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«Al Skua Ma Titio»: Tempo de Famintos e Tempo de Festivais

Desde intérpretes consagradas às intérpretes emergentes habitam actualmente a paisagem musical cabo-verdiana, que se projecta aquém e além fronteiras. Exemplos de vozes e compositoras consagradas: Cesária Évora, Lura, Nácia Gomi, Gardénia Benrós, Mayra Andrade, Nancy Vieira, Maria de Barros, Sara Tavares, Gutty Duarte, etc. Diante desta conquista das mulheres no campo musical, decidi então indagar as (re)presentações sobre as mulheres, na música cabo-verdiana, com intérpretes masculinos. Uma visita ao Youtube revelou-se assim suficiente para uma breve incursão, destacando o imaginário sexista, as relações conjugais e afectivas, a sexualidade e os papéis sociais atribuídos aos homens e às mulheres, no contexto cabo-verdiano. Uma análise da pornolodia traria elementos de interesse, mas não é o propósito deste texto de carácter essencialmente pedagógico. Para uma melhor percepção das preocupações que aqui exponho, basta colocar a entuação nos termos de uma analogia entre o Tempo de Famintos (romance de Luís Romano) como narrativa da degradação da dignidade humana e o Tempo de Festivais como metáfora da contemporaneidade.


TOP 12: (Re)presentações sobre as Mulheres na Música Cabo-verdiana

Num intervalo entre os parágrafos, aproveitei para escutar músicas da terra sobre o amor romântico. Dei por mim a escutar: 1. «Força de Cretcheu» de Eugénio Tavares; 2. «‘M Cria Ser Poeta» de Paulino Vieira; 3. «Padoce de Céu Azul» de Vlú. Estas mornas – melhor, hinos nacionais – (re)presentam todavia, ao mais alto nível, a imagem feminina como objecto de inspiração do sujeito compositor. Embora sem fazer referência ao corpo e nome de mulher, Eugénio Tavares suporta-se na imagem de uma musa inspiradora e no amor romântico, denotando as influências do classicismo. Tal morna retrata o amor de um médico amigo do poeta e de uma mulher que dizem ter sido a mais bela da ilha Brava. Esse lírismo, como se por uma influência transgeracional, é denotado na composição de Paulino Vieira e de Vlú, reforçando os temas do amor e da beleza. Ao atravessar a esquina do Youtube, tropecei-me: 4. «Lapidu na Bo» de Pantera; 5. «Lua» de Princezito. Pantera singulariza-se por uma peculiar escavação cultural. Influenciado pelo afrocubanismo, Princezito mergulha a sua poesia na realidade concreta. Faz parte da denominada Geração Pantera que supera a distinção dicotómica de tradicional e moderno.

6. «Feia, Entri Spada i Paredi» de Finaçon é talvez a música mais popularizada desta minha selecção. Representa a sátira mordaz sobre as estratégias de reconversão social (ta codji purga pam odjal ta ba liceu/dentu se bata brancu albo/bende pastel pa cumpra papel/pe ca fica sima mi), os atributos da beleza como a textura de cabelo (feia cabelo bedjo), as estratégias migratórias (sabi qui nem xuxo/fazi artimanha pa ba Alimanha/ma tinha nota sem manha). Paralelamente, há uma crítica às redes de relação na administração pública insular que privilegiam pessoas próximas do poder (Ba djobe trabadjo ess fica so ta badjam/Ess botam cu nha tabulero pamo M ca tem ninguen na pulero).

7. «Preta» de Vadú (RIP). Tal como Princezito, Vadú é da Geração Pantera e influenciado pelo afrocubanismo. A sua composição é sensível à realidade concreta. Retrata a carga negativa que recaí nesta mulher fora dos ideais de beleza crioula, valorizando a sua centralidade na recomposição familiar. Aponta para as atitudes e as práticas dos homens na família, subvertendo assim o olhar normativo cabo verdiano em torno da violência contra as mulheres que é socialmente legitimado como uma justificação do comportamento das mesmas. Deste modo, suplica a esta mulher o uso da violência, com o fito de reencaminhá-lo. Todavia, poderia ser uma metáfora diferente da violência. Tenho ainda reticências à estrofe que atribui responsabilidades domésticas a esta mulher (cuidar do tal cavalo e de tal vaca!), enquanto ele vagueia-se por aí com o violão.

