Sexta-feira, 6 de Junho de 2008

I. “por motivo de parto”


“A Direcção da Escola Secundária Januário Leite, vem por este meio avisar aos professores e alunos da turma 11.ºC, Área Económico e Social, que a aluna Ana Rodrigues fica suspensa das aulas por motivo de parto. A mesma deverá pedir a anulação da sua matrícula para o presente ano lectivo(ver mais).

Directora Alda Maria Martins Lima


No passado dia 28 de Maio de 2008, uma jovem cabo-verdiana estudante do 11.º ano, na Escola Secundária Januário Leite, no concelho do Paul, foi convidada a anular a sua matrícula “por motivo de parto”. Indignada com esse amargo sabor da discriminação feminina nas escolas do nosso país, Ana Rodrigues escreveu uma carta para o Ministério da Educação e Ensino Superior, suplicando pelo direito de continuar os seus estudos, sem uma interrupção indesejada neste ano lectivo prestes a findar.

Fiquei furiosa ao saber da situação da jovem Ana, que, apesar de estar a enfrentar dificuldades económicas acrescidas, é uma das melhores alunas da sua escola, com uma média acima dos 17 valores. Ainda a poucos dias, na Feira do Livro de Lisboa, durante a apresentação da Revista Direito e Cidadania, uma distinta senhora de nome Ernestina Santos contestava a discriminação das jovens e adolescentes grávidas nas escolas cabo-verdianas, como que adivinhando o caso da Ana. Como tenho uma preocupação particular com a feminização do abandono escolar, principalmente no ensino básico e secundário, e com a elevada taxa de gravidez precoce, que condena as jovens e as adolescentes a abandonarem os estabelecimentos de ensino, muitas vezes definitivamente, não podia ficar calada perante este caso.

Desde quando andava no liceu, contestava o afastamento das grávidas dos estabelecimentos de ensino, o que tanto prejudica as nossas adolescentes e jovens surpreendidas por uma gravidez numa altura pouco aconselhada. Certamente, existem outras medidas possíveis de serem aplicadas para combater a gravidez precoce, como a educação para uma saúde sexual e reprodutiva responsável. Sabemos que o abandono escolar feminino e a gravidez na adolescência acabam por condicionar a própria situação das mulheres no contexto cabo-verdiano. Na ausência de uma formação académica ou profissional, as mulheres cabo-verdianas são praticamente excluídas do mercado de trabalho formal e procuram formas alternativas de sobrevivência e de sustento dos/as seus/suas filhos/as, sendo que essas alternativas, em grande medida, contribuem para perpetuar a sua subalternização de diversas formas.

33 Comentários:

Anónimo disse...

fiquei chocado! como é que isso ainda acontece? eu lembro que no meu tempo no liceu do Fogo algumas alunas passaram por esta situação. é uma triste verdade!

Alector

Dudão disse...

e que tal convidar a directora a meter a sua demissão pela sua falta de tudo (solidariedade, feminismo, cidadania, formação pedagógica, etc...)? isto é digno "dum roda baiana" bem à moda crioula!!! (vim recomendado pela Eileen).

Eurídice disse...

Oi Alector

Compreendo a tua indignação e sei como é complicado ver colegas a ficarem para trás por causa de uma gravidez. Também tive colegas que ficaram grávidas no Liceu e ainda não terminaram o secundário. No meio rural, onde as oportunidades são bem menores, o problema toma outras dimensões. Ao invés de estarmos a crucificar as nossas meninas e a pôr em risco o seu futuro, devíamos juntar as forças à procura de outras soluções. Somos modernos, avançados, etc. e mesmo assim não temos a capacidade para entendermos que estamos a contribuir para prejudicar aquelas que são surpreendidas pela gravidez numa altura em que deviam ser mimadas enquanto filhas.


Oi Dudão

Obrigada pela tua visita e também pela tua indignação! O mal deve ser cortado pela raiz: é preciso acabar com essa medida. Devemos combater a gravidez precoce com mais educação. Mais e muito mais educação…

Anónimo disse...

Acima de tudo a medida é INCONSTITUCIONAL! O pior é que até hoje, nada de concreto foi feito para por termo a essa situação vergonhosa. GE

Anónimo disse...

Oi Euridice,

Desculpe a longa ausência -- vi-te arrasar na TCV; gostei!

