
Dionísia Velhinho
Utopicamente tinha pensado que em cinco dias ia conseguir dar conta do sucedido, mas, pelo andar da caminhada, apercebi-me de que vou precisar de mais diazitos para relatar este sonho. Bom, foi assim...
Nu kebra kel matacan de penedu kés botá dentu-l di nos Portu, reconstruímos a nossa Praça das Estórias, uma praça rasa para recordar a antiga praça do Porto. No lugar onde havia o Pelourinho, montámos dois pequenos Quiosques Turísticos simbolizando a ressurreição do monumento, bestialmente assassinado em meados da década de noventa do século XX.
Um camião de areia limpa e fresca encheu a baía negra de brilho. A Cooperação Japonesa desembarcou um barco de pesca todo branquinho na nossa baía. Salvador d’Kalina foi o primeiro a avistar o barco e logo recordou daquele tempo em que ele mesmo descobriu um Yate nas nossas águas e trouxe para repousar na nossa baía até que o dono veio buscar. Também recordou os bons anos em que a Landa repousava na baía, após uma boa pescada, trazendo peixes para o kaldu pexi da aldeia. Nunca dantes o nosso kaldu pexi teve tanto sabor de peixe! Então, por deliberação da Assembleia da Aldeia, o nosso barquito foi baptizado de Nossa Landa. Três lanchas de riscas passaram a descansar atrás da casa de Nhu‑Nuna e Nha‑Diminga para colorirem o Porto. Depois da ida ao mar, aparecem sempre pescadores enfadados que remendam as suas redes.
Falando nas praias da vila, a praia da Batalha recebeu como oferta um lindo projecto esboçado por jovens ambientalistas (brevemente, gostaria de partilhar convosco uma imagem da rejuvenescida praia da Batalha). Ainda esses jovens ambientalistas apresentaram o Plano B para a preservação das tartarugas que aninham nas nossas areias macias. Para além de que agora nenhum micaelense come carne das tartarugas ambulantes, conseguimos arranjar alternativas para a mulherada e criançada que extraia arreia nas nossas praias. Areia Branca voltou a encher-se de grãozinhos dourados; Cadjetona é agora a menina de todos os festivais.
No antigo pedra-pexi edificámos o Monumento do Pescador, com a figura do mais antigo pescador da aldeia, observando o estado do mar. Cabiote foi um pescador impar de toda a aldeia, aparecendo no monumento ku dos pé di kalça ramangadu, mô na kexada ta kuda ngratidon di txuba y maré kasabi. Ao lado do monumento, o escultor praiense concordou que gravássemos um poema do nosso poeta, especialmente poetizado para não esquecer o sofrimento do povo de boka‑portu. Para completar, a família boka-portuense passou a receber periodicamente as dez páginas da Revista de Boka-Portu. E a jornalista Aidé Carvalho criou um site na Internet, onde alojou o Jornal da Aldeia.
A casa do falecido Tio-Pedro passou a ser o Posto do Pescador, onde encontra-se tudo o que um pescador ou um turista armado em pescador precisa para a pesca. A antiga mercearia da parteira Maria Miranda, passou a ser a Loja dos Remédios, contendo um conjunto variado de chás e óleos tradicionais para o parto, o reumatismo e até para uma simples gripe febril. Também a antiga Farmácia do Porto e o antigo Posto de Saúde da Calheta ressurgiram nos lugares de outrora.
Zita continuou na sua casa, agora pintadinha de cores do mar. Os seus bordados e rendas tradicionais passaram a render tostanitos. Maria Djuzé reabriu as portas do seu cinema caseiro, oferecendo filmes de acção às sextas e telenovelas brasileiras nas noites de manso luar. Na Praça das Estórias, a criançada da vila passou a ouvir estórias dos avós aos sábados e, de quando em vez, aparece lá o Nhu‑Puxim para desabrochar as gargalhadas mais bonitas do mundo.
