Letras da Diáspora

Leopoldina Barreto e Carlota Barros



Nos últimos anos, a produção literária da diáspora tem vindo a ganhar terreno no particular contexto caboverdiano, trazendo exemplos desde um poeta como Daniel Filipe ou uma contista como Orlanda Amarílis aos casos mais recentes de escritores e escritoras migrantes ou descendentes da chamada «segunda geração». Não se trata, neste pequeno texto, de discutir a elasticidade do conceito de diáspora, nem discutir a questão da nacionalidade dos sujeitos literários da diáspora. Mas, ilustrar tão-somente a intensa produção essencialmente marcada pela vivência nessa «décima primeira ilha» deste arquipélago transnacional.

Realce-se que, se o percurso da mulher migrante em si já se abria a um enorme e intenso leque de interrogações, curiosidades e perplexidades, também a mulher da diáspora tem vindo a assumir como um sujeito literário, que preserva e representa liricamente a nostalgia, a memória, os sonhos ou o desejo de regresso. E é assim todo um mundo maravilhoso de «sonhos sonhados» e de «metáforas sagradamente guardadas» que tem sido exaltado e rememorado, através da experiência da diáspora, dispersa por lugares insuspeitos do destino caboverdiano. Juntamente com outras vozes da diáspora, Leopoldina Barreto e Carlota Barros destacam-se pela maneira sensível e esteticamente como inventam uma escrita memorialista, da saudade e do amor à terra distante.

Leopoldina Barreto nasceu em Setembro de 1937, na ilha de São Nicolau, onde viveu até aos trinta anos de idade. Em 1967, emigrou com os seus dois filhos, ainda pequenos, para junto do marido na Suécia, passando a viver na cidade de Gotemburgo. Depois de aposentada das funções que exercia numa grande fábrica de confecções e com os filhos já formados, Leopoldina dedicou-se inteiramente à pintura e à escrita, tendo dado à luz três livros: «Monte Gordo» (romance, 1997); «A Ilha do Rei Titão» (infanto-juvenil, 2000); «As Vítimas do Amor Impossível» (romance, 2004). Construiu a casa dos seus sonhos, junto ao mar da Preguiça, onde passou longas temporadas durante os últimos anos da sua vida. Morreu em Abril de 2007, na Suécia. Os poemas soltos, a aventura infanto-juvenil e os romances de Leopoldina revelam a sua vivência no arquipélago e na diáspora, numa escrita feminina desafiadora do imaginário dominante sobre o lugar das mulheres na comunidade de origem e no mundo. Segue este poema sobre a sua aldeia natal, Preguiça.

Carlota Barros nasceu em 1942, na ilha do Fogo. Até aos oito anos de idade, viveu também nas ilhas de São Vicente, São Nicolau e Brava. Em 1950, com a família, partiu para Moçambique, tendo seguido, em 1957, para Portugal e, em 1966, para Angola já na companhia do marido. Em 1966, regressou à ilha de São Nicolau, tendo permanecido até 1974. Iniciou as suas funções de professora nessa ilha e em São Vicente, continuando a leccionar em Lisboa, onde concluiu a licenciatura em Filologia Germânica. Além de participar em algumas antologias e colaborar com alguns jornais literários, publicou três livros de poemas: «A Ternura da Água» (2000); «A Minha Alma Corre em Silêncio» (2003); «Sonho Sonhado» (2007), que já conta com uma edição trilingue (caboverdiano, português e inglês). Carlota vive em Portugal, sendo uma das dinamizadoras de actividades culturais e associativas da comunidade caboverdiana lisboeta.

Sonhei uma ilha

.
Sonhei uma ilha
onde a chuva
de madrugada
beijava os campos
.
……….
boca a boca.sonhei uma ilha
onde o coração do sol
sorria alegre
aos camponeses
.
……….
sorriso a sorriso.ao amanhecer
a chuva poisava
um beijo quente
na respiração dos monte
.
……….
suspiro a suspiro.e o azul do ar
sorria-me nas mãos
azul a azul
.
Carlota Barros


Leopoldina e Carlota conheceram-se em 1966, na ilha de São Nicolau. Separaram logo no ano seguinte, quando Leopoldina emigrou para Suécia, mas, dez anos mais tarde, as duas amigas reencontram-se em Gotemburgo, numas férias em família. Os laços que as uniam se estreitaram ainda mais. Tornaram-se duas escritoras e amigas, ambas com uma longa vivência na diáspora e um grande amor por Cabo Verde.