Bom trazeres este assunto tão pertinente como trágico aqui para discussão. No entanto, aí está um problema que começa antes (não sei bem quando) já com a própria gravidez. Se se permitir a "descriminação" negativa durante a gravidez, como não continuar com o mesmo tratamento depois do nascimento da criança? Pelos vistos precisamos tanto educar os/as nossos/as adolescentes como os próprios educadores, legisladores e afins.

Mulhes, sempre
tão maltratada
tão malquerida
mas, sempre, sempre
junto connosco.

Vos ammmmmmmmmmmmo!
PM

Eurídice disse...

Oi GE

O acesso à educação é um direito reconhecido no ordenamento jurídico nacional e internacional. Sendo assim, não se justifica a procura de argumentos (muitos deles tresloucados) para usurpar um direito que devia ser antes garantido. Claro, preferimos que as nossas meninas cresçam com saúde, amor e dignidade e que deixem para mais tarde a responsabilidade maternal. Mas quando isso acontece antes do tempo desejável, acho que devemos tentar atenuar a situação e não torná-la mais complicada.

Caramba! Alguém já se colocou na pele das jovens e adolescentes que passam por essa situação?! Ou não importa quando contribuímos para a infelicidade ou a exclusão de mais uma?


Pedro,

Nem te vi lá na capital! Telefonei, mas o telefone sempre ocupado... Gostei dos teus versos! Nesta mesma onda, também há um outro verso de que gosto tanto: “… mulher esquecida…”.

Anteontem, em Lisboa, um amante da poesia, confessava a mesma admiração pelas mulheres… falava da sua mãe Nhanhá, da sua avó Nhanhá Grande e da sua ama de leite Dadá. Falava apaixonadamente sobre essas três mulheres da sua vida.

Se as nossas mulheres fossem tratadas como na poesia e nas canções, elas não teriam razões de queixa. Infelizmente, a realidade é bem diferente e, apesar dos avanços registados, ainda existe uma descriminação clara em relação às mulheres nas nossas ilhas.

Paulino Dias disse...

Eury,

Mais do que denunciar, sugeria fazer o seguinte: organizar uma peticao on line ou movimento dos blogueiros para pedir a Ministra o cancelamento desta medida, de forma a permitir a aluna terminar o ano lectivo.

Abracos,
Paulino

Eurídice disse...

Lino,

Excelente ideia!

Sim, podemos fomentar um movimento d@s blogistas e organizar um manifesto (com subscrição online) a favor da jovem que se encontra nesta situação, avançando até no sentido de sugerir uma revisão da tal medida discriminatória.

Vou te enviar um email daqui a pouco...

Bjs
Eury

Anónimo disse...

nossa e que horrivel esta expulsao "por motivo de parto"... que coisa mais louca... e nao há o que fazer?

ERNESTINA disse...

Obrigada pelos seus mails, Eurídice. Quando avançar a petição, conte comigo. Não chega deixarmos a nossa indignção inscrita no Liberal on line ou aqui no seu blog. Por isso, avante com a ideia para se erradicar de vez com essa medida herdada dos colonialistas.
Ernestina

Eurídice disse...

Olá

Foi breve o nosso encontro em Lisboa, na apresentação da Revista Direito e Cidadania, que quando vi o seu comentário-protesto no Liberal, não hesitei em enviar-lhe um email.

Quanto à petição, ainda é apenas uma ideia, lançada pelo Paulino Dias, que seria bom que fosse para frente!

Todas as outras sugestões seriam úteis para mostrar a nossa indignação com essa medida, que contribui apenas para incentivar o abandono escolar.

1 abraço
Eury

Anónimo disse...

Olá a tod@s,

Em primeiro lugar, uma decisão de expulsar uma estudante de uma escola por estar grávida é no mínimo um atentado à democracia em Cabo Verde!

Gostaria de começar por dizer que a Escola Secundária Januário Leite, no Paúl, deve estar a comemorar os 20 anos de existência. Quando foi instituída, no concelho do Paúl, foi um autêntico passo de gigante no ensino de muitas jovens e de muitos jovens que antes teriam de percorrer entre 10-15km para estudar no concelho vizinho de Ribeira Grande.

Voltando a decisão de explusão. Quem tomou a decisão? Quem é o responsável? Uma mulher? Um homem? Trata-se de uma decisão isolada? Ou outras jovens já foram expulsas no passado? Provavelmente, a decisão foi tomada com base num "manual da cegueira", ou seja, um regulamento interno totalmente inconstitucional. Neste caso, a mulher ou o homem que tomou a decisão preferiu dar voz as palavras mortas do seu manual em vez de escutar a razão e pensar no mal que iria causar a jovem Ana. Quem tomou a decisão tem filhas? Tem filhos? Provavelmente, não!

