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Nastaci Lopi sempri na topi

Nastaci Lopi (nhu Puxim) com Shokanti
Nastaci Lopi foi um dos maiores humoristas de Cabo Verde, na década de noventa. Das suas várias historietas, quem não se lembra de «Nem Tudo Subiu», «Capacete», «Rescaldo das Eleições», «Polícia Quinzenal», «Mini-saia», «Tapa Braco», «Ranja Noiva», «Carta pa Lisboa», «Relógio Nobo» ou «Badja Noticiário». Tudo isso, assim, à «homem vivente», num estilo irónico e mordaz, na fina flor da tradição oral santiaguense, por entre as fronteiras reais e imaginárias do campo e da cidade.


Havia, com efeito, um propósito de abanar o imaginário cultural e social, a começar pelas controvérsias de ordem linguística e geocultural. De forma cómica, Nastaci Lopi abordava diversas questões sociais, como o mundo da política, o contacto com outras culturas, a vida do emigrante, a urbanidade e a ruralidade, a masculinidade imperante, a violência doméstica, a galhofa sexista, a sexualidade ou a «vivida arcoólica».

Enfim, as peripécias de um «rapazinho esperto» transformaram-se nas maravilhosas aventuras de nhu Puxim, na companhia de figuras populares hilariantes, como Compadre Magalhães, Mindo, Lina di nha Txubinha, Gaudêncio, nha Francesa, Titio Dezidere, Nha Saramãe, Xibiote, Joaquinzinho, Ntoninhu di Sema, Dole ou Bandan di nha Mita. E também, tal como as figuras populares enriqueciam as curtas narrativas inventadas, alguns lugarejos da ilha de Santiago renasciam das cinzas recarregadas de humor: Pilonkan, Kadjéta, Rubera da Barca ou Renki Purga.

Os instantes

Nunca conheci ninguém tão sorridente como o meu amigo Maravilhas. Quem lhe impingiu a alcunha foi um amigo do bairro onde morava nos tempos da infância. Tudo era: que maravilha, uma maravilha ou maravilhoso!

Uma vez, por sorte, descobrimos que estávamos na mesma cidade. Eu e ele em Paris? Pensei que certamente daria um filme de comédia. Marcamos um encontro na cafetaria da livraria fnac de saint-lazare. Ele chegou atrasado, com desculpas de que não sabia que metro apanhar, que não é assim atrasado, que esteve perdido durante algum tempo ali na gare a tentar recordar qual dos caminhos ia dar à fnac. Para ser simpática, apenas por ser o nosso primeiríssimo encontro fora das redes sociais, eu disse-lhe que fui-me entretendo com leituras vagas das contracapas de um molho de livros que tinha à frente. E ele sorriu muito, desfolhando dois livros ao mesmo tempo. Parecia um pouco atrapalhado.

Para pegar no meu pé, ele tratou de dizer que sou mais bonita «ao vivo», embora não fosse tão bonita como ele imaginava. Então, para pagar com a mesma moeda, disse-lhe que parecia mais velho do que na fotografia da badana do livro que me enviara para o endereço de coimbra e que, tal como me havia dito um amigo comum, ele parecia muito stressado. Ah, disse-me que a idade já lhe pesava, andava perto da casa dos quarenta, queria publicar um livro nesse entretanto, que a vida não estava a correr como tinha previsto. Conversamos sobre o seu projecto de livro, aliás a sua tese que seria traduzida de inglês para português e publicada numa editora de renome. Perguntei-lhe que mais queria. Durante um bom bocado só falávamos de livros e outras coisas em redor do mesmo assunto.

Dias depois do primeiro encontro, já estávamos do outro lado da cidade, no musée du louvre. Ficou combinado que encontraríamos na pirâmide translúcida. Dessa vez, atrasei-me. Tive que pedir desculpas, pois estava em visita a montparnasse, jardin du luxembourg e sorbonne, rememorando sinome de beauvoir. Falamos de tudo e mais alguma coisa: arte, poesia, boémia, ciência, conferências e música. Ao fim da tarde, deslizamos pela rue de rivoli até avenue des champs-élysées. Fotografámos o arc de triomphe. Sem saber como, de um momento para o outro, desdobramos até chegar às margens de seine. Uma sensação incrível.

Foi na hora do adeus que ouvi meu amigo dizer, sem querer, aquela expressão que lhe é característica: «maravilha, nunca mais vou-te ver». Rimos até não poder mais, abraçamos e saltamos como crianças... E nunca mais vi esse meu amigo. Isso me fez recordar de um outro amigo que, certa vez, numa estação, olhou para mim e disse: «Observa estas pessoas. Pode ser um espectáculo único.»

Crioulo é ainda mais complicado que o resto do mundo

Manhã cedo, recebo um alô de uma pessoa amiga morta de felicidade. Torno-me feliz com a felicidade dessa pessoa amiga. Saltamos e cantamos como duas crianças.
- Já acordei a casa toda, eu acho!
- Também eu. Quer dizer, não deixei ninguém dormir toda noite.
Depois de uma eternidade a conversar, eis que essa pessoa me pergunta:
- Que achas?
- Vou te contar: o teu «sim» vai ser criticado por mais de 99% das pessoas que te conhecem e de quem tu esperavas apenas um apoio incondicional; o teu «não» vai continuar adiando a tua felicidade; e, como sabes, há coisas que não dá para ficar no «assim-assim». Agora, a decisão é tua, só tua! E sabes, desde que mundo é mundo, tem sido dificil agradar a toda a gente.
- É verdade, tens razão! Não sei por que razão, mas acho que crioulo é ainda mais complicado que o resto do mundo.

Amizadi Prende-m Korason

- Odjo d’uba, kabelo kosta korbo. Ratxa du ba nes kaminho trobesado. Mundjer bonita ka meste pintura, rapaz ratorko ka meste dinheiro. Kretcheu di dia é mar d’agosto, di noti inda é mindjor, mas na terral na terral é doce é sabe é suma mel.
- Odju ma lua naris ma stréla pistana sima arku-da-bedja. Djo li: ami nau!

Qué se puede hacer con el amor? Falávamos ontem de um tempo quando as moças eram da igreja e os mocinhos andavam em aulas teóricas e práticas e ensaios dias a fio para não falharem na hora de desencaracolarem a língua. Nesse tempo que já lá vai, as moças tinham um papel passivo no jogo do amor e ficava bem se perante o olhar atrevido de um qualquer reagissem com uma nega das grandes. Então ontem sob a sombra do busto do poeta, uns recitavam de cor versos do finason da ilha; outrum dizia que no seu tempo tinha um caderno das conquistas. Oje bo ta espectacle, ah se mom tava alçançame costa..., queria ele demonstrar a sua habilidade a dar pik quando alguém interrompeu: ouvi dizer que fulano das finanças arrombou a porta para fazer aquilo com a mulher... Porra, fazia uma serenata e seria ela a abrir a porta ou a saltar a janela...

 
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