Nu ta ba Praia pa Somada!

Calheta y Kadjetona

Era uma vez, uma aldeia de nome Calheta. A  pequena povoação à beira-mar vivia da agricultura, da pesca e do comércio. Sabe-se que sucedera a Ribeira de São Miguel, antes centro do aglomerado. Prosperará na sequência da extinção do regime de Morgadio que era bem conhecido na Ribeira de Flamengos e na Ribeira de São Miguel. Embora a chuva nas costas da ilha maior seja muito caprichosa, Calheta também tinha uma grande ribeira de nome Kadjetona, onde no antigamente as águas cristalinas percorriam, durante quase todo o ano, em direcção ao mar. Kadjetona possuía grandes extensões de terras irrigadas, que marcavam a vida agrícola da pequena aldeia do interior de Santiago. Porém, na minha infância, tudo o que ouvia eram rumores da bonança dos anos idos. Nunca os meus olhos viram nada do que me relatavam. Apenas as cicatrizes nos vales e encostas, a secura da terra e o azul do mar que se estende até à vizinha ilha do Maio.

Entretanto, o meu bisavô Biariká, um velhote do século dezanove, entretinha-me com outras estórias. Falava-me das suas viagens à Santa Catarina, ao Tarrafal e à Praia. Falava-me da vida no campo, da vinda da chuva e da alegria de um bom ano agrícola. Falava-me das camponesas, dos lavradores, das peixeiras e dos comerciantes. De entre tantas estórias, recordo-me de uma onde o meu bisavô Biariká narrava a cobiça que o solo fértil de Kadjetona provocava nos homens de olho grande. Contava-me que em Kadjetona também havia uma ponte imponente de acesso à pacata Calheta. Todavia, nos anos de setenta ou oitenta uma tempestade na faixa sahelina, seguida de chuva e cheia imparáveis, derrubara uma parte da dita ponte. Depois de duas ou três décadas, foi finalmente reerguida, mas Calheta já não gozava de honras e privilégios... Kadjetona deste meu tempo somente oferece ondas gigantes para desportos radicais e uma extensa praia de areia negra para a festa da Cinza.

Calheta – Somada – Praia

Mas hoje, numa conversa no MSN, a minha prima Janisse confirmou-me com fotografias coloridas que, no domingo passado, foi finalmente inaugurada uma longa estrada asfaltada de Kadjetona à Flamengos, trepando pela via de Cruz Grande até à cidade de Assomada. Acrescentou chateadamente que na aldeia a população aguarda impacientemente pela via rápida de acesso à capital:
- Timenti strada ka fika dretu, nu ta ba Praia pa Somada!

 
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