8. «Mi c’fome mi é pior q’Juquim» de Mota. Faz anedoticamente uma ponte entre o tempo das telenovelas brasileiras e os papéis domésticos atribuídos às mulheres, recorrendo ao humor de Sintanton (Mi c’fome mi é pior q’Juquim/hoji é 3 dia q m’cumé/inda por cima, botá salgá quel arroz). Lembrei me da «Linga d’Sentonton» de Cordas do Sol (Maria/Panhá bo enxada e boloi/Bô pô ne cucruta/Bô r´bá té quel lombe//Bé bé bé//Bé pnhá mi ma fjom/Na quel merada/Bô fzé bô merenda).

9. «Al skua ma titio», Djmalcriod Verão 2010. É necessário observar o olhar sexista. A composição tem como pano de fundo a cidade do Mindelo. Tal uso do corpo e da sexualidade como estratégia (não apenas feminina!), inclusive a proliferação da prostituição, não é um fenómeno recente. Igualmente, o problema existe um pouco por todo o arquipélago e na diáspora. Na letra desta música, há uma competição sexual masculina para a posse do corpo feminino. Todavia, o vencedor é o tal Titio, economicamente em situação privilegiada. Porém, embora seja de conhecimento geral que, «al skua ma titio», paira no ar um silêncio público e político cúmplice, diante das renovadas estratégias de sobrevivência da camada jovem das classes populares, de acesso ao financiamento para a manutenção no ensino superior ou de consumismo e lazer, neste país de desenvolvimento intermédio. É conhecida a existência do Titio. Titio Interno e Titio Externo. Dos emigrantes, políticos, burocratas, empresários aos narcotraficantes; dos antigos colonizadores aos actuais aventureiros, nas ilhas da morabeza.

10. «Beijo no Pescoço» de Pulonga-L Bita. Esta letra ilustra um olhar de humor do interior diasporizado para a capital do país de origem, circundando em torno das habilidades de sedução femininas. Sem questionar as habilidades de traição masculinas, evidencia as renovadas estratégias em acção na capital. Mostra como tais habilidades corrompem ou comovem as forças de segurança. Isto é, após a intervenção das forças de segurança, a resposta do policial foi de que não conseguiu capturar a fulana, acusada de pirataria. Tal video clip traz informações adicionais de relevância. É que, para 2 jovens bailarinos, há 3 jovens bailarinas, uma disponível para os momentos sobrantes. Isto diz muito da realidade social cabo-verdiana, no país e na diáspora.

11. «Na kel dia tão lindo» de Blyck Tchutchi. É do tempo de canequinha, e hoje até o intérprete sorria, no video clip, diante das interrogações então vitais (oh minina undi bu nobu fika?/undi ki bu nobu fika?/undi ki bu nobu fika?/lá Txom Bom di Mangue/na pé di bananera). É o Blyck de «ku forminga ku tudu gosta!» Ups, tropecei-me em «Cumpadri» dos Tubarões (kumpadri, kumpadri, modi ki nhu manshi/ku um pé di kalsa ramangadu ti kanela). Para completar este quadro humoristico, à custa de desgraças das mulheres, poderia acrescentar também «Maria cze qbo tem» de Djon de Cornélia que apresenta uma narrativa do controle social sobre as Marias.

12. «Avenida Marginal» dos Tubarões, composição de Manuel de Novas e interpretação de Ildo Lobo. Trata-se de uma sátira mordaz que evoca o palco da prostituição no Mindelo (Oi c'sabura ta brinca na mei di crioula/Num silencio di madrugada/Ta ouvi mar squebra na areia[...]//ô djack/Bêm ness calor di madrugada/Bêm ness calor nô ta passá sabe). Pode-se comparar com esta música: «Bedja pá Badja» de Sousa que é uma letra do funaná que sustenta as atitudes das classes populares masculinas de desvalorização das trabalhadoras do sexo e uma ambígua desvalorização das suas companheiras.

