas que escrevem... E basta dizer que só temos medíocre, porque os meus poetas cabo‑verdianos são tão maravilhosos, quantos os meus poetas ingleses, portugueses, brasileiros, etc. Agora, podem me dizer o teu poeta x não se compara com o poeta y ou estás a deixar ser levada pela subjectividade, pelas emoções e pela proximidade. Pois digo‑vos, cavalheiros, sou feita de emoções, filha de um grande amor (papai e mamãi amavam‑se muito... e desejam um mundo de sonhos e emoções para a filhota, como qualquer outro pai e outra mãe). E não quero ver a vida sem uma certa dose de emoção.

Voltando à questão dos anónimos, houve muitos deslizes e pouca ética (pelo menos por parte de um dos anónimos e ele percebeu a minha frieza nos últimos comentários que fiz naquele post) que nem valiam a pena. Gosto de receber visitas e ficaria alegre se houvesse seriedade e honestidade. Este blog é uma praia de águas «limpas e tépidas». Portanto, agradecia a tod@s que não poluíssem esta minha(nossa) praia. Há jovens e idosos que também gostam deste blog (passam por aqui, mesmo sem deixar rastos). E é para eles que dedico as páginas soltas que constituem este meu diário de ternura.

não quero ouvir adeus, que seja até breve!




Oh, Lino, quase me fizeste gotejar com o teu segundo parágrafo. Porém, após uma respiração funda, percebi que as tuas razões não me satisfazem. Acho que podias continuar com o teu cantinho intimista, sem que isso atrapalhe os teus outros compromissos e responsabilidades. E no teu blog sabes que podes escrever quando quiseres e como bem entenderes. Esta é a grande vantagem em relação aos outros ciclos que fechaste no passado. Não consigo entender as tuas justificações, pois acredito que a vida é feita de múltiplos ciclos, muitos deles em simultâneo. Muitas vezes, perco minutos a reler o meu blog e pergunto para mim mesma se “quando for grande” irei continuar com o meu blog que é tão intimista e numa escrita afectiva, sensual e feminística. Não encontro resposta. Certamente, poderei adoptar uma outra forma de escrita, mais sociológica ou cronicada. Isto é para te dizer que, enquanto uma das blogueiras que gosta do teu blog e vai lá muitas vezes, acho que talvez chegou o momento em que devias adoptar um outro estilo de escrita e com outra periodicidade, mas nunca fechar o teu blog. Por exemplo, há um blogueiro na vizinhança (não o conheço pessoalmente, mas é amigo de uma tia minha e de um tio meu, mas ele não sabe…) que tem uma vida profissional de loucos, mas consegue colocar bons posts no seu blog. Faça uma visitinha até “Passageiro em Trânsito”! E há muitos/as outros/as blogueiros/as (tanto em Cabo Verde, como por outras bandas do planeta) que não têm muita disponibilidade, mas conseguem provocar debates e despertar ideias nos seus blogs.

No meu caso, nem imaginas a vida que tenho! Não tenho nem tempo para pensar em mim. É muita coisa em cima da minha cabeça: os meus compromissos académicos, profissionais e o activismo; as minhas responsabilidades pessoais e familiares. É muita coisa para os meus 26 anitos. Mas consigo tirar bom proveito do meu blog. Escrevo para partilhar as minhas angústias, emoções, reflexões e até consigo fazer amigos/as, o que já é bom porque tenho uma vida muito fechada entre “o meu quarto” e a faculdade. É um correr para aqui e para ali, que quando chego à casa no final do dia farto-me de aliviar com os meus passeios pela blogosfera.

Lino, desde o primeiro dia que te conheci na blogosfera, fiquei encantada com o teu sorriso verde, as tuas caminhadas na minha ilha, o teu espírito aberto, a tua forma alegre de encarar a vida, a tua paixão pelas coisas boas e a tua solidariedade, cooperativismo e atenção ao mundo que te rodeia. Passei a gostar mais da tua ilha, a ver pequenas coisas que às vezes na fugacidade dos dias esquecemo-nos de prestar atenção. Fui pessoalmente até Fajã Domingas Bentas. A tua mãe Silva de Junzim d'Polina recebeu-me com um alegre sorriso. Na companhia do teu irmão e da minha amiga-colega Elinha, a teimosia me levou a calcorrear pela montanha ti sukuru fitxa. O teu irmão disse-me que, por mais duas vezes naquele ritmo, eu podia ganhar qualquer maratona na Praia. E disse-me mais: “podes dizer ao Paulino que agora conheces Fajã melhor do que ele!” Foi uma linda caminhada e as gentes do teu cutelo foram amáveis comigo. E o teu irmão tão atencioso, não só contou-me estórias do teu cutelo, como mostrou-me sítios e encantos e apresentou-me pessoas que já conhecia através do teu blog ou através do teu livro “Gentes das Ilhas”. Veja lá o que estás a fazer comigo com este “teu gesto egoísta” (não combina contigo, pois não?) de fechar o blog que já não é apenas teu! É meu também e é de tantas outras pessoas que por lá passam para um chá ou um groguinho de Sintanton. Caramba, já basta o feiticeiro Barbosa que desapareceu sem deixar rastos ou o aprendiz de feiticeiro Djoy que saiu de fininho (vi que ele já regressou, mas não consigo meter nenhum comentário no blog dele. ele deve ter escolhido uma opção que está a bloquear a colocação de comentários – veja lá, Djoy!)!!! E mais, Lino, não me queiras ver chateada grrrrrrrrrrrrr!

Independentemente da tua opção em deixar a blogosfera berdiana (durante algum tempo, ainda indefinido), querido vizinho na blogosfera e na capital, desejo-te as maiores felicidades e quero continuar a ver-te nas minhas próximas idas às ilhas!

Um beijinho com muitos miminhos…



Um Poema Para Ti

Emprestei um poema da minha ilha para te oferecer. Quem melhor do que um poeta de Assomada (também ela verde) para te falar desta «cor mais bela, porque é a cor da esparança»!


