Cidades-Porto
Na passada segunda-feira, dia 7 de Janeiro, fui até a Universidade Nova de Lisboa para assistir à defesa da Tese de Doutoramento em História do candidato doutoral António Correia e Silva, intitulada Os Ciclos Históricos da Inserção de Cabo Verde na Economia Atlântica: o Caso das Cidades-Porto (Ribeira Grande e Mindelo), sob a orientação científica do Prof. Doutor José Medeiros Ferreira. A arguente externa foi a Profa. Doutora Maria de Fátima Dias (Universidade dos Açores). A mesa de júri foi presidida pela Profa. Doutora Amélia Andrade. Ainda fizeram parte da mesa de júri o Prof. Doutor Fernando Rosas, o Prof. Doutor Fernando Victor Matos, o Prof. Doutor Fernando José Telo e o Prof. Doutor Fernando António Carvalho.
A presente tese procura compreender o nosso contexto insular, mostrando que por si só a posição geográfica não confere valor estratégico a nenhum país. Numa análise cabo-verdianocentrada e vendo Cabo Verde na linha do “equador náutico”, o Sociólogo e Historiador António Correia e Silva frisou as relações sócio-económicas estabelecidas nas cidades-porto, dando destaque à antiga Ribeira Grande e ao Mindelo. De modo geral, o candidato doutoral procurou compreender a história de Cabo Verde num quadro oceano-atlântico, tentando abrir um campo de reflexão multidisciplinar para uma “Sociologia dos Arquipélagos” e para o fortalecimento da historiografia cabo-verdiana. Como qualquer prova académica, houve momentos de grandes elogios e de críticas em relação ao trabalho realizado. No final da prova, tendo superado os momentos mais árduos, o candidato de origem cabo-verdiana foi aprovado com Distinção e Louvor.
Amílcar Cabral
Nesta sexta-feira, dia 11 de Janeiro, aqui na Universidade de Coimbra, fui assistir à defesa da Tese de Doutoramento em História do candidato doutoral Julião Soares Sousa, intitulada Amílcar Cabral e a Luta pela Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde, sob a orientação científica do Prof. Doutor Luís Reis Torgal. Para além da presença sombria dos Reis de Portugal e da moderação do Vice-Reitor da Universidade de Coimbra Prof. Doutor Pedro Manuel Tavares Lopes de Andrade Saraiva, também a arguente externa Profa. Doutora Isabel Castro Henriques (Universidade de Lisboa) e o arguente externo Prof. Doutor José Carlos Venâncio (Universidade da Beira Interior) estiveram de olhos nos olhos do Julião Sousa Soares. Ainda fizeram parte da mesa do júri o Prof. Doutor João Marinho dos Santos, o Prof. Doutor A e a Profa. Doutora B.
Após oito anos de investigação científica, o Historiador e Poeta Julião Soares Sousa entrou pela Sala dos Capelos para debruçar sobre Amílcar Cabral, numa perspectiva africana (ou seja, a partir de dentro). Durante os 150 mn da prova, várias questões foram abordadas, sendo de destacar: a socialização de Amílcar Cabral; o despertar da consciência política de Amílcar Cabral; a vida literária de Amílcar Cabral; o nacionalismo no espaço ex-colonizado por Portugal; o materialismo histórico e o marxismo; o espírito unificador de Cabral; a unidade Guiné e Cabo Verde; a proximidade e as singularidades históricas da Guiné e Cabo Verde; a problemática ideológica; os problemas de liderança enfrentados por Cabral; a dessacralização dos chefes africanos; a actualidade da filosofia política de Amílcar Cabral. Entre as novas pistas de reflexão, foram destacadas nomeadamente a importância de uma análise sobre “as representações, as interpretações e os mitos cabralianos” e sobre “o género na perspectiva de Amílcar Cabral”. Durante a arguição desta prova académica, foram destacados os pontos fortes e fracos do trabalho realizado. No final da prova, tendo respondido às questões colocadas, o candidato de origem guineense foi aprovado com Distinção e Louvor (sendo o primeiro guineense a doutorar-se pela Universidade de Coimbra e o segundo africano a doutorar-se através da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra).
3 Comentários:
Então os africanos não andam numa de doutoramentos... Obrigada por estas notas, Eury.
Podes dizer um pouco mais do que captaste em relação a Cabral e ao género?
Olá Eileen
O que vale é que o número de african@s com doutoramento tem vindo a crescer subitamente (soma sempre positiva!). Já temos um bom cardume de académic@s african@s por esse mundo fora…
Em relação à Cabral, a Tese apresentada introduz novos elementos na discussão, tendo inclusivamente incidido sobre fontes inéditas. Brevemente, será publicado. (Não imaginas que o passatempo deste investigador guineense de quase quarenta anos e quase um quarto de século de investigação científica é frequentar o curso de Direito, na Universidade de Coimbra. Olha, olha! No início, eu pensava que era brincadeira. Não é que o Doutor Julião já anda no 3-4 ano de Direito, na Universidade de Coimbra! Haver vamos se o Jurista desvendará os segredos inconfessáveis sobre a morte de Amílcar Cabral, que o Historiador apenas sentiu cheiro. Sinceramente, eu não tenho jeito para humor).
Quanto ao “género na perspectiva de Amílcar Cabral”, o Doutor Julião não avançou muito, apenas apresentou o desafio. O que sei é que ele tem material suficiente (inclusive algum rascunho) para escrever um artigo sobre a questão. Volto a espingarda para o caçador: “bummm… Força Julião! Escreva, que já estou com vontade de fazer aquela leitura numa perspectiva feminista pós-colonial”.
Bjs, Eileen
Na sequência da leitura do seu post venho informar que já está disponível o blog de Julião Soares Sousa em http://juliaosousa.blogspot.com.
Com cumprimentos
Enviar um comentário