Enfim, tais circunstâncias possibilitam um entendimento de que as mulheres destas ilhas cristianizadas têm sido retratadas como um singelo cântico divinal e uma maldição infernal, beatificadas e crucificadas, centralizadas no dever de servir e marginalizadas no direito à cidadania, ao reconhecimento e ao respeito como sujeitos da história económica, política e cultural deste arquipélago.

O Olho de Hertzog

Lançamento em Coimbra,
na Livraria Almedina (Estádio),
a 20 de Março, 19h,
com apresentação do
Prof. Boaventura de Sousa Santos.

Neste novo livro, Prémio Leya 2009, o escritor João Paulo Borges Coelho narra os combates das tropas alemãs contra as tropas portuguesas e inglesas no decurso da I Guerra Mundial, na fronteira entre Moçambique e o ex-Tanganica. O confronto entre africânderes e ingleses, a emigração moçambicana para a África do Sul, a reacção dos mineiros brancos, as primeiras greves dos trabalhadores negros e o nacionalismo moçambicano encaixam aqui numa harmonia literária própria do seu autor.

Entre a história e a literatura

Filho de pai transmontano e mãe moçambicana, o escritor João Paulo Borges Coelho é também professor de História Contemporânea de Moçambique e África Austral na Universidade Eduardo Mondlane. Da bibliografia deste escritor moçambicano, constam nomeadamente: As Duas Sombras do Rio; Índicos Indícios; Crónica da Rua 513.2; Campo de Trânsito; Hinyambaan.

Viver e Blogar em Cabo Verde

Esta confirmado que finalmente o Sr. PM tem o seu próprio blog, um cantinho pessoal, conforme o mesmo afirma. Entretanto, seria interessante que o seu dono definisse cedo se trata de um blog de propaganda política, ou realmente de um espaço de viagens existenciais. Não obstante as minhas reservas, apresso-me a deixar aqui os meus votos de muita reflexão existencial ao Sr. PM, ou melhor ao bloguista Zema, e que a experiência lhe seja tão agradável ao ponto dele imaginar como seria bom se mais almas berdianas tivessem condições de vida que lhes permitissem blogar e sem esconderem a sua face atrás da confortável carapuça do anonimato!

Ayan, kretxeu!


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ayan, kretxeu!
queres ir dançar avec moi manhan?

dimokrasia

Africanidades versus Europeísmos

a descolonização ideológica está destinada
a fracassar, se negligenciar a ‘tradição’ endógena
ou as ideias ‘ocidentais’ exógenas [...].

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Kwame Anthony Appiah, filósofo anglo-ganês.
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É amanhã, pelas 18:30mn, na Biblioteca Nacional, a apresentação do primeiro livro de Elias Alfama Moniz, intitulado Africanidades versus Europeísmos: Pelejas Culturais e Educacionais em Cabo Verde. Este livro é fruto de uma longa investigação, realizada no âmbito da sua tese de Doutoramento em História, defendida na PUC/SP (Brasil), que lhe garantiu o ‘Grande Prémio Cidade Velha 2008’. Nesta análise crítica sobre o papel da educação no desenvolvimento nacional, Elias Moniz enaltece o extraordinário “crescimento quantitativo das infra-estruturas e dos efectivos escolares”, em Cabo Verde. Todavia, isto “não foi suficiente para erradicar a dependência cultural”. Elias Moniz dá conta das ambiguidades que marcam os projectos culturais e educacionais, no nosso particular contexto histórico. Deste modo, além de destacar o pragmatismo que caracteriza o período após a independência nacional, este estudo evidencia ainda o modo como as heranças coloniais se reproduziram no sistema de ensino, nomeadamente nos currículos escolares. Aponta ainda para o desperdício de saberes; e chama a atenção para as disparidades inter-ilhas, mas igualmente entre o campo e a cidade. A actualidade da sua problematização acentua-se quando introduz a questão da co-existência ainda hierarquizada entre a língua portuguesa e a língua cabo-verdiana no nosso caso insular, que também se reflecte no sistema de ensino nacional.

