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Cesária & Kassav‏

Acabo de receber esta relíquia, a gravação de uma atuação de Cesária com os Kassav em 29 de Agosto de 1995. No show aparece o saudoso Patrick Saint-Éloi e também a consagrada Jocelyne Béroard que continua sendo a voz feminina dos Kassav.

Ilha do Fogo, Livro de Viagem

Depois de ver o documentário «Itinerâncias de um Geógrafo», sobre a vida e a produção científica de Orlando Ribeiro, que também visitou a ilha e escreveu sobre as suas erupções vulcânicas, deixo aqui esta nova sugestão de viagem à ilha do Fogo (e de estudo da sua paisagem geográfica, social, cultural e política).

Mil maneiras de estar de férias

Às quatro da tarde entrei em casa. Logo aconcheguei-me na rede e abri o portátil ao regaço. Entrei no facebook para ver o que se passa no mundo... Uma estudante me escreveu da ilha do Maio, dizendo que está curtindo suas férias. Adicionou três fotos de Beach Rotcha para reportar as maravilhas do seu verão em Djarmay.
- uauh!
- Bem panha um feria pa li ntom! Es temp li sta jogo na areia sta fx sem manha.
- Vou pensar... Lá para final de setembro.
- Na inicio di setembro ta sta mas fx k na fim go.
- Vou pensar.
- Pensa rapid.
Não disse-lhe nem sim, nem não. Mudei de assunto, contando-lhe que estive há dias na minha aldeia que virou cidade. Que o sol estava abafado, nem dava para ver a ilha do Maio. Contei-lhe dos meus dias de infância e adolescência quando mirávamos aquela ilha, que é a que fica mais próxima da minha aldeia, de tal sorte que até meu avô brincalhão conseguia identificar onde é que ficava a casa de uma tetravó minha, uma tal de Nha Júlia Bapor, que se mudou para lá e cuja alcunha se devia directamente ao facto dela se ter casado com um fulano mercador de sal daquela ilha. Isso foi há muito, muito tempo...

Acaba de entrar no facebook um outro estudante, que se encontra de férias em São Domingos. Confirma-me que continua lendo com entusiasmo o livro Amor de Perdição de Camilo Castelo Branco.
- prosora k dia k bu ta ben kumé pastel di midju li são domingos?
- um dia desses...

Porque tenho um assunto a tratar vou sair do facebook... mas volto mais logo.

A Pedra do Letreiro


Eu sei que foi num fim-de-semana. Lembro-me que acordei por volta das 6h15, com o alarme do despertador. Pretendia chegar ao cais do Porto Grande antes das 7h. A partida do navio Mar d’Canal estava prevista para um quarto de hora antes das 8h. Este barco, que é da companhia Naviera Armas, continua fazendo diariamente a ligação marítima entre as ilhas de São Vicente e Santo Antão. Tendo comprado o meu bilhete, e enquanto aguardava a hora da partida, desviei-me, num instante, em direcção ao bar da cabotagem. Ali, escutei novamente alguém retorquir que, em Cabo Verde, talvez não exista nenhum serviço mais pontual do que o navio que faz a travessia do canal que separa as duas ilhas. Contudo, desta vez, houve um ligeiro atraso. Quando saímos, tinha estranhamente passado das 8h.

Fiquei instalada no convés superior para melhor apreciar a paisagem, sentir a brisa do mar e observar o manto azul que se estendia no horizonte. Ilhéu dos Pássaros, Monte Cara, Porto Grande. Desvaneciam-se mansamente na belíssima paisagem. Peixinhos voadores entravam em cena, despertando olhares curiosos, e em malabarismos fintavam as aves que os queriam bicar. A viagem à ilha das montanhas foi toda ela tranquila. Entretanto, devido a uma anomalia qualquer, o navio demorou algum tempo a atracar. Desembarquei na cidade do Porto Novo, em Santo Antão, um quarto de hora depois das 9h. Normalmente, a travessia do canal demora apenas 45mn. São ilhas vizinhas, unidas secularmente. De uma é possível apreciar os contornos das montanhas da outra, as casas na zona baixa da cidade do Mindelo de São Vicente ou da cidade do Porto Novo de Santo Antão, e inclusivamente há quem diga sorrindo que do Porto Novo não é totalmente impossível avistar gentes nas ruas do Mindelo.

