Getúlio volta ao cinema

Getúlio volta ao cinema, 60 anos após a sua morte. Trata-se de um filme baseado em fatos reais, cujo lançamento decorreu no passado mês de Maio. Incide sobre os últimos dezanove dias de vida do presidente da república Getúlio Vargas (Tony Ramos). Tudo começa a 5 de Agosto de 1954, quando o jornalista de oposição e dono de jornal Carlos Lacerda (Alexandre Borges) sofre um atentado à porta da sua casa em Copacabana. O pistoleiro, entretanto, erra o tiro e acaba por acertar mortalmente o Major da Aeronáutica Rubens Vaz que aquela hora fazia-se de segurança de Lacerda. Getúlio Vargas é acusado de mandar matar o maior inimigo político do seu governo, sobretudo porque as investigações mostram que a ordem para o atentado saiu de dentro do Palácio do Catete e o acusado é o chefe da guarda pessoal do presidente e seu homem de confiança há anos, Gregório Fortunato, conhecido por «anjo negro» (um negro que fica enredado nesta trama toda e que será posteriormente assassinado na cadeia). Por causa do crime de 5 de Agosto, as lideranças militares e a oposição pressionam o presidente para renunciar ao mandato. Ao lado da filha, Alzira Vargas (Drica Moraes), seu braço direito na presidência, e colaboradores fiéis como Tancredo Neves (Michel Bercovitch) e o general Zenóbio da Costa (Adriano Garib), Getúlio tenta se manter no poder e provar sua inocência. Contudo, em face das ameaças que pedem a sua deposição imediata, Getúlio Vargas comete um ato extremo, o suicídio, com um tiro no coração, a 24 de Agosto de 1954...



Por que (não) se fala do 31 de Agosto?


Para abrir o seu livro, intitulado A Tortura em Nome do Partido Único, Onésimo Silveira faz uma dedicatória, in memoriam, a um conjunto de cidadãos, segundo ele, «que nos legaram o exemplo da sua coragem na luta contra o estrangulamento da livre opinião pela Polícia Política». Onésimo é dos poucos ensaístas, por uma razão ou outra, que têm abordado o celebre 31 de Agosto de 1981. Publicado em Agosto de 1991, dez anos depois dos acontecimentos em análise, já após a abertura política e curiosamente quatro meses antes da sua eleição como o presidente de câmara mais popular de Cabo Verde, o livro de Onésimo é composto por um prefácio da autoria de Silvestre Évora acerca do «clima de terror e perseguição levado a cabo pelo partido através da sua polícia política», uma introdução do autor sobre a natureza do regime que vigorou durante a I República e um conjunto de depoimentos de pessoas que foram presas durante os anos de 1976, 1977 e 1981 nas ilhas de São Vicente e Santo Antão.

Para além destes depoimentos reunidos em livro por Onésimo Silveira, existe também o romance de Germano Almeida, intitulado O Dia das Calças Roladas, tendo como pano de fundo as cenas ocorridas a 31 de Agosto de 1981 em Santo Antão, nomeadamente a contestação popular à discussão do projecto da lei de bases da Reforma Agrária que esteve na origem de desentendimentos, distúrbios e prisões.
Encarado como político, esse processo foi desde o princípio prosseguido através de métodos pouco ortodoxos. Por exemplo: toda a gente sabia que algumas pessoas tinham sido presas em Santo Antão e transportadas durante a noite para São Vicente, sabia-se inclusivamente em que navio tinham sido transportadas, e no entanto nem o comissário da Polícia de Ordem Pública nem o comandante da Polícia de Segurança admitiam ter conhecimento de presos vindos de Santo Antão. Se fosse verdade, diziam ingénuos, então só podiam estar no quartel. Por sua vez o quartel recusava com obstinação: Deus livre, exclamavam, mas que ideia mais louca militares andarem prendendo civis, não se estava em estado de sítio, se havia presos então tinham que estar à ordem de alguma das Polícias, eles ignoravam tudo a respeito, que se perguntasse noutro lado qualquer.
Fala-se tanto da natureza opressiva e do clima de terror do antigo regime mas, infelizmente, tirando os relatos dos acontecimentos nas ilhas do norte, existe uma fraca difusão de informações sobre o tempo que passou. Talvez porque se trata de uma história recente num meio pequeno cujos protagonistas de um lado e do outro da barricada ainda estão cá entre nós, custa mais trazer à luz do dia as «tais verdades» suspensas.