(Tratado de Energía)

«Con el razonamiento puro nos formamos
una imagen sublime de este mundo».
Eso escribió Max Planck, genio inocente.
¿Pero existen razones sin afecto,
pureza sin caprichos,
imagen sin temblores?
Lo curioso es que el físico en su ensayo
la primera palabra que pronuncia
no es hecho, ley ni lógica.
La primera palabra es entusiasmo.

(Cuando nombro tu cuerpo
no es la urdimbre de músculos radiantes,
de sangre revoltosa y de nervios veloces
lo que digo, artesana, aunque la física
intervenga sin duda en la manera
que tenemos de hablarnos al oído:
la energía del nombre se transmite,
su tacto cobra fuerza y aumenta lo probable…)

Y a ti, Max Planck, que amabas la entropía
¿qué misterioso impulso de poleas
te empujó a cruzar cartas con un tal señor Sommerfeld
y a intercambiar poemitas como aquel de la flor
que corona tu libro sobre ciencia?

Andrés Neuman

Frohe Weihnachten!

Desejo festas felizes a todos e todas!

Caim, Jesus & Eu


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Fui hoje ao Novo Santuário de Fátima. Uma promessa, ok! E eu que tinha andado muito distraída, nos últimos anos, qual não foi meu encantamento, constatar in loco, el nuevo Jesus, belíssimo!
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Saramago, vejo a nudez de sempre; em vez do esquelético, medito agora diante de um corpo atlético, um olhar distante, um rebelde de dred encarapinhada, um poema, melhor um heteropoema dos novos tempos e templos!

a eurodeputada

eleições europeias.
resultados históricos para o BE:
Miguel Portas, Marisa Matias, Rui Tavares.

Al final de este viaje en la vida

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Al final de este viaje en la vida quedarán
nuestros cuerpos hinchados de ir
a la muerte, al odio, al borde del mar.
Al final de este viaje en la vida quedará
nuestro rastro invitando a vivir.
Por lo menos por eso es que estoy aquí.
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Somos prehistoria que tendrá el futuro,
somos los anales remotos del hombre.
Estos años son el pasado del cielo;
estos años son cierta agilidad
con que el sol te dibuja en el porvenir,
son la verdad o el fin, son Dios.
Quedamos los que puedan sonreír
en medio de la muerte, en plena luz.
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Al final de este viaje en la vida quedará
una cura de tiempo y amor,
una gasa que envuelva un viejo dolor.
Al final de este viaje en la vida quedarán
nuestros cuerpos tendidos al sol
como sábanas blancas después del amor.
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Al final del viaje está el horizonte,
al final del viaje partiremos de nuevo,
al final del viaje comienza un camino,
otro buen camino que seguir

descalzos contando la arena.
Al final del viaje estamos tú y yo intactos.
Quedamos los que puedan sonreír
en medio de la muerte, en plena luz.

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Silvio Rodríguez (Cuba)

«a vida é um ai que mal soa…»

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Gabriel Pina (Gabi/Gi), jovem dinâmico, humilde, afável, comunicativo, de sorriso fácil e contagiante. Às vezes, recorria ao humor negro para revelar o que realmente lhe ia na alma. A sua curta e saudosa permanência entre nós deixa‑nos com a eterna lembrança de um jovem requintado e multifacetado; amante de valores como amizade, solidariedade, companheirismo e abnegação.
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Nasceu no dia 20-12-82, em Assomada, Cabo Verde. Oriundo de uma família batalhadora, personifica a trajectória historicamente protagonizada pelo povo das ilhas. Abraçou a educação, a instrução académica e o conhecimento com garra. Licenciado em Medicina, encontrava-se em fase de especialidade, em Havana, Cuba. Tinha 26 anos. Enfrentou com dignidade a maldita leucemia, encorajando, até aos últimos minutos, os seus colegas, amigos e familiares.
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Embora sabendo que “a vida é um ai que mal soa”, o dia 03-05-09 foi, para nós, de muita dor. Apesar da dor irreparável, e todos os gestos de conforto insuficientes para nos ajudar a lidar com essa perda, na primavera da vida, o desaparecimento físico do Gabi não apagará a imagem que temos do jovem daquele sorriso sempre contagiante e terno, como quem estivesse a atenuar a dor dos que o rodeavam, perante uma anunciada fatalidade.
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À família enlutada e aos amigos Gilson Cabral e Ed Rodrigues (3b is forever.), o nosso abraço.
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Suzano Costa, Eurídice Monteiro, Chuna Costa, Janine Rosa, Marco Varela, Ivandro Teixeira, Nadine Rodrigues, Gerson Semedo, Pedro Borges Tavares, José Augusto Cabral, Ricardo Borges, Nivaldo Vicente, Elsa Monteiro, Rosa Monteiro, Carlita Lopes, Evandra Sá Nogueira, Lezy Andrade, Carla Fernandes, Micau Furtado, Minga Afonso, Dirce Furtado, Kime, Quim, Jeff, Artemisa Monteiro, Marlice Santos, Alice, Tó, Claudia Teixeira, Denilson Cabral, Lúcia Veiga, Felisbelo, Aleida Furtado...
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Amig@s em Cabo Verde e na Diáspora.