E o pai da criança? Ele é aluno da escola? Se ele for aluno na mesma escola, a coerência da incoerência ditaria também a expulsão do pai, pois ele também está "grávido". A responsabilidade pela criança é partilhada pelos dois, logo as consequências também. Mas, não nos deixemos guiar por incoerências sem rosto.

Espero que a Ana tenha oportunidade de voltar para a Escola Secundária Januário Leite e concluir os estudos. É claro que os responsáveis pelo transtorno causado devem ser criminalmente responsabilizados pois as invisíveis consequências na saúde da Ana e da bébé podem ser estruturais para o desenvolvimento da criança.

De um paulense indignado,
Juscelino Almeida Dias

Kuskas disse...

Euridice
Sou testemunha da medida adoptada em Cabo Verde de expulsão(no meu tempo de Liceu) e agora suspensão por causa de gravidez.

Ainda no liceu em 1993, uma colega minha perdeu o ano lectivo a dois dias do término do mesmo. Ela era uma excelente aluna. Para não perder o ano ela fez os exames a todas as disciplinas como aluna EXTERNA. Hoje ela é formada e teve o 2 filho o ano passado.

No caso dessa miuda do Paul eu reconheço que foi muito cruel o que fizeram.
Mas eu sou da opinião que a escola NÃO é o meio apropriado para uma gravidez. Só quem já passou por uma gravidez e um parto o pode dizer.

Conheço garotas que tiveram filhos ainda a estudar e tiveram que voltar para as aulas 2 dias após o parto. Não é à toa que existe licença maternidade. Dar luz a um filho deixa o corpo e a mente da mulher exaustos.

Uma vez o ex Ministro da Educação Victor Borges diz, que várias são as pessoas e politicos que reclamam que a medida de suspensão das alunas é INCONSTITUCIONAL, mas que ele nunca viu ninguem se dirigir aos sitios proprios para invocar isto.

Os nossos alunos, crianças e adolescentes tem hoje toda a informação possivel e imaginavel sobre a sexualidade e sobre como evitar uma gravidez precoce. No meu tempo, a minha professora de Ciencias foi quase crucificada pelos pais e alguns professores da altura, por ela nos ter levado ao PMI.
De todas as minha colegas de turma somente 2 foram mães enquanto adolescentes.

É preciso ver como lidar com essas situações. Suspensão pode não ser a mais correcta, mas a convivencia de uma gravida no meio escolar de certeza não é.

Experiencia propria....

Anónimo disse...

Este assunto entitulado "por motivo de parto" está a suscitar um debate interessante.

Eu diria que a discussão não é "por motivo de parto", mas sim "por motivo de gravidez".

Eu não concordo com a incompatibilidade entre a gravidez e a frequência de aulas.

Cabe sempre a (futura) mãe avaliar se tem ou não condições de continuar a frequentar as aulas.

Cabe a escola pública ou privada, como instituição responsável, aceitar que a mãe possa fazer os exames sem a frequência das aulas, caso essa frequência não põe em causa o sistema de avaliação na escolha. Mas este condicionamento não pode ser avaliado de forma imprudente!

Quem vive numa sociedade como a cabo-verdiana não pode "tapar o sol com a peneira" e encarar a gravidez como uma "doença".

Qual a principal consequência da incompatibilidade entre uma gravidez e a frequência de aulas, numa escola pública ou privada?

Entre muitas questões inquietantes está o ABORTO! Será que a sociedade aceitaria que uma jovem fosse "obrigada" a fazer um aborto para continuar a estudar?

Não! Mesmo com a carga psicológica da gravidez, é possível uma compatibilização com a escola. Mas para isso é preciso APOIO para que os nove meses sejam vividos com emoção e cultura!

Atenção: a gravidez pode não ser uma "obra" do acaso, um "accidente de percurso", ou uma coisa pior. A gravidez pode ser planeada!

Viva uma sociedade justa, adaptada às novas exigências do século das mulheres! Que as mulheres sejam mais mulheres e que os homens estejam à altura de aceitar a igualdade, assim como as mulheres devem aceitar os homens como iguais!

Juscelino A DIAS

Valdevino Bronze disse...

Oi Eurídice!