Permanência

A pedra continua inerte
A loucura continua efémera
O sonho continua eterno
O solilóquio da solidão continua terno
O caminho das lanternas continua traiçoeiro
As promessas da madrugada continuam incertas

A água de cada dia continua térmica
O trópico de Câncer de olhar posto em Santiago
----------continua aridamente hemisférico
Os insultos no estádio da várzea continuam esféricos
O amor na praça da cidade continua desinibidamente espérmico
A aurora para além dos labirintos do subúrbio continua quimérica
O polegar de txibita continua cadavérico
----------e ressequido sobre o deserto do seu crânio
Os pedintes continuam elegantemente raquíticos
----------e sentados compõem o requiem do quotidiano

A ilusão continua verde
(do verde lunar das serenatas)
neste país
de pedras
que sonham
na face imaginada da água
e rejubilantes
digerem
a esperança
sempre erecta
no seu verdejar
----------na aurora do pedinte…

Lisboa, Julho de 2008
(versão ligeiramente refundida
do poema homónimo, constante
do volume II da obra poética
À Sombra do Sol, Praia 1990.
O autor dedica este poema ao Mito.)

José Luís Hopffer Almada

«Eileenístico: Contos e Crónicas» – um ano depois


uma escrita jovem e citadina

Eileen Almeida Barbosa, nascida numa terça-feira de Carnaval, tem as suas raízes fincadas na ilha do Porto Grande e é a partir do Mindelo que emoldura a sua escrita. Aprendeu a gostar das letras ainda criança. No jardim‑de‑infância, ensaiava as suas primeiras palavras. Na escola primária e no Liceu, aprendeu a traduzir os desenhos em sinais datiloescritos e, inesperadamente, surgiram os seus primeiros contos e os seus primeiros poemas.

Com o livro Eileenístico, constituído por 48 belíssimos contos e crónicas, alguns embrulhados num aroma de sonhos floridos de uma menina da cidade, outros carregando a alma da cidade, a autora junta-se a um conjunto (ainda estreito) de vozes de jovens do pós‑independência. Em poucas palavras, ela apresenta-nos uma escrita cabo-verdianamente jovem e citadina.


Parabéns, Eileen!

Querida, muitas águas tens pela frente! Sabes que és capaz de navegar e tens a coragem (sim, digo coragem, porque é o que falta em muitas mulheres, quer nas mais maduras, quer nas mais jovens… estou a pensar concretamente nas mulheres das nossas ilhas) para seguir, seguir, como uma sereia na sua laginha! Sabes que podes voar, voar, como uma butterfly!...

Deixo aqui estas palavras – insuficientes para compensar o prazer que tive ao ler Eileenístico – como se fosse, não apenas um incentivo, em jeito de resposta a uma certa carta que ainda não respondi.

Beijinhos e um forte abraço cheio de sonhos.

Dia das Mulheres Africanas

MULHER, Mulheres

Não sei o que escrever neste dia dedicado às mulheres do meu chão! Talvez deveria escrever uma carta para contá-las um segredo, daqueles que só as mulheres conhecem... Se tivesse uma pena suave, talvez escreveria um poema, daqueles que acordam a alma feminina escondida atrás da cara fumada, do peito caído, da saia molhada, da pele queimada, da mão enodoada... Se fosse bailarina, talvez arriscaria a pista quão uma estrela para iluminá-las de riso... Se fosse encantada cantadeira, talvez entoaria uma linda canção, daquelas de arrepiar o leão... Porém, como me falta jeito para essas coisas, vou saltar para o próximo ponto.


Blog pela Educação

Para não deixar apagar a luz que acendemos no mês de Junho, hoje, dia das mulheres africanas, enquanto a classe política cabo-verdiana sentada na Assembleia Nacional faz a seu jeito uma avaliação do Estado da Nação, aproveitamos para lança um Blog pela Educação, onde se pretende juntar e divulgar um conjunto de informações contra a medida de exclusão das alunas grávidas dos estabelecimentos de ensino secundário em Cabo Verde: legislação; estatísticas nacionais e internacionais; posicionamentos de instituições e de personalidades; declarações políticas; material de imprensa; textos de opinião; reacção na blogosfera, etc. Num apelo ao “Djunta-mon pela Educação”, esse movimento espontâneo solicita a sua colaboração e conta consigo nesta causa, que é uma causa das mulheres e dos homens que lutam por uma sociedade mais justa, democrática e de respeito para com os direitos humanos.

1 ANO… nem senti o deslizar do tempo

Acordei com o sabor das palavras nos meus lábios, o desejo de soltar um grito pela sensação do primeiro aniversário deste ciberesconderijo, uma vontade de apalpar os rostos escondidos atrás de cada blog, um querer apertar as mãos anónimas que rabiscam num post ou noutro...

No dia 25 de Julho de 2007, comecei a nadar na blogosfera. Numa pranxa verdazul, fui tacteando no abecedário, dando cambalhota do meu jeito. Era para ter colocado este post ontem, mas não me recordava com precisão da data do aniversário. Só agora, numa visita cuidadosa ao blog, reparei-me que afinal já fez um ano, nem senti o deslizar do tempo... Nesta data de bolinhos e abraços, para além de oferecer flores às visitas, aproveito para falar um pouco de mim. Não sei como começar!... Sou uma cabo-verdiana quase perdida numa cidade distante: Coimbra. Passo os meus dias entre os livros e afastada dos miminhos da terra mãe. Sinto múltiplas saudades, vontade de chorar e outros sintomas parecidos...

Adoro a noite e, quando a escuridão invade o silêncio do pátio que cerca a vista do meu quarto, vagueio-me pela blogosfera. Decidi criar este ciberesconderijo de sociabilidade (que o Mito designou por “blogville”, para além de ter escolhido o bouquet de apresentação), para despejar as minhas angústias, emoções e pequenas reflexões comprometidas com o lema “Igualdade na Diferença”. Desde aquela quarta-feira, quando um menino de olhos azuis me desafiou a criar este espaço de partilha das coisas banais que me tocam a alma, fui deixando a madrugada penetrar no meu ser, enquanto misturo a realidade e uma faísca de ficção, deixando flutuar um pedaço de mim, dos meus sonhos, dos meus afectos e dos meus desejos.

Confesso que, muitas vezes, quando deixo ou encontro palavras neste ciberesconderijo, perninhas de lágrimas melancólicas deslizam pela minha face de menina-mulher. Recordo-me de um dia em que recebi uma visita da Lilian, que falava nos meus olhos tristes. Não consegui aguentar, desabrochei-me em soluços. Maravilha mesmo são os momentos de boas risadas, de conversa afiada, de cumplicidades e de solidariedade blogosférica. Não consigo descrever a minha alegria quando recebo visitas de pessoas amigas ou de outras desconhecidas. Gosto de receber as visitas com amabilidade, imaginando este cantinho como uma casa arejada e com muita luz do sol, na minha aldeia, no interior de Santiago.