Um breve pequeno-almoço ainda em Porto Novo. E depois uma boleia num jipe alugado, através da estrada asfaltada Porto Novo «» Janela. Inaugurada em 2009, esta nova estrada, além de enormes precipícios, surpreende as visitas com os dois magníficos túneis, que atravessam rochas antes impenetráveis. Uma excelente obra de arte, engenhosamente desenhada por uma equipa italiana. Instalei-me na italiana Aldeia Jerome, no Paul, cujo principal órgão municipal estava ainda sob a liderança de uma mulher. Fui lá por razões de pesquisa académica. Então, mal cheguei, iniciei logo os primeiros contactos. A filha de uma informante levou-me até à residência de uma mulher responsável por uma ong local. Logo de seguida, do centro da Vila das Pombas, desloquei-me numa viatura comercial para a localidade de Eito. Desci defronte à residência de uma outra activista comunitária. Conversámos...

Esperei algum tempo, em Eito, até conseguir um lugar numa viatura para a vila. Regressei de boleia, numa viatura que transportava funcionários de algum ministério. Fiquei surpreendida ao saber que estavam em observações de terreno, porque era mais fácil reunir o grupo ao fim-de-semana. Como não tinha nenhuma actividade planeada, decidi acompanhá-los. Fomos à ribeira de Janela. Avistámos em cima o Farol de Boi que, tal como o nome sugere, fica defronte ao Ilhéu de Boi. Janela fora outrora estigmatizada como a aldeia das bruxas, marcada pelas estórias de feitiçarias. É na ribeira de Janela que se encontra uma lendária pedra, Pedra do Letreiro, com inscrições antigas, ainda não desvendadas. A curiosidade levou-me à dita pedra. Na minha ignorância, só identifiquei algo que parece ser mesmo um símbolo religioso, quase uma cruz.

Depois de um almoço rápido, segui para a vila de Ribeira Grande para me juntar a mais um grupo de viajantes. Quando o sol se apaziguou, o anfitrião daquela localidade fez-nos uma visita ao concelho. Visitámos as duas ribeiras do concelho, a larga Ribeira Grande e a estreita Ribeira da Torre, e o centro administrativo que fica na localidade de Ponta do Sol. No final da tarde, regressei à Vila das Pombas, no Paul. Jantei meia pizza, no restaurante Veleiro II.

Tal como a Cidade Velha, na ilha de Santiago, a Vila das Pombas é contornada por sumptuosas rochas e banhada por uma bela baía. Traz-me sempre lembranças da Cidade Velha... Eram 23h, e eu ainda estava no restaurante Morabeza, frente à Aldeia Jerome. Tomava um chá de ervas locais, enquanto rabiscava num bloco de notas. Lá fora, ainda estavam algumas pessoas na praça da vila, mas os três senhores que tocavam o violão no Bar da Curva já não se encontram aí. Ali, no restaurante, estavam três homens ligados a esse serviço de restauração, dois casais de turistas e eu. Depois fui dormir...

É a lestada

Minha pele está coberta de uma penugem alourada, eriçada. Lembro-me da minha viagem de regresso da ilha do Fogo no mês de Fevereiro. O sol dos Mosteiros entranha-se na pele da gente, disse-me Matos. A lestada. Eu já sabia mais ou menos que era aquilo. Nós do litoral do norte desta ilha éramos feitos da mesma penugem, até os cabelos da cabeça de crianças ficavam da cor castanho claro acaju e pontas espigadas por causa da água do mar todo dia. Criança não pode passar dia inteiro no mar, vociferava Mamãe, que não é bom para menino de escola porque enfraquece a memória. Meu tio, que era do tempo da escola de nhu padre, apanhava o livro deRobert et Nicole, enganava Mamãe que ia ler ao pé do mar ali à frente ou detrás da casa. Brisa do mar refresca a memória, dizia a velha. Mas recomendava que titio não ficasse ao sol, dizia, que ler ao sol cega os olhos, ficam fusco. Agora, cá entre nós, digam-me a verdade!, há coisa melhor do que ler ao sol da manhã dum sábado de Outubro sentado no parapeito da casa?

 
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