Achei muito interessante essa discussão, a ideia do Paulino (a qual subscrevo e disponibilizo-me a ajudar), mas uma coisa curiosa não foi ainda focada: - O Facto da directora da Escola ser uma mulher. De certo, não será com M grande, mas é mulher. Destas que já baixaram os braços e deixam-se subjugar. Destas que consideram a questão da afirmação das mulheres "um caso perdido" ou uma realidade inatingível. Daquelas que se comportam de forma ainda mais machista que certos homéns. Daquelas que acham que o rapaz (dito, pai da criança) só fez o que tinha de ser feito, e a única "culpada" por esta "horrível situação" (leia-se gravidez, em casos ditos normais)é a Ana, logo, o regulamento interno da Escola Januário Leite é claro!
Gosto do teu blog.
Vavá

Valdevino Bronze disse...

P.S. que me enviem instruçoes sobre como participar da petição para bemdzide@gmail.com

Vavá

ERNESTINA disse...

Há duas situações que não devem ser confundidas, pois são totalmente diferentes. Uma coisa é a escola não ser o local adequado para o desenvolvimento de uma gravidez de uma adolescente, cujo corpo ainda estará a desenvolver-se para atingir a devida maturidade. Outra coisa é expulsar uma adolescente da escola porque ficou grávida, apenas porque o poder assim o determina. O facto é que essas adolescentes são normalmente oriundas de famílias carenciadas e, se for preciso, no próprio dia do parto estão já a mexer-se em casa e logo de seguida a trabalhar no que for preciso - e o seu corpo também não está preparado para isso. Não concebo medidas ditas de protecção dirigidas especialmente a adolescentes grávidas que estão a estudar. Infelizmente, na prática não há qualquer medida que lhes garanta um desenvolvimento harmonioso em qualquer outra situação. A gravidez não é planeada nem quando estão a estudar, nem quando não estão, mas o problema cai-lhes em cima com todo o peso da responsabilidade, que elas são forçadas a assumir geralmente sós. Os miúdos nas ruas a roubarem não vão ser proibidos de ir à rua, pois não? O que todos sabemos é que há um défice enorme de investimento na área social, que vise a preparação dos jovens para enfrentar a vida com dignidade e responsabilidade. E há que começar desde a mais tenra idade, como quem planta uma semente. Os recursos são escassos? É verdade, mas os jovens são o futuro do País!

Anónimo disse...

Embora vejo a maioria a declararem inconstitucionalidade e injusteza da medida e eu simplismente digo que não concordo. A suspensão e não a expulsão é uma medida tomada não para protejer a menina mas sim os seus colegas, o que é perfeitamente aceitavel. Por acaso já imaginarem a influência que essa jovem podia provocar nos outros colegas a seguirem o mesmo caminho?! É claro que num mundo ideal está jovem poderia continuar a sua educação com o apoio dos professores a partir de casa, ou em outro recinto mas não na mesma circunstancia. No meu tempo havia uma colega minha que apertava a bariga com medo que as pessoas descubricem que estava gravida. Imagina o risco que isto apresenta para a criança e a própia mãe. Para além disso parece que é comum que as meninas mudam o seu estado de temperamento, emocional e em geral psicológico quando estão gravidas, o que muitas vezes entra em conflito com o ambiente desejavél numa sala de aula e em recinto escolar. Para concluir é claro que não é aceitável que uma menina perca um ano escolar apenas por estar grávida, mas também não é aceitável que continuam a frequentar o mesmo recinto escolar, e muitas vezes dando a ideia aos colegas que é “normal” engravidar quando ainda é uma “criança”. Assim não há formação social que aguenta.

Eileen disse...

Dizer que os jovens têm educação sexual e que sabem que não devem engravidar enquanto estudam é meio utópico... eu considero muito, muito fácil engravidar-se - basta que se tenha vida sexual activa. Pode-se usar o preservativo, sim. Quantos de vocês nunca o viram romper-se ou ficar perdido em combate? Pílula? Sim. Custa dinheiro, denuncia-nos. E se nos esquecermos? E se vomitarmos depois de a tomar? E se pertencermos àquela percentagem mínima para a qual ela falha? Não, minha gente, a gravidez só se evita com abstenção sexual, e olhe lá: sem brincadeirinhas na borda da coisa.

Portanto, pode sempre acontecer a uma adolescente ficar grávida. Foi ela que quis? Certamente que não. Deve ser crucificada por isso? Decidam vocês. Eu acho que não.