Corrida Presidencial: Dilma e Marina empatadas; Aécio em queda livre

De 18 a 29 de Agosto, em tão curto espaço de tempo, segundo as pesquisas sobre a corrida presidencial no Brasil, houve mudança nas intenções de voto. A essa hora, para o primeiro turno, Dilma e Marina estão empatadas; Aécio em queda livre. Seguindo estes dados, no segundo turno, Marina ganharia a candidata Dilma , com diferença de dez pontos percentuais. Sabe-se que esta última sondagem foi encomendada pela Globo e pela Folha S. Paulo. Entre o dever de informação, a possibilidade de manipulação e a contra-informação muita água vai correr nos próximos dias até à data das eleições. ver mais

Cesária & Kassav‏

Acabo de receber esta relíquia, a gravação de uma atuação de Cesária com os Kassav em 29 de Agosto de 1995. No show aparece o saudoso Patrick Saint-Éloi e também a consagrada Jocelyne Béroard que continua sendo a voz feminina dos Kassav.

Ilha do Fogo, Livro de Viagem

Depois de ver o documentário «Itinerâncias de um Geógrafo», sobre a vida e a produção científica de Orlando Ribeiro, que também visitou a ilha e escreveu sobre as suas erupções vulcânicas, deixo aqui esta nova sugestão de viagem à ilha do Fogo (e de estudo da sua paisagem geográfica, social, cultural e política).

Nastaci Lopi sempri na topi

Nastaci Lopi (nhu Puxim) com Shokanti
Nastaci Lopi foi um dos maiores humoristas de Cabo Verde, na década de noventa. Das suas várias historietas, quem não se lembra de «Nem Tudo Subiu», «Capacete», «Rescaldo das Eleições», «Polícia Quinzenal», «Mini-saia», «Tapa Braco», «Ranja Noiva», «Carta pa Lisboa», «Relógio Nobo» ou «Badja Noticiário». Tudo isso, assim, à «homem vivente», num estilo irónico e mordaz, na fina flor da tradição oral santiaguense, por entre as fronteiras reais e imaginárias do campo e da cidade.


Havia, com efeito, um propósito de abanar o imaginário cultural e social, a começar pelas controvérsias de ordem linguística e geocultural. De forma cómica, Nastaci Lopi abordava diversas questões sociais, como o mundo da política, o contacto com outras culturas, a vida do emigrante, a urbanidade e a ruralidade, a masculinidade imperante, a violência doméstica, a galhofa sexista, a sexualidade ou a «vivida arcoólica».

Enfim, as peripécias de um «rapazinho esperto» transformaram-se nas maravilhosas aventuras de nhu Puxim, na companhia de figuras populares hilariantes, como Compadre Magalhães, Mindo, Lina di nha Txubinha, Gaudêncio, nha Francesa, Titio Dezidere, Nha Saramãe, Xibiote, Joaquinzinho, Ntoninhu di Sema, Dole ou Bandan di nha Mita. E também, tal como as figuras populares enriqueciam as curtas narrativas inventadas, alguns lugarejos da ilha de Santiago renasciam das cinzas recarregadas de humor: Pilonkan, Kadjéta, Rubera da Barca ou Renki Purga.

Inauguração do novo Estádio Nacional não contará com a presença dos Tubarões Azuis

Hoje, por volta das 15h, aqui na cidade da Praia, será inaugurado o novo Estádio Nacional de Cabo Verde, construído em Monte Vaca, com o apoio da cooperação chinesa, representada na cerimónia de hoje pela figura do seu Embaixador, Su Jian. A cerimónia de inauguração, que será durante toda a tarde deste sábado, contará com a presença de várias entidades nacionais e uma grande moldura humana já está sendo mobilizada para tomar parte no acontecimento. Sabe-se, no entanto, que não contará com a presença da seleção nacional de futebol.

Lula antevê Marina em 2º lugar


Folha avança que a cúpula do PT, incluindo Lula, já considera que Marina poderá ficar em 2º lugar e exorta que Aécio Neves, “se quiser reverter o quadro atual, terá de bater na nova adversária em disputa.” A confirmar esta previsão, e imaginando um cenário de segunda volta (segundo turno), pesquisas indicam que Marina poderá ficar à frente de Dilma.

Outra fonte dá a conhecer quem são os principais conselheiros de Dilma, Marina e Aécio:
- Dilma Rousseff conta com o ex-presidente Lula, João Santana e Giles Azevedo.
- Marina Silva terá provavelmente a seu lado Walter Feldman, Sérgio Xavier e Eduardo Gianetti da Fonseca.
- Aécio Neves conta com o apoio de sua irmã Andréa Neves, Antonio Anastasia e do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que levantou das cinzas para não perder esta parada.