“I believe in angels”

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Gabriel Pina, Gabi/Gi,
20-12-82, Cabo Verde -- 03-05-09, Cuba.
26 anos...
médico. quase especialista...
menino de Assomada, do riso e de sonhos...
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Imagem: Edith Borges

a última bomba

Depois desta última, aguardam-se dias menos brandos nas ilhas.

Festas Felizes

Desejo festas felizes a todos e a todas que por aqui passarem.
Muitas prendas, uma montanha de miminhos e calorosos abraços!

tantas interrogações

...um mito?

Numa entrevista ao Jornal de Notícias, Sveva Casati Modignani afirma que «a igualdade entre o homem e a mulher é um mito» (bom, eu acredito que é possível, embora a luta seja árdua, necessitando da colaboração não só das mulheres, como dos homens!). Apesar disso, não posso deixar de aplaudi­r a autora do Feminino Singular quando realça que «actualmente, as mulheres têm dois empregos: fora de casa e dentro dela. Mesmo a vida de uma mulher que se considera insignificante daria por certo um grande romance. Ser educada como mulher, casar-se, constituir família, criar os filhos... É uma tarefa ingrata que só nós podemos fazer. A autoconfiança das mulheres tem que ser elevada. Basta vermos a nossa coragem.»

Ainda agrada-me ouvir que, «no romance Feminino Singular, sobre a maravilha que é a maternidade, conto a história de uma mulher que tem que criar três filhos sem a ajuda de ninguém e, no entanto, sai-se lindamente. Quantos homens poderiam fazer o mesmo que ela faz? As mulheres são seres extraordinários.» Para terminar, a autora não deixa de concluir que, «no campo do trabalho, as mulheres ganham menos do que os homens. Nos postos de liderança, seja nos governos ou multinacionais, as mulheres são quase excluídas (...). As capacidades femininas têm que ser reconhecidas na exacta medida do que já acontece com os homens. O mundo irá funcionar melhor quando os dois sexos forem colocados no mesmo nível.» Belíssima entrevista, e agora fiquei curiosa para ler o referido livro!


Mito sou eu!

«O meu trabalho é feito de afectos», disse Mito Elias ao Expresso das Ilhas, numa entrevista crítica que extravasa a produção artística em Cabo Verde. Gostei da perspectiva crítica! E aproveito para ressaltar três ideias abordadas pelo artista berdiano. Aqui vão elas:
1. «Na nossa Arca de Noé só são permitidos alguns bicharocos.»
2. «Sempre tiveram um porte soslaio com os meus projectos, mas eu tenho uma teoria para isso: como todos os meus projectos têm uma veia descomplexadamente em crioulo, será certamente por aí que se deve procurar as razões.»
3. «Apesar da Internet e das facilidades de comunicação que existem, hoje em dia, as informações são mal processadas, a ponto de termos documentários sobre música que se confundem com teleculinária ou blogocratas que se julgam os faróis da nossa cegueira.»