Já ouvi vozes dizerem qualquer coisa como "Unh, não me parece que fique bem ter grávidas a conviver com outros alunos..." Porquê, pergunto? Dá um mau exemplo? Serei inocente quando penso que pode até funcionar do outro jeito: a grávida sente-se mal disposta, a grávida não pode participar nos jogos violentos; quando o bebé nascer, virá com umas olheiras enormes por estar a perder sono... e as despesas... é melhor adiar...

Uma futura mãe precisa, mais do que ninguém, de meios para ganhar a vida e sustentar a cria. Negar-lhe as ferramentas para isso parece-me uma maldade injustificável.

Kuskas disse...

Continuo a dizer que o recinto escolar, seja ela publica ou privada não é o adequado para uma gravidez se desenvolver.

É maldade explusar uma adolescente da escola a poucos dias do termino do ano lectivo? É SIM, mas digo-vos que ainda é melhor para a adolescente passar a gravidez fora da escola e isso pela simples razão que ela é tratada da mesma forma que as outras que não estão grávidas( a saber nas aulas de educação fisica). Gravidez não é doença, mas requer cuidados que as nossas escolas não tem disponiveis.

Que moral ou se quiserem que argumento os professores e pais vão utilizar perante os outros adolescentes sobre ter filhos antes da maioridade, se eles veem algumas colegas gravidas na escola????


Gravidez planeada na adolescencia???? Desde quando uma criança ou quase criança planea ter filhos?

Eu tive meu filho com 30 anos e foi porque, como alguem aqui disse, a camisinha ficou por lá perdida. Foi planeada? Não! Tinha planeado ter um filho agora em 2008, mas devido ao "acidente" tive que re-planear a minha vida. Foi duro para mim, que sou adulta, independente financeiramente, imagino como deve ser para uma miuda de 14,15,16 anos que nem sabe ainda o que quer da vida....

Sem duvida a abstinencia é a melhor forma de evitar uma gravidez, mas que os nossos adolescentes de hoje tem de longe mais informações e meios para evitar uma gravidez e outras doenças la isso tem.

Eurídice disse...

O que podemos fazer?

Sim, com a ajuda de tod@s, vamos avançar com a petição e, neste momento, estamos a trabalhar para isso. Agora, imaginem o quão macabra é a tal medida e a própria nota daquela Directora da Escola Secundária Januário Leite!... Estamos a matutar sobre isso. E tudo faremos para contribuir de alguma forma para brotar um sorriso na face da Ana. Sabemos que é difícil conseguir uma solução positiva e imediata para a jovem Ana, mas mesmo assim vamos exigir uma oportunidade para a jovem e uma revisão da medida.

Esta noite vou passar em branco a reler os relatórios de Cabo Verde e a procurar palavras para ajudar a rabiscar algumas ideias para o manifesto, que será aberto para subscrição pública. Para isso, contamos com a ajuda de tod@s. Escrevam nos vossos blogs e nos jornais, mandem bocas no café, etc.! Convidem as pessoas a subscreverem o manifesto quando estiver pronto!

Juscelino (1), pois parece que quem institucionalizou a referida medida não pensou no mal que poderia causar às jovens e adolescentes que enfrentassem essa situação. Supostamente, pensaram no bem das jovens e adolescentes do nosso país. Infelizmente, acabaram por transtornar tantas vidas. Seria bom que alguém fizesse um estudo sobre o impacto dessa medida na vida das jovens e adolescentes atingidas por essa medida… Quanto ao pai da criança, é comum ouvirmos que quem carrega a criança na barriga é a mulher. Portanto, estupidamente, a maldita medida cai em cima da cabeça das miúdas. O pai… Eu prefiro não entrar por aí, porque, como sabemos, em Cabo Verde, para muitos homens, é fácil ser pai. Claro, o peso continua a cair nas costas das mulheres, que, muitas vezes, são obrigadas a assumirem duplamente a responsabilidade pela sua cria. E a nova geração o que pode fazer para jogar no lixo essa vergonha histórica?...

kuskas (1), eu também sou da opinião que o ideal é ser mãe após a formação, após a maturidade plena. Porém, quando a maternidade chega numa idade precoce? As pessoas devem ser tratadas como pessoas, tendo em atenção as necessidades especiais, as dificuldades e os obstáculos da vida e nenhuma medida devia ser estabelecida “cegamente”. Até parece que não nos interessa o mal que podemos causar a outras vidas. Parece-me que a suspensão por motivos da gravidez ou do parto são mais graves do que se houvesse um tratamento especial para as jovens e adolescentes que são surpreendidas por uma gravidez antes do tempo desejado. São nesses momentos difíceis que as jovens e adolescentes mais precisam da família, da comunidade e das escolas. Por que vês com maus olhos a convivência de uma grávida no meio escolar? Não achas que seria terrível uma grávida ser mandada para casa? Bom, tenho uma opinião contrária. Acho que essas grávidas deviam ser incentivadas a estudar para garantirem o seu futuro e o da sua cria.