A ciência por cá

O blog na esquina do tempo acaba de publicar uma curta e dura crónica ou uma espécie de desabafo (conquanto com uma boa dose de humor), onde se pode ler o seguinte:
Mindelo, uma cidade nascida sob o signo da história, hoje já só tem estórias para contar. Anunciam-se com ciência, paliativos e soluções às gentes sem ciénça encalhadas na ilha.
SonCent sempre foi conhecida como tendo gente de ciénça, com habilidade, jeito, criatividade, auto-suficiência e, sobretudo, que respinga, que não leva desaforo […]. Hoje a ilha pode gabar-se de muitas conquistas, incluindo a universidade para os seus filhos, mas a sua gente já não é o que era. Ela tornou-se despreparada, sem fibra, balofa, sem respeito, sem auto-estima, dependente, em suma, sem ciénça […]
Na ilha-sede [ST] abriu-se, há já algum tempo, com pompa e circunstância, uma Casa da Ciência. Na altura, publicitou-se ou justificou-se uma idêntica para a ilha do norte [SV]. Contudo, nem aquela funciona nem esta foi instalada. Diz-se que isso só é possível porque o próprio dono da Casa não tem ciénça […]. v+

Isto está a dar muito que falar junto de um pequeno grupo no facebook. Tece-se argumentos e contra-argumentos sobre informações e saberes disponíveis em cada época, como também quanto aos métodos de ensino-aprendizagem.

A crónica, eu acho, toca em parte numa ou noutra questão há muito comentada à boca miúda. Na verdade, a efervescência científica em Cabo Verde nunca foi forte. Também é verdade que temos, há já algum tempo, uma certa sensação de que deixamos de pensar criticamente as coisas que nos rodeiam, talvez porque mergulhámos cada vez mais em uma tal morabeza ainda que artificial. Por outro lado, acredito que São Vicente e outras ilhas deste arquipélago continuam como palcos de produção artística, cultural e de saberes de várias ordens. E tudo isto é ciência, também.

Eleições no Brasil

Coisa parecida havia sucedido em algum lugar próximo de nós. Ali ao lado, em Portugal. Uma quinta-feira, 4 de Dezembro de 1980, três dias antes do domingo eleitoral, despenhava-se uma avioneta levando a bordo Francisco Sá Carneiro e demais companheiros que descolaram de Lisboa em direcção ao Porto para participarem num comício. Sá Carneiro não era candidato àquelas eleições presidenciais, mas ocupava há quase um ano o cargo de primeiro-ministro de Portugal, tendo sucedido a Maria de Lurdes Pintasilgo (a primeira mulher e ainda única que esteve na chefia do Governo naquele país). Para as eleições presidenciais de 6 de Dezembro de 1980, os principais candidatos eram Ramalho Eanes (presidente em exercício e apoiado pela esquerda) e António Soares Carneiro (apoiado pela coligação de centro-direita Aliança Democrática, que suportava o então governo e era composta por PSD, CDS, PPM e alguns independentes). O funeral de Sá Carneiro foi na sexta-feira que antecedia ao domingo eleitoral. Realizaram-se as eleições presidenciais. Ganhou Ramalho Eanes. E logo depois houve um momento de grande turbulência em torno da escolha do novo primeiro-ministro de Portugal. Quem passou à chefia do governo e do PSD foi Francisco Pinto Balsemão.Na altura, Diogo Freitas do Amaral (líder do CDS, parte da coligação que suportava o governo e anterior vice-primeiro-ministro de Sá Carneiro) ficou fora do novo executivo.

Recentemente, houve algo muito parecido: a morte de Eduardo Campos, ex-governador de Pernambuco e então candidato às eleições presidenciais no Brasil (com apoio da aliança programática entre o seu PSB e a Rede Sustentabilidade de Marina Silva), na sequência da queda do avião que seguia do Rio de Janeiro para Guarujá, onde tinha agendado acções da sua campanha. A morte de Campos fez Marina Silva se emergir como candidata às eleições presidenciais de 5 de Outubro próximo para enfrentar Dilma Rousseff (actual Presidenta, apoiada pelo PT) e o senador Aécio Neves (apoiado pelo PSDB). Circulou um boato sobre possíveis candidatos a vice, incluindo a viúva de Campos, o irmão e outros socialistas. Um processo sucessório que deu que falar, mas parece que já há luz verde. Um tal Beto Albuquerque foi escolhido para o lugar de vice. E hoje será oficialmente apresentado esta nova dupla.