Entre vários rascunhos que deixei aqui, vou escolher quatro de que mais gostei e que me trouxeram lembranças alegres da minha baía: boka-portu (registos quase-esquecidos), boka-portu, A Ilha da Batalha e Orfeu e Eurídice. Entre os comentários, muitos me tocaram profundamente e também muitos me obrigaram a reflectir sobre o segredo das palavras, a magia dos gestos e o calor dos afectos. Vou deixar em baixo alguns que são uma delícia, um verdadeiro glace de baunilha e chocolate do Marisol, num final de tarde, na Prainha.

Através da blogosfera, tenho conhecido muitas pessoas bonitas e queridas. Ganhei um primo, Tide Pedra; descobri uma amiga de infância, Eileen; e, como o mundo é pequeno, encontrei o Paulino, o menino de sorriso verde, que, afinal, é meu vizinho lá na capital. A vontade de viajar pela blogosfera e os diálogos construídos no meu ciberesconderijo ou noutras bandas foram sempre um incentivo para continuar a partilhar as palavras da forma como gosto, sem preconceito e com ternura.

«As palavras têm para mim uma carga. Sinto-me incapaz de escapar à mordedura de uma palavra, à vertigem de um ponto de interrogação» e, «quando escrevo, procuro tocar afectivamente o meu leitor... isto é, irracionalmente, quase sensualmente.», transcrevendo as belíssimas palavras de Frantz Fanon, in Peau Noire, Masques Blancs.


……………

conversa afiada, pedaços de ternura


o acto de descobrir...

«Não sei como o teu blog surgiu no meu caminho. Ou terá sido o contrário? O certo é que, um dia, ao navegar nessa auto-estrada sem fim, cai neste mar de desabafos que passei a visitar amiúde. Não te conheço, Eury, mas toca o que escreves. Quem descreve assim as memórias da sua infância, das gentes da sua terra, tem pela frente sem dúvida muita história por viver (…)…»
«(...) Continuo a seguir com atenção o teu diário suave, este teu caderno de memórias feito poesia. Um testemunho a que nos vamos habituando... continua,»
Waldir

«Olha só como te descobri… Tu estás cá com uma garra! Isto vai desde a poesia, às teorias pós-coloniais, ou pós-colonizadas (dependendo do ponto de vista), das reivindicações de justiça e direitos, da luta, da doméstica e da domesticidade... Nem consegui ver tudo. E assim certinha e com disciplina. Mesmo bem, Eury. Curti bués. Agora tem-me calma e não me dês mais trabalho do que o que eu já tenho que o que eu não gosto mesmo é de trabalhar (caraças esta frase ficou com demasiados "ques"!). Tem mais: desculpa desiludir-te mas estou na fase de uma fatalidade tal que já prefiro 10000 azulejos para limpar do que um computador para escrever a frase de uma tese. Ok, eu posso escolher. No entanto, nestas alturas lembro-me sempre da Tabacaria de Pessoa: "Vivi, estudei, amei e até cri, E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu." porque antropafagiando o poeta : malhas que o império tece, jaz morta e apodrece a tese filha da mãe. E quanto ao comentário posterior sobre a maioria das mulheres que tem possibilidades de estudar e provavelmente nunca ocuparão cargos de chefia e sem querer ser ofensiva, só consigo pensar: - sorte a delas e do mundo que conta pensamentos informados e que nunca ocuparão cargos de medíocres e inertes. Um registo feminino testemunhal: eu não me chateio nada com essas questões sexuais porque o que eu quero da vida é não fazer nenhum. Olha lá, isto de escrever em blogs até é giro, que uma pessoa pode descarregar a neura e ninguém sabe. Manda lá com mais posts a ver se eu animo e continuo a estudar para "ser alguém na vida".»
Anónima subalterna


cantarolando,

«Já que o tema de conversa é fim-de-semana, e uma vez que ninguém se interessa pelo meu, aqui vai a minha reivindicação para que deixem os subalternos falar. Então foi mais ou menos assim: segui de carro até a casa de uns amigos, mas antes parei para meter gasolina (bués de cara, até dá vontade de dizer um palavrão!). Tinha levado uns panados de porco e um taxo de arroz de alho embrulhado no jornal (como eles tinham cervejas e gelado, tava-se bem). Sentei-me a seguir em frente a um computador velho na tentativa de instalar um sistema operativo mais recente. Afinal esse era o meu pretexto de escape. Falhei. Fui tomar café e depois vi têvê. O raio do computador antigo não me saía da cabeça de modo que nem sei qual era o filme que vi (mas deve ter sido daqueles americanos que acabam ao soco, porque para eu ficar a ver até ao final...). Fomos comer uns petiscos (eram muitos e com um aspecto de "so typical"). Esses gajos fartam-se de fazer massa á conta da orelheira ensaboada em gordura. Mesmo bom (glup!) Cheguei a casa com o papo cheio e fui dormir. Acordei duas horas depois e dirigi-me a uma estação de serviço para comprar água das pedras. Depois lembrei-me que tinha lutado a minha vida inteira (bem, só prai depois dos 20 anos) para ser socióloga. Sozinhei: Isto não é vida para mim! Uma estação de serviço? Agua das pedras? Decidi então ir a um bar muito e bués de cultural onde costumavam parar sociólogos e afins (sociólogos, estudantes de sociologia e os seus respectivos professores preferidos e outros do mesmo grupo das ciências sociais, mas mais o género de verdadeiros artistas) e mais uns gajos que gostam de música e bebem uns copos e que são olhados pelo resto do gang como "ya, estes até davam uns bons entrevistados para eu fazer um doutoramento sobre culturas juvenis" (agora já são todos amigos porque os primeiros perceberam que "ya, eles é que curtem!"). Fui para casa e dormi até as 11 da matina. Moral da História: sou feliz porque pelo menos não ando nos centros comerciais a impingir cartões de crédito e a perguntar aos outros se gostariam de ser felizes. Olha, tinha que te dar esta seca! Fiquei roida de inveja porque nas minhas fugas à cidade só encontro cidades (ou às tantas vivo numa aldeia e não percebi - por favor não comentem algo com a expressão aldeia global que eu juro que grito). Bjs, linda! Até breve. Foi só para balear saudades.»
Anónima subaltarna


afinal, ainda existem “dinossauros”...