Juscelino (2), o título deve-se à justificação da Sra. Directora da Escola Secundaria Januário Leite. É cómico, pois não?! Se a gravidez fosse uma doença, pelo menos em Cabo Verde ela não seria. “Ai se fosse! O que seriam das mulheres das ilhas? Trabalham do primeiro ao último dia da gravidez... Outras trabalham até à hora do parto.” A medida imposta nas escolas parece que incentiva a prática do aborto ou, no mínimo, obriga as miúdas a esconderem a gravidez com o medo de serem convidadas a sentarem em casa a fazer sapatinhos de malha para a cria. Juscelino, estavas por demais inspirado no último parágrafo: que assim seja e que as mulheres tenham condições para viverem com dignidade e justiça!

Valdevino, nem me lembre que essa bruxa é mesmo uma mulher! A maternidade nunca deveria ser usada para humilhar as mulheres, para reprimi-las, para condená-las. E isso dói-me mais quando vejo que são as próprias mulheres a atirarem a pedrada.

Ernestina, muito bonito o seu comentário.

Anónimo, o nosso desejo maior é que não haja discriminação das jovens e adolescentes por motivo de gravidez ou parto. Que sejam encontradas outras soluções, mas a suspensão não. Basta!

Eileen, pois o controlo social que existe em Cabo Verde e a forma como a sexualidade é encarada complica ainda mais. É preciso investir na educação para uma saúde sexual e reprodutiva responsável!... Achei bonita esta expressão: cria.

kuskas, por isso mesmo que é necessário um tratamento especial para as grávidas e não um convite para a exclusão. A escola pode educar o resto da malta a dar um tratamento especial às jovens e adolescentes que enfrenta a situação delicada. Com todos os males que andam neste mundo, apenas a educação pode salvar a malta estudantil dos flagelos. É preciso ter cuidado com esse tipo de discurso, porque podemos fomentar outras discriminações. Agora, aproveito para te perguntar, se fosses directora da escola A, o que farias se detectasses casos de adolescentes ou jovens com uma orientação sexual diferente da norma? O que farias com um gay ou uma lésbica na escola A?


Um abraço a tod@s e que seja encontrada uma solução humana para tratar as grávidas nas escolas cabo-verdiana (!).

Eury

Jairzinho disse...

Ciente de que se trata de um entre muitos outros casos similares que têm vindo a repetir no panorama escolar cabo-verdiano e que, se nada for feito para inveter a situação, muitos outros ocorrerão, declaro que me identifico com essa a onda de protestos desencadeado neste blog. Não posso deixar de felicitar a iniciativa da Eurídice por ter trazido o caso á ribalta.
Quanto à proposta do distinto Paulino, considero urgente a sua concretização. É preciso dizer basta.

Cabo Verde goza de uma boa imagem no cenário internacional. As instituições políticas do país subscerevem os principais documentos que, sob os auspícios da Comunidade Internacional, fazem fé nos princípios que garantem as liberdades e os direitos fundamentais dos cidadãos.
O caso em questão catapulta-nos para o campo do direito à educação e da igualdade e equidade de géneros.
Infelizmente, casos como este, deixam-me cada vez mais convencido de que um é o país do qual a imagem se vende nos discursos políticos e no exterior e um outro bem diferente é o país real.
Pouco é o investimento feito com vista a garantir uma sólida educação sexual, mas os mecanismos de "punição" são sempre accionados com uma celeridade espantosa e de forma mais injusta e desadequada. Onde para o direito à educação da adolescente em causa? E a tão badalada educação para a cidadania? Será que ela perdeu tais direitos pelo mero facto de ter enfrentado uma gravidez? O desfecho (ou a forma como o caso está a ser conduzido)deixam-me apenas duas opções nas minhas conclusoões: ou não se é honesto na subscrição de certos documentos e na elaboração de certos planos de acção no campo dos direitos do cidadão; ou estamos perante pessoas que subscrevem documentos de cujo conteúdo não percebem. Mas entre a ignorãncia e a falta de sensatez, penso que impera a falta de boa vontade para melhorar as coisas. O modus operandi em causa é reprovável, a medida disciplinar (se é que se lhe deve assim chamar) é inaceitável num país que reclama para si o estatuto de "país de desenvolvimento médio" e deseja parcerias especiais com a União Europeia.
No plano teórico as coisas as coisas podem até ser razoáveis, mas não há desenvolvimento sem desenvolvimento humano. Quanto à razoabilidade da teoria, é caso para dizer "palavras, palavras, leveam-nas o vento"-

Itzel disse...