Arquivo digital

Não é nada raro se ver gente com os cabelos em pé por causa de algum livro ou apontamento perdido algures por entre as tralhas do trabalho ou em casa. No meu caso pessoal, este ano decidi que iria arquivar tudo. Os livros já estão devidamente arrumados nas prateleiras. As papeladas estão agora em molhos temáticos e dispersos pelas diversas divisões criadas especificamente para tal efeito. A partir deste ano pretendo decisivamente mudar de estratégia: vou apostar em arquivos digitais. É isso aí...

A coerência histórica: holandês devolve prémio de Israel após perder parentes em Gaza

Em 2011, o advogado holandês Henk Zenoli recebeu um prémio simbólico do Estado de Israel por ter salvo um menino judeu de 11 anos das garras dos nazistas durante a II Grande Guerra Mundial. Entretanto, no passado mês de Julho, Zenoli devolveu tal prémio após perder seis parentes num bombardeio das tropas israelitas em Gaza. Conta-se que uma sobrinha neta dele, a diplomata holandesa Angelique Eijpe, é casada com o economista palestino Isma’il Ziadah, cuja mãe foi atingida por um bombardeio, no dia 20 de Julho, quando se encontrava em casa. Ela, três irmãos de Ziadah, uma cunhada e um primo morreram. Numa carta dirigida ao embaixador de Israel na Holanda, Henk Zanoli escreveu que: 
«Dado o nosso histórico é particularmente chocante e trágico que, quatro gerações depois, nossa família sofra com o assassinato de nossos parentes em Gaza. Um assassinato conduzido pelo Estado de Israel. Os bisnetos de minha mãe perderam sua avó palestina, três tios, uma tia e um primo pelas mãos do Exército de Israel. […] Para mim, continuar com essa honra concedida pelo Estado de Israel, nessas circunstâncias, seria um insulto à memória da minha corajosa mãe, que arriscou a vida dela e dos filhos contra a opressão e pela preservação da vida humana. É também um insulto à minha família que, quatro gerações depois, perdeu nada menos que seis membros em Gaza pelas mãos do Estado de Israel.»
O material jornalístico produzido pelo Estadão é protegido por lei. Para compartilhar este conteúdo, utilize o link:http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,holandes-que-salvou-menino-do-nazismo-devolve-premio-apos-perder-familia-em-gaza,1544337
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Mil maneiras de estar de férias

Às quatro da tarde entrei em casa. Logo aconcheguei-me na rede e abri o portátil ao regaço. Entrei no facebook para ver o que se passa no mundo... Uma estudante me escreveu da ilha do Maio, dizendo que está curtindo suas férias. Adicionou três fotos de Beach Rotcha para reportar as maravilhas do seu verão em Djarmay.
- uauh!
- Bem panha um feria pa li ntom! Es temp li sta jogo na areia sta fx sem manha.
- Vou pensar... Lá para final de setembro.
- Na inicio di setembro ta sta mas fx k na fim go.
- Vou pensar.
- Pensa rapid.
Não disse-lhe nem sim, nem não. Mudei de assunto, contando-lhe que estive há dias na minha aldeia que virou cidade. Que o sol estava abafado, nem dava para ver a ilha do Maio. Contei-lhe dos meus dias de infância e adolescência quando mirávamos aquela ilha, que é a que fica mais próxima da minha aldeia, de tal sorte que até meu avô brincalhão conseguia identificar onde é que ficava a casa de uma tetravó minha, uma tal de Nha Júlia Bapor, que se mudou para lá e cuja alcunha se devia directamente ao facto dela se ter casado com um fulano mercador de sal daquela ilha. Isso foi há muito, muito tempo...

Acaba de entrar no facebook um outro estudante, que se encontra de férias em São Domingos. Confirma-me que continua lendo com entusiasmo o livro Amor de Perdição de Camilo Castelo Branco.
- prosora k dia k bu ta ben kumé pastel di midju li são domingos?
- um dia desses...

Porque tenho um assunto a tratar vou sair do facebook... mas volto mais logo.