Blogosfera berdiana

A blogosfera berdiana está a crescer a olhos vistos. Porém, não sei por que razão, tem sido alvo de pequenas duras críticas. O que está a acontecer? O que significa «blogocratas»? Será que temos «blogocratas que se julgam os faróis da nossa cegueira»?

Independentemente das respostas, a blogosfera berdiana está uma maravilha, numa diversidade significativa. Entretanto, toda a humildade é necessária e deve ser a marca dourada de qualquer blog ou blogista, pois os nossos saberes e as nossas experiências são sempre uma pontinha do que existe...

Estátua Imaginada

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Sentado
desenhas a espuma
que dos ossos dos sonhos se erige
e progride rente à noite do martírio

De pé
frondoso entre as frondosas árvores
estilhaças o crânio
das antigas odes e das suas rememorações
para o teu povo celebrar
e os seus heróis
erectos no alfabeto de um novo tempo

Debruçado
sobre a lonjura
dos séculos de dor e esperança
tal sombra em busca de corpo
escrutas o azul
que do silêncio em mar se transfigura

Expectante
as penedias entre os regaços
e as secas ribeiras sobre o dorso
do mar constróis
um novo verde mar
que se petrifica entre os dedos
inundados de sol e suor

Caminhante
floresces um hino infante dos séculos
que em pátria se plasmam
na sua demanda do verde
ainda apenas pressentido
e
a espuma
é então
o rosto mais recente
a face mais dançarina
da memória e da esperança
nuas e límpidas
na pátria dos nossos avôs


Praia, 13 de Fevereiro de 1992
Lisboa, 1 de Abril de 2004
(Versão refundida do poema “Hino”,
publicado na revista Fragmentos, 9/10.
O autor dedica este poema
à memória de Amílcar Cabral
e em homenagem ao primeiro
hino nacional de Cabo Verde.)


José Luís Hopffer Almada

Violência Urbana


«os nossos valores»


Num artigo de opinião, publicado no asemana online, Dulcineia faz um apelo para a mudança de atitudes, tendo em atenção a violência e a onda de assaltos na nossa Praia. Diz a cronista que “é angustiante viver numa sociedade onde pouco podemos fazer, porque vivemos amedrontados.” Ainda realça a sua angústia perante a fraqueza dos nossos valores para fazer frente a situações de violência na nossa pequena capital.

Para quem convive diariamente com a insegurança flutuante dos últimos anos na Praia, para quem se encontra na diáspora, ou mesmo para um/a turista, custa acreditar como a violência urbana penetrou fortemente a capital cabo‑verdiana. É lamentável como as autoridades pouco conseguem fazer para apaziguar o clima de insegurança instalado! Mas não é por esse caminho que a Dulcineia nos conduz. Ela questiona os nossos valores. Apela-nos. Coloca-nos entre as paredes.

Escutando a angústia do meu colega e amigo KaKa, acabadinho de regressar da capital, tirei minutos do meu tempo para reflectir sobre o artigo da Dulcineia. Sinceramente, não consegui pegar num livro sobre a violência urbana tão falada noutras cidades (Rio de Janeiro, Bissau, Lisboa, etc.). Mas a nossa Praia é tão pequenininha e nós somos primos e primas! Bom, fiquei sentada na minha poltrona a imaginar os segmentos da população cabo-verdiana com poder económico para esconder em condóminos fechados nas novas urbanizações, desinteressando completamente com o que se passa para além dos muros da sua segurança familiar; na quantidade de escudos/euros/dólares gastos em carros blindados; na nova moda de empregar «os homens da costa» como cães‑de‑guarda das vivendas no Palmarejo, bairro de estimação dos thugs... Mas a nossa Praia é tão pequenininha e nós transbordamos a morabeza e a elegância na nossa forma estar!...

Também “imagino o desespero de uma mãe, que às 6h da manhã acorda com a notícia que o filho está no hospital, porque foi espancado numa festa. Uma festa privada, num ambiente selecto.” Oh, Dulcineia, isso corta o coração de qualquer mãe! Porém, acho que enquanto a violência atingir os filhos das outras mães, enquanto não bater na porta da nossa mansão, continuaremos a dormir os nossos soninhos!...