C’est l’avenir d’un pays qui est questionné lorsque les jeunes sont exclues de leur droit à l’éducation. Ceci est de plus une remise en cause du propre système éducatif et la capacité du pays d’encadrer sa jeunesse. Par cette lamentable initiative d’isolement de la jeune Ana Rodrigues, le Cap-Vert macule son image de pays de développement moyen par cette décision anti-démocratique et s’affiche de la sorte comme un pays qui se lave les mains sur les problèmes sociaux qui touchent les plus défavorisées sur l’échelle sociale, c'est-à-dire les jeunes, pauvres et femmes.
En consultant les annales, on s’aperçoit que cette farouche tentative d’exclusion a été tenté dans d’autres états, ayant eut pour base un argument commun qui consiste à dire que la présence d’une élève en ceinte dans un établissement scolaire a une influence négative sur les autres élèves, en particulier sur les jeunes femmes qui interpréteraient cette présence comme une incitation à la procréation précoce. En effet, cet argument avancé par certains parents d’élèves, cadres administratifs et professeurs est basé sur un a priori absurde qui semble vouloir brosser la grossesse comme une maladie contagieuse en risque de devenir une épidémique! Il serait néanmoins important de rappeler à ces derniers, que la responsabilité de l’éducation de leurs enfants leur appartient, notamment en ce qui concerne leur éducation sexuelle pour qu’ils puissent devenirs des hommes et des femmes complets. Par ailleurs, l’alarmisme ne se justifie d’autant moins si l’on s’en tient aux propos et accomplissements des jeunes capverdiennes qui témoignent dans ces dernières générations d’une regorgeante envie d’émancipation.

Kuskas disse...

Euridice, podes crer que se os directores e professores tivessem como ajudar as alunas grávidas, eles o fariam. Se fosse eu a Directora do Liceu do Paul, deixaria a miuda terminar o ano, porque como eu já disse é MALDADE convidar a menina nesta altura do campeonato a suspender a matricula.

Engana-se quem é da opinião que é o facto de ser "suspensa" das aulas é que faz a adolescente abandonar os estudos. Na maioria das vezes é "QUEM VAI CUIDAR DA CRIANÇA QUANDO NASCER" é que determina a continuação dos estudos.
Tive uma irmã que ficou grávida no liceu, ela perdeu o ano lectivo e digo-vos que ela só continuou a estudar porque teve opoio da familia. Se meus pais fossem daqueles que pensam que uma vez que tiveste o teu filho, agora desenrasca-te para cria-lo, minha irmã não teria sequer terminado o liceu.

A escola, os professores podem até ajudar, mas quando nasce a criança é que são elas, é que os problemas começam, pq na maioria das vezes essas mães são oriundas de familias muito carentes e o que antes era para a miuda (comida, roupa, escola) rever-te para o bébe.

Sou conservadora sim neste aspecto. Há que ser encontrado uma solução para este problema (gravidez precoce) que existe desde sempre no nosso pais. a Suspensão pode não ser a ideal, mas é a que foi encontrada até agora.


Quando a diferença de opção sexual, minha vida inteira fui chamada de lésbica, portanto errado estarão os directores de escolas e liceus que discriminarem os alunos que possuem opção sexual diferente da maioria. Não sou preconceituosa, respeito a livre escolha dos outros, bem como as opiniões diferentes das minhas.

Eurídice disse...

Boa tarde,

Felizmente, a razão está do nosso lado. Encontramos apoio no próprio ordenamento jurídico nacional e internacional. Tudo o que o Parlamento legislou está a nosso favor, tudo o que o governo enche a boca para dizer está a nosso favor, todas as reivindicações do Instituto de Igualdade e Equidade de Género estão a nosso favor, tudo o que a Comissão Nacional para os Direitos Humanos e a Cidadania proclama está a nosso favor… Essas instituições não são capazes de defenderem a discriminação nas escolas do nosso país, justamente o país que tanto respeita os direitos humanos consagrados, que, a custo de muitos dissabores, as mulheres cabo-verdianas conquistaram (pelo menos, na lei). Não é mais concebível a discriminação em função do sexo, muito menos no que se refere ao acesso à educação.