A Rainha Ginga


Estou neste momento a ler o novíssimo romance do escritor angolano José Eduardo Agualusa. Uma leitura agradável para estes dias da época mais quente cá nas ilhas. Agualusa traz-nos uma versão deliciosa sobre a celebrizada Rainha Ginga (1583-1663), que eu já conhecia através dos estudos da historiadora haitiana e afro-feminista Linda M. Heywood. A figura do narrador é um estranho, por sinal um padre pernambucano em plena crise de fé, enviado pelo Bispo por encomenda do governador português Luís Mendes de Vasconcelos com o propósito de a servir quando ainda nem era rainha mas usufruía do facto de ser a irmã mais velha e conselheira preciosa do rei, o belicoso senhor Dom Ngola Mbandi. Estando nas páginas iniciais do romance ainda não posso descrever com precisão o teor da narrativa mas tudo indica ser uma empolgante e fascinante história de combate entre Angola e Portugal numa época agitada e marcante dos primórdios do ciclo colonial-escravocrata. Publicado no passado mês de Junho, este romance é agora apontado como um dos momentos mais altos da obra de José Eduardo Agualusa.

Borrifar as flores com água da chuva

Creio que foi num sábado à tarde, nos primeiros tempos da mudança para este lugar, que titia inventou esta tese incontestável: «cuidar do verde dentro de casa dá sorte, atrai bons pensamentos e enxuta maus-olhados.» Lembro-me que me agradou a apreciação dela sobre o estado das plantas, e até comentei que me sinto bem com este jardim improvisado à janela da cozinha. Ela, mulher do campo que o destino obrigou a mudar para a cidade grande, parecia tão maravilhada. Levei-a a pensar na minha aflição sempre que ausento por um período superior a três dias. Disse-lhe que não sabia o que fazer com as plantas. Como se tivesse sonhado comigo, telefonou-me e perguntou-me há alguns dias por que razão não peço ao meu tio para me ajudar a resolver esse problema de uma vez por todas, instalando-me o sistema de rega gota-a-gota. Não achei má ideia. Até porque uma colega já me tinha sugerido algo parecido: «arranja umas garrafas de litro e meio de água e pendure numa corda acima da cabeça das plantas.» Também não achei má ideia. Acordei hoje com a chuva amiga batendo no portão, como se batesse no meu coração. Dei por mim apanhando às pressas os vasos de plantas para conduzi-las todas para varanda a fim de tomarem um banho de chuva. Pensei: «ter plantas dentro de casa quando chove lá fora é como aninhar peixinhos no aquário numa casa à beira-mar.» Às tantas olhei para o céu e não vi chuva caindo. Mas está tudo bem. Parece que hoje é dia de chuva.

Os instantes

Nunca conheci ninguém tão sorridente como o meu amigo Maravilhas. Quem lhe impingiu a alcunha foi um amigo do bairro onde morava nos tempos da infância. Tudo era: que maravilha, uma maravilha ou maravilhoso!

Uma vez, por sorte, descobrimos que estávamos na mesma cidade. Eu e ele em Paris? Pensei que certamente daria um filme de comédia. Marcamos um encontro na cafetaria da livraria fnac de saint-lazare. Ele chegou atrasado, com desculpas de que não sabia que metro apanhar, que não é assim atrasado, que esteve perdido durante algum tempo ali na gare a tentar recordar qual dos caminhos ia dar à fnac. Para ser simpática, apenas por ser o nosso primeiríssimo encontro fora das redes sociais, eu disse-lhe que fui-me entretendo com leituras vagas das contracapas de um molho de livros que tinha à frente. E ele sorriu muito, desfolhando dois livros ao mesmo tempo. Parecia um pouco atrapalhado.

Para pegar no meu pé, ele tratou de dizer que sou mais bonita «ao vivo», embora não fosse tão bonita como ele imaginava. Então, para pagar com a mesma moeda, disse-lhe que parecia mais velho do que na fotografia da badana do livro que me enviara para o endereço de coimbra e que, tal como me havia dito um amigo comum, ele parecia muito stressado. Ah, disse-me que a idade já lhe pesava, andava perto da casa dos quarenta, queria publicar um livro nesse entretanto, que a vida não estava a correr como tinha previsto. Conversamos sobre o seu projecto de livro, aliás a sua tese que seria traduzida de inglês para português e publicada numa editora de renome. Perguntei-lhe que mais queria. Durante um bom bocado só falávamos de livros e outras coisas em redor do mesmo assunto.

Dias depois do primeiro encontro, já estávamos do outro lado da cidade, no musée du louvre. Ficou combinado que encontraríamos na pirâmide translúcida. Dessa vez, atrasei-me. Tive que pedir desculpas, pois estava em visita a montparnasse, jardin du luxembourg e sorbonne, rememorando sinome de beauvoir. Falamos de tudo e mais alguma coisa: arte, poesia, boémia, ciência, conferências e música. Ao fim da tarde, deslizamos pela rue de rivoli até avenue des champs-élysées. Fotografámos o arc de triomphe. Sem saber como, de um momento para o outro, desdobramos até chegar às margens de seine. Uma sensação incrível.