E lá em casa?

A minha avó Dinora ficava acordada a noite toda, quando eu e o meu mano íamos para uma festa de aniversário no poial de cima. Quando havia música na praça do Porto, ela argumentava que era bem melhor ficarmos em casa, escutando a partir da nossa varanda. Nós, juventude rebelde, desaparecíamos feito foguetões e regressávamos nunca na hora prometida, encontrando a velhota com o coração nas mãos. Só depois de escutar os nossos passos pelos corredores da casa é que ela conseguia dormir sossegada. Graças à Nossa Senhora do Perpetuo Socorro e ao São Miguel Arcanjo, a velhota nunca teve razões para se preocupar com o nosso comportamento fora de casa!

Nos anos em que estudei na Praia e em Assomada e o meu mano no Tarrafal e em Assomada, a minha avó morria de saudades, rezando para que nada de mal nos acontecesse. Quando chegávamos para os fins-de-semana ou as férias na aldeia, escutávamos os seus ensinamentos acerca do respeito ao próximo e da não‑violência. No dia 10 de Novembro do ano 2000, ao pegar na minha velha mochila de couro para seguir viagem, a avó virou para mim e disse: “filha, respeita o próximo!” Este foi o último conselho que ouvi da boca da mulher que transmitiu os valores que norteiam a minha vida. Porém, durante a minha adolescência, achava chatíssimos os moralismos e aborrecidos os valores que, na altura, considerava retrógrados, mas a vida mostrou-me que afinal a velhota tinha razão ao fincar o pé na nossa educação, ao limitar as nossas saídas, ao exigir que chegássemos na hora combinada e ao nos mostrar o bolso vazio.

Servíamos o jantar às 19h e todos os membros da família tinham que estar em casa. Para mim, 19h era a pior hora do relógio. Tinha que interromper qualquer conversa na esquina, ou um jogo feminino no Polivalente Grande, porque temia o olhar severo do avô Yoto. Cresci atrevidinha, pensando que ia me libertar do temível 19h. Muito pelo contrário! Hoje, quando vou à capital, durante o dia tenho de me manter sempre atenta e, após as 19h, nem ouso sair de casa sozinha, nem chegar na companhia da minha própria pessoa. Não posso dar ao luxo de andar pela noite na minha capital, nem ir ao mar por aquela rotunda onde tudo pode acontecer. Pior mesmo é pensar em pegar um táxi. Nunca se sabe aonde os taxistas vão parar. Claro, há sempre o exagero na prevenção de um possível kaçu‑bodi, mas... Urgentemente, preciso de me libertar do medo de segurar no volante. Alguém me oferece um starlet!

Coimbra

Aqui a noite é quase tão mágica como na minha Calheta, a vida académica é feita de poesia e tudo parece eterno...

O meu mano parece que não gosta muito da mansidão dos dias em Coimbra. Chegou da Calheta para feriar em Portugal, passou por Coimbra, mas não demorou mais do que uma semana. Arranjou logo uma desculpa para ir à Lisboa: um tal imperdível Benfica‑Porto lá no Estádio da Luz. Bom, tentei argumentar que podíamos ir assistir a um jogo da Académica, mas não adiantou. Sendo assim, acabaram-se as minhas férias e amanhã tudo volta ao normal...

Lisboa

Lisboa rima com Pessoa. Claro, gosto de Pessoa! Porém, quando o tema de conversa é Lisboa, tento fugir o máximo possível e imaginável. Posso dizer que não tenho muita simpatia por essa cidade, apesar de uns sítios e encantos que merecem alguma reserva. Entretanto, ultimamente, tenho ido lá várias vezes.

Desta vez, fui à Lisboa para paródias familiares. Descobri um primo do meu pai escondido nessa cidade. Fui conhecê-lo e, como seria de esperar, foi uma maravilha cada segundo que passei com esse meu mais novo tio. Aproveitei para conhecer os meus mais novos primos e as minhas mais novas primas. Resumindo e concluindo, foram dias de festa com boa música e muitas gargalhadas!

 
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