«Em nome dos homens – este ser tão maltratado ultimamente pelo género feminino quando o assunto é romantismo... - permita-me protestar vivamente quanto à subtil alegação de que “já não se fazem homens como antigamente!” Rs...
Olha, engano seu. Os homens (ainda!) continuam a apaixonar-se perdidamente, a sentir o coração kutrum kutrum que nem panela de pápa ta rompê férva quando pressente o tal olhar, o tal sorriso, o tal perfume, ainda – sim senhora! - escreve-se poemas de amor entre duas notas de um violão ou entre dois copos de cerveja, o olhar vago perdido sabe-se lá onde...
Provocação: será que foram as mulheres que deixaram de valorizar essas pequenas coisas? Em nome da emancipação feminina, talvez?
(Xiii, prepara-te meu velho, que lá vem chumbo...rs.)
Excelente poema, é um dos meus preferidos. Já agora, há cerca de 18 anos ofereci este mesmo poema a uma mocinha, colega de infância, por quem estava “adolescentemente apaixonado”. Pena que ela nunca me tenha respondido que sim, nem quando dancei com ela um coladera de quel bom...Thanks pela lembrança!»
Paulino

«Assino por baixo o protesto do Paulino. Sabes que há um rapaz que um dia falava com uma menina amiga no msn e decidiu perguntá-la como dizer na língua materna dela algo como isto “Quero gritar aos quatro ventos que estou perdidamente apaixonado por...” e “... a Rosa que veio do Norte”. Ela disse tudo. O que ela não esperava era que o rapaz ia mandar imprimir tais palavras numa t-shit branca e ficar à espera dela na estação dos comboios em Coimbra, num frio crepúsculo de Outubro. Quando ela chegou, por entre as amigas, ela viu o tal rapaz e elas também. Perceberam que algo de anormal estava a passar, pois ela ficou pedrada a olhar para ele; uns segundos volvidos agarrou-se ao rapaz e em soluços, dizia umas palavras que o rapaz reserva só para ele. Eram apenas amigos, mas o rapaz persistia numa relação amorosa. Tal viria dois meses depois.
Já não se fazem homens como antigamente? Será que as mulheres hodiernas estão prontas para ler os gestos genuinamente românticos? Não os encararão como uns tontos. Pois, não temendo ser tonto no amor, faço tontices de amor apenas para aquelas que as sabem ler.
Paulino, e nunca teremos medo de sermos dinossauros ou ETs.»
Jairzinho


intuição feminística

«Cara candidata à entrada na Sala dos Caramelos (Capelos, desculpem-me! Engano-me sempre...),
Permita-me que eu esclareça consigo - defensora incansável dos direitos das mulheres e portanto dos meus (o que eu acho óptimo, diga-se de passagem) - uma dúvida que me assaltou sobre a questão do silenciamento. Trata-se, com efeito, de uma pergunta importante para um trabalho de “descaramento” (sem autorização do nome do autor, 2006) que eu tento com todas as minhas forças arrancar: terá havido, no referido contexto, antes de se começar a ouvir a deliciosa voz/escrita da Ana Paula, mais surdos ou mais mudas? Se não for pedir muito, gostaria que me enviasse a sua resposta no prazo máximo de 1 ano, em espaço 1.5, letra 12, ocupando 600 páginas, com as referências bibliográficas em texto, diversificadas e destacando o contributo dos teóricos mais revoltados com a hegemonia anglo-saxónica. Claro que serei capaz de reconhecer o seu generoso contributo e agradecer (em nota de rodapé, letra 8) os seus preciosos comentários que ocupariam, volto a repetir para que não persistam dúvidas, 600 páginas em formato A4. Gostaria igualmente de me comprometer, na presença de toda a comunidade virtual, gestual e testemunhal, em partilhar consigo uma fantástica bolsa de estudos durante um ano. Lembro ainda que por este andar poderíamos ir as duas para Cabo Verde - tu para trabalho de campo e eu para um merecido trabalho de praia (pois apesar da dicotomia considero as duas tarefas interdisciplinares). Se eu fosse mais ajuizada, escusava de me sujeitar a semelhante humilhação pública de tentativa de “suborne” (chuuu!!! palavra proibida! não se diz, que é feio!) e aproveitava a treta para escrever. Mas como não sou.... Beijos. A estas horas só me dá para dizer tontearias. (da anónima subalterna que fala mais do que o que deve e que tu desmascaras sempre) hasta breve comandanta Eury. ah, não vou poder estar no dia 12, mas quase sempre estou em qualquer lado, quando precisares. Dá notícias.»
Anónima subalterna

«Cara subalterna
Foi com agrado que acabei de registar a sua pequena solicitação. Vou criar as devidas condições para poder ter uma resposta à sua questão “no prazo máximo de 1 ano, em espaço 1.5, letra 12, ocupando 600 páginas, com as referências bibliográficas em texto, diversificadas e destacando o contributo dos teóricos mais revoltados com a hegemonia anglo-saxónica”. Agradeço o seu nobre gesto em partilhar a sua bolsa. Mas apraz-me informar-lhe que o concessionário Automóveis do Mondego acabou de apresentar o Peugeot 308. Trata-se de um novo modelo que tanto me encorajaria durante o “trabalho de campo”, imprescindível para a resolução da sua questão. Sem a pretensão de possibilitar a sua inclusão (como elemento principal do grupo-alvo) no Observatório do Endividamento dos Consumidores, preferia estabelecer uma relação de proximidade com o Peugeot 308, na medida em que este modelo carece de um estudo sociológico a partir do sul. Risosss. Um abraço»
Eury

«Minhas senhoras: muita me apraz vir ter a este blog e encontrar por estas linhas escrita tão elaborada como prenha de humor e é do meu órgão pulsante que vos agradeço em verdade a generosidade com que apresentais este líquido para amolecer lentes de contacto ressequidas do trabalho diário. O poema da Ana Paula, que eu não conhecia, está também muito bem e é por estas e também por outras que apresento os meus sinceros parabéns à dona deste espaço e me dou por contente por tê-lo entre os meus preciosos e exclusivos links.»
Eileen

«Cara Eileen
Igualmente, me apraz ter o seu blog entre os poucos que visito diariamente. Realmente, a sua escrita é "uma delícia para quem tem o bichinho da leitura". Confesso que me agrada bastante quando a Eileen “manda à merda”.
Saudações de Coimbra»
Eury


Un djatu...