Na antiga loja do Sr. Olímpio e Nha-Liminha, Djá abriu uma Lojinha de Retalhos. Na antiga loja da família Vicente Luciano, surgiu a Cozinha de Boka-Portu, um pequeno restaurante onde só servimos pratos típicos: katxupa rafogadu ku longuiça y ovu streladu; peixe fresco grelhadinho; salada de variedade nenhuma; peixes e mariscos de diversidades incontáveis. A açukrinha tornou-se o docinho para todos os miminhos. Até há donas que querem abrir uma Açukrinheira!
A casa da família Vicente Luciano foi transformada na municipal Pousada das Sereias. O velhinho sobrado da família Velhinho Rodrigues passou a ser o Museu da Poesia, recebendo visitas nacionais e internacionais e grandes doações de obras para cultivar a cultura. Em vez de petróleo, na Loja do Pompílu, Cida passou a comerciar materiais de iluminação, com destaque para as lâmpadas económicas. Brincando um pouco para passar a mensagem, Cida fixou à frente da loja uma caixinha para a venda de preservativos (1 por apenas 5$. Ubááa!!! Há mais: no Posto de Saúde da Calheta é gratuito e confidencial!).
Polivalente Grande foi remodelado, podendo receber torneios de futebol, andebol, voleibol, basquetebol e atletismo. Polivalente Pequeno foi doado à Associação de Estudantes de São Miguel, onde a malta estudantil pode viajar pelo espaço ciber na total gratuitidade, e usufruir das boas leituras. Antes que me esqueça, eu e a kota Zabel abrimos a tão esperada Livraria Monteiro, no segundo piso da casa-cor‑de‑rosa, agora na sua feição moderna‑tradicional, tendo lá dentro um espaço para materiais escolares, um cantinho encantado para a criançada e um pequeno esconderijo de poesia ao sabor de um chá quentinho.
joviando
No final do dia, passamos a assistir futebolanda na areia do Porto, antes do desejado mergulho na baía da nossa infância. Aos sábados, temos sempre o sagrado futebol feminino, arbitrado por jovens de tão sábios conhecimentos futebolísticos.
ruas recém-nomeadas
Com a fundação de Rua da Holanda, a tonelada de boka-portuenses residentes naquele país europeu decidiu fazer uma vaquinha e procurar financiamentos extra‑especiais para calcetar a dita rua, bem como trazer contentores novos para arquivar os lixos vidoeiros, papeleiros e plastiqueiros.
joviando
No final do dia, passamos a assistir futebolanda na areia do Porto, antes do desejado mergulho na baía da nossa infância. Aos sábados, temos sempre o sagrado futebol feminino, arbitrado por jovens de tão sábios conhecimentos futebolísticos.
ruas recém-nomeadas
Com a fundação de Rua da Holanda, a tonelada de boka-portuenses residentes naquele país europeu decidiu fazer uma vaquinha e procurar financiamentos extra‑especiais para calcetar a dita rua, bem como trazer contentores novos para arquivar os lixos vidoeiros, papeleiros e plastiqueiros.
Foi uma chicosidade que a malta residente em França, desatinou e criou a Rua de Paris. Pouco tempo depois, nasceu a Rua de Lisboa. Entre estas ruas recém‑nomeadas, pode-se comer às quartas-feiras comida portuguesa, às quintas-feiras comida holandesa e às sextas-feiras comida francesa. Tudo na perfeita perfeição, com música ao vivo, que só um freguês ou uma freguesa avisado/a lembra-se de que afinal está na pacata vila da Calheta.
Para mata-bichar a população de boka-portu, Manuelon inaugurou a padaria Pão de Mar-ino, onde bolaxona e pão de sal saem directamente do forno para a manteiga. Zú não resistiu e meteu lenha no Forno da Titosa, alternativando com pão doce e bolinhos de areia.
batucando
batucando
Festival Funaná e Batuque voltou à sua aldeia, agora festivada em Cadjetona, iluminada por favas de luz. Sim, agora tudu mundu na areia ta sakuta nos tradison...