Queremos que alguém nos venha dizer que estamos errad@s por levantarmos a voz contra a violação dos direitos humanos!

Valdevino Bronze disse...

Eurídice..jam po nhá post...aconselho a toda a malta a colocar um post sobre isto. Aguardemos pois para amanhã. Prometi tinta indelével para toda a malta que assinar o "manifesto". subscreves ou elevas a fasquia?

João Branco disse...

O Margoso já fez o seu eco ruidoso. Abraço!

Filinto Elísio disse...

Essa norma vigente, claramente incosntitucional e lesiva da "boa imagem" que se tem de Cabo Verde, precisa ser banida. Uma grávida precoce carece de educação, apoio e protecção. O bom encaminhamento às jovens grávidas é um índice de civilização. E essa visão machista e falocrata da Mulher, da Educação e da Moral já nâo devia ter vez, nem vos em Cabo Verde. É conservadorismo estéril e esreito de quem não acompanha o sentido da Modernidade. Apoio a ideia da petição!

Eurídice disse...

Maravilha!

A petição avança amanhã. Cada um vai espalhando pelos seus contactos, pelos blogs, pelos jornais, pelos cafés, bares, etc.

Bjs
Eury

Virgílio Brandão disse...

Eury, se me permites a sujestão, a Petição deveria ser enviada a Assembleia Nacional, pois esta matéria extravasa as competências constitucionais do poder executivo.

Mais, como se trata de uma situação de discriminação em razão de situação de género, deveria ser enviada à Procuradoria Geral da República que deve(rá) fazer uma investigação sobre esta matéria, não somente nesta Escola em particular mas em todo o país.

Até porque, sou da opinião que neste caso em particular se está (sem sombra de duvida) perante um crime de coacção contra a Ana Rodrigues.

Beijos, Virgílio

Anónimo disse...

Sou cabo-verdiana e participo com a minha opinião sobre a situação das jovens mães estudantes no nosso país.

Na minha visão, é urgente uma formação de base, ou seja, trabalhar a dimensão de Ser Pessoa, a relação do género, o respeito por si e pelos outros, algo que não se valoriza por vezes entre os jovens.

Considero que não é com o afastamento do estabelecimento do ensino que faz com que os adolescentes se tornem responsáveis no controlo da sexualidade e à gravidez precoce.

Já fui professora da Formação Pessoal e Social, em Cabo Verde, e vi que a situação é complexa, porque a maneira como é leccionada a disciplina não é a mais indicada.

Por isso, dentro da minha humilde participação, penso que é preciso uma formação para a cidadania e a relação de género de base, ou seja, desde do seio da família, aos outros agentes socializadores e encarregado da educação.

Paulina Mendes Gonçalves

Toni Aguiló disse...

Con esta administrativa estamos ante un caso, una vez más, de criminalización y persecución de las mujeres. Se trata de una discriminación terrible en el ámbito de la educación, que penaliza a las mujeres, quitándolas sus oportunidades formación y fomentando el abandono escolar femenino. En mi comunidad autónoma (Baleares) de eso sabemos mucho: tenemos la mayor tasa de adolescentes con embarazos no deseados de todo el Estado. Muchas de estas mujeres son inmigrantes, por lo cual muchas veces padecen una triple discriminación: son mujeres, embarazadas e inmigrantes.

La educación no sólo es (o debería ser) un ser servicio público, sino también un derecho humano fundamental.

Por todo ello no podemos permitir que esto siga pasando, en Cabo Verde ni en ningún otro lugar del mundo. Hay que poner todos los medios para la promoción de las mujeres, sobre todo en la educación, y tratar estas situaciones con formación e información (sexual, reproductiva, sobre salud...) De lo contrario las mujeres seguirán siendo culpabilizadas, apartadas, marginadas... Una sociedad que no cuenta con las mujeres no es democrática

catarina disse...

Eu já deixei o meu eco no margoso, mas não consigo deixar de me pronunciar com a opinião daquele anónimo... deixou-me ainda com menos ar que a própria medida!

Temos mesmo que rever estas ideias: uma grávida torna-se perigosa para o bom ambiente escolar porque tem alterações hormonais??? Quer dizer que as grávidas deixam de se poder relacionar em sociedade??? Que ideia é essa???

Influência nos outros? Os outros vão todos achar que é fixe estar grávida??? E vão todos engravidar???

Que estigmatização é essa??? Desculpe, mas que ignorância é essa???