«(...) continuar a negligenciar o papel do crioulo significa continuar a ignorar o caboverdiano que pensa, age e se expressa a partir do crioulo, mesmo que ele domine o Japonês.»
Obikuelu


...e a tod@s, obrigada pela vossa visita!
Eury

Santiago

Quando cheguei à capital cabo-verdiana, estava a decorrer uma conferência internacional na Reitoria da Universidade de Cabo Verde, espalhando um forte cheiro da academia pela cidade. Para além do pessoal da casa, o José Carlos dos Anjos estava na capital, com uma equipa de investigador@s brasileir@s. Eu e o Gabriel Fernandes fomos ter com a malta para um brinde e conversas afins. Do outro lado da linha, o Odair Varela preparava‑se para uma viagem à capital senegalesa. No meu caso, também tinha que dormir cedo, porque, às seis horas da matina, tinha que apanhar um avião para a ilha do Porto Grande. Foi ainda na Praia que assisti o arranque oficial das campanhas eleitorais, marcado pelas marchas do Filú e do Ulisses...

Quando regressei das ilhas do Norte, nomeadamente Santo Antão e São Vicente, iniciei uma marcha contra o tempo. Por isso, apenas visitei cinco concelhos da ilha maior: Praia, Santa Catarina, Tarrafal, São Domingos e São Miguel. No ambiente flutuante das campanhas eleitorais, estive a remar sucessivamente contra o acelerar das horas. Mas nem por isso deixei de acumular o meu stock de risadas. Também fiz questão de saudar @s amig@s/conhecid@s que se encontravam envolvid@s no festival eleitoral (Milton Paiva em São Domingos; Victor Semedo nos Picos; Moisés Borges no Tarrafal; Paula Vaz, Graça e Francisco na Praia; kaka Barbosa em Santa Catarina; @s candidat@s de São Miguel, etc.). Também, sem grande espanto, apercebi-me de que a minha geração já se despertou para a política activa.

Em cada concelho por onde passei registei momentos de maior cumplicidade. Em São Domingos, aplaudi a subida do Milton Paiva ao palanque. Em Santa Catarina, estive com o Marco, o Evando e a Janine. E vi o kaka Barbosa a preparar o último comício do PAICV que contou com a presença do JMN. Gostei da prosa com o feiticeiro Barbosa, insatisfeito com o estado das coisas na sua cidade natal. Em São Miguel, aproveitei para conhecer melhor o meu concelho, as suas gentes e as dificuldades que espreitam atrás das portas. No Tarrafal, congratulei a candidatura do Moisés Borges, o mais jovem cabeça de lista para a Câmara Municipal apresentado nessas autárquicas. Na Praia, foi com satisfação que participei na “Emissão Especial TCV, Autárquicas 2008”: no primeiro painel, juntamente com Sidónio Monteiro (representante do PAICV), Miguel Sousa (representante do MpD) e Jorge Carlos Fonseca (Analista Político); no segundo painel, juntamente com Rui Semedo (representante do PAICV), Lourenço Lopes (representante do MpD) e Jorge Carlos Fonseca (Analista Político). A moderação esteve a cargo do jornalista Waldemar Pirei, sob a coordenação da jornalista Adelina Brito e sob a direcção da jornalista Margarida Fontes.


Blogosfera

Ainda gostei de ter cruzado com o Abraão Vicente e o Djinho Barbosa, caminhando até ao esconderijo da turma “Raiz de Polon”; de ter escutado as palavras do Mário Fonseca aquando do debate sobre Aimé Cesaire lá na agora animada Fundação Amílcar Cabral, onde o Tide tem desempenhado um papel central na dinamização do espaço; de ter reencontrado o Paulino, o Filinto, a Guida e a Margarida Fontes; de ter conhecido muita malta da blogosfera (Miguel Barbosa, César, Mário Almeida, kaka Barbosa e Baluka Brazão).

São Vicente

A ilha estava muito movimentada, com a máquina da campanha a fazer sentir nas ruas da cidade. Nos primeiros dias da minha estadia, havia um sol sedutor dos mergulhos. Já na recta final, a ventania quebrava o sossego da praça.

Apesar da ventania dos últimos dias, trouxe boas recordações da ilha. Para começar, passei o primeiro de Maio com a Eileen, uma boa prosadora. Foi um dia para mais tarde recordar. Gostei de descobrir que a Eileen preocupa com o ambiente, tendo uma postura ecológica. Entre tantos outros gestos a favor do nosso planeta, a Eileen reutiliza a água e usa energia eléctrica de forma racional. Também gostei dos passeios pela cidade, a sensação de sentir a pulsação da cidade... No final do dia, um “café margoso” com o João Branco, acompanhando as risadas e os delírios no cambar da noite.

No Café Mindelo, a Roselma apresentou-me o Olavo, que me levou ao antigo Liceu Gil Eanes para dialogar com a malta dos anos trinta. Depois da pesquisa diária, reencontrar com o Olavo e com a poesia tornou-se num hábito delicioso. Também adorei os passeios pela cidade na companhia da Irina Camões e do Artur Jorge... Assim, fiquei a conhecer um pouco melhor a encantadora cidade do Mindelo.

Santo Antão

Com a minha mochila às costas, apanhei um barco para a ilha das montanhas. Nessa viagem, que demorou quase nada, coloquei-me na pele das “Lobas do Mar”. Sentia os meus pés a caminharem em cima das águas salgadas, em perfeita sintonia com os seres do mar. Quando cheguei à cidade do Porto Novo, o sol do meio‑dia ainda não se fazia sentir.

Segui viagem para a vila da Ribeira Grande. Aproveitei para conhecer a Ribeira da Torre, vale da minha colega Elia Monteiro. Fui visitar o cutelo do Paulino Dias, caminhando assim pelo vale e pelas encostas até Fajã Domingas Bentas. A teimosia me levou a calcorrear pela montanha, passando pelo Marrador em direcção ao quase topo da montanha. Bom, no fim da viagem, o mano do Paulino Dias disse‑me: “mais duas vezes, habilitas a ganhar qualquer maratona lá na Praia”.