Foi na hora do adeus que ouvi meu amigo dizer, sem querer, aquela expressão que lhe é característica: «maravilha, nunca mais vou-te ver». Rimos até não poder mais, abraçamos e saltamos como crianças... E nunca mais vi esse meu amigo. Isso me fez recordar de um outro amigo que, certa vez, numa estação, olhou para mim e disse: «Observa estas pessoas. Pode ser um espectáculo único.»

Crioulo é ainda mais complicado que o resto do mundo

Manhã cedo, recebo um alô de uma pessoa amiga morta de felicidade. Torno-me feliz com a felicidade dessa pessoa amiga. Saltamos e cantamos como duas crianças.
- Já acordei a casa toda, eu acho!
- Também eu. Quer dizer, não deixei ninguém dormir toda noite.
Depois de uma eternidade a conversar, eis que essa pessoa me pergunta:
- Que achas?
- Vou te contar: o teu «sim» vai ser criticado por mais de 99% das pessoas que te conhecem e de quem tu esperavas apenas um apoio incondicional; o teu «não» vai continuar adiando a tua felicidade; e, como sabes, há coisas que não dá para ficar no «assim-assim». Agora, a decisão é tua, só tua! E sabes, desde que mundo é mundo, tem sido dificil agradar a toda a gente.
- É verdade, tens razão! Não sei por que razão, mas acho que crioulo é ainda mais complicado que o resto do mundo.

A Pedra do Letreiro


Eu sei que foi num fim-de-semana. Lembro-me que acordei por volta das 6h15, com o alarme do despertador. Pretendia chegar ao cais do Porto Grande antes das 7h. A partida do navio Mar d’Canal estava prevista para um quarto de hora antes das 8h. Este barco, que é da companhia Naviera Armas, continua fazendo diariamente a ligação marítima entre as ilhas de São Vicente e Santo Antão. Tendo comprado o meu bilhete, e enquanto aguardava a hora da partida, desviei-me, num instante, em direcção ao bar da cabotagem. Ali, escutei novamente alguém retorquir que, em Cabo Verde, talvez não exista nenhum serviço mais pontual do que o navio que faz a travessia do canal que separa as duas ilhas. Contudo, desta vez, houve um ligeiro atraso. Quando saímos, tinha estranhamente passado das 8h.

Fiquei instalada no convés superior para melhor apreciar a paisagem, sentir a brisa do mar e observar o manto azul que se estendia no horizonte. Ilhéu dos Pássaros, Monte Cara, Porto Grande. Desvaneciam-se mansamente na belíssima paisagem. Peixinhos voadores entravam em cena, despertando olhares curiosos, e em malabarismos fintavam as aves que os queriam bicar. A viagem à ilha das montanhas foi toda ela tranquila. Entretanto, devido a uma anomalia qualquer, o navio demorou algum tempo a atracar. Desembarquei na cidade do Porto Novo, em Santo Antão, um quarto de hora depois das 9h. Normalmente, a travessia do canal demora apenas 45mn. São ilhas vizinhas, unidas secularmente. De uma é possível apreciar os contornos das montanhas da outra, as casas na zona baixa da cidade do Mindelo de São Vicente ou da cidade do Porto Novo de Santo Antão, e inclusivamente há quem diga sorrindo que do Porto Novo não é totalmente impossível avistar gentes nas ruas do Mindelo.

Um breve pequeno-almoço ainda em Porto Novo. E depois uma boleia num jipe alugado, através da estrada asfaltada Porto Novo «» Janela. Inaugurada em 2009, esta nova estrada, além de enormes precipícios, surpreende as visitas com os dois magníficos túneis, que atravessam rochas antes impenetráveis. Uma excelente obra de arte, engenhosamente desenhada por uma equipa italiana. Instalei-me na italiana Aldeia Jerome, no Paul, cujo principal órgão municipal estava ainda sob a liderança de uma mulher. Fui lá por razões de pesquisa académica. Então, mal cheguei, iniciei logo os primeiros contactos. A filha de uma informante levou-me até à residência de uma mulher responsável por uma ong local. Logo de seguida, do centro da Vila das Pombas, desloquei-me numa viatura comercial para a localidade de Eito. Desci defronte à residência de uma outra activista comunitária. Conversámos...