Na manhã seguinte, segui para o vale do Paul. Nho João de Mari’Guida mostrou-me a fornadja, onde a cana‑de‑açúcar é transformada no conhecido Grogue de Santo Antão. Avistei Pedra das Moças, mas já não tinha pernas para desafiar o declive.

Dias depois, regressei para o Porto Novo. Mesmo com um sol de rachar pedras, não resisti a percorrer pelo centro da cidade. Depois de ter completado o meu plano de trabalho e de ter saciado as minhas curiosidades turísticas, seguir para a ilha do Porto Grande. Dessa vez, o mar portou-se mal, muito mal. A ventania e os valentes solavancos estiveram presentes durante toda a viagem.

Global Voices

Acordei com uma dor de cabeça terrível. Ao entrar no meu blog, verifiquei uma grande surpresa: o post que escrevi por ocasião do dia das mulheres cabo-verdianas teve ecos que desconheço a proporção. Partilho convosco esta alegria de ver uma citação sobre as mulheres cabo-verdianas no Global Voices.


Cape Verde: Woman's day

“The point is that we try to understand the current situation and demand that, regardless of gender, people are treated with respect and have the necessary means to live with dignity.” - Língua Inglesa (trata-se de uma língua europeia, que tem vindo a ganhar terreno a nível mundial).

“O que importa é tentarmos compreender a situação actual e exigir que, independentemente do sexo, as pessoas sejam tratadas com respeito e tenham as condições necessárias para viverem com dignidade.” - Língua Portuguesa (trata-se de uma língua europeia, exportada para as antigas colónias africanas, nomeadamente para Cabo Verde).

“Ny zava-dehibe ankehitriny dia ny fiezahanay mamantatra izay toe-java misy sy ny fitatakianay, tsy misy fanavakavahana izay filahiany na fivaviany, ny hanajana ny zon'ny tsirairay sy ny mba hananany izay ilainy mba hiainany amin-kaja.” - Malagasy ou Malgaxe (trata-se de uma língua africana, do povo de Madagáscar).


Também chegou ao Japão (31/03/2008)

。「重要なのは、私たちが現状を理解しようとすることと、ジェンダーに関係なく、人びとが尊敬をもって扱われ、尊厳をもって生きるのに必要な手段を持つことだ。」- Língua Japonesa (trata-se de uma língua asiática, do povo de Japão).


……................................

(07/03/2008)

Aproveito para reagradecer a tod@s que contribuíram para espalhar essas breves linhas banais: Mpandika Tomavana, Hanako Tokita e Paula Góes. Não sei quem são, mas acho interessante a forma como vasculham a blogosfera!

Paula Góes, a dor de cabeça já passou…

P.S.: pela primeira vez, através de um simples post, senti vontade de abraçar os quatro continentes (África-América-Ásia-Europa). Então, aqui vai:

Um forte abraço

As minhas escolhas

Antes de tudo, o meu agradecimento ao Pedrabika por ter incluído “Igualdade na Diferença” na sua lista, ao lado do Djaroz.

Para dar continuidade a esta onda, que começou no Café Margoso, entre tantos blogs berdianos de que gosto, mas evitando o efeito repetição, aponto o meu dedo para dois super deliciosos: o primeiro, pelo verde e pela amizade, que começou na blogosfera e fortificou lá fora, no espaço real; o segundo, pelos seus belíssimos poemas, que me contagiam sempre que o acaso, quase habitual, me leva a aportar por aquelas bandas.


Blog d'kel Bom: Blog do Paulino e Soncent.

treze contos em duas noites

Waldir Araújo, quando te conheci, aqui neste espaço que denominaste por “mar de desabafos”, percebi pelas tuas primeiras palavras a poesia que existe na tua alma. Ao procurar saber mais sobre ti, através do Rio Geba, descobri a tua música poética, embrulhada em estórias da tua Guiné-Bissau. Desde o primeiro momento, fiquei fascinada pela simplicidade dos teus gestos e das tuas palavras.

Ao marinar no teu livro, Admirável, sucumbi e fui devorada pelos treze contos em duas noites. Apetecia-me dizer sim que os teus contos são “esteiras suaves e boas de adormecer, onde a verdade das coisas nos atrai por não ser tão real quanto a verdade do que foi escrito porque foi sonhado” (usando as palavras ditas pelo Ondjaki no prefácio).

Esta semana, andei atarantada atrás do carteiro, que tardou a chegar. Pensei no Mimito Adão, “o escritor ambulante”. Talvez fosse a pessoa mais indicada para me ajudar a escrever meia dúzia de linhas sobre os teus contos, mas suponho que Mimito Adão anda mais é fascinado com os beijos na boca da Mina Sandi. Enquanto esperava sofregamente pela chegada de uma mensagem das Tágides, imaginava as andanças do Admirável Diamante Bruto, as discussões das mulheres da ilha de Etionkó, a nova vida do Carlos Nhambréne, o sorriso do pobre pai natal, as mortíferas flores do Rachid Ismael, o desgosto da Sara... Porém, faltam-me ainda palavras para te transmitir o meu tamanho deleite ao beber desta tua primeira poção mágica. Antes de terminar esta minha pequena nota, deixo cair uma migalhinha do conto que mais gostei:


O dia do amor-próprio

“(...) Naquela reunião de mulheres, as verdadeiras chefes desta ilha de Etionkó, no arquipélago dos Bijagós, discutia-se a atitude de Ernesto Nanqui, que foi encontrado, alcoolizado, a tentar mutilar o seu pénis como protesto pelo desprezo a que a sua mulher o tinha votado nos últimos tempos (...).”

...…………………………

Apresentação em Lisboa

Nesta sexta-feira, 14 de Março, pelas 18:30mn, na Casa Fernando Pessoa, será apresentado em Lisboa o primeiro livro do jornalista e escritor Waldir Araújo, intitulado Admirável Diamante Bruto e Outros Contos, sendo que a apresentação estará a cargo do jornalista e poeta Toni Tcheka. A primeira apresentação pública deste livro decorreu no dia 12 de Fevereiro, na Póvoa do Varzim, no âmbito das Correntes d’Escrita.

Palavras

Joana Lopes arrastou-me numa correnteza para o oceano do alfabeto português. Após escarafunchar o meu Diário, seleccionei as doze palavras mais fofinhas “nesta língua lusa, que mal entendo”:

aurora
faísca
bagaço
bruma
espuma
catita
suculenta
podridão
malvada
salgado (salgar, salgando)
labuta (labutar, labutando)
matuta (matutar, matutando)

Gostei de rebolar nas palavras! E agora convoco para esta dança tagarelada: Margoso (Mindelo), parabenizando pelos 15 anos de muita merda nas ilhas e arredores; Cuscavel (Porto), imaginando as novidades desta caçadora de palavras; A Cidade das Mulheres (Lisboa), querendo saber se existe um dicionário de mulheres; Alex! (Rio de Janeiro), pensando nas novíssimas descobertas deste menino aventureiro; Dominus (Belo Horizonte), bebendo a arte da escrita; feiticeiro Barbosa (Praia), chamando pelas palavras com sabor de antigamente.

Quebra-cabeça


“Qual é a coisa qual é ela que ninguém ou quase ninguém ousa dizer (denunciar, no verdadeiro sentido da palavra…), mas todos murmuramos?”

Despertar a Cultura (subscrevo!)


Esta semana, foi criado o movimento “Amig@s da Cultura”, tendo apresentado publicamente um manifesto Pelo direito à cultura e pelo dever de cultura!, contando já com mais de 400 subscritor@s com interesses pela cultura. Durante esta primeira semana de manifestação pública, o movimento tem descortinado o palco nefasto da política cultural municipal, acobertada pelo manto folclórico e pela enferrujada garganta da tuna camarária.

O manifesto deixa claro que: “Coimbra é hoje uma cidade amarfanhada do ponto de vista cultural, que só não se tornou absolutamente insignificante a nível nacional graças à actividade que, no limiar da sobrevivência, os poucos agentes culturais que ainda restam conseguem ir desenvolvendo. A Câmara Municipal já não se limita a não apoiar devidamente a actividade cultural que aqui é feita; assume-se, pelo contrário, como um elemento dificultador e tendencialmente destruidor do potencial de criação artística que a cidade possui e que é uma das suas principais mais-valias”.


Quero o Mondego

Sou cabo-verdiana, filha do mar. Estou em Coimbra há pouco mais de sete anos. Na Universidade de Coimbra, fiz a minha Licenciatura e o meu Mestrado em Sociologia. Neste momento, estou a remar para a Sala dos Capelos. Estou nesta cidade pelo desejo de estar e quero sentir o prazer de estar aqui. Coimbra também tem um pouco de mim: os meus sonhos, as minhas saudades, as minhas angústias... E eu carrego a marca de dias passados em Coimbra.

Confesso que, nesta Cidade de Encarnação, os meus dias tardam a passar. Em vez de apenas lamentar as saudades de a cultura d’terra, gostaria de tatuar-me de a cultura d’mondego. Quero sonhar e amar em Coimbra, afinal esta é a cidade dos amores (aqui jaz Pedro e Inês). Quero ter uma estória d’coimbra para contar aos/às meus/minhas netos/as. Embora sendo uma “passageira em trânsito”, quero ser uma cidadã nesta cidade e tenho o direito de respirar a cultura! Não quero culpar a ninguém (muito menos ao pobre do Carlos Encarnação) pelas minhas futuras depressões pós-tese. Pois não, irmão da prometida “Europa”?! Então, deixa a cultura flutuar!...

Celas, 26 de Janeiro de 2008
Eurídice
……………………

Ponto de Situação (4 de Fev)

"Pelo direito à cultura e pelo dever de cultura!" já conta com mais de 900 subscritores. Este manifesto não tem passado despercebido para a imprensa portuguesa (tanto a nível local, como a nível nacional). Ainda tem surgido muitos textos de opinião, bem como reacções na blogosfera (“Amig@s da Cultura” conta com o apoio de 50 blogs), sobre essa iniciativa pela cultura. Tendo por objectivo alargar a discussão pública sobre a política cultural em Coimbra, também já se encontra disponível um conjunto de depoimentos pessoais de subscritores do texto. Por tudo isso e pelo esperado debate aberto do dia 20 de Fevereiro, no Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV), pelas 17h, ninguém pode ignorar o êxito desta iniciativa.

CARA EILEEN (II)

Queria começar esta carta da seguinte forma: “Calheta, aos 30 de Novembro…”. De repente, apercebi-me de que estou em Coimbra e apaguei o que tinha já registado. Então, voltei à vida virtual para responder as tuas questões. Antes disso, vou tentar analisar o debate fomentado por sete blogs: Albatrozberdiano, Filinto Elísio; Pedrabika, Amílcar Aristides; Soncent, Eileen Barbosa; Son di Santiagu, Djinho Barbosa; Ala Marginal, Abrãao Vicente; So pa Fla, Chissana Magalhães; Igualdade na Diferença, Eurídice Monteiro.

(Albatrozberdiano, Filinto Elísio) Num post sobre a problemática do bilinguismo (18/08/2007), intitulado “O bilinguismo nosso de cada dia”, Filinto Elísio refere à necessidade de tradução para crioulo cabo-verdiano tanto da Bíblia, como também da Constituição Nacional. Ressalta a necessidade desta língua ser usada também nas situações de comunicação formais, como nas cerimónias religiosas e nas próprias instituições públicas (a Assembleia Nacional, os Tribunais, os Hospitais, as Escolas...). Ainda refere à necessidade da introdução do crioulo cabo-verdiano nos anúncios durante os voos da TACV, juntando assim ao inglês, francês e português. Numa melodia pessoana, Filinto Elísio afirma: “a minha pátria é a língua cabo-verdiana”. Contudo, não deixa de exaltar a língua portuguesa como a sua segunda natureza. Assim, defende a oficialização do crioulo, em prol da construção progressiva de um real bilinguismo, dando especial atenção ao papel central do Estado no que concerne à política linguística. Reforça o papel do português enquanto um recurso estratégico fundamental para o desenvolvimento e a inserção neste mundo globalizado. Neste post, importa realçar a problemática da marginalização do crioulo cabo-verdiano sobretudo no seio da “pequena elite intelectual” e da padronização linguística no que se refere ao domínio da escrita.