Esperei algum tempo, em Eito, até conseguir um lugar numa viatura para a vila. Regressei de boleia, numa viatura que transportava funcionários de algum ministério. Fiquei surpreendida ao saber que estavam em observações de terreno, porque era mais fácil reunir o grupo ao fim-de-semana. Como não tinha nenhuma actividade planeada, decidi acompanhá-los. Fomos à ribeira de Janela. Avistámos em cima o Farol de Boi que, tal como o nome sugere, fica defronte ao Ilhéu de Boi. Janela fora outrora estigmatizada como a aldeia das bruxas, marcada pelas estórias de feitiçarias. É na ribeira de Janela que se encontra uma lendária pedra, Pedra do Letreiro, com inscrições antigas, ainda não desvendadas. A curiosidade levou-me à dita pedra. Na minha ignorância, só identifiquei algo que parece ser mesmo um símbolo religioso, quase uma cruz.

Depois de um almoço rápido, segui para a vila de Ribeira Grande para me juntar a mais um grupo de viajantes. Quando o sol se apaziguou, o anfitrião daquela localidade fez-nos uma visita ao concelho. Visitámos as duas ribeiras do concelho, a larga Ribeira Grande e a estreita Ribeira da Torre, e o centro administrativo que fica na localidade de Ponta do Sol. No final da tarde, regressei à Vila das Pombas, no Paul. Jantei meia pizza, no restaurante Veleiro II.

Tal como a Cidade Velha, na ilha de Santiago, a Vila das Pombas é contornada por sumptuosas rochas e banhada por uma bela baía. Traz-me sempre lembranças da Cidade Velha... Eram 23h, e eu ainda estava no restaurante Morabeza, frente à Aldeia Jerome. Tomava um chá de ervas locais, enquanto rabiscava num bloco de notas. Lá fora, ainda estavam algumas pessoas na praça da vila, mas os três senhores que tocavam o violão no Bar da Curva já não se encontram aí. Ali, no restaurante, estavam três homens ligados a esse serviço de restauração, dois casais de turistas e eu. Depois fui dormir...

Their Eyes Were Watching God

«There is no book more important
to me than this one.»
Alice Walker.

Obra-prima de Zora Neale Hurston (1891-1960) e uma das mais importantes obras da literatura americana do século XX, publicada pela primeira vez em 1937, Their Eyes Were Watching God conta uma história de uma mulher negra que embarca numa longa viaja de autodescoberta. Janie Crawford, aos dezasseis anos, é uma jovem desempoeirada obrigada pela sua avó moribunda a casar com Logan Killicks, um homem mais velho e grosseiro, que ela despreza e descarta na primeira oportunidade. Janie decide fugir com Joe Starks, um homem citadino cheio de sonhos e projectos ambiciosos. Juntos seguem para Eatonville. Ali, mal chegam, Joe conquista um lugar no coração do primeiro condado negro em construção, tornando-se o seu primeiro presidente da Câmara Municipal, chefe dos correios, lojista e proprietário de terras. A ambição pelo poder torna frágil a relação deste casal. Com a morte de Joe, Janie liberta-se das convenções matrimoniais. Ignorando as más-línguas de então, ela apaixona e entrega-se de corpo e alma ao amor de um jovem trabalhador de espírito livre muito mais novo do que ela. Tea Cake e Janie protagonizam esta emocionante história de amor e de liberdade no Sul dos EUA, então marcado pelas leis segregacionistas e em plena luta pela afirmação das comunidades dominadas e marginalizadas. Através do amor, Janie reencontra a paz interior que tanto procurava. A narrativa dessa história muda da terceira pessoa para uma mistura de primeira e terceira pessoa, desenvolvendo uma trama a partir da experiência das mulheres afro-americanas, jovens e que prezam a sua individualidade contra os apelos moralistas de uma comunidade dominada onde as mulheres são evidentemente as que mais sofrem de todas as discriminações racistas e sexistas. Mas, longe de qualquer vitimização, a história ganha pelo realismo e pelo conhecimento profundo da vivência numa pequena comunidade, longe do asfalto e das luzes das grandes cidades americanas. Tão bela é a história contada que a apresentadora Oprah Winfrey considera que esta é a sua «história de amor favorita de todos os tempos», tendo, por isso, optado por produzir um filme baseado neste romance e escolhendo como actriz principal a bela Halle Berry.


A vida de uma escritora negra nos EUA

Zora, romancista e antropóloga, nasceu a 7 de Janeiro de 1891, em Alabama, tendo vivido em Eatonville, Florida, desde a sua infância. Foi aluna de Franz Boas. Teve uma carreira de altos e baixos, durante mais de trinta anos. Foi contemporânea de grandes escritores afro-americanos entre o período do Harlem Renaissance e o fim da guerra da Correia. Toni Morrison considera que «Zora Neale Hurston é uma das maiores escritoras do nosso tempo.» Contudo, esta escritora foi silenciada depois do início dos anos cinquenta e recuperada só no final dos anos setenta. E tornou-se uma referência da literatura americana e uma pérola da comunidade negra.

Durante a vida dela, ela foi aclamada, teve glamour e uma vida louca, com amores e desamores. Porém, em 1945, vendo para o caso de muitos dos seus colegas negros e pressentindo que também ela iria morrer na miséria, decidiu persuadir W.E.B. Du Bois a comprar um terreno baldio na Florida para criar um cemitério de afro-americanos ilustres, a fim de não serem enterrados numa vala comum. Dizia ela, «temos de assumir essa responsabilidade, para que as suas sepulturas sejam conhecidas e honradas.» À primeira, W.E.B. Du Bois torceu o nariz, mas depois caiu na real e acabou aceitando. Pouco tempo depois, ela morreu e na miséria total, a 28 de Janeiro de 1960, aos 69 anos. Teve um funeral miserável, que só não foi pior porque os seus vizinhos organizaram um peditório para custear as despesas mínimas, sem direito a uma pedra tumular. Foi enterrada numa sepultura cuja identificação aconteceu em 1973. Na altura, meados dos anos setenta, a então jovem escritora afro-americana Alice Walker (a autora de The Color Purple) fez uma longa viagem para colocar uma pedra tumular na sepultura de Zora, no cemitério segregacionista Garden of the Heavenly Rest, em Fort Pierce, Florida. Alice Walker encontrou o cemitério abandonado e cercado de cobras e ervas daninhas que lhe chegavam à cintura, numa rua sem saída. Depois, com os parcos recursos que ela tinha, conseguiu comprar uma pedra tumular (não aquela que ela pretendia), mas uma lápide cinzenta e simples, ornamentando com um epitáfio: «Zora Neale Hurston, Um Genio do Sul.» Depois desse gesto de Alice Walker e dela mesmo ter se inspirado no trabalho da escritora morta, Zora Neale Hurston tornou-se uma referência incontornável da literatura americana e feminista.

Amizadi Prende-m Korason

- Odjo d’uba, kabelo kosta korbo. Ratxa du ba nes kaminho trobesado. Mundjer bonita ka meste pintura, rapaz ratorko ka meste dinheiro. Kretcheu di dia é mar d’agosto, di noti inda é mindjor, mas na terral na terral é doce é sabe é suma mel.
- Odju ma lua naris ma stréla pistana sima arku-da-bedja. Djo li: ami nau!

Qué se puede hacer con el amor? Falávamos ontem de um tempo quando as moças eram da igreja e os mocinhos andavam em aulas teóricas e práticas e ensaios dias a fio para não falharem na hora de desencaracolarem a língua. Nesse tempo que já lá vai, as moças tinham um papel passivo no jogo do amor e ficava bem se perante o olhar atrevido de um qualquer reagissem com uma nega das grandes. Então ontem sob a sombra do busto do poeta, uns recitavam de cor versos do finason da ilha; outrum dizia que no seu tempo tinha um caderno das conquistas. Oje bo ta espectacle, ah se mom tava alçançame costa..., queria ele demonstrar a sua habilidade a dar pik quando alguém interrompeu: ouvi dizer que fulano das finanças arrombou a porta para fazer aquilo com a mulher... Porra, fazia uma serenata e seria ela a abrir a porta ou a saltar a janela...

É a lestada

Minha pele está coberta de uma penugem alourada, eriçada. Lembro-me da minha viagem de regresso da ilha do Fogo no mês de Fevereiro. O sol dos Mosteiros entranha-se na pele da gente, disse-me Matos. A lestada. Eu já sabia mais ou menos que era aquilo. Nós do litoral do norte desta ilha éramos feitos da mesma penugem, até os cabelos da cabeça de crianças ficavam da cor castanho claro acaju e pontas espigadas por causa da água do mar todo dia. Criança não pode passar dia inteiro no mar, vociferava Mamãe, que não é bom para menino de escola porque enfraquece a memória. Meu tio, que era do tempo da escola de nhu padre, apanhava o livro deRobert et Nicole, enganava Mamãe que ia ler ao pé do mar ali à frente ou detrás da casa. Brisa do mar refresca a memória, dizia a velha. Mas recomendava que titio não ficasse ao sol, dizia, que ler ao sol cega os olhos, ficam fusco. Agora, cá entre nós, digam-me a verdade!, há coisa melhor do que ler ao sol da manhã dum sábado de Outubro sentado no parapeito da casa?

 
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