(Igualdade na Diferença, Eurídice Monteiro) Numa análise sobre a problemática linguística (19/08/2007), intitulado “A(s) Língua(s)”, tento realçar a diferença “portuguística” no espaço da CPLP. Lembrando do post no Albatrozberdiano sobre o bilinguismo no contexto cabo-verdiano, não deixo de reconhecer que o debate sobre a(s) língua(s) merece ser aflorado e levado a sério pelos responsáveis directos no processo de afirmação do crioulo cabo-verdiano. Para além disso, tento ressaltar duas questões. Por um lado, a questão da geopolítica da língua, referindo à questão do alfabeto unificado no quadro da “dita” CPLP e alertando para a necessidade de ter em atenção os jogos de poder(es) neste espaço em que o português nos (des)une. Por outro, o fenómeno da globalização, afirmando que, ao mesmo tempo que o uso do inglês se intensifica à escala global, faz todo sentido a afirmação da língua cabo-verdiana, sendo que aceitar que é inútil o investimento na língua cabo-verdiana significa “sacrificar a diferença em nome de um princípio de assimilação”. Por fim, frisei o direito e o dever do povo berdiano no sentido da valorização do crioulo cabo-verdiano, não só enquanto elemento cultural, mas também como veículo de produção de conhecimentos, mesmo que sejam (ou sobretudo porque são) os conhecimentos “catalogados” como tradicionais.

As minhas considerações suscitaram alguma discussão, reunindo vinte cibercomentários. Em termos gerais, importa ressaltar duas questões problematizadas ao longo da discussão. Em primeiro lugar, a língua enquanto elemento identitário. Em segundo lugar (e mais problemática), a questão da oficialização, chamando a atenção para a falta de paciência relativamente ao próprio processo e aceitando que o crioulo cabo-verdiano ainda não encontra-se preparado para ser uma língua oficial, tendo sido ressaltado a problemática da escrita.

(Pedrabika, Amílcar Aristides) Tendo tido uma participação activa no meu post sobre “A(s) língua(s)”, Amílcar Aristides (5/10/2007) lança o debate no seu blog, que suscitou comentários no sentido da valorização das diferentes variantes do crioulo cabo-verdiano. Uma questão importante realçada prende-se com o reconhecimento do simbolismo cultural e das práticas sociais associadas às diferentes variantes.

(Soncent, Eileen Barbosa) “Em badio é que nos entendemos?” Com esta interrogação começas o teu post (23/11/2007), gerando polémicas na blogesfera berdiana. Contas que ficaste surpreendida ao ouvir as boas vindas de uma assistente de bordo, primeiramente, na variante de Santiago e, depois, em Português, Francês e Inglês. Tendo perguntado a uma das assistentes acerca desta novidade, ficaste a saber que, até Janeiro, o crioulo cabo-verdiano vai ser introduzido em todos os voos daquela companhia.

Do teu post e dos quarenta comentários que suscitou, surgem um conjunto de questões que, embora não sendo inéditas, não deixam de ser preocupantes: 1) a problemática da oficialização do crioulo; 2) a “guerrilha linguística” entre a variante de Santiago e a variante de São Vicente (mais do que isso, entre “badiu” e “sampadjudu”); 3) a influência do português nas diferentes variantes do crioulo cabo-verdiano; 4) o português como língua que une (ou cria zonas de contacto/entendimento) entre @s cabo-verdian@s; 5) a mudança de posição na hierarquia linguística com a oficialização do crioulo cabo-verdiano.

Para além dessas questões, não posso deixar de fazer referência a duas passagens no teu post: “(…) di fora”; “eu até acho o Badio uma língua bonita (…)”. Podemos pensar também nos não ditos implícitos no teu post. Acredito que tenha sido apenas um descuido da tua parte, que, nem sequer, imaginavas que ias acordar os fantasmas da cabo-verdianidade que encontram-se atrás das marcaras da nossa modernidade forjada. Portanto, tocaste na velha ferida (sempre aberta, mas politicamente silenciada), acabando assim por suscitar tamanha polémica.

(Son di Santiagu, Djinho Barbosa) Num post intitulado “O post da Eileen é NORMAL?” (26/11/2007), Djinho Barbosa sugere uma análise crítica do discurso do teu post, sublinhando as partes mais problemáticas. Para além disso, Djinho Barbosa chama a atenção para o lado depreciativo associado ao “badiu”.

(Ala Marginal, Abrãao Vicente) No seu post (28/11/2007), Abrãao Vicente começa por abordar as discussões acerca de “badiu” e “sampadjudos” e os preconceitos que foram sendo enraizados na nossa cultura, com marcas bairristicamente traçadas. Ultrapassando a mera questão linguística, Abrãao Vicente belisca os pressupostos básicos escondidos atrás de um simples debate sobre a problemática linguística, remetendo para a própria problemática da construção identitária no nosso espaço insular.

(So pa Fla, Chissana Magalhães) Chissana Magalhães (28/11/2007) introduz na discussão a distinção entre língua e dialecto, que sistematicamente tem sido referido no âmbito dos debates sobre a problemática linguística sobretudo nas antigas colónias. Ainda realça a diferença que existe no interior da variante de Santiago, bem como as diversas formas de subalternização d@s falantes “di fora”. Para além disso, ressalta o esforço da malta berdiana no que se refere a outras línguas, questão que eu também tentei deixar clara na primeira carta que te escrevi.

[Irmandade Crioula!?...] Tive que recorrer ao debate que encontra-se aberto nos blogs berdianos, porque não podemos ignorar as suas implicações. E, agora, sem rodeio, aproveito para dizer-te que, o escândalo das tuas palavras prende-se com o facto de a Eileen ser uma jovem aberta e esclarecida, que acompanha as mutações da nossa contemporaneidade. No meu entender, devias fazer uma auto-reflexividade acerca do teu post e, por conseguinte, apresentar um pedido de desculpas por ter ferido a susceptibilidade de muit@s leitor@s do teu blog, nomeadamente por causa da seguinte afirmação: “achei mais piada que outra coisa”. Um pedido de desculpas evidenciará a tua maturidade e o respeito para com as nossas diferenças internas, sem comprometer a tua liberdade de expressão.

Bom fim-de-semana!